E foi aprendendo tão rápido que quando vimos ele já conhecia todas as letras.

Um dia, estávamos sentados no chão.

Nós três.

Acima de nossas cabeças um quadro enorme com todas as letras do alfabeto.

Por cima de nós, em nossas pernas e colo, muitas, muitas letras plásticas coloridas.

Foi quando o Pai pegou a primeira letra do próprio nome e pergunto a ele:

“Filho, que letra é essa?”

E ele, sem o menor constrangimento, não pensou meio segundo para responder:

“Não faço a menor ideia!”

Rimos.

Rimos muito.

Não era tempo.

Sua pouca idade dava a ele o direito de simplesmente não saber.

Outra vez, perguntei a ele se sabia alguma coisa que agora não me lembro do que se trata. E ele, com a prontidão de sempre respondeu:

“Não sei ainda, mas eu vou aprender.”

“Claro” – falei satisfeita- “Você vai aprender isso e muito mais”.

O tempo passou e ele aprendeu o nome de cada uma das letras e, agora, no exato momento em que escrevo, está aprendendo a ajuntá-las, e que coisa linda!

Nenhuma placa, nenhum cartaz, nada nem ninguém passam por ele sem ser analisado, observado, lido.

Dia desses mostrei a ele a capa de um livro que estava escrito assim:

Você nasceu para isso.

E ele começou a ler, bem bonitinho.

Só que lá pelo meio do caminho acho que cansou ou ficou de saco cheio, sei lá.

Só sei que leu assim:

“Você nasceu parabéns!”

Leu um pedaço direitinho e o outro resolveu “adivinhar” vai que cola, né?

Daquela vez, não colou.

Mas, de vez em quando, deve dar certo.

Ele está desvendando o mundo das letras e todas as coisas que acontecem quando ajunta uma na outra.

As variações que elas fazem, os efeitos que sofrem.

E, a cada descoberta das inúmeras possibilidades, surpresa, admiração, contentamento.

E, hoje, quando perguntado que palavra é essa, ele responde em ritmo próprio, mas com a segurança cada vez maior.

 

 

 

 

Gosto muito do que é meu.

Sempre.

Meus pais são os mais bonitos e maravilhosos do mundo.

Meu irmão, o mais incrível e meu marido, o melhor de todos os homens.

Minha cunhada, a irmã mais querida que meu irmão poderia me dar.

Meu sobrinho e minha sogra, os melhores presentes que o mais maravilhoso dos homens poderia ter trazido com ele para a minha vida.

São?

Claro que são.

São os meus.

Meus amores, meu mundo.

São eles que estão comigo na hora da gargalhada e quando dos olhos escorrem o que o coração não pode segurar.

Pertencimento.

Lembro-me direitinho da alegria que senti por fazer parte, por pertencer a um grupo que iria fazer a diferença.

Estávamos nós, do Coral Jovem de Brasília, de passagem pela África do Sul, indo a Moçambique para construirmos uma igreja em uma comunidade carente.

Não sabíamos o que nos esperava, mas nosso coração estava repleto de expectativa e alegria.

No grupo, médicos, enfermeiros, dentistas, fisioterapeutas, professores, biomédicos. Todos voluntários querendo ajudar as pessoas e fazer a diferença, de alguma forma, em suas vidas enquanto paredes fossem  erguidas.

Estávamos reunidos conversando sobre o que sentíamos naquele momento e ali, bem ali, fiquei feliz em fazer parte.

A quem interessar possa, foi incrível tudo o que vivemos antes, durante e depois daquele dia.

Fazer parte, pertencer e ter alegria nisso, sinceramente, desejo a você também.

 

 

O ar entra, circula e sai. Até que um dia, por um motivo ou por outro deixa de fazer o caminho de sempre.

 

Semana passada disse tchau mais uma vez.

Uma pessoa que fez parte da minha vida por muito tempo.

Na comunidade em que vivíamos ela ocupava um papel de liderança, de destaque.

Em tudo  que acontecia, ela estava ali.

Voz potente, liderança marcante.

Não era próxima a mim, era próxima aos meus.

Mas, um dia, não sei por que, não sei para que, ela resolveu  que era hora de morar em outro lugar.

E foi.

Depois que saiu da comunidade que dividíamos, pouquíssimas vezes nos encontramos.

Sei dizer a última vez que a vi.

Parecia feliz.

