Parado ali, esperava quem o levaria para as atividades do dia.
Foi quando a viu, olhando para cima, procurando sabe-se lá o quê.
Ele se aproximou, puxou papo e começou a olhar para cima também.
Juntos passaram a procurar qual passarinho estava cantando.
Acharam um, depois o outro.
Quem o levaria chegou.
Quem a levaria também.
Foram um para cada lado.
O dia.
A noite.
Outro dia e a procura em dupla pelos pássaros cantores recomeçou.
Recomeçou também no outro dia e no outro, depois, no outro também.
Até que Ela acrescentou um novo número aos seus contatos.
Deu um toque.
Ele também.
Agora não era mais preciso esperar o dia começar para se falarem.
Mensagens iam e vinham na velocidade da luz.
Enquanto havia sol, depois que a lua chegava, todo o tempo, o tempo todo.
Não se viam só pela manhã, não se falavam só pelo trocador de mensagens.
Saídas, passeios, visitas a pássaros em outros lugares.
Eles viram a chance de que uma parceria fosse firmada.
Viram todas as possibilidades que tinham de fazer isso e aquilo juntos.
Pensaram, estudaram, ponderaram todos os pontos, estabeleceram regras e acordos mútuos, discutiram e, quando chegaram a um consenso, enfim, firmaram a parceria tão esperada.
Depois que isso aconteceu, o céu ficou de brigadeiro.
Eram pássaros cantando para todos os lados e os dois felizes, felizes.
Sorrisos, gargalhadas, grandes vitórias, pequenas conquistas.
Tudo às mil maravilhas.
Um mais feliz que o outro, cada um cumprindo sua parte no que fora previamente acordado, sendo o alicerce Ele dela, Ela dele.
Dias vão, noites vêm e, depois de muitas idas e vindas…
Uma pequena quebra aqui.
Um trincado.
Rachadura.
Deixa de cumprir um pedaço aqui, outro ali e mais outro acolá.
Devagar, quase sem se perceber, os acordos foram sendo discretamente rompidos.
Tão mansamente que eles nem se deram conta do que na verdade estava acontecendo.
Um pouco aqui, outro ali e mais outro acolá.
Até que um dia, não ouviam mais juntos os pássaros cantarem, um nem sequer sabia o que o outro estava fazendo quando o dia virava noite, quando a noite voltava a ser dia.
O céu, antes de brigadeiro, agora não tinha qualquer condição de voo.
Tudo mudara.
Um dia sentaram, conversaram e resolveram mais uma vez ir cada um para o lado que bem escolhesse.
Mas e tudo que haviam construído?
Todos os sonhos, a realidade da parceria?
Não mais existiria?
Nunca deixaria de existir.
Mudaria de formato.
Não havia como apagar tudo que acontecera.
Não tinha como deixar de ser um apoio, Ele dela, Ela dele.
Por toda beleza que ouviram juntos os pássaros cantarem, seriam para sempre de alguma forma, Ele dela, Ela dele.

 

 

 

 

 


Eu tenho medo.

Mas não é um medinho daqueles filhotinhos não!

Quando te falo que tenho medo, é porque tenho medo, medo, muito medo mesmo.

Não sei onde é que eu estava com a cabeça a hora que comprei esse carro.

Pensei que ter um carro a minha disposição seria todo incentivo de que eu precisava.

Quando comecei a economizar escutei:

“Tire primeiro a habilitação, depois, você compra carro.”

Mas, na minha cabeça, não ia adiantar nada ser habilitada e não ter com o que praticar.

Então, primeiro economizei, comprei o carro e, só depois, entrei na Auto Escola.

A primeira semana foi festa: sentadinha em sala de aula, ar condicionado, caderninho, livrinho com as plaquinhas de trânsito, tudo na maior tranquilidade.

Ao final da semana, a prova e a liberação para ter aulas práticas.

Na noite que antecedeu a primeira aula, eu nem dormi direito, cada vez que cochilava, sonhava que estava atropelando uma pessoa.

O desespero foi tanto a noite inteira que o último que atropelei foi um tio que morreu há mais de 30 anos.

