Desculpas aceitas
A Menininha triste, sentadinha em um canto, esperava a mãe chegar.

Parecia que nada tinha graça, nenhuma brincadeira era atrativa o suficiente.

Foi quando a professora a viu e se lembrou da conversa que tiveram:

“Mas tia, a Garota que estava conversando. Eu estava quieta. Ela ainda veio e espalhou todos os meus lápis.”

A “tia” com a paciência vinda direto do céu:

– Menininha, agora não é mais hora de pintar. Olhe lá na parede a nossa rotina. Depois da pintura, estudamos Matemática. E todos quietos e concentrados.

A pequenininha não se conformava:

“Tia, você brigou comigo, eu não estava conversando.”

Foi quando a tia parou tudo que estava fazendo, se abaixou e olhando a Menininha nos olhos:

– Minha querida, a tia pensou que você estivesse conversando com a Garota quando não podia. Já que você não estava, me desculpe. – beijou e abraçou a Menininha e continuou as atividades do dia.

A professora pensou que tudo estivesse resolvido, mas, agora, vendo a Menininha sentada e de cabeça baixa, tão quieta, percebeu que, talvez, nem tudo estivesse certo.

Foi conferir:

– Minha princesa, por que você está assim tão quietinha? Está triste?

Ela olhou com aquela carinha mais tristinha do mundo:

“Estou sim.”

– O que aconteceu?

“Você me pediu desculpas aquela hora porque brigou comigo sem eu estar conversando e foi embora antes de ouvir se eu tinha te desculpado ou não.”

A professora ficou olhando meio que sem entender:

– E você não me desculpou?

“Desculpei, titia, eu só não tive chance de te contar.”

A Menininha foi envolvida por um abraço enquanto ouvia:

– Então, conta pra mim, gatinha, conta que você desculpou sua tia.

Foi quando a tia viu o mais lindo de todos os sorrisos:

“Tia, eu te desculpo por você ter brigado comigo sem eu merecer, viu? Desculpo porque eu sei que até as pessoas boas como você, de vez em quando, erram.”

Falou isso, abraçou a professora e saiu pulando com a primeira amiguinha que passou.
 

 

“Meu amor, o que você quer?”

– Já te falei.

“Eu não me lembro, fala de novo, só mais uma vez, o que você quer que eu faça?”

– Já te falei e não vou repetir.

“Quando você falou, eu estava embaixo do chuveiro, não escutei.”

– Estava embaixo do chuveiro, mas eu enfiei a cara lá e falei tudinho.

“Meu amor, você tem que entender, eu não entendi. Você falou muito rápido, eu estava distraído. Repita, por favor.”

– Estava distraído lembrando as besteiras que andou fazendo ou planejando mais? Não sou Jovem Pan, não vou repetir.

“Minha vida…”

E assim foi.

Ele implorava e Ela dizia que não repetia.

Ele pedia de tudo que era jeito, com as palavras mais gentis, em nome de todos os santos, mas nada adiantava. A moça não cedia.

Tudo começou quando o rapaz deu uma pisada na bola daquelas.

Sabe aquela pisada que deixa qualquer mulher enfurecida?

Ele fez e pensou:

“Foi muito bom, mas se Ela descobrir eu tô perdido pra sempre.”

E Ela descobriu.

“Amor, por favor, conta para o seu marido. O que preciso fazer para que você esqueça essa história?”

– Engraçado você querer que eu me esqueça. Devia não ter feito ou, ao menos, ter feito direito para que eu não ficasse sabendo.  Agora, fica aí nessa perturbação querendo saber o que tem de fazer para que eu me esqueça.

“Meu amor.”

– Meu amor coisa nenhuma. Eu te falei uma vez o que me faria esquecer, você não escutou, dançou.

E foi aí que Ela fez “aquela” cara.

Sabe aquela cara que não diz absolutamente nada, mas abre um leque de possibilidades?

Então, foi essa.

– Está decidido: eu não quero me esquecer. E faça-me um favor: não toque mais no assunto.

O rapaz ficou mudo e saiu de perto.

E não tocou mais no assunto.

Nem Ela.

Ela nunca mais fez qualquer tipo de comentário sobre “aquela pisada na bola”.

Até que, num dia, pediu um sei lá o que pra Ele e o moço inocentemente disse que não faria.

– Você não vai fazer mesmo?

E olhou pra Ele com “aquela” cara.

