A angústia era visível.

Rosto vermelho, mãos derretendo, pés que não paravam de se movimentar:

“Mas eu preciso compreender. Preciso entender o motivo de tudo isso.”

Rosto sereno, mãos descansadas sobre o colo, pés tranquilamente acomodados um ao lado do outro:

– Apenas faça o que estou dizendo, vai dar certo.

Levanta, anda pela sala, procura palavras:

“Não consigo simplesmente fazer algo tão importante sem saber qual motivo, o porquê.”

Sentado estava, sentado continuou:

– Vou te contar uma história, será que você pode sentar para ouvir?

Na hora ouviu-se um baque de quem se larga no sofá mais próximo.

– Estavam em alto mar quando a brisa suave começou a cantar diferente. Começou a soprar cada vez mais forte. As nuvens brancas foram sendo tingidas pouco a pouco: de cinza a negras, foi de um instante para o outro. A tripulação do barco pequenino manteve a calma e trabalhava para que a situação não saísse do controle. Continuaram concentrados no que estavam fazendo, cada um cumprindo sua função, trabalhando para passarem por aquele momento difícil. Foi quando uma onda gigante invadiu a pequena embarcação.

Quando ela se foi, descobriram, em desespero, que havia menos um.

Esqueceram-se das atividades que desenvolviam para salvar a própria pele, para salvar a embarcação. Agora, havia menos um.

Viram, não muito longe do barco, em meio à tempestade, quem faltava.

Lançaram uma corda que milagrosamente foi pega.

Tão rapidamente quanto fora, voltara.

Agora, lutar contra a tempestade parecia ser fichinha, estavam todos ali, eram fortes e juntos destemidos.

Olhou para o narrador como se nada entendesse:

“E o que essa história tem a ver com a minha tempestade particular?”- falou já com as mãos na cabeça, voltando à realidade.

Sem alterar a voz ou a respiração:

– No pequeno barco havia regras, eles a seguiam. Quando começou a tempestade, todos sabiam o que cada um deveria fazer. Quando alguém foi atirado ao mar, desestabilizaram-se por um momento, mas, no instante seguinte, retomaram o controle, saíram da situação. Voltaram ao trabalho, cada um cumprindo o seu papel, sem questionar, até saírem sãos e salvos da tempestade.

Olhos esbugalhados denunciavam que o desespero aumentava a cada instante.

“Aonde você quer chegar com isso? Cadê a ajuda para minha situação? Diga logo, não suporto mais esperar!”

O desespero de um não contagiava o outro:

– Eles tinham na embarcação uma pessoa que já havia vivido todos os tipos de tempestades. Que já havia navegado por todos os mares, sabia exatamente o que fazer em cada uma das situações, e nele confiavam. O que dizia: façam. Era feito sem qualquer questionamento. É isso que eu quero de você, confie no que eu te proponho. Não questione. Vá sem entender mesmo, apenas faça o que te digo, vai dar certo.

Pela primeira vez, as palavras fizeram sentindo.

Pela primeira vez, sentou-se tranquilamente e decidiu obedecer.

Perguntou com sincera confiança o que deveria fazer.

Ouviu, anotou sem questionar.

Saiu dali para resolver.

Naquele dia, aprendeu a confiar no silêncio, a saber que o “espere” faz parte da resposta e que não há situação, por pior que seja, para qual não haja solução.

Basta confiar e obedecer, sem questionar.

 

 

 

 

“Você está triste?”

A Moça se assustou ao ouvir essa pergunta de um completo desconhecido e pensou por um segundo em ignorá-la. Foi quando se deparou com seu sorriso e resolveu ser educada:

– Triste, triste não, mas estou chateada, de saco cheio dessa minha vida.

O Desconhecido pareceu achar normal tamanha sinceridade.

Sorriu:

“Sério? Que coisa mais ruim. Espero sinceramente que as coisas melhorem, afinal, deve ser muito triste estar assim em um dia tão lindo.”

A Moça começou a olhar em volta e viu que realmente o dia estava interessante.

Ela se virou para o Desconhecido:

– Eu nem tinha reparado, realmente o dia está bonito.

Ele deu um pulo:

“Bonito, Moça, bonito? Você só pode estar brincando – disse calma e pausadamente – Repare esse céu absolutamente azul, esses pássaros cantando e essas árvores. Elas estão te dando um banho de flores enquanto a brisa suave desalinha levemente seus cabelos.