Quando o sol chegou, levantei só o bagaço.

Minha aula era no primeiro horário do dia e o rapaz, Anderson o nome do anjo, foi pontual.

Quando sentei ao seu lado, sem mentir, meus joelhos batiam um no outro.

Ele, judiação, tentou me acalmar, disse que ia ser legal, que não tinha mistério.

Eu fiz de conta que acreditei.

E ali começou o meu tormento.

Foi uma luta, um verdadeiro desespero pra conseguir ligar o carro.

E foi tudo que conseguimos naquele dia: ligar o carro.

Não tenho como te contar tudo que aconteceu desde aquele dia.

O pobre do Santo Anderson foi o cara mais paciente da Terra.

Para que esse texto não se transforme em um livro – eu juro que dava um livro – vou logo te contando que Anderson tentou me ensinar a dirigir daquele dia até quando ele foi morar na Austrália, dez anos depois.

É!

Não ri não!

Foram dez anos entre desistência, abandono, retorno, choro e ranger de dentes.

Do que é que eu tinha medo?

De matar alguém!​

Por mais que o Anderson dissesse que, se eu andasse sempre à direita, seguisse o limite de velocidade, respeitasse a sinalização de trânsito, jamais iria atropelar e muito menos matar alguém, eu não acreditava.

Só depois de que ele foi embora e meu carro passou três anos sem sair da garagem enquanto eu ia e vinha da terapia em ônibus lotado, resolvi procurar ajuda especializada.

E foi assim, depois de 45 aulas com um instrutor psicólogo, que hoje, finalmente, fui habilitada.

Agora vou poder dirigir meu carrinho que me esperou por tantos anos.

O bichinho foi tão fiel em me esperar que ainda tem alguns zeros originais de fábrica no odômetro.

Agora, juntos conquistaremos o mundo na faixa da direita, seguindo todas as leis de trânsito e sempre na velocidade da via!

Ela acordou cedo e começou a mandar mensagens só para confirmar.

Mandou pra todo mundo e foi tomar banho.
Deixou o telefone no quarto e, quando voltou toda cheirosa e perfumada, a surpresa:
Tinha dez mensagens respondidas.
Todas desmarcando o compromisso.
Cada um apresentando sua própria desculpa.
Alguns contavam “tragédias”, outros, desculpas esfarrapadas e ainda os mais descarados, justo aqueles que haviam confirmado e garantido que iriam a qualquer custo, valiam-se do bom e velho “tive um imprevisto”.
Que imprevisto, minha gente?​
E agora?
Com quem Ela iria fazer a trilha para chegar à cachoeira do Jabuti?
Parou, pensou, lamentou, xingou e decidiu:
“Vou sozinha! Que eu saiba não nasci grudada em ninguém!”
Arrumou sua mochila com lanche, água gelada, protetor, entrou no carro e foi embora!
A trilha não era assim tão longe da cidade, em meia hora, já estava lá.
O estacionamento do parque estava lotado, sinal de que a trilha também estaria.
Isso dava um certo alívio, afinal, fazer trilha completamente sozinha não estava nos seus planos.
O parque tinha fama de ser bem sinalizado.
Conforme Ela foi entrando, viu que realmente era.
Ainda por ali, perto da entrada viu a placa:
“Cachoeira do Jabuti – siga SEMPRE em frente.”
Ela riu por conta do SEMPRE e começou.
O caminho era encantador.
Era um típico dia de inverno no cerrado: céu absurdamente azul, pássaros cantando em festa e, salpicando a secura da estação aqui, ali e acolá, explodia um ipê amarelo.
Não só ele, mas também muitas outras flores de cores vibrantes e vivas davam colorido à terra seca.
Em um dado momento, Ela começou ouvir o som de água.
“Olha o Jabuti chegando!” – pensou.
Pensou e já começou a procurar de onde vinha aquele tão lindo som. Foi quando se lembrou da placa:
“Siga SEMPRE em frente.”
Ela então esqueceu o “canto da sereia” e continuou caminhando, queria sim chegar ao Jabuti.
De vez em quando aparecia uma ou outra sinalização falando de cachoeiras menos famosas e Ela se lembrava:
“Saí de casa para ir à cachoeira do Jabuti, não posso me contentar com nada diferente disso.”

