O “helicóptero” começava a cantar baixinho e ia aumentando o volume, aumentando…

 

Você já dormiu com alguém que ronca?

Ela já!

“Preciso deitar e dormir antes dele.”

– Boa noite, amor.

“Boa noite, meu dengo. Não dorme não, espere que eu durma primeiro.”

Ele com a cara mais indignada do mundo:

– Falou aquela que não ronca.

“Meu ronco é mansinho, nem te atrapalha.”

– Não? Você não ouve, por isso pensa assim.

Silêncio.

Após meio segundo de silêncio houve um helicóptero que se aproxima.

Primeiro mansa e delicadamente.

“Eu não acredito que Ele já dormiu. Não é possível.”

Depois com maior velocidade e dinamismo, parece que vai levantar voo a qualquer momento.

“Misericórdia! Como dorme rápido esse homem.”

Chacoalha o moço com força e ele dá um longo suspiro e muda de posição:

“Amor, você disse que ia me esperar dormir primeiro.”

– Estou esperando.

“Tá nada. O ronco já está comendo solto. Vai ler um livro enquanto eu durmo. Juro que pego no sono rápido.”

– Hum hum.

Vira para o outro lado e continua dormindo, ainda em absoluto silêncio.

“Dorme, dorme, dorme. Dorme rápido antes que ele volte a roncar.”

O helicóptero começa a fazer seu barulho característico e Ela nem vê quando pega no sono.

A moça sabe que também ronca depois que dorme. Algumas vezes, Ele a filmou para provar que também é incomodado durante a noite. E o pior, o ronco dela, cada noite, é de um jeito, não existe essa história de ser apenas uma coisa, somente o helicóptero.

A noite passa tranquilamente, ao menos para Ela, mas, de manhã logo cedo, junto com a chegada do sol, Ela escuta o helicóptero voando baixo, bem no seu ouvido.

Sacode de um lado, sacode do outro e nada.

“Eu não quero acordar tão cedo, mereço dormir até o despertador tocar.”

Sacode de um jeito e Ele para. Antes que seu braço se acomode na cama, o helicóptero volta.

“Tadinho, já dormi a noite inteira, deixe-me ver se consigo administrar esse ronco. Como será que consigo colocá-lo dentro do meu sono?”

Pensou Ela, complacente com o seu amor.

“Vou pensar que estou em um heliporto esperando meu helicóptero particular, assim, consigo colocar o ronco dele no meu sonho e durmo.”

De um minuto para o outro Ela estava em uma sala onde amigos que há muito Ela não via separavam roupas para um bazar.

Foi quando sua tia, que nem frequenta aquela comunidade, chegou e começou a tumultuar o ambiente. Falando umas coisas desconexas, atrapalhando o começo da reunião que aconteceria enquanto eles separavam as roupas.

Ela, que nunca se posicionava em situações de conflito, resolveu intervir:

“Então tá, tia. Vamos agora orar para começar a reunião. –  a tia parece que concordou e ficou em silêncio.- Senhor Deus, obrigada por estarmos aqui reunidos…”

Foi quando Ela sentiu seu corpo todo chacoalhar:

– Amor, amor, acorda! Você está falando.

Ela acordou assustada:

“Eu falando? Claro que não!”

– Você estava falando, orando, menina! Oque aconteceu?

“Eu não! Eu acabei de conseguir dormir. Coloquei seu ronco no meio do meu sonho. Tudo estava se encaixando direitinho. Minha tia estava falando, cada vez que você roncava era ela falando e aí eu dormia sem atropelos. Por que você me acordou?”

A indignação tomara conta da moça.

– Você dorme tranquilamente e eu? Como eu fico?

E foi assim que os dois começaram o dia azedos.

Ela, porque tivera o seu drible do ronco interrompido e Ele, porque fora acordado por sua fala inesperada.

– Não tem jeito. De hoje não passa, vamos marcar a consulta com o especialista do sono ou dormir em quartos separados.

E foram, cada um para o seu lado, destilar seu azedume.

 

 

Parte do Grupo das Meninas e seus amores.

 

E ontem foi dia de tomar café com as amigas.

Com as amigas, seus filhos, maridos.

Nós nos reunimos todas.

Assim, quase todas.

Uma, que mora em um bairro mais longe, não conseguiu vir.