Olhe ali, olhe: duas borboletas fazendo graça bem em frente ao seu nariz! Quer melhor presente pela manhã? O dia não está bonito, ele está magnífico!”

A Moça coitada, que estava ali quietinha com seu mau humor e chateação, apenas esperando sua condução, começou a olhar para todos os lados, notando, pela primeira vez, cada uma das coisas que ele descrevera:

– Realmente – disse admirada- você tem razão, o dia está magnífico –  como se lembrasse de alguma coisa há muito esquecida.

O Desconhecido então arriscou mais uma antes que ela se fosse:

“Quando acordo como você está hoje, começo a agradecer. Vou pensando em todas as coisas boas que tenho na vida e agradecendo, agradecendo. Assim, consigo esquecer de todas as coisas chatas que me rodeiam e volto a ser feliz. Estava aqui reparando que, se você quiser fazer isso, pode começar agradecendo por seus olhos, você tem belos olhos.”

A Moça ficou sem graça:

– Muito obrigada.

O Desconhecido, fazendo-se de desentendido:

“Não, para mim não, agradeça seus belos olhos a quem os deu pra você.”

Ela enfim sorriu:

– Você é sempre assim? Fica querendo animar pessoas mal humoradas logo cedo às segundas-feiras?

“Nem sempre, mas é que, quando estou por aqui, onde tem essas árvores tão cheias de flores e vida, fico querendo repartir minha admiração com alguém. Aí, hoje foi com você.”

– Muito obrigada.

Ele sorriu como se a Moça não tivesse entendido nada:

“Já te disse para não me agradecer. Agradeça a quem fez as árvores e suas flores, caso elas não estivessem aqui, eu também não estaria.”

Eles foram conversando e o Desconhecido sugeriu à Moça, mais uma vez, que ela agradecesse por mais alguma coisa que fizesse bem a sua vida:

“Suas botas são lindas, cabe gratidão por elas.”

E, assim, após alguns minutos, os dois já gargalhavam como se velhos amigos fossem. O mau humor da Moça havia desaparecido e o Desconhecido estava feliz por ter presenciado a troca de um bico por um sorriso.

Foi quando o transporte dela chegou:

– Muito obrigada por ter-me feito lembrar tantas coisas boas que tenho na vida. Muito obrigada por ter me ensinado a agradecer.

Ele sorriu:

“Não agradeça a mim, agradeça a quem te proporciona tudo isso.”

Ela entrou e se virou a tempo de vê-lo andando rápido para o lado oposto e, em pensamento, agradeceu pelo Desconhecido que não estava esperando nada nem ninguém, simplesmente havia parado para ensiná-la agradecer.

 

 

 

Ninguém se conhecia, mas, ao chegarem, foram se colocando calmamente um ao lado do outro, ocupando as posições designadas.
Rapidamente começaram a realizar suas atividades e a Mulher pensou, enquanto os observava trabalhando, que tudo seria calmo, tudo passaria como brisa suave.
Foi quando alguém bateu à porta.
Ao abri-la, o que se viu foi uma Moça tentando conter um Garoto.
Olhos vivos e inquietos, parecia querer conquistar o mundo inteiro naquele instante.
Algumas palavras foram trocadas entre elas e a Moça foi embora quase correndo, deixando para trás um Garoto de olhos de brilhantes.
A Mulher, que estava em uma situação de calmaria, ficou alguns instantes meio que sem saber o que fazer com aquela criaturinha que segura pela mão.
Ele arrastava os pés, pulava, olhava para os lados e tentava desesperadamente alcançar alguns objetos desconhecidos enquanto a Mulher o mantinha em espaço limitado.
Foi quando ela se abaixou e fixamente olhou em seus olhos.
Segurando em seus braços de maneira firme e carinhosa, perguntou seu nome, sua idade e se apresentou.
Disse a ele algumas poucas regras do ambiente e indicou onde deveria sentar-se.
Quando se viu liberto das mãos que o continham, Garoto disparou em uma corrida desenfreada por aqueles poucos metros quadrados.
Com os braços abertos, ia batendo e derrubando tudo que estava ao seu alcance.
Em poucos segundos, o caos.
Podia-se ouvir choro, reclamações e gritos de protestos enquanto ele, já na outra extremidade, jogava para cima os papéis que haviam sido descartados mais cedo.
Foi quando a Mulher, com uma calma vinda do céu, veio por trás dele e o abraçou.
Em poucos segundos estavam os dois no chão como se fossem apenas um.
Ele lutava e esperneava mas, como não conseguia sair, foi relaxando.
Enquanto isso ouvia baixinho:
“Você é um menino bom, vamos consertar juntos todas essas coisas e tudo vai dar certo.”
Ele se acalmou, pôde ser liberto do abraço imobilizador e juntos consertaram o estrago.
Os dias foram passando e as turbulências se repetiam.
A Mulher foi investigar o motivo de tanta adrenalina em um espaço tão pequeno.
Descobriu motivos mil.
Ia contornando como podia.
Até que, num dia, depois da mais turbulenta de todas as tempestades, quando viu mais uma vez tudo parcialmente destruído, crianças chorando, papéis importantes rasgados e um Garoto pulando e gritando no meio do ambiente, como se estivesse fora de si, a Mulher não se conteve e chorou.
Foi até o Garoto chorando como se menininha fosse e, mais uma vez, o pegou pelos ombros.
Com mãos firmes, mas ainda assim carinhosas, o conteve e começou a desabafar.