Faz muito, muito tempo.

O fim veio rápido.

Inesperado.

Sem que ninguém quisesse.

Sem que ninguém nem sonhasse.

E, quando a hora do adeus chegou, a trouxeram de volta.

E, ali, na hora de darmos a ela o adeus, olhei em volta e vi a comunidade que eu, assim como ela, um dia deixei para trás.

Estavam todos ali: pessoas que me viram crescer, pessoas com as quais cresci, pessoas que vi crescer.

Olhei em volta e me deparei admirada com a minha história no rosto daquelas pessoas.

Professores, líderes, colegas, amigos, conhecidos de longa data, tios, primos…

Todos ali, reunidos em um mesmo lugar.

No lugar onde nos lembramos sem rodeios que o ar que está entrando e saindo agora pode sair e não voltar nunca mais.

E, enquanto os via, ia me lembrando de todas as coisas que vivemos juntos.

Com muitos deles vivi muitas, muitas coisas.

Com outros, poucas, passageiras.

Com alguns aprendi, viajei, sonhei, realizei, chorei, brinquei.

De outros fui madrinha de casamento.

De uma, quase fui daminha. Adoeci na semana.

E, depois de tudo que tinha vivido, resolvi me afastar.

Construí laços por perto, mas não tão perto a ponto de os antigos e novos se entrelaçassem.

Afastamento.

Opção.

Mas olhando todos ali, diante da finitude da vida, senti saudades.

Saudades de tudo que vivi com eles.

Saudades das coisas que poderíamos ter vivido se eu não tivesse optado por me afastar.

Vontade de voltar?

Melhor continuar de onde a gente está, enquanto o ar ainda entra, circula e sai.

 

 

 

 

 

Não adianta, uma coisa sempre será uma coisa e outra coisa pra sempre outra coisa.

 

“Uma coisa é uma coisa. Outra coisa é outra coisa.”

– Como assim?

“Não tem como misturar tudo. Tem coisa que é separada uma da outra e pronto.”

– Do que você está falando?

“Ué, que uma coisa é uma coisa e outra coisa é outra coisa.”

– Essa profundidade eu já compreendi. Já vi que hoje você amanheceu querendo filosofar. Só não entendi ainda o que, sobre o quê.

“É que o povo fica falando que uma coisa é outra coisa e que outra coisa é uma coisa, aí eu fico bravo.”

Respira fundo, estica a coluna:

– Você bebeu alguma coisa?

“Bebi sim.”

-Talvez isso explique. Bebeu o quê?

“Água.”

– E tinha o que nessa água?

“Ué, essas coisas que tem nessa água aí da geladeira.”

– Quer dizer que bebeu água pura?

“Foi.”

-Então tá, continue.

“Então, aquela Menina chegou aqui em casa hoje dizendo isso, eu quase morri.”

– Dizendo o quê?

“Que uma coisa é outra coisa e que outra coisa é uma coisa.”

-E você? Respondeu o que a ela?

“Que não! Que uma coisa é uma coisa e outra coisa é outra coisa.”

-Ela aceitou?

“Nada, ficou um tempão querendo me convencer de que eu estou errado, mas eu não deixei.”

A ideia de entender sobre o que Ele falava já não mais existia.

-Que bom que você é firme. Muito bem.

“No fim, foi embora convencida.”

Surgiu aí um lampejo de esperança em descobrir do que se tratava o assunto:

-Foi mesmo? Ela foi embora convencida do quê?

“De que água, essa água que sai da torneira é água e que gelo, aquele gelo que a gente coloca dentro do suco, é gelo e não tem nada a ver com água.”

– Mas gelo é – desistiu – gelo, né?

“É. Água é água e gelo é gelo. Uma coisa é uma coisa e outra coisa é outra coisa.”

Falou todo satisfeito por ter convencido mais uma sobre sua descoberta.

 

Eu sou sim a mais sábia da família, afinal, sou a mais velha.

 

– Acho natural dar a minha opinião. Quando chego a um lugar, vejo uma pessoa, presencio uma situação, para mim é super  tranquilo dizer o que penso sobre o assunto.

“Mas você dá sua opinião quando as pessoas pedem, né?”

– Também quando me pedem, mas não necessariamente.  Falo quando acho que devo, quando é conveniente.

“Mas sempre é conveniente?”

– Sempre! Muitas vezes, as pessoas não percebem que precisam mudar nisso ou naquilo. Eu vou lá e aviso.