Foi aí que Ele entendeu que Ela não havia esquecido. Que nem por um minuto se esquecera e que, se Ele não fizesse alguma coisa, seria para sempre refém daquela maldita pisada.

Para que isso não acontecesse,  Ele se encheu de coragem e se lembrou o quanto estava cansado, o quanto fora idiota por ter aquilo, o quanto ia render aquela história e fez exatamente o que Ela pedira.

Só aquela vez.

 

 

A certeza que tinha era da confusão.

O vento que abatera sua vida deixara tudo fora do lugar.

Coincidência ou não, foi no exato momento em que começou a chover que o telefone tocou e, com aquela notícia, sua vida virara de pernas para o ar.

Não sabia fazer nada mais além de chorar e perguntar “por quê?”.

Quando conseguia parar de chorar, em alguns poucos instantes, tentava ver o que seria dali por diante.

Quanto mais lá fora chovia, mais nublada parecia ficar sua vida.

Mas um dia Ela chorou um pouco menos.

Um poquinho menos.

Conseguiu ver ao longe uma possível solução.

Apegou-se como nunca antes àquela fresta de esperança.

Começou a caminhar em sua direção.

Chorando mesmo.

Muitas e muitas vezes parando e pensando seriamente em ficar sentada à beira do caminho.

Quando conseguia ter os olhos um pouco mais limpos, continuava indo na direção da sua esperança.

Em meio a tudo isso, percebeu que não chovia mais.

O sol voltara a brilhar.

Seus olhos também secaram.

O céu de seu coração também ficou azul, todas as nuvens que nublavam sua vida desapareceram, seus olhos se abriram e Ela pode ver que havia sim uma maneira de continuar vivendo e sendo feliz e, assim, continuar…

 


Seus pais viviam para servir.

Viajavam pelo mundo ajudando desconhecidos em ações humanitárias.

Ligados a uma ONG internacional, recolhiam dinheiro, construíam escolas, igrejas, levavam água a comunidades que nada tinham.

Voltavam à sua base e continuavam trabalhando.

Foi nesse contexto que Ela nasceu.

Linda e sorridente, chamava de amigo gente de várias partes do mundo.

Cada aniversário comemorava em um lugar diferente.

A passeio?

Não.

A trabalho.

Estava servindo.

Levando àqueles que nada tinham motivos para sorrir.

Foi quando descobriu o seu jeito particular de fazer as coisas.

Aprendeu, aqui e ali, a fazer bonecas.  Desenvolveu técnica, ajuntou material, ensinou pessoas.

E, hoje, enquanto seus  pais levam água e escola, ela espalha brinquedos.

Enquanto cresce, com suas pequenas mãozinhas, costura miniaturas de gente para fazer sorrirem crianças como ela.

Fico imaginando o que fará quando suas mãos forem grandes.

Quem faz hoje com o que tem, assim como é, fará sempre grande, sempre mais.

 

 

Era profissional em dar cabeçada.

Isso mesmo: cabeçada, cabeça na parede.

Nada que fazia prosperava.

Ia de lá para cá, daqui para ali e tum, tum, tum.

Só cabeçando, esfolando por inteiro.

Em todas as áreas, em todos os tempos.

Mas também só fazia o que a pobre que se batia queria.

Ela sofria tanto sendo tacada na parede que não custava, de quando em vez, fazer um pouco suas vontades.

E, com esse pensamento, só as vontades dela fazia.

E lá ia Ele, fazendo o que Ela queria e se batendo.

Até que um dia…

Um dia encontrou Alguém.

Alguém disse a Ele que, se deixasse de fazer o que Ela mandava e seguisse suas ordens, tudo daria certo.

Ele pensou, pensou e achou a verdade: Ele fazia sempre o que Ela queria por suas vontades serem idênticas, iguaizinhas.

Então, seguindo a cabecinha que era jogada de parede em parede, Ele fazia suas próprias vontades.

Mas abandonar o que se quer é tão difícil, Ele pensou.

Fazer a vontade alheia é tão chato.

Pensou em não aceitar a proposta de Alguém. Foi quando sentiu uma pontada bem no lugar onde havia batido sua cabeça a última vez.

Aceitou.