 

Contou pra ele, que agora havia parado de gritar e se debater, o quanto estava sofrendo por vê-lo fazer tudo aquilo. Contou como ele assustava seus amigos e o quanto estava difícil prosseguir.
Ainda chorando continuou encarando-o e, quando já havia contado a ele tudo que ia em seu coração, terminou assim:
“Fique sabendo, Garoto, mesmo tudo isso sendo verdade, eu te amo e não vou desistir de você.”
Falou e o soltou.
Para sua surpresa, ele não saiu correndo.
Abaixou a cabeça e chorou.
A Mulher o abraçou e, lá de dentro do abraço, entre soluços, escutou:
– Ninguém nunca tinha dito que me ama.
Eles conversaram mais um pouco ali sentados em meio ao caos, levantaram-se e foram refazer o que havia sido desfeito.
Refizeram tudo: objetos, papéis, murais, livros, corações partidos, laços desfeitos, amor próprio, autoestima, solidariedade, companheirismo…
E, assim, aquele que era um Garoto transformou-se em O Garoto depois que descobriu ser amado, depois que foi amado, depois que ouviu:
“Sim, eu te amo, apesar de você mesmo, eu te amo.”

 

 

 

 

Ele chegou e falou a sua verdade.

Contou todos os detalhes daquele dia, cada um de seus passos, para onde fora, com quem fora, o que fizera.

Nada escondeu.

Deu detalhes minuciosos.

Ao final, perguntas.

Muitas delas vieram de todos os lados.

Ele respondeu a todas com coerência.

Não se contradisse em nada.

Não desmentiu nenhum detalhe do que tinha colocado em seu depoimento.

As perguntas cessaram.

Ao final, o silêncio é quebrado com o seguinte questionamento vindo daquele que dirigia a reunião:

“Alguém aqui acredita nesse Moço? Existe ao menos uma pessoa capaz de se levantar e declarar publicamente que acredita em cada uma de suas palavras?”

Ouviu-se um silêncio ensurdecedor até que, lá no fundo, em um cantinho que parecia estar desocupado, uma senhora colocou-se em pé e, com uma voz forte e firme, declarou:

– Eu acredito em seu testemunho. Acredito em cada uma de suas palavras e sei que, mesmo todos vocês duvidando, o que diz é verdadeiro.

Um burburinho de incredulidade percorreu o auditório.

“A senhora sabe quais os procedimentos a serem adotados por quem acredita em uma pessoa nessa situação?”

– Sei. Claro que sei e estou disposta a fazê-lo.

O auditório se agitou mais que na primeira vez.

O silêncio só foi restabelecido quando perceberam que a senhora de voz forte e firme queria falar algo mais:

– Rapaz, estou aqui, diante de todos, confessando que acredito em seu testemunho. Por acreditar em você, responsabilizo-me, a partir de agora, pelo seu bem estar. Acredito que esteja se perguntando o motivo de minha atitude, e eu vou  contar: eu sei exatamente os caminhos pelos quais você foi ensinado, sei quem foram as pessoas que te guiaram e orientaram ao longo da vida. Conheço também os motivos pelos quais eles hoje não estão aqui. Por isso, vamos embora, eu acredito em você e, a partir de agora, você também pode sempre acreditar em mim.