Pensava e andava.

As placas continuavam aparecendo falando de tudo que era cachoeira, com tudo que era nome, mas nada do bichinho cascudo.

Ela, que continuava andando sozinha, não se conteve: quando viu um grupo se aproximando todo molhado e barulhento perguntou ao primeiro que por ela passou:

“Por favor, falta muito para chegar à cachoeira do Jabuti? Não há uma só placa que fale sobre ela, já está perto?”

O trilheiro sorriu simpático e respondeu:

“Não se preocupe, você está no caminho certo. Mesmo não tendo mais placas que falem sobre ela, continue andando em frente. Não se desvie nem desista, vai valer a pena chegar até lá.”

Ela sorriu e, apesar de não acreditar muito no moço e em seu sorriso, continuou!

Lia as placas que se espalhavam e falavam sobre tudo e todos menos dele.
Mas Ela continuou andando, sorrindo e acreditando.

As pessoas foram ficando pelo caminho, afinal, haviam outras belas cachoeiras e nem era preciso andar tanto.

Mas, depois de uma curva, quando estava praticamente sozinha, começou ouvir um som melodioso que foi só aumentando a cada passo, além de ficar mais belo.

O verde à sua volta tornava-se mais vibrante e os pássaros pareciam cantar mais alto e intensamente.

Ela começou a andar o mais rápido que conseguia e, de repente, se deu conta de que havia chegado à cachoeira:

Ela não era a mais alta de todas, mas estava rodeada de belas e gigantescas árvores. O poço que se formava aos seus pés, de água tranquila e transparente, era um convite ao mergulho e relaxamento.

A Moça mergulhou, descansou e quando estava boquiaberta observando tudo à sua volta viu que um rapaz a observava atentamente:

“Por que não o há sinalização até aqui? Ao longo do caminho pensei em desistir várias vezes. Quando via que falavam de todo mundo menos dela, pensava que a tal cachoeira do Jabuti nem existia.”

O Moço sorriu e falou:

“Quando fomos sinalizar a trilha, decidimos que aqui não é um lugar para todos. Aqui só podem chegar aqueles que acreditaram em nossa palavra, a primeira de todas. Só quem acreditar no que dissemos no começo da trilha: Siga SEMPRE em frente.

A moça continuou olhando para ele espantada, foi quando ouviu:

“Esse aqui é um santuário para quem acredita em promessas. Acredita e continua andando sempre em frente, sem duvidar.”

“Fazendo assim, a chegada ao paraíso é certa.”

Ela sorriu orgulhosa de si mesma e começou o caminho de volta feliz por ter acreditado, não desistido e, assim, encontrado o paraíso em um domingo de sol.

 

Eu queria tanto ser gostosa.

Sabe aquelas gostosonas das coxas grossas, bumbum na nuca, barriga chapada e costas absurdamente definidas?

Sabe, não sabe?

Então, dessas mesmas.
Mas, apesar de todo o meu esforço, de malhar, comer direitinho, beber isso e não beber aquilo, nada acontece.

Assim, todo meu esforço é modo de dizer, às vezes, eu cometo alguns deslizes…

Como quando me dá aquela fome desesperadora que eu já tentei matar afogada com água pura, enganada com uma castanha ou asfixiada com uva passas e a maldita continua gritando.

Quando isso acontece e ainda não é hora de dormir, vou lá e como uma pizza metade peito de peru com queijo cheedar, metade chocolate.

Depois disso, a bicha morre e eu, bem, eu quase morro junto.

Outra hora, acordo cedo no domingo para começar a semana malhando.

Descanso da malhação no sábado, então, domingo às nove, quando a academia abre, quero já estar lá na porta.

Malhar no domingo é certeza de malhar a semana inteira.

Aí, justo quando todos os meus planos apontam para um começo de semana produtivo, amanhece uma chuva, um vento, um frio e eu me lembro de que aquele é o único dia da semana que terei a chance de acordar um pouco mais tarde.