Mandou um vídeo para o grupo, participou rapidinho.

Outra estava viajando.

Ficou um tempão em uma chamada telefônica, estava em um local sem internet.

Outra ainda, a que mora longe de verdade, na Inglaterra, ficou o tempo todo com a gente por uma chamada de vídeo.

Cheguei atrasada e os grupos já estavam divididos: homens, mulheres, crianças.

Todos conversando, comendo, divertindo-se, cada qual a seu próprio modo.

Foi quando começamos a cumprir o propósito pelo qual essa reunião foi feita.

Esse grupo é formado por mulheres que se conheceram ainda meninas.

A faixa etária varia um monte e eu tenho o privilégio de ser a mais velha.

Engraçado como fomos nos unindo, nos juntando, misturando.

Hoje, enquanto cumpríamos o propósito pelo qual nos juntamos, ouvi mais de uma vez:

“Conheci essa menina quando ainda era criança.”

Sinal claro de que lá se vão décadas.

Mais de uma, muitas vezes.

Uma delas que ali estava é filha da minha professora da segunda série. Ela estava “muito grávida” quando me deu aula.

Outra foi aluna da minha mãe no ano em que minha avó morreu e, por isso, eu acabei dando aula pra ela por uns dias.

Fomos todas aos casamentos uma das outras.

A não ser de uma delas, que ficou durinha nas pernas e casou logo, antes que nós chegássemos a sua vida.

Ao menos a maioria de nós.

Outras estudaram juntas desde a infância, começo da adolescência.

Meu marido deu aula para muitas delas e hoje meu príncipe é o melhor amigo do filho de uma.

As filhas de duas foram minhas daminhas.

Fui madrinha de uma delas.

Duas foram minhas madrinhas.

Ou seja: nossas histórias foram se entrelaçando ao longo do tempo de uma maneira tão fantástica e indescritível que não dá para dizer assim:

“Foi aqui que nos encontramos, juntamos, misturamos.”

Foi a vida que nos trouxe uma para perto das outras, nos ajuntou, misturou e nos fez um grupo, o Grupo das Meninas.

E eu acho encantador como ele funciona.

Não pode ninguém expressar uma necessidade que a solução surge de maneira espontânea.

Dia desses, pedi a indicação de um pediatra.

Uma amiga minha, de  outro grupo, estava precisando de um.

Recebi a indicação de uns 10 em poucos minutos.

Em outra ocasião, uma amiga precisava de alguém para fazer uma palestra em sua escola sobre prevenção ao suicídio. Falei com a psicóloga do grupo. Perguntei se podia passar seu telefone para a moça, ela disse que sim.

Passei e esqueci, nem fiquei sabendo se tinha dado certo.

O tempo voou e, num belo dia, ela manda no grupo uma mensagem de voz toda emocionada:

Tinha atravessado a cidade, ido a uma região bem carente e distante para dar a palestra e tinha sido maravilhoso.

E assim é com tudo.

Qualquer tipo de consultoria, aconselhamento, lugar pra chorar, gargalhar é só chegar e falar.

Sempre tem um colo amigo, um conselho, alguma delas, quando não todas, disposta a ouvir, auxiliar.

É um porto seguro em meio a tantos grupos cheios de bom dia, boa tarde, boa noite vazios.

Hoje, nós nos encontramos para revelar nossa amiga de oração.

Não sei o que você pensa sobre isso, mas nós oramos e isso nos faz bem.

Por isso, oramos umas pelas outras.

Há alguns meses, a mentora no grupo nos propôs que fizéssemos um “amigo oculto de oração” e assim o fizemos.

Quanto à mentora eu esclareço: é aquela que se lembra do aniversário de todo mundo, que marca os encontros e que responde a todas as besteiras que qualquer uma de nós fale. É quem mantém a liga do negócio.

E, assim, proposta aceita, fizemos o sorteio virtual com os pedidos e começamos a orar.

A data da revelação parecia distante…

Até porque a data é justo uma semana antes de uma delas mudar-se de mala, cuia, filhos e maridos para o Canadá.

E, hoje enquanto nos despedíamos, dessa que foi nossa última reunião por agora, com quase todo mundo junto, ouvi a seguinte frase:

“Agora, nós, que já tínhamos uma casa na Inglaterra para visitar, vamos ter uma também no Canadá.”