A senhora deu o braço ao seu neto, que procurara por mais de 15 anos, e foi embora ser guardiã daquele que sempre amara.

Parecia mais um dia comum de trabalho.

Pessoas entravam e saiam a todo momento e as atividades eram desenvolvidas com a normalidade esperada.

É certo que atropelos aconteciam diariamente, afinal, erámos uma equipe grande lidando com o público.

Pessoas de todas as classes sociais.

Algumas chegavam ali com pendências de milhões, dispostas e ganhar ou perder e continuar vivendo no mesmo padrão.

Outras, chegavam lutando para não perder o teto onde viviam com a família ou para ganharem alguns poucos mil reais que poderiam modificar em definitivo a vida de mais de uma dúzia de pessoas.

Cada pessoa que se aproximava do balcão era um universo desconhecido que se descortinava à nossa frente.

Por isso, a necessidade de calma e sabedoria a cada atendimento.

Naquele dia em particular, eu não estava bem.

A noite fora curta e, por isso, ativei o modo “soneca” várias vezes.

Saí atrasada, peguei um engarrafamento do além e, ao tentar mudar de faixa, por pouco não atropelei um motoqueiro.

Como estava atrasada, estacionei longe, muito longe do prédio e, quando estava no meio do estacionamento de pura lama, caiu uma pancada de chuva inesperada, o que me fez chegar ao trabalho, além de tudo, completamente encharcada.

Tentei me limpar da melhor maneira possível, secar minha roupa, ajeitar minha cara e, no caminho para meu local de atendimento, fui repetindo meu mantra do mau humor:

“Essas pessoas não têm culpa do seu dia ter começado ruim. Sorriso no rosto e eficiência, sorriso no rosto e eficiência.”

Atendi algumas pessoas quando Ele chegou.

Muito bem vestido, aproximou-se do balcão falando baixo e olhando em volta como se tivesse sendo observado.

Perguntou se tinha algum lugar onde pudéssemos conversar em particular.

Eu disse a Ele, erguendo a voz que poderíamos tratar ali mesmo sobre qualquer assunto.

Ele, sem nenhum constrangimento, falou que precisava  que os documentos que estavam em suas mãos fossem analisados em caráter de urgência e que no grosso envelope que estava sobre eles tinha uma gorda recompensa caso eu aceitasse fazer aquele pequeno favor.

Eu me afastei meio que sem entender.

Parecia, na verdade, que estava sonhando.

Não queria acreditar no que acabara de ouvir.

O salão de atendimento estava lotado e eu, completamente nervosa , apesar da vontade de gritar o que sentia, falei com ele no mesmo tom de voz que usara antes:

“Então quer dizer que o senhor está me pedindo para passar sua solicitação à frente de todas as outras e que, se assim eu fizer, vai me dar de presente todo o conteúdo que está nesse envelope gordo? É isso mesmo?”

Ele confirmou.

Ao deparar-me com sua confirmação, perdi completamente a classe e a, cada palavra, falava mais alto.

Falei tanto, xinguei tanto, esculhambei tanto que, em meio minuto, todo mundo parara para assistir ao meu espetáculo.

Meus colegas tentavam me acalmar enquanto o moço saia calmamente, não sem antes me desmentir e dizer que eu era louca e o estava acusando de algo que não fizera.

Depois que passou, sentei em um canto e dei risada.

Foi a primeira vez em que alguém tentou pagar por um “serviço diferenciado” e eu não estava preparada para isso.

Enquanto saia, ele disse que vai me processar por tê-lo acusado injustamente.

Tudo bem.

Fazer o quê?

Já sei: dormir cedo.

Deitar e capotar na certeza de que não há dinheiro que pague você não estar à venda.

 

Não é a primeira vez em que estou quietinha no meu canto e Ela vem querendo me apresentar “um cara muito especial.”

Fala do moço como se fosse a coisa mais maravilhosa do mundo, a última bolacha do pacote, a derradeira gota d’agua no deserto.

Eu vou conhecer toda empolgada, acreditando na propaganda de que a criatura faz, e quebro a cara.

Não foi uma nem duas vezes que isso aconteceu.

Agora não, violão.

Tô fora!

Ela ligou hoje toda empolgada e eu, pela primeira vez, disse não!

Não, sai pra lá, não quero conhecer mais ninguém com indicação, armação, essas coisas encomendadas.

Toda vez em que acredito em indicações, me dou mal.