“Em qual situação você faz isso?”

– Ué, sempre que acho que devo. Sempre mesmo. Tenho uma sobrinha mesmo, coitadinha, que não entende nada quando o assunto cabelo. Anda com um cabelão reto de dar medo, volumoso, esvoaçado. Um horror. Sempre que a vejo, sugiro para que faça alguma coisa, pra ver se fica mais bonitinha, a pobre.

“E ela escuta, presta atenção, atende?”

Silêncio.

– Acho que não. Aliás, da última vez em que falei alguma coisa, parece que ela nem escutou.

“Bingo! Chegou exatamente aonde eu queria.”

-Aonde você queria chegar?

“A esse ponto, criatura. Quem fala demais não é ouvido. Você vive aí distribuindo sua opinião de graça sem que ninguém solicite e as pessoas não dão o mínimo valor.”

– Essa ingrata não dá, mas outras pessoas dão.

“Que dão o quê. As pessoas só são mais educadas que essa moça, mas ninguém dá a menor importância ao que você diz.”

– Dão, eles dão importância sim. Até porque sou a mais velha da família, sei mais que todo mundo quando o assunto é vida, as pessoas valorizam, sim, o que eu falo.

“Pobrezinha de você. Está enganada, minha filha. Tenho certeza de que está enganada.”

-Por que diz isso?

“Pense comigo: você é a pessoa mais velha da família, certo?”

-Certo.

“Vamos partir do princípio que é a mais sábia, certo?”

-Certo. Eu sou mesmo a mais sábia.

“Não está parecendo, mas vamos continuar a análise dos fatos.”

Silêncio.

“Se emitisse menos sua opinião, cada vez em que abrisse a boca para falar alguma coisa, as pessoas prestariam atenção. Afinal, aquilo seria uma coisa rara, portanto, deveria ser valorizada.”

-Será?

“Certeza! Você já viu menino que chora demais? Ele chora, chora e quase ninguém liga. Afinal chora por tudo, todo o tempo. Agora, aquele menino que é de boa, resolve seus problemas sem escândalo, sem choro, quando começa a chorar, todo mundo vai acudir, pois se trata de algo sério.”

-É verdade.

“Então, criatura pitaqueira. Aprenda a ficar calada, a emitir sua opinião quando for solicitada. Porque, quando as pessoas perguntarem o que você acha, o que pensa, estão, de fato, querendo saber o que se passa aí na sua cabeça.”

-Mas eu já estou tão acostumada a dar meus conselhos…

“Já parou para imaginar que as pessoas não veem isso como conselhos? Já parou para imaginar que elas só não a xingam e mandam ir para o inferno porque você é a mais velha de todas e, apesar de você encher o saco, respeitam e, por isso, se calam?”

-Será?

“Certeza. Essa sobrinha aí que não entende nada de cabelo mesmo, já deve ter tido vontade de te mandar ir às favas muitas vezes durante a vida. Só não manda por educação. E mais: quem sabe ela acha seu cabelo ridículo também e, mesmo assim, não fala nada. Já pensou nisso?”

– Mas meu cabelo nunca foi ridículo.

“Olha aí! Ela também não deve achar o próprio cabelo ridículo. Gosta do jeito que é e você fica falando, enchendo o saco da pobre.”

-Eu só quero ajudar.

“Ela já te pediu opinião alguma vez?”

– Não.

“Então não dê.”

-Mas o que eu vou falar quando chegar à casa das pessoas, quando encontrá-las? Qual sugestão vou dar?

“Sugestão? Palpite? Nenhum! Você vai ficar calada. Chegue procurando alguma coisa para elogiar. Fique calada, observando alguma coisa para elogiar. Quando vier a vontade de dar sugestão, conselho ou pitaco, respire fundo e elogie.”

– Eu nunca fui de elogiar. Sempre fui de aconselhar.

“Então, fofa, é hora de mudar.”

– Mas agora, no fim da vida?

“Nunca é tarde. Sempre dá tempo de alguma nova coisa. Por que você não começa com essa sobrinha do cabelo?”

– O cabelo dela é muito estranho, você não tem ideia.

“Mas tente. Quando a vontade atacar, você fala que ele ao menos está cheiroso. Ou ela anda com ele sujo e ensebado?”

-Não! Ela é cafona, mas é limpinha. Eu acho.