Viro para o outro lado e começo a sonhar com a academia.

E, quando levanto, ao meio dia, encontro um lindo domingo de sol e um misto quente acompanhado por um copo gigante de leite com chocolate.

E vou mastigando e sentindo o perfume da lasanha de domingo, ouvindo o som do leite condensado se juntando ao creme de leite e aquela sobremesa maravilhosa e inesquecível nascendo bem ali, ao meu alcance.

No outro dia, depois de uma verdadeira orgia gastronômica, a coragem para ir malhar já é muito, muito menor que a da manhã chuvosa e a vontade de comer, gigantesca.

Passo a semana entregue aos prazeres: muita comida, zero exercício.

Vejo tudo que ganhei ao longo do último mês de dedicação e esforço se esvaindo.

Até que um dia tiro coragem nem sei de onde e volto à academia.

Malho um pouquinho e saio de lá tão dolorida, mas tão dolorida, que fico mais três dias sem aparecer.

É…

Se essa é minha realidade não tenho feito assim tanto esforço.

Cara de pau a minha pessoa.

Essa é minha realidade: não tenho feito esforço algum. ​

Não sei o que eu faço, queria só uma coisa: que minha vontade, meu apetite e minha disposição combinassem com o desejo que tenho de ficar gostosa, que eles fossem amigos.

Por que a culpa nem é minha dessas coisas acontecerem, a culpa é da minha gula e preguiça serem muito maiores e mais fortes do que a minha vontade da ficar gostosa.

Bem que a vontade podia ser maior, mais forte.

Se isso acontecesse, tudo ia ser bem mais fácil.

Vou sentar bem aqui e esperar que elas se entendam.

Depois, vejo o que faço.

 

Acredito piamente que quem é já nasce.
Dia desses perguntei a um amigo se a filhinha dele, de poucos meses, era gente boa.
É certo que acredito na mudança do ser humano sempre, em todo tempo, mas tem gente que é chata de nascença.
Não era o caso do Menino.
Menino era o típico garoto gente boa.
Sorridente, alegre, boa praça, todo mundo gostava dele.
Aonde chegava fazia amizade, conversava com todo mundo e não negava a ninguém um sorriso.
Ainda muito pequeno todos já sabiam que ele era completamente apaixonado por cachorros.
Foi “au au” a primeira palavra que falou e desde a primeira vez que viu um bichinho já queria um perto de si.

Um dia a mãe escutou ele contando a um amiguinho que tinha um cachorro.

Ela perguntou onde estava esse cachorro ao que ele respondeu todo sorridente:

“No meu coração.”

A mãe, pobrezinha, ficou confusa: não sabia se achava bom, porque, o filho tendo um cachorro morando em seu coração, ela não teria que providenciar um bichinho, ou ficava com peninha, afinal o Menino queria tanto que até criara um bicho imaginário.

A correria da vida era enorme e ela resolveu ficar feliz com a solução por ele encontrada.
Até que, um dia, o Menino chamou a mãe para uma conversa:

“Mamãe, o Marcelo me chamou de doido. Ele disse que eu fico falando que tenho cachorro, mas todo mundo sabe que não tenho e que o coração não é lugar de colocar nada, muito menos cachorro. Mamãe, eu preciso ter um, mamãe, ou eu vou ser conhecido como um mentiroso maluco.”

A mãe ficou em silêncio sem saber o que dizer. Afinal, ela já tinha usado todos os seus argumentos ao longo dos anos para adiar aquele momento, mas parecia que, daquela vez, não teria como escapar:

“Meu filho, você sabe que um cachorrinho, em nossa casa, deverá ser tratado com muito cuidado e carinho. Você que será o dono dele, terá que levá-lo para passear todos os dias, dar água, comida, além de arrumar toda a bagunça que ele fizer. Você entende que essa responsabilidade será sua?”
“Entendo, mamãe, entendo sim e a senhora pode ficar tranquila, eu vou cuidar dele direitinho.”

A mãe fez cara de pensativa e propôs um desafio:

“Vá até a cozinha e pegue um ovo na geladeira.”