Passou a seguir exatamente tudo o que Alguém mandava: hora de deitar, hora de levantar, o que comer, como se exercitar, como se comportar com as pessoas da família, do trabalho, da escola…

Seguindo exatamente tudo, tudo mesmo, o que Alguém o orientara a fazer.
Algumas vezes, tinha vontade de sair correndo, mandar Alguém ir catar coquinho, dar as mãos para sua cabecinha oca e seguir a vida.

Quando essa vontade surgia, lembrava-se de todas as paredes onde já havia cabeceado e grudava em Alguém.

O tempo foi passando e as coisas começaram a dar certo.

Aqui, ali, em toda parte.

Quando Ele se deu conta, tudo, tudo mesmo, estava fluindo lindamente.

Nem se lembrava mais das cabeçadas que dera, muito menos daquela coleção de frustrações.

Hábitos transformados, cabecinha modificada…

Alguém o pegou pela mão e disse:

“Vá em frente! Não se esqueça de nada do que você aprendeu até aqui, nada mesmo, continue obedecendo e seja feliz!”

 

 

Estava caminhando, procurando desesperadamente um lugar seguro quando tudo se apagou.

Completa escuridão.

Não deu mais um só passo.

Não se sabe de onde veio, mas ouviu-se a voz:

“Segue somente a luz branca, a mais forte, que encontrarás a segurança.”

Na mesma hora acendeu-se a mais resplandecente de todas as luzes que já vira.

Quase cegou.

Levou alguns segundos para se acostumar com tamanho brilho e, seguindo a instrução que recebera, começou a caminhar.

O caminho, que até então estava tenebroso, transformou-se em um lugar tranquilo e seguro.

Em pouco tempo, em vez de andar, corria.

Seu medo se fora.

Não havia motivos para temer. Afinal, via tudo à sua frente.

Seu coração ficou tranquilo.

Em pouco tempo, começou a apreciar a beleza à sua volta.

Belas paisagens e construções magníficas.

Foi quando, ao longe, viu muitas, muitas luzes coloridas e brilhantes. Elas piscavam, giravam e, de onde vinham, ouvia-se som de festa.

Parou, olhou e quis ir naquela direção.

Parecia tão encantador.

Quando já estava ali  a algum tempo, lembrou-se da voz:

“Segue somente a luz branca, a mais forte, que encontrarás a segurança.”

Assustou-se com a lembrança do desespero que vivera na escuridão e da alegria que a luz forte trouxera.

Olhou para ela e continuou em frente.

Ao longo do caminho, por várias vezes, se deparou com luzes coloridas. Sempre a do momento parecia mais encantadora que a última.

Continuava.

A luz branca sempre ali, no mesmo lugar, apontando o caminho.

Por isso, continuava.

Lá pelas tantas, começou a tocar uma música alta, muito alta.

Melodiosa, envolvente.

Alta, mas que não incomodava, não dava vontade de fugir.

Pelo contrário.

Dava vontade de procurar de onde vinha.

Achegar-se à sua fonte.

Junto com a música, surgiram as luzes mais lindas e brilhantes que se possam imaginar e um aroma tão delicioso que ser humano algum é capaz de descrever.

Envolvimento.

Luz, som, aroma.

Foi quando viu, à sua frente, uma mesa gigantesca.

Nela, todas as delícias que se podem imaginar.

Sabor.

Luz, som, aroma, sabor.

Sentou-se e comeu como se não houvesse amanhã.

Enquanto comia explorou tudo que sua visão conseguia alcançar.

Todas as luzes, lugares, recantos coloridos.

Resolveu explorar só um pouquinho.

Desviou seu caminho em direção ao colorido, ao sonoramente agradável, cheiroso e gostoso.

Ganhou outro caminho.

Esqueceu-se da luz branca e forte que continuava lá.

Encontrou todas as cores, aromas, perfumes e sabores.

Jamais a segurança.


Desde sempre, a própria vontade parece ser o melhor a ser feito.
Desde muito cedo.
Muito sempre.
Nós, criaturinhas humanas, queremos conquistar, no grito, nossas vontades assim que chegamos ao mundo.
E, conforme vamos ficando durinhos, primeiro no pescoço, depois no tronco e, por fim, nas pernas, vamos querendo impor nossas vontades.
A inocência  não nos permite enxergar que absolutamente nada sabemos sobre o que é certo ou errado, sobre o que nos fará bem ou mal, por fim, o que nos fará continuar vivendo ou simplesmente morrer.
Se nossa vontade fosse absolutamente cumprida nos detalhes desde a mais tenra idade, com certeza, não teríamos chegado até aqui!
Algumas pessoas, digo algumas porque nem eu nem você somos assim, acreditam piamente que podem, ao longo da vida, ir fazendo todas as suas vontades.
Alguns pensam que podem sim, sem qualquer problema, dormir a hora em que bem entenderem e, enquanto acordadas estiverem, podem fazer tudo que têm vontade.
Pensam que seu corpo não será prejudicado.
Acreditam piamente que seu barulho e movimento sem critério não aborrecerão quem ao seu redor está.
Alguns pensam que podem andar na velocidade que querem.