Não gosto dessa frase.

Eu não tenho o costume de visitar os amigos.

Não vou à casa dos que moram no meu bairro, aqui na cidade, os que moram do outro lado do mundo podem ficar tranquilos: certamente eu jamais vou aparecer.

Mas a data que parecia distante chegou rapidinho e foi emocionante, deliciosamente emocionante ouvir as declarações de amor e amizade do nosso grupo.

São reais, inspiradoras, sinceras.

A tecnologia nos dá a alegria de nos mantermos sempre unidas.

Porque, mesmo todas morando no cerrado, se não fosse a tecnologia, sabemos com tranquilidade que não estaríamos assim tão próximas.

E, mesmo que agora seja cada dia mais difícil nos reunirmos de fato, as agendas sejam cada dia mais lotadas, é confortante saber que, não importa onde cada uma de nós esteja, quando o grilinho do Whatsapp gritar, haverá uma rede de apoio, um Grupo de Meninas para um socorro mútuo e eficiente!

 

 

 

Tem hora a gente sente uns sintomas tão estranhos que chega a estranhar.

 

E Ela acordou procurando por Ele.

Virou-se na cama e sentiu o seu cheiro.

Tudo remexido, parecia que o moço acabara de sair.

Seu cheiro estava por toda a parte e lá embaixo porta acabara de bater.

Silêncio.

Sentou-se e mais acordada um pouco deu-se conta de que não era nada daquilo.

Não havia cheiro, não havia nada remexido, não havia barulho na porta.

Nada.

Só o silêncio dentro de casa e a cantoria do vento lá fora.

Ela que há muito não se lembrava dele se arrastou até o banheiro sem entender que sonho fora aquele.

Fora tão real que tivera até cheiro, gosto, textura.

Os fantasmas apareciam em forma de sonho agora.

Desde quando?

Qual sentido?

Com que propósito?

Lentamente foi se lembrando de cada um dos detalhes vividos no sonho.

Riu sozinha.

Quanto mais se lembrava mais ria.

Por fim, gargalhava.

Fora um sonho bom.

E por quê ele agora?

Tinha um motivo.

Tinha uma razão de ser.

Era saudade.

Alguém já te contou que chega uma hora que não é mais preciso usar aquele colírio para que seus olhos sejam examinados?

 

O Marido se arruma para ir ao oftalmologista:

“Vou ao oftalmo.”

– Aqui no bairro ou no centro?

“No centro.”

– Não quer que eu vá junto?

“Não precisa.”

– Como você vai voltar?

“Do mesmo jeito que eu for.”

– Dirigindo?

“Claro!”

– Como vai voltar dirigindo com a pupila dilatada?

“Não se dilata mais a pupila para fazer exame de vista.”

– Sério? Que legal!

O Marido sai e Ela fica pensando como será o equipamento usado para examinar os olhos que substituem a dilatação das pupilas:

– Esse povo inventa tudo, né? Que bacana não precisar mais dilatar a pupila, deve ser um aparelho bem legal que faz isso.

Ele volta e Ela ainda incrédula dispara:

– Dilatou a pupila?

“Não, criatura! Já te disse que, hoje em dia, não se dilata mais a pupila.”

Conformou-se.

O tempo passou.

E em uma bela manhã de sol:

– Meus olhos doeram o fim de semana inteiro. Vou ao oftalmo.

“Tchau.”

– Tchau.

Bate a porta e sai resmungando:

– Nem se preocupa comigo nem como será a minha volta. Como vou dirigir com a pupila dilatada? Como é que vou conseguir voltar do centro da cidade sozinha? Desatencioso. Ogro.

Mesmo reclamando horrores, vai embora.

Dirige quilômetros.

Na clínica:

– Bom dia, será que consigo um encaixe?

* Claro!

– Aqui estão os documentos.

* Dra. Fernanda, em meia hora.

– Obrigada.

Após meia hora de espera:

@Bom dia!

– Bom dia!

Papo vai, papo vem e lá pelas tantas:

– Não será preciso dilatar minhas pupilas?

@Não!

– Ah que legal!  Hoje em dia não se dilatam mais as pupilas? Ainda bem, aquilo era tão incômodo!

@ Na verdade, ainda se dilatam, mas só até uma certa idade. Na sua idade não há mais necessidade de se dilatar para que o exame seja realizado com eficiência.