O Menino, sem entender nada, buscou o ovo e trouxe para a mãe:

“Aqui está.”

A mãe segurou o ovo com cuidado e perguntou:

“Qual vai ser o nome do seu cachorro?”

“Farofa.”

Foi aí então que ela deu a mais inesperada de todas as sentenças:

“Esse aqui será o Farofa por uma semana – disse estendendo para ele o ovo – durante esse período, você fará com ele tudo que será sua obrigação com o Farofa. Quando for quarta-feira que vem conversamos.”

Ela falou isso e saiu.

O Menino ficou parado em silêncio olhando aquele ovo em sua mão por alguns minutos até que abriu um largo sorriso e foi até a cozinha.

Lá pediu ajuda e fez uma casinha para o “Farofa” onde ele jamais se machucaria e saiu com ele para passear.

Durante uma semana, o Menino passeou, deu banho, brincou e brigou com seu “cachorro” e a mãe só observando.

Quando a quarta-feira chegou de novo, mais ou menos no mesmo horário da primeira conversa, o Menino chamou a mãe:

“Mamãe, como você pode ver, eu consigo cuidar de um ovo, fazendo tudo que faria com um cachorro durante uma semana sem deixá-lo se quebrar, estou doido de vontade de te mostrar como o Farofa de verdade vai ser o cachorro mais bem cuidado do mundo.”

E a mãe, que já tinha se dado por vencida, pegou o falso Farofa com uma mão e, com a outra, entregou a ele o verdadeiro.

E foi assim, cuidado de um ovo diligentemente durante uma semana inteira, que o Menino gente boa conquistou um cachorrinho pra chamar de seu!

 

Acho verdadeiramente incrível a relação que o ser humano tem com aquilo que não lhe serve mais.

Principalmente quando a coisa deixa de servir enquanto a criatura que se diz humana está no meio da rua.

Andando por aí ouve o som mavioso e o perfume estonteante vindo do carrinho do pipoqueiro.

Sem pensar meia vez vai em direção a ele e pede o maior de todos os pacotes.

O moço, para atendê-lo,  pega o maior dos saquinhos, abre com o mesmo breguete que vai usar para depositar as perolazinhas salgadas e, depois que o saquinho está quase transbordando, realiza a entrega.

Satisfeita, sua pessoa vai embora espalhando o perfume de pipoca amanteigada.

Lá pelas tantas, quando não há mais nada dentro daquele saquinho de papel que até poucos minutos era precioso…

Chegávamos ao Parque Nacional de Brasília ontem de manhã quando o Namorado viu um ser humano jogando uma lata de cerveja no chão.

Ele, em uma ação rápida para, quem sabe, tentar sensibilizar o coração do porquinho andante,  abaixa e pega uma lata abandonada.

O nobre rapaz vendo tal atitude dispara:

“Amigão, tem latas ali ao lado do meu carro também.”

O Namorado falou qualquer coisa sobre manter o parque limpo e foi embora.

O porquinho humano seguiu seu caminho.

Amassar o saquinho de pipoca e descartar no exato lugar por onde passam seus pés, jogar ruidosamente a lata vazia em um parque ecológico é tão natural para muitas pessoas que passei acreditar o seguinte:

Está no inconsciente coletivo a máxima de que, ao usar a lixeira, a pessoa é contaminada por uma radiação que causa morte instantânea.

Só pode!

É preciso contar ao mundo: jogar o lixo no lixo não mata.

Fica a dica!

 

 

 

Um filho só não tem a menor graça. Cresce aquela criatura sozinha e isolada do mundo sem saber se defender de nada nem de ninguém. Dois são um perigo. Quando se juntam, não há ninguém para trazer o bom senso. Um concorda com o outro e, aí, a lambança está feita. O mesmo quando são quatro. Ficam duas duplas e o bom senso falta. Agora, com três, há equilíbrio.

Lá em casa sempre foi assim. Quando uma tinha ideia de jerico e conseguia convencer a outra, a terceira que por algum motivo tinha ficado de fora do “plano” vinha como a voz da razão.