“Então, comece assim e, se for à casa de alguém nesse fim de semana, nada de dar sugestão de nada. Lembre-se de que você é a mais velha, de que tem que ser sábia, falar coisas que edificam e nunca, nunca, nunca se esqueça: quem fala demais não é ouvido!”

– Eu vou tentar.

“Não! Nada de tentar, você vai conseguir!”

Nessa hora da conversa, o Uber chegou e, assim que entraram, a velhinha pitaqueira olhou para o motorista:

-Nossa, mas você podia encerar esse carro por dentro.

Suspiro.

“Desisto.”

 

Ele queria construir um negócio.

Qual negócio?

Não sabia, só sabia que queria.

Tinha o que para construir esse negócio?

Nada. Não tinha absolutamente nada.

Ele não tinha nada e queria?

É!

Então Ele tinha.

Tinha o quê?

Vontade.

Isso já é um passo.

O mais importante dos passos.

E aí? O que Ele fez?

Já disse que Ele não tinha nada?

Disse. Disse que tinha o mais importante: vontade.

É mesmo. Esqueci, Ele tinha vontade.

Só com a vontade que tinha Ele chegou em uma terra seca e deserta e pensou que poderia ser ali.

Será que em um lugar tão estranho daria certo?

Ele não sabia, mas como o “não” Ele já tinha foi trabalhar pelo sim.

E fez o quê?

Ajuntou sua vontade a um dinheirinho bem pouco que tinha. Com elas comprou umas coisinhas e começou a vender.

Que coisinhas?

Umas coisinhas poucas, que davam para carregar em uma sacola, que faziam olhos pequenos brilharem.

E deu certo?

Para sua surpresa Ele vendeu tudo em menos de um dia.

E aí?

Aí Ele pegou o dinheiro e separou em partes.

Quais partes?

Um pedaço devolveu a quem lhe deu vontade, outro pedaço comprou mais mercadoria, outro investiu, outro guardou e com um pedacinho bem pequeno comprou um chocolate. Era seu prêmio, sua comemoração pelo começo do seu negócio.

Uai! Era muito dinheiro? Deu pra dividir demais!

Não era muito não. É que Ele, além de vontade tinha planejamento.

E aí? E aí? Como foi o segundo dia?

E no segundo dia, vendeu mais rápido toda a mercadoria.

Ele já estava ficando safo.

Tanto que deu tempo de ir lá, comprar mais coisas e vender tudo outra vez.

Duas vezes em um único dia?

Duas e agora Ele não mais carregava em uma sacolinha. Agora já podia carregar em uma caixa.

Ele era mesmo valente!

Valente e trabalhador.

Ao final do primeiro mês pôde comprar algumas coisas para o estoque.

Estoque, já?

Já! Quando os primeiros 30 dias acabaram além da vontade e do planejamento Ele tinha um dinheirinho bem pouco investido, certeza de que ia dar certo e um pequeno estoque.

Pra quem tinha só vontade, evoluiu muito.

Não sei se você sabe, mas o tempo passa muito rápido. Quando você está fazendo algo ele passa rápido, quando está parado no tempo e no espaço passa mais rápido ainda.

Então o tempo dele passou só rápido.

Foi.

E enquanto o tempo passava seu negócio crescia, prosperava e Ele agora já podia trabalhar em outras frentes.

Quais?

Agora, além de comprar e vender Ele tinha o que administrar.

E aí?

Aí eu podia dizer que o negócio dele virou um grande, grande, muito grande negócio, que Ele viveu feliz para sempre e fim.

E não vai me dizer por quê?

Porque um dia, enquanto o negócio crescia a vida chegou ao fim.

Ai meu Pai, o menino morreu.

Morreu, né, e não foi menino não. Foi já com muitos anos de vida.

E o negócio?

O negócio ficou bem. Durante todo o tempo, ao fim de cada mês Ele continuou dividindo o dinheiro assim: um pedaço devolvia a quem lhe deu vontade, outro pedaço comprava mercadoria e agora, além de comprar mercadoria, pagava tudo e todos das empresas que possuía, outro pedaço investia, outro guardava e um outro não tão pequeno comprava algo para comemorar. Era seu prêmio, por estar gerindo bem o negócio que construíra.

Quando tudo terminou, saiu de cena satisfeito.

A história continua?

Continua.