 

Qual a necessidade de respeitar as leis de trânsito?
Leis?
Para que mesmo temos leis de trânsito?
Nossas vontades são tão mais interessantes de serem vividas…
O que se quer, o que dá prazer, o que faz sentido para um único ser, desde que esse ser seja “você” é sempre tão melhor.
E, por sermos 7,6 bilhões de pessoas no mundo, com algumas querendo fazer apenas suas vontades do jeito que lhes dá prazer, sem querer obedecer às leis, seguir regras ou respeitar o espaço que não lhes pertence, temos alguns problemas…
Ouvimos barulhos irritantes sobre nossas cabeças nas horas sagradas do sono, levamos horas para irmos de um lugar ao outro por termos que suportar os espertinhos no trânsito, somos chutados em elevadores por crianças fora de controle.
Ah e ainda tem o tempo que perdemos por sempre ter alguém que corta fila.
Vou deixar para que outro fale sobre o que nos ocorre quando quem tem acesso a muito resolve apropriar-se do que não é seu por direito.
Que delícia seria se todos tivessem alegria em seguir as regras do jogo, viver na lei, respeitar o próximo.

 

 

 

 

Para se falar é preciso conhecer.

Nada pior do que aquele que sai falando loucamente como se propriedade tivesse, mas, na verdade, é mais raso que um pires.

Será que existe algo mais raso que um pires?

Mas são esses que, sem dó nem piedade daqueles que os cercam, saem como loucos, repetindo, muitas vezes, verdades forjadas por pessoas mal intencionadas.

São esses que saem falando mil e uma coisas a quem por eles passam. Falando pelo simples desejo de se fazerem ouvir.

E como existem pessoas assim, como existem pessoas dispostas a despejar palavras ao vento sem nada terem a dizer.

E a disposição de falar muitas vezes é proporcional à falta de conhecimento.

Quantas vezes em encontros ficam calados os profundos para que os pires ambulantes esbanjem sua sabedoria ruidosa.,

Feliz aquele que sabe calar quando o que tem a dizer não acrescenta.

Feliz aquele que fala o que bebeu na fonte, os juízos que conhece de fato, o que traz sentido à vida.

Mais feliz ainda aquele que pode escolher em qual companhia ficar.

 

 

 

Costumava pedir o que tinha necessidade a quem podia mais que Ela.

Queria andar de mãos dadas.

Mas isso era preciso pedir a quem “podia mais que Ela”?

Claro!

Ela não tinha com quem andar de mãos dadas.

Não sabia quem poderia segurar sua mão.

Não fazia nem ideia de onde poderia encontrar.

Começou a pedir para quem podia mais que Ela.

Pediu, pediu, pediu…

Até que um dia:

“Vamos nos ver essa noite?”

Ela estranhou, mas aceitou.

Quando desceram do carro, Ele a beijou e explicou:

“Não quero mais andar sozinho. Você aceita andar comigo?”

Quando se pede a quem pode mais que você…

“Ele disse que quer andar comigo, do jeitinho que eu sempre quis.”

– Que coisa boa. Agora você tem quem vai segurar sua mão enquanto caminha.

“Coisa boa? Não quero segurar a mão dele, Ele é só meu amigo.”

– E você queria andar segurando a mão de um inimigo? Você não pediu a quem sabe mais que você? Ele não te atendeu? Então, já que está achando ruim, vai lá reclamar.

“Eu vou.”

E foi mesmo.

Chegou lá, sentou e começou:

“Eu sei que sabes muito mais que eu, só que eu não quero. Eu não quero, já disse que não quero.”
E, assim, ficou, parada em frente a quem sabe mais que Ela, repetindo sem parar que não queria, não queria e não queria.