Admiração total:

– Sério? Que decepção. Não tem qualquer tecnologia inovadora? Tudo se justifica pelo meu DNA? Data de nascimento adiantada? Que decepção.

A médica sorriu e ela foi embora feliz:

Apesar da data de nascimento adiantada, a dor nos seus olhos era apenas efeito da seca, ela não precisou usar aquele colírio ardido e, de quebra, ficou sabendo que vê perfeitamente de perto de longe e de tudo que é jeito.

Óculos?

Nem tão cedo!

 

Algumas vezes é preciso deixar bem claro o que se quer durante a caminhada.

 

– Então você vai se casar outra vez?

“Vou. E tenho certeza que será maravilhoso.”

– Sério mesmo que vai ter coragem de começar tudo de novo?

“Não vou começar tudo de novo. Vou continuar daqui. Não tem jeito de começar de novo.”

– Como não? Claro que tem jeito. Você vai conhecer alguém, começar a namorar, noivar, casar…

“Mas isso não é começar de novo! Quem te disse isso?”

– Se não é começar de novo é o quê, então?

“É continuar de onde se parou. Parei aqui, sozinha e agora vou caminhar com uma nova companhia.”

– O mesmo caminho?

“O caminho da minha vida. Ele é um só. Algumas vezes tem curvas, atalhos, mas é o mesmo caminho, o meu caminho.”

– E o que muda?

“O que muda? Ao longo do caminho algumas pessoas caminharam ao meu lado. Algumas por longos dias, outras passaram rapidamente. Mas foi sempre no meu caminho, na minha vida. Com algumas pessoas, andei lado a lado, com outras, de mãos dadas.”

– E com esse agora? Como será?

“Ah! com esse será com os dedos entrelaçados.”

– Que romântico…

“Espero mesmo que seja muito, que seja realmente bem romântica a caminhada.”

– Você sabe que eu não estou gostando dessa ideia, né?

“Mas por que não? Ele é tão especial, gosto tanto de estar ao seu lado.”

– Não vejo a menor graça na pessoa dele.

“Eu também não vejo a menor graça na pessoa com que você resolveu andar ao lado em seu caminho e nunca te disse nada.”

– Ué? Você não gosta dele?

“Não gosto. Aliás, nunca fui com a cara.”

– Você só pode estar brincando. Sempre o tratou bem, sempre foi tão gentil com ele. Só está falando isso agora porque disse não gostar do seu escolhido.

“Claro que não! Nunca gostei dele, mas sempre te respeitei, por isso o meu silêncio em todos esses anos.”

– Mas você poderia ter me falado.

“Para quê?”

– Sua opinião sempre foi importante para mim, como espero profundamente que a minha tenha algum valor para você.

“Minha querida, olhe bem para mim. Você acha mesmo que com todas as rugas que carrego, e com as inúmeras marcas do tempo que levo para todos os lugares aonde vou, eu me importo mesmo com as opiniões que as pessoas têm sobre a minha vida?”

– Sinceramente, eu esperava que você se importasse.

“Eu me importo quando elas são sobre um assunto relevante, algo sobre minha saúde ou onde vou morar, mas sobre meu namoro?”

– Namoro? Já é namoro?

“Claro! É um namoro. Você acha que sou de brincadeira? Se estou com ele, é para uma caminhada séria.”

– Pelo amor do céu! Daqui a pouco, ele não consegue mais nem ficar em pé!

“Relaxa, quando ele não conseguir mais ficar em pé, a gente senta e continua conversando.”

– Mas ele tem o papo muito ruim!

“Com você, comigo é ótimo!”

– Ele não tem onde morar.

“Eu tenho. Ele pode vir morar aqui quando nos casarmos.”

– Casarmos???

“Você parece que não me conhece. Sou mulher séria, não quero ficar de fuleragem por aí.”

– Mas pensei que era só uma amizade mais aprofundada…

“Já viu alguém namorar inimigo?”

– Ai, meu pai do céu.

“Preciso que você vá, daqui a pouco tenho um encontro com meu noivo e não posso me atrasar.”

– Noivo? Você quer me matar de desgosto?