Algumas vezes, até eu virava a dona da razão! As duas se juntavam para querer conquistar o mundo todo em um dia e eu tinha que vir dizendo que não. Precisava ao menos uma semana inteira para um plano tão audacioso.

Claro que, às vezes, a voz da razão falava baixo, muito baixo.

Lembro muito bem quando isso aconteceu e eu e minha irmã mais velha comemos um pudim inteiro.

Teríamos visita para o jantar e mais ou menos às seis da tarde minha mãe já estava com tudo pronto.

Até a mesa estava posta.

Foi quando sentimos o perfume do pudim de leite saindo do forno.

O pudim de leite da minha mãe é o mais escandaloso de todos. Quando ele é tirado do forno, sai gritando para o mundo inteiro: “eu sou gostoso, eu sou gostoso!”

E esse gritava muito, muito alto. E, na hora de maior gritaria, minha mãe falou lá da sala que precisava ir ao mercadinho da esquina comprar xampu.

Quando eu ouvi o barulho da porta sendo fechada e os passos dela se afastando, tive a brilhante ideia: calar o pudim que gritava.

Tive a ideia e fui atrás da minha cumplice preferida: minha irmã mais nova. Ela, tadinha, sempre embarcava nas minhas maluquices.

Não naquele dia:

“Aninha, é o chefe do papai que vem para o jantar, se a gente comer mamãe não vai ter sobremesa pra servir para o moço.”

“Mas Rebeca, é só um pedacinho. A gente tira um pedaço e divide.”

“Não Aninha, não vou te entrar nessa.”

Falou, virou as costas e saiu.

Eu muito, muito chateada e fui atrás da Beatriz.

Essa, por ser mais velha, tinha mais juízo e sempre cortava o meu barato. Mas, nesse dia, miraculosamente, topou na hora minha ideia.

A bichinha, judiação, sempre foi louca por doces.

Nós ficamos em pé ao lado do pudim e fomos comendo.

Começamos discretamente, pedacinhos pequenos, mas estava tão gostoso. Um gosto que eu nunca tinha sentido antes e acredito que nunca mais vou sentir. Cada uma com uma colher, comendo como se não houvesse amanhã.

Foi nessa hora, quando eu já tinha me esquecido de que iria comer só um pedacinho, que olhei para a porta da cozinha e vi a Rebeca.

Ela era pequenininha e estava encostada na porta com os braços cruzados nos olhando e balançando a cabeça:

“Mamãe vai matar vocês.”

Foi quando eu me assustei: nós havíamos comido tudo, tinham só duas colheradas.

Quando me dei conta disso levei o maior dos sustos. O susto foi tão grande que só me dei conta de que minha mãe tinha chegado quando ela já estava ao meu lado.

Até hoje, me pergunto de onde ela tirou tanta serenidade.

Estávamos as duas de colheres em punho e as bocas completamente lambuzadas.

Com a voz mais baixa e pausada do mundo, o que era característico de quando ela estava nervosa, ela disparou a pergunta fatal:

“De quem foi a ideia?”

Sem nem pensar e ainda com a boca cheia, minha irmã mais velha que havia sido minha comparsa, respondeu:

“Foi da Aninha.”

Mas minha mãe não deixou barato:

“A ideia foi dela, mas você participou ativamente.”

Ela estava em silêncio quando encontrou a pequenininha parada à porta:

“Você comeu, Rebeca?”

“Comi não, mãe.”

Mamãe deu um sorrisinho como quem diz: ao menos uma se salva nessa casa.

Ela pegou a bolsa e saiu, sem falar uma só palavra.

Quando voltou tinha nas mãos a mais linda torta de sorvete que eu já tinha visto na vida.

Mandou-nos  tomar banho,  separou  vestidinhos de igreja para cada uma de nós e não disse uma só palavra sobre o acontecido.

Quando já estávamos todos prontos, só esperando as visitas, ela sentenciou nossa sorte:

“Ana e Beatriz, obviamente vocês hoje não irão comer sobremesa após o jantar e, como complemento a esse castigo tão brando, ficarão dois meses proibidas de comer qualquer doce, nem mesmo uma só balinha.”