Cada vez em que um amigo arma um encontro, faz “aquela” propaganda e eu acredito, a decepção é tão grande, mas tão grande que prefiro nem mais tentar.

E a indignação da moça?

“É por isso que você está sozinha. Por isso que vai ficar para sempre encalhada.”

Hein?

Como assim?

Quem disse que estou sozinha?

E eu sou encalhada? Nunca fui, não vou ser agora.

Não tenho namorado, é certo, mas isso não quer dizer que esteja sozinha.

Tenho um monte de amigos, todas as vezes em que quero sair ou viajar, tenho companhia e, se acontece de não ter, eu sou uma excelente companhia para mim.

Apesar de estar há um tempo considerável sem namorado, nunca estive tão bem.

Sei que essa frase é bem clichê, mas te juro, estou falando a verdade: nunca estive tão feliz.

Conhecer alguém agora, ainda mais do tipo que me tem aparecido ultimamente, seria um atraso de vida.

Quero não.

Olha a moça telefonando outra vez:

– Oi, flor. Fala.

– Certeza, gata. Não quero conhecer seu amigo, de verdade.

– Muito obrigada por pensar em mim, mas vou passar a vez, tá?

– Não, amiga. Não estou ficando metida nem esnobe. Só não estou a fim de conhecer ninguém. Fazia muito tempo que eu não ficava tão feliz solteira, por isso, te agradeço. Mas vem cá, por que você não o namora?

– Não, ninguém nessa vida namora inimigo, meu amor. O moço é tão boa gente, já é seu amigo, vai lá e faça bom proveito.

– Então tá bom. Já que você vai ficar com raiva de mim porque eu consigo ser feliz sozinha, tchau!

Tum-tum-tum.

E foi assim que perdi a amiga que mais se empenhava em me arrumar um namorado, casamento.

E foi assim que eu aprendi a contar ao mundo que é melhor estar só que mal acompanhada.

 

 

 

Depois que o inevitável aconteceu, o sol perdeu o seu brilho.

Justo Ela, que via beleza em cada esquina, agora contemplava somente a escuridão.

O canto dos pássaros que a fazia sonhar não passava de um lamento.

O esplendor das árvores e o brilho de suas flores apenas borrões.

Nada belo existia de fato.

Depois que o inevitável aconteceu, Ela queria apenas desaparecer.

Cada dia um pedacinho seu se consumia pela tristeza.

A cada instante, parecia que a escuridão aumentava ao seu redor.

Foi assim que Ele a encontrou.

Manso e gentil, colocou-se ao seu lado sem nada falar.

Apenas ouviu o seu lamento.

E, durante muito tempo, Ela contou sobre como era tudo e como a escuridão viera e se instalara.

E Ele pacientemente escutou.

Enxugou suas lágrimas sem julgamento, sem dar opiniões vazias.

Ficou ao seu lado nos momentos mais difíceis.

Segurou sua mão quando parecia que jamais voltaria ficar de pé.

Quando Ela sentiu o calor de sua mão, voltou a sentir a segurança que pensava não mais existir.

Sentiu-se confiante e continuou naquela posição.

Para sua surpresa e alegria, Ele não se afastou.

A partir dali, o canto dos pássaros, pouco a pouco deixou de ser um lamento.

As cores retomaram seus tons e o sol voltou a brilhar.

Quando Ela viu que podia depositar sobre aquela mão suas tristezas e caminhar mais leve, nada voltou a ser como era antes.

Quando Ela descobriu que tinha de fato onde descansar, tudo ficou muito melhor do que sempre fora.

O dia em que a descoberta se deu de maneira plena, o brilho do sol, o canto dos pássaros e a beleza das árvores passaram a existir como jamais foram.

Tudo se tornou muito melhor, pois, agora, Ela tinha onde passar em segurança, todas as suas tempestades.

 

 

 

 

Ela ia andando daquele jeito que você só anda quando está indo para sua própria casa.

Sabe como é, né?

Não precisa consultar nada nem ninguém, simplesmente anda.

Vai seguindo em frente sem nem olhar para os lados, afinal, conhece tudo tão bem.

Olhar detalhes para quê?

Até que entra em uma loja e precisa, para a compra de um determinado produto, preencher um cadastro.

“Senhora, por favor, nesse espaço coloque o seu endereço.”

A moça, que até então era a mais segura de todas, de um minuto para o outro, passa a ter o olhar mais inseguro de todos.