Quem sabia mais que Ela não disse nada, afinal, a moça nada perguntara, apenas falava e repetia que não queria.

Até que, num minuto, parece que deu um estalo e Ela abriu os olhos de maneira tão assustada que parecia ter visto o que não estava ali há um segundo:

“Eu não quero, mas se o Senhor que sabe muito mais que eu quer, então, tá bom.”

A moça acabara de entender que “quem sabe mais” sabe aonde levam todos os caminhos.

Levantou dali, encontrou o moço e segurou sua mão.

De leve há 38 meses e um dia.

Um pouco mais forte há 14 meses e um dia.

E em definitivo há 02 meses e um dia.

 

 

 

 


Elas tinham uma relação muito próxima.

Cumplicidade.

Desde o nascimento da Menina, a Vozinha sempre fora seu referencial.

A mãe saia para trabalhar logo cedo e deixava uma com a outra.

Todos os dias.

No começo era claro e notório quem cuidava de quem, com o passar do tempo, os papéis se invertiam o tempo todo:

“Menina, calça o chinelo!”

“Vozinha, toma o remédio!”

Conforme a Menina foi crescendo, ela e a Vozinha foram desenvolvendo códigos,  segredos, histórias particulares.

Criaram, dentro do minúsculo apartamento, uma rotina tão cheia de encantos que não precisavam de mais ninguém.

A Vozinha envolvia sua Menina em todas as atividades corriqueiras do dia a dia e transformava cada uma delas em algo encantador, em grandes aventuras.

É certo que algumas coisas eram melhores que as outras, uma em particular, a mais formidável de todas: cozinhar!

A Vozinha falava que aquela era a hora em que elas transformavam coisas que existiam em todos os lugares em porções maravilhosas e que existiam apenas em seu mundo particular.

Todas as vezes em que iam fazer algo diferente, aquelas receitas mágicas que transformavam três ou quatro ingredientes em uma comida verdadeiramente deliciosa, a Vozinha pegava seu Guia Encantado de Delícias.

Ele nada mais era que um velho caderno de receitas que ela havia herdado de sua mãe e continuava alimentando com novos guias de misturas.

Quando aquele caderno aparecia na cozinha, a Menina sabia que aventuras deliciosas começariam a ser vividas.

O tempo foi passando, a Menina aprendeu a ler e pôde, ela mesma, começar a colocar algumas receitas no Guia Encantado de Delícias.

As receitas que ali entravam antes haviam sido testadas, muitas vezes modificadas e aprovadas pela dupla.

Até que chegou o dia de partir…

O tempo fez com que a vida mudasse, tomasse outro rumo e a Menina, que já não passava o dia todo com a Vozinha há algum tempo, decidiu mudar de país.

Não fora uma decisão fácil.

Ficar longe de sua amiga, confidente e cumplice seria algo muito difícil, mas ela, como todo mundo que ama, fora sua maior incentivadora:

“Minha Menina, você precisa ir, conquistar o mundo! Mais gente nessa imensidão de terra e céu precisa conhecer a joia que você é!”

Antes de ir, a Menina juntou suas coisas e foi passar o último mês que estava na cidade grudada em sua Vozinha.

Juntas, elas se lembraram das velhas histórias, das viagens que fizeram sem sair do apartamento minúsculo, carinhosamente chamado de Castelo da Menina, e cozinharam.

Cozinharam e cozinharam muito.

Refizeram e comeram quase todas as receitas do Guia e gargalharam, choraram, cantaram e se divertiram como há muito não faziam.

E chegou o dia de ir.

Dali a Menina ia direto para o aeroporto.

Queria ganhar o mundo a partir do seu porto seguro.

O dia derradeiro chegou e ela acordou com o aroma da sua infância: leite com chocolate, pão com queijo e biscoito frito.

Repetiram alguns rituais entre beijos, gargalhadas, abraços e lágrimas.

E, quando o táxi chegou, Vozinha entrou em casa correndo.

Foi e voltou com o Guia Encantado de Delícias nas mãos:

“Minha Menina, leve o Guia com você. Enquanto ele for seu e você fizer suas receitas, enquanto você alimentá-lo com novos manuais de delícias, nós estaremos unidas. Eu sempre estarei pertinho de você. E você, fique tranquila, não tem jeito, nunca sairá do meu coração.”

E, assim, a Menina foi rumo ao desconhecido, tendo o mundo dentro de si.

 

 

 

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