Quando eu ouvi isso, meu mundo desabou, mas eu fiz de conta que estava tudo bem.

Rebeca passou dois meses comendo sozinha todas as sobremesas mais deliciosas do mundo. Afinal, todo dia, tínhamos doce especial lá em casa e eu aprendi para sempre a não comer doce quente!

 

Use a seta

Aqui tem um monte de lugar que é assim: vêm três faixas o caminho inteiro, às vezes até quatro, aí, quando chega lá na frente, de maneira “mágica” e “inesperada” uma das faixas desaparece e o que eram  três, por vezes quatro, viram duas.

E, aí, começa o drama.

Essa que se localiza aqui no quadradinho é muito bem sinalizada.

Ao contrário da acusação feita acima, antes da faixa sumir, desaparecer, há sinalização na pista: aquela setinha no chão apontando para a direita, mostrando para quem quiser ficar sabendo que, mais metro menos metro, aquela faixa vai acabar.

Mas as pessoas não olham para o chão!

É certo: algumas delas não conhecem o caminho e, quando se dão conta, as setinhas estão gritando:

“Vou acabar! Tô acabando! Saia daqui!”

Aí, já estão lá no fim e têm que contar com a misericórdia de alguém para deixá-las ir para um lugar onde consigam continuar andando.

Essas pessoas desavisadas geralmente dão seta, pedem passagem, agradecem quando recebem a gentileza.

Agora os que já são acostumados a rodar ali todo dia e, quando a faixa acaba, simplesmente querem entrar na sua frente à força…

Esses, eu juro, dá vontade de descer do carro e esmurrar!

Dia desses, estava eu chegando a Taguatinga pela EPTG –Estrada Parque Taguatinga – quando a faixa da direita acabou.

Eu vim pela faixa do meio o tempo todo, suportando o engarrafamento e os carros que quebravam à minha frente.

Resisti bravamente para que, quando chegasse ao afunilamento fatal, não tivesse de atrapalhar a vida de ninguém.

Lá pelas tantas, ele com suas 18 rodas passou por mim, todo pimpão. Passou que eu nem vi.

Quando chegamos ao lugar onde todos se encontram, nos encontramos, fatalmente.

Alguma coisa aconteceu no meu dia, não vou saber te dizer o que foi, só sei que, justo quando meu “inimigo” tinha 18 rodas, eu resolvi que não iria dar passagem.

Era muito desaforo: ele vem pela faixa mais livre por que é mais rápido e, quando chega aqui, acha que tem o direito de entrar na minha frente.

Não tem.

Ele, com a educação que é peculiar a algumas criaturas que dirigem carros enormes, foi se enfiando à minha frente.

Seta?

O que vem a ser seta?

Ele não conhecia.

Um sorrisinho, um aceno, uma olhadela pelo retrovisor, qualquer maneira de transmitir gentileza?

A isso o moço em questão nunca fora apresentado.

Quando ele viu que eu realmente não ia deixá-lo passar, resolveu me xingar.

Colocou a cara pra fora, olhando para trás e acelerando, afinal ele quis fazer tudo de uma só vez: xingar, entrar na minha frente e acelerar,  e quase bateu no carro à sua frente.

Eu, quando vi que acabara de ser vencida, comecei a gesticular e gritar desesperadamente, tentando evitar que ele batesse no pobre inocente que estava à nossa frente.

Consegui.

Ele também conseguiu o que queria e foi embora.

E eu tontamente fiquei remoendo a atitude do troglodita:

Que motivo leva a criatura a juntar toda a sua falta de educação e ainda esquecer de dar seta?

Encontrar alguém que use a seta no momento de necessidade é coisa tão rara que a gente até esquece toda essa cacarecagem acima descrita ao encontrarmos alguém que o faça.

Esse daí mesmo podia ter feito tudo igual, mas usasse a seta!

 

Meu amor pela Esquadrilha da Fumaça é declarado já há muito tempo.

Vira e mexe,  não me aguento e venho escrever sobre eles.

Achei um texto de 2011 que me fez gargalhar.