Já sei até como: os herdeiros que pegaram tudo pronto, depois que o moço morreu torraram o negócio e os filhos deles, os netos do moço ficaram na pobreza.

Eita, mas é trágico. Claro que não. Ele não deixou herdeiros, deixou administradores.

Eles fizeram o negócio prosperar mais ainda?

E se fizeram!

Não acredito!

Pode acreditar. Eles continuaram seguindo os princípios de quem começou do nada e continuam crescendo.

Nunca tinha visto isso acontecer.

Nem eu, mas é que Ele começou algo que não queria quer terminasse junto com sua vida, por isso preparou quem viria depois.

Entendo.

Então agora, pega essa sua preguiça, transforma a bicha em vontade e vai fazer alguma coisa!

Mas eu não sei o que fazer.

Eu também não. Mas antes mesmo de descobrir você precisa transformar a preguiça em vontade, enquanto transforma você descobre. Bora, bora, tem cinco minutos pra isso!

E assim, o pobre perdido saiu correndo, procurando um rumo, transformando preguiça em combustível para o sucesso.

Dando um jeito de fazer preguiça virar vontade.

 

Duas pequenas.

“Eu tenho um chiclete.”

-Serio? Dá um pedaço pra mim.

“Dou não, é pequenininho.”

– Só um pedacinho.

“É pequenininho, eu te dou um pedacinho nós duas ficamos quase sem nada.”

– Duvido que você tenha. Tira aí da boca pra eu ver.

“Não!”

– O que foi?

“Engoli.”

– Bem feito! Nem sentiu o gosto!

“Pior que não tinha gosto de nada mesmo.”

– Chiclete sem gosto de nada?

“Não era chiclete. Era uma moeda.”

– Moeda? Sua doida, como você engoliu uma moeda?

“Foi sem querer. E agora?”

– Agora a mamãe vai te matar.

“Não tenho coragem de contar pra ela. Tô com medo.”

– Ué, tem que contar, ou você vai morrer entalada.

“Eu não quero morrer.”

– Tudo porque não quis me dar um pedaço do chiclete.

“Já disse que não era chiclete.”

– Mãe, a Menininha engoliu uma moeda.

*Vamos rápido, andem logo. Sua tia está esperando e eu não posso me atrasar. Esse é o concurso da minha vida. A chance que tenho de ter dinheiro para comprar pra vocês todas as bonecas do mundo. Entrem logo nesse carro.

– Ela não escutou.

“E eu vou morrer?”

– Acho melhor não. Depois dessa prova mamãe vai ter dinheiro pra comprar todas as bonecas do mundo e se você morrer todas ficarão só pra mim.

“Então como faço pra desengolir essa moeda?

-Não sei.

*Andem logo meninas.

– Você tá conseguindo respirar?

“Tô sim.”

*Vocês se comportem. Obedeçam seus tios. Nada de meter a mão onde não deve, nada de chegar perto da janela. E se virem alguma coisa na rua que tiverem vontade façam de conta que nem viram. Não quero saber de menina pidona. Menininha, você por favor, não vá colocar porcaria na boca! Olhem lá eles.

#Oi, irmã.

*Mirmã do céu, muito obrigada por cuidar das meninas pra mim. Minha sogra, coitadinha, adoeceu. Ligou desesperada falando que amanheceu sem dar conta de levantar. Muito obrigada por cuidar delas pra mim.

#O que é isso, criatura? Cuido com a maior alegria.

*Então, vou nessa.

# Deus te abençoe. Boa prova. Vamos meninas.

– Oi, tio. Oi, prima.

% Oi.

@ Oi.

“Oi, tio. Oi, prima.”

%Oi.

@Oi.

# Meninas, vocês colocaram o cinto? Nós vamos para casa, esperar o sol baixar um pouco e depois vamos para o parque. Tudo bem?

“Tudo.”

– Tudo.

# Posso saber sobre o que estão cochichando?

– Foi a Menininha.

“Não conta. Não conta!”

# Não conta o quê, Menininha?

“Não conta.”

– Uai, eu tenho que contar. Vai que eu não conto e você morre!

# Morre quem, fia de Deus? Conte logo!

– A Menininha, tia. Ela engoliu uma moeda.

# Engoliu o quê, criatura?

@Repete, por favor. Engoliu o quê?

– Ela engoliu uma moeda! E foi de R$ 0,50, dava pra comprar um dim dim.