Fica parada com a caneta na mão olhando para a parede.

“Moça, está tudo bem? É só colocar aqui o seu endereço.”

Depois de algum tempo:

– Não faço ideia de onde eu moro.

A atendente se assusta:

“Como assim, minha senhora? Está perdida?”

– Não! Eu sei sim onde vivo, só não faço ideia do meu endereço.

“Infelizmente, senhora, sem o preenchimento desse cadastro com o endereço, eu não posso realizar a venda. Esse produto tem a venda controlada, preciso apresentar ao fornecedor o endereço de cada um que comprou ou não consigo comprar mais dele.”

Ela tentou discutir, convencer de que precisava daquele produto de qualquer jeito ainda naquele dia, mas não sabia, não fazia ideia de qual seria seu endereço.

Como se mudara para a cidade há pouco tempo, ainda estava se acostumando, decorando o logradouro.

Não teve quem convencesse a vendedora.

Ela saiu da loja cabisbaixa e seguiu o seu caminho.

Foi quando se deu conta de que algumas coisas eram verdade:

Não sabia contar às pessoas onde morava;

Não fazia a menor ideia de qual o CEP de sua casa;

Quadra, lote, prédio e torre eram para ela fatores completamente desconhecidos.

Mas uma coisa era certa:

Ela sabia muito bem para onde estava indo e não tinha a menor dúvida de como chegar.

Ao lembrar-se de tudo isso, abriu um sorriso e continuou o seu caminho, sem o negócio de que precisava, mas satisfeita pela certeza de saber aonde ia.

 

 

 

“Então, Tia, esses são nossos planos.”

A Tia sorriu placidamente:

– Que maravilha.

“Você não vai falar nada?”

– Minha flor, falar o quê? Aos 18 anos, todos os sonhos são possíveis. Você pode conquistar tudo o que quiser. Com trabalho duro, perseverança, pode conquistar o mundo.

A Menina abriu o sorriso:

“Você acredita na gente? Que maravilha. Acredita mesmo que podemos conseguir todas essas coisas de verdade?”

A Tia continuava sorrindo:

–  Acredito sim, acredito em quase tudo.

O sorriso da Mocinha se desfez:

“Por que quase tudo?”

A Tia a essa altura já estava séria:

-Florzinha, sua tia tem certa dificuldade de acreditar em algumas coisas. Mas não se preocupe.

Agora, pronto, ninguém no mundo faria aquela menina sossegar:

“Tia, conta pra mim, qual parte dos meus sonhos é demais pra você? Justo você que é um sonho ambulante.”

A Tia viu que não teria jeito:

– Você não vai me deixar em paz se não te falar, né?

“Pode acreditar! Você nunca mais terá um só dia de sossego na vida.”

Resignada se rende:

– Será que você aguenta minha verdade?

Já sorridente:

“Claro que aguento!”

Completamente ereta e desalinhando os próprios cabelos:

– Antes de mais nada, quero que fique claro: essa é a minha verdade. A verdade do meu mundo. Posso falar?

A garota, que já não se aguentava:

“Pode falar, Tia.”

– Essa parte do seu sonho onde você diz: “ …e depois que terminarmos a faculdade nos casaremos e teremos quatro filhos, duas meninas e dois meninos.” – essa parte florzinha eu não consigo acreditar muito não, desculpe a sua tia.

Com ar indignado a menina reage:

“Mas por que você não acredita no meu amor por ele?”

E a Tia que já não está assim tão paciente:

– É que existem sim muitos casais que levam o amor de adolescência para a vida inteira, mas não acredito que seja o seu caso. Boto fé que esse moço não vai te namorar nem mais seis meses. O comportamento dele é muito estranho, aquele dia lá no parque em que ele – nessa hora a menina a interrompeu bruscamente:

“Pode parar!”

A tia já previa tal reação:

– Ai meu pai, é por isso que eu não queria te dizer o que eu penso.

Para sua surpresa a menina sorriu:

“Pode parar, eu sabia que você não ia mentir pra mim. Agora posso terminar esse namoro com embasamento, alguém de bom senso também não acredita nele.”

Levantou e, quando já estava lá longe, olhou para trás e disparou para uma tia boquiaberta:

“Eu te amo!”

E foi embora colocar um ponto final em sua história de amor.

 

 

 

Ela já ouvira inúmeros relatos onde aquele vestido vermelho ocupava o papel de protagonista.