Ontem, eles estiveram aqui outra vez.

Passei o dia falando que ia vê-los e não fui.

E eles, indiferentes à minha ausência, fizeram um lindo show.

São tão metidos que passaram perto da casa da mamãe fazendo estripulias mil.

Eu, mesmo dentro do carro, tive que gritar, bater palmas, fazer declarações de amor.

E o Namorado, que dirigia, pôde assistir apenas ao meu escândalo.

Assistir a uma apresentação da Esquadrilha da Fumaça é algo arrebatador. Quem é de um país  que apresenta sérios problemas em todas as esferas, quando vê os aviões pintados com as cores da bandeira, fazendo-nos lembrar que o verde e o amarelo também trazem orgulho.

Muito orgulho!  ​

E que orgulho!

Aí, eu penso em quantas horas de trabalho duro para chegar àquele nível de excelência.

Para voar pertinho do companheiro, fazer com que eu aqui embaixo me encolha com medo que eles toquem um no outro e,  simplesmente, sair desfilando com tranquilidade.

Voarem de cabeça para baixos, despencarem como se caindo estivessem e, depois, saírem voando e gargalhando.

Juro!

Eles dão risada do meu desespero.

Desculpe aí a viagem, sou apaixonada.

Meu deslumbramento faz com que eu não me acostume.

Fico pensando quanto de trabalho se faz necessário para conseguir fazer tudo aquilo.

Quantos anos para conseguir cada manobra, cada um daqueles detalhes.

Quantas horas de estudo, quantas regras seguidas à risca.

Disciplina e trabalho duro. ​

Não sei quem são aqueles homens, mas sei o que fazem e como fazem.

E tenho certeza de que só o fazem por seguirem as regras.

Então,  bora começar a semana seguindo as regras, minha gente, porque só quem as segue consegue voar alto!

Caso ainda não tenha assistido a um show da Esquadrilha da Fumaça,  descubra quando eles estarão perto de você e não perca!

www2.fab.mil.br/eda/index.php/agenda-de-demonstracoes

 

 

 

 

 

 

 

Quando convidei minhas daminhas e pajens para fazerem parte do meu grande dia, a maioria ainda nem andava.

“Você é louca. Esses meninos são muito pequenos, eles vão te fazer é raiva.”

E eu, na maior calma do universo:

“O que eles fizerem será lindo.”

Lógico que junto aos pequenininhos convidei também uma daminha experiente:

“Livinha, você vai por último e não deixa ninguém voltar.”

Ela, do alto dos seus sete anos:

“Pode deixar tia. Eu tenho muito jeito com crianças pequenas, não vou deixar que ninguém volte.”

De vez em quando, eu falava com uma das mães:

“Nossa gatinha já está andando?”

E ouvia na maior tranquilidade da Terra:

“Ainda não, mas tá quase!”

Muito antes do mês do casamento chegar, já estavam todas andando.

Até que, num dia, recebi um telefonema:

“O vestido dela está pronto, as passagens compradas – essa veio de São Paulo- mas eu duvido que ela entre. Na hora ela vai gritar, chorar e não vai entrar.”

E eu:

“Mas e se você mostrar lá da frente uma coisa que ela goste muito?”

“Menina, só se eu mostrar os peitos. Só olhando pra eles que ela sai em disparada.”

Eu dei risada e continuei acreditando.

O caminho que eles deviam percorrer era realmente longo. Mais de 30 metros de corredor.

Para a maioria, completamente desconhecido.

Mas eles foram.

Lindos.

Cada um foi um show à parte.

Teve menininho que voltou no meio do caminho, menininha que entrou dançando e, por fim, sentou-se e ficou olhando seu reflexo na passadeira, menininha que chorou e realmente não entrou e quem não queria, não queria e, depois, foi lindamente.

Mas, de verdade, foi um espetáculo.

Colocar crianças assim tão pequenas é o risco mais feliz que as noivas correm.

Elas podem fazer tudo que você e a mãe planejaram ou simplesmente improvisar do começo ao fim.

Quem recebe o improviso, garanto a você, tem a festa mais feliz.

 

 

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