# Menininha, onde você estava com a cabeça? Que ideia foi essa de engolir moeda? Tá pensando que é um cofre?

@ Não é conversa de vocês isso não? Diz pra mim que ela está brincando, Menininha. Fala para o tio que brincadeira da sua irmã.

“É não, tio. Eu engoli mesmo.”

@ Minha flor, você queria ter a certeza de que ninguém ia tomar sua moedinha, é? Agora ela está muito bem guardada. Mesmo assim vamos para o hospital, não dá pra ela ficar aí pra sempre.

#Sua mãe ficou sabendo disso, Menininha? Você contou pra ela?

– Eu tentei contar, mas ela começou a falar que se passar nessa prova de hoje vai ter dinheiro para comprar todas as bonecas do mundo e não sei o quê, aí parei. E essa daqui tá tão assustada com a ideia de morrer que não falou uma palavra.

#Morrer ninguém morre por virar cofre não, Menininha. Mas vai dar um trabalho pra tirar essa bendita moeda do seu bucho.

“E vai doer, tia?”

#Não sei, amor. Vamos ao médico ele vai falar.

) Então quer dizer que você engoliu uma moeda, mulherzinha? Por que não comprou balinha com esse dinheirinho?

– Dava pra comprar um dim dim de groselha, seu médico.

)Ou um dim dim de groselha?

“Eu não queria engolir não. Mas escorregou.”

) Escorregou, mulherzinha? Que judiação. Vai ali com aquele tio que ele vai tirar uma fotografia de dentro de você para ver onde essa moeda está passeando.

# Meu cofrinho, vamos lá. Só vou acreditar depois que o moço tirar essa fotografia do seu bucho.

“Não me chama de cofrinho não, tia.”

#Ué, e quem é que guarda moeda dentro? Não é o cofre? Você engoliu uma moeda, então agora é o meu cofrinho.

¨ Deixa eu ver. Olha só, a moedinha aqui!

# Misericórdia! Eu estava pensando que era brincadeira sua, Menininha.

“Tia, eu não minto.”

# Minha princesa. Só engole moeda, mas mentir você não mente, né?

“Foi só dessa vez. Nunca mais vou engolir outra.”

¨ Essa daqui vai fazer o caminho da comida e depois sair naturalmente, não tem com o que se preocupar.  Viu, cofrinho?

“Eu não sou um cofrinho.”

¨ Desculpe, Menininha. Mas fique tranquila, você vai ficar bem.

# Obrigada.

)Olha lá ela! Brilhando dentro de você. Você agora tem um ponto de luz aí dentro. Olha que charme!

“Mas vai apagar?”

)Vai, vai sim. Um belo dia você vai ao banheiro fazer o número dois e ela vai sair junto.

“E vai doer?”

) Acho que não. Ou só um pouquinho. Mãe, traga ela aqui depois de amanhã para tirarmos outra radiografia e faça o monitoramento das fezes.

# Tudo bem. Obrigada.

) Tchau, cofrinho.

“Eu não sou cofrinho.”

O acontecido já tem uma semana.

Cofrinho está indo periodicamente ao hospital acompanhando o caminho da moeda.

E a mãe, pobrezinha, fazendo o monitoramento daquele jeito.

De acordo com a última radiografia a moedinha estava chegando ao fim do caminho.

Cofrinho, ou melhor, Menininha passa bem.

 

 

 

 

Tem hora que é preciso dar o primeiro passo sozinha

 

Ela sabia que precisava se reerguer.

Não via qualquer possibilidade, não sabia por onde começar, onde se apoiar.

Só sabia que era preciso dar o primeiro passo.

Passava dias e dias sem fazer qualquer movimento nessa direção.

Aliás, dias e dias sem qualquer movimento.

“Você precisa reagir!”

Ouvia diariamente palavras de incentivo vindas de todos os lugares.

Mas como?

Um dia, resolveu dar um passo.

Levantou-se com o sol e, antes que voltasse a se esconder embaixo da coberta, abriu portas e janelas.

Ele, que não faz qualquer tipo de cerimônia, invadiu o ambiente rapidinho.

Não tomou conhecimento da bagunça, do ranço, da poeira.

Simplesmente, foi entrando.

Quando Ela pensou em colocá-lo para fora, já era tarde demais.

Devagarzinho, como quem ainda tem todo o tempo do mundo, foi andando em direção à sala de libertação.