Nas melhores festas da juventude de sua mãe e tias, ele sempre estava presente.

Foi com ele que foram aos melhores bailes.

Com ele conquistaram seus amores inesquecíveis.

Usando o vestido, uma deu o primeiro beijo, a outra foi pedida em casamento, a outra se formou e a outra ficou sem ele e engravidou.

Ele fazia parte da história de todas as mulheres daquela família.

Algumas com o começo lindo e o final desastroso.

Outras com o começo que nada significava e um final encantador.

Quanto a Ela, que enquanto o vestido ia e vinha de bailes e festas, ainda não estava nem nos cueiros, só imaginava como tudo acontecera.

A cada festa que tinha para ir, cogitava ir com o “tal” vestido.

Porém, cada vez que tentava puxar papo com uma das tias ou mesmo sua mãe, elas desconversavam.

Nunca estavam dispostas a tocar no assunto.

Até que, num dia, como quem não quer nada, Ela perguntou àquela que já sabia das coisas quando o vestido era apenas um pedaço de pano, sua avó.

“Claro que sei onde ele está. Está guardado e muito bem guardado. Quando as meninas foram saindo de casa, ele foi ficando, foi deixado, esquecido.”

“Eu pensava que elas o haviam deixado de lado por terem dinheiro para comprar um vestido novo a cada festa. Mas não era isso. Com o tempo e o absoluto esquecimento, entendi que a fase de compartilhamento se fora.”

“Nunca mais voltaria aquele tempo em que um pequeno ajuste aqui e outro ali faria a alegria das minhas meninas com um velho vestido que se tornava novo a cada necessidade.”

Ela matou a curiosidade e esqueceu o assunto.

O tempo passou e ninguém nunca mais se lembrou do vestido.

Dias viraram meses, anos e mais de uma década se passou como num passe de mágica.

Chegou o dia triste em que as coisas da vozinha tiveram que mudar de lugar sem a sua participação.

Reuniram-se para fazer aquela tarefa nada feliz.

Alguns objetos cheios de história foram delicadamente disputados por uma e outra.

Cada uma pegou para si o que um dia dera como presente.

Foi em meio a lembranças e lágrimas que encontraram o vestido vermelho.

Cuidadosamente dobrado, fora colocado em uma caixa grande com laço de fita.

Parecia que havia sido guardado há poucos instantes.

Quem o achou desdobrou com um sorriso e o colocou em frente ao corpo.

Rapidamente ele foi passando de mão em mão e cada uma que o pegava contava um fato pitoresco que acontecera enquanto dentro dele estivera.

Deram boas gargalhadas relembrando as proezas da juventude.
Foi quando a última delas rodopiou, como se em um baile estivesse, que voou longe um envelope.

Rapidamente todas as atenções se voltaram para ele.

Quem estava mais perto do papel alado o apanhou rapidamente.

Nele estava escrito, caprichosamente, o nome da neta curiosa.

“É para você.” – a tia estendeu o envelope para Ela – “leia para nós.”

Ela, sem entender nada abriu com cuidado e começou a ler:

“Minha Menina, você acaba de sair de minha casa, veio me perguntar sobre este vestido vermelho que agora está em suas mãos. Queria saber o que fora feito dele. Contei uma história meio fuleira a você só para que não me pedisse para vê-lo.”

“É que esse vestido não fez parte da vida só da sua mãe e tias. Talvez nenhuma delas saiba, mas foi com ele que conheci o grande amor da minha vida. Ele me acompanhou  nos momentos mais importantes e felizes que já tive.”

“Sempre me preocupei com quem deixá-lo, afinal, ele é uma relíquia para mim e hoje descobri quem cuidará e continuará valorizando esse pedaço de pano cheio de memórias: você!”

“Nunca saberei o tempo que passou desde o dia que escrevo até agora quando você lê. Mas, independente de qualquer coisa, troque o forro, mude essa flor, refaça a bainha, coloque algum detalhe que o deixe mais moderno e vá ao menos a um baile com ele. Esse que tens nas mãos é um vestido festeiro.”

“Não sei o que vai fazer com ele, só uma coisa te peço:  seja feliz, muito feliz como todas nós fomos enquanto com ele estivemos.”

“Com amor, Vovó.”

Ela terminou a leitura emocionada como todas ali.

Abraçou o vestido e saiu sem palavras para seguir as instruções de sua vovozinha.

 

 

 

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