Por lá passara algumas vezes nos últimos dias.

Em todas elas, rápida e superficialmente.

Não ficara o tempo necessário para fazer algo que pudesse causar transformação.

Apenas fora jogar fora o que não mais poderia ficar e voltara para o ninho.

Agora não, agora seu desejo era passar tempo suficiente para realizar mudanças.

Chegou lá e tirou tudo que apertava.

Nem se lembrava quando colocara aquelas amarras.

Parou, olhou-se e não reconheceu aquele olhar triste e cansado.

“Você precisa reagir.”

Ainda pôde escutar a voz do íntimo bem intencionado.

Passou as mãos pelos cabelos.

Sentiu uma textura grudenta.

Abandono.

A pele ressecada, olhos vermelhos.

Sentou-se novamente.

Precisava mudar aquele quadro.

Não tinha forças nem para se mover.

Olhou-se novamente.

E decidiu:

*Vou fazer o que dou conta.

Alguns passos a levaram para o lugar da cachoeira.

Quente, fumengante, controlável.

Entrou e ficou ali embaixo como se não houvesse depois.

Parecia que tudo estava indo embora com a água que escorria velozmente sobre seu corpo.

Era hora de tirar o grude.

Produtos, há tanto esquecidos, foram usados com vigor.

Lá pelas tantas,escutou o que parecia ser uma música.

Foi com surpresa que percebeu que ela surgia de sua própria boca.

*Isso. Dou conta de fazer sozinha.

Desligou a cachoeira depois de mais de uma hora.

Olhou-se novamente.

Seu olhar estava mais limpo.

Parecia mais feliz.

Usou o instrumento barulhento para secar os pelos.

Passou unguentos, cremosidades, perfumes…

Coloriu a pele.

Procurou o pano mais leve, mais colorido e foi encontrar os passarinhos.

*Se estou bem?

Não.

Mas isso eu dou conta de fazer sozinha.

Então faço.

Só hoje.

Um dia de cada vez.

Espero, um dia, me encontrar bem como hoje me peguei cantando.

 

 

 

Que o medo não te limite!

 

Sempre tive medo de altura.

Sempre gostei de chegar à janela e olhar lá embaixo, chegar perto do precipício, imaginar que voava.

Sempre tive medo de brinquedos que me fizessem sair do chão.

Nunca deixei de encarar um só deles nos parques de diversão e, mesmo que fosse morrendo de medo da “manutenção desse brinquedo não ter sido bem feita”, ia me borrando, mas ia.

Quando descia, me sentia a mais corajosa de todas, a mais poderosa, uma verdadeira  heroína.

Aí conheci “aquela” montanha-russa.

Não era a mais alta.

Não era a mais rápida.

Não era a mais mais de todas.

Mas eu nunca tinha visto uma tão alta, tão rápida, tão mais mais!

Olhei e gelei.

“Acho que, nessa, eu não vou.”

Enquanto olhava de boca aberta para aquela montanha, analisando cada uma de suas curvas, subidas e descidas, o tempo que era levado para que a volta fosse completa, procurava desesperadamente uma desculpa para não conhecê-la mais de perto.

Rapidamente, antes de processar todo o medo, encontrei:

“Estou de saia, não tenho como ir.”

Os amigos que estavam comigo não quiseram nem saber, na mesma hora começaram a campanha de convencimento:

“Segura essa saia.”

“Não tem desculpas, você tem que ir.”

E lá fui eu.

Arrastada.

Com mais medo do que todas as outras vezes.

Mas fui.

Sempre fico em silêncio nas filas.

O medo me paralisa.

Mas, como tenho que andar devagarinho mesmo, então, até facilita as coisas.

Lá pelas tantas, quando era mais fácil entrar no carrinho do que voltar toda aquela multidão que formava a fila, comecei a conversar comigo:

“Você vai gostar, menina. Sempre gosta.”

Mas, dessa vez, como estava com muito medo, não estava nada fácil fazer o trabalho de convencimento. Aí, eu mesma dava voz a vontade de fugir:

*Mas estou com muito medo. Tudo o que eu queria era não estar aqui. Devia ter ficado em casa, ido ao shopping!

“Que shopping, garota. Nós duas somos valentes e vamos gostar um monte dessa montanha também.”

*Valente é você. Eu sou medrosa, minha vontade é derreter aqui.

“Chega! Para de frescura! Estou tentando te tratar com carinho, mas assim não dá. Nós vamos nessa bagaça e acabou.”

*Você não devia me tratar assim, estamos de saia. Todo mundo vai ver nosso fundo. Vamos embora daqui.

“Claro que não! O fundo estará protegido! Esqueceu que estaremos sentadas em cima dele?”

*Sua marmota.

“Relaxa, garota. Se quiser tentar segurar a saia é por sua conta. Eu não vou nem me preocupar com isso. Também estava com medo, lá no começo da fila. Agora, quero só me divertir. Qualquer coisa a gente vê depois.”

*Louca! Você é doida. E me leva para essas coisas que me fazem morrer de medo.

“Te convenci?”

*Claro que não! Mas como eu e você somos uma só, tenho que relaxar para não morrer!

E foi assim que me convenci a relaxar, curtir e ir de saia mesmo na montanha russa mais alta, mais veloz e mais mais da minha vida.
E pela primeira vez na vida, passeei em uma montanha russa sem ver quase nada, pois tinha uma saia grudada na testa!

 

 

 

Falar a verdade algumas vezes pode ser verdadeiramente difícil

 

Mentir todo mundo mente.

Nem que seja uma vez ou outra.

“Eu não minto.”

Vai dizer que nunca mentiu na vida?

“Eu não minto.”

Vai dizer que nunca mentiu na vida mesmo?

“Já sim, claro. Mas isso foi há mais de trinta anos. O que vale é que hoje eu não minto mais.”

Conta aí sua mentira.

“Para quê, criatura? Desenterrar história velha para quê?”

Conta aí, não te custa.

“Foi uma besteira, uma vez, minha vó disse que me amava e eu respondi: “Eu também” e na hora aquela vozinha falou assim na minha cabeça: “Larga de ser mentirosa.” Mas aí, era eu já tinha dito. Ficou por isso mesmo.”

Que horror! Você não amava sua avó?

“Isso não vem ao caso, o que vale aqui é que hoje eu não minto mais.”

Eu duvido que se uma amiga te pergunta se está gorda você diz que está.

“Duvida? Duvide não, gato!”

Você fala?

“Não sou super sincera, aliás, estou longe, muito longe disso. Não saio por aí falando o que penso não, mas não me pergunte o que eu acho.”

Se perguntar você fala?

“Falo.”

Jura?

“Ué, a pessoa perguntou. Antes pergunto se ela quer mesmo saber o que penso. Se ela diz que sim,eu aviso que não douro a pílula. Se a pessoa concordar eu falo.”

Não quero nunca perguntar nada pra você.

“Fica tranquilo, eu não falo nada não.”

Só uma curiosidade: Alguém já te perguntou se estava gorda?

“Ai, meu pai! Perguntou.”

E aí?

“Eu disse que estava.”

E aí?

“Aí que eu disse que estava e a amiga dela veio me xingar.”

Mas é claro! Mulher nenhuma no universo quer ouvir que está gorda.

“Mas eu não cheguei nela e disse que ela estava gorda não. Eu estava no meu canto, ela chegou, perguntou e eu falei.”

E quando a verdade é muito inconveniente?

“Aí a gente tem que disfarçar para não ter que mentir.”

Quando vem a pergunta fatídica: Gostou do meu cabelo?

“É triste essa. A resposta de praxe é: “Menina, a única pessoa que tem que gostar do seu cabelo é você”. Afinal, é a sua pessoa que vai carregá-lo para onde for”.

Mas, aí, você tá falando que gostou.

“Eu não! Estou valorizando a escolha que ela fez.”

Você tá fugindo de dar sua opinião.

“Fugindo léguas, mas o que importa aqui é não mentir. Eu falo isso e mudo de assunto. Não minto e não perco a amiga.”

Mas o malabarismo é gigante.

“Demais. Mas dá certo.”

Sempre?

“Sempre.”

Então, tá. Mas eu prefiro não ter que fazer tanto malabarismo. Não me importo de fugir da verdade aqui ou acolá.

“Entendo, mas onde aprendi que a gente deve sempre falar a verdade, não há nenhuma exceção, por isso o rigor.”

Você acredita em tudo que é dito lá?

“Acredito em tudo mesmo, por isso, o malabarismo para cumprir o que lá está.”

Agora, você me fez pensar…

“Que bom! Era essa ideia, porque lá não há exceções!”

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

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