“Quero matar a minha solidão, só isso. Se você me dá licença, preciso me arrumar. Antes que me esqueça, o seu par, aquele que você escolheu há trinta anos para ser seu companheiro e eu fiz o casamento, é um moço bem distinto. Nunca fui de fato com a cara dele, mas o respeito e admiro como um filho, com cuja cara não vou muito, mas como um filho.”

Disse isso, apoiou-se na bengalinha e deu as costas lentamente a sua filha estarrecida.

“Não se esqueça de trancar a porta ao sair. E você não solicitou, mas que Deus te abençoe. Tchau.”

 

 

Tem dia que tudo que Você quer é dormir, mas o sono resolve fugir e não há quem o pegue novamente!

 

Ao menos uma vez na semana o despertador é desligado.

“Não precisa trabalhar, amigão. Amanhã, você pode dormir até tarde.”

Ele, todo serelepe fica em seu canto satisfeito, não precisa trabalhar antes de o sol chegar.

E Você, nobre trabalhador que pode aproveitar os encantos da cama que escolheu para chamar de sua, ao desprogramar o despertador, jura por tudo que é santo que desprogramou também seu metabolismo:

“Amanhã, vou dormir até cansar. O frio chegou e, como todo dia tenho que abandonar minhas cobertas, amanhã é dia de passar tempo com elas.”

E vai dormir todo preparado para o pior dos frios: pijama flanelado, meias…

Em sua cabecinha de trabalhador que dedicará o dia de folga a ficar nos braços de Morfeu, torce para que o frio permaneça firme e forte.

Vai dormir feliz da vida, afinal, o sol o encontrará na cama, dormindo profundamente e acordar será um processo lento, longo e com várias recaídas.

Dorme sem nem ver quando isso acontece.

Porque tem hora em que a gente vê que tá quase dormindo, né?

Outra hora, a gente dorme que nem vê.

Nesse dia, Você, nosso dorminhoco em potencial, dorme e nem fica sabendo. O melhor dos jeitos.

Quando a noite é boa, o sono é solto, aquele que dorme não toma conhecimento do tempo que passa.

Dorme e pronto.

Os ponteiros do relógio, lenta e preguiçosamente, fazem o seu caminho como quem não quer nada e Você dorme como um anjo.

Lá pelas tantas, quando tem certeza de que ainda está dormindo, seus olhos simplesmente se abrem!

“Como assim? Acordei? Não acredito! Eu não preciso acordar agora. Hoje é domingo e o sol ainda nem chegou. Dorme, dorme, dorme!”

E vira para um lado, vira para o outro.

“Não faz isso comigo, por favor, dorme. Hoje, nós vamos dormir o dia inteiro. Dorme por favor.”

E assim você segue, por longos e intermináveis minutos, tentando se convencer de que precisa continuar dormindo.

Como a parte de cima do seu olho resolveu desgrudar da parte de baixo, o resto do corpo resolve que é hora de acordar também:

“Agora, dá vontade de fazer xixi? Mas que coisa! Eu quero continuar dormindo.”

Vira de um lado para o outro, tentando esquecer a vontade de fazer xixi:

“Eu não quero fazer xixi, eu quero dormir. Dorme, criatura! Dorme.”

Mas a vontade vai aumentando a cada segundo que passa e chega uma hora que você tem a opção de continuar na cama e fazer uma poça embaixo de si ou correr até o banheiro.

Levanta e, fora do casulo formado pelas cobertas, está tão frio, mas tão frio que sua vontade é voltar sem ir ao banheiro.

Sai correndo.

“Levantei só para fazer xixi porque não tinha jeito, mas que fique claro: vou voltar a dormir.”

No caminho de volta à cama, passa os olhos pelo relógio que silenciosamente faz o seu trabalho:

“Acordei no mesmo horário de sempre. Mas eu vou voltar a dormir!”

Deita “daquele jeito” e começa a repetir:

“Dorme, dorme, dorme.”

Os olhos, teimosamente se abrem de novo e, enquanto Você vê o sol levantar-se lentamente, começa a fazer a lista de tudo que precisa fazer naquele dia.

“Como assim? Eu não tenho que fazer nada hoje! Hoje é meu dia de dormir.”

A lista com coisas a serem feitas começa a se multiplicar em sua cabeça e, depois de tentar todas as posições, de todos os lados, de todos os jeitos, se dá conta que não há o que fazer: o sono não vai se encontrar com sua pessoa novamente.

“Eu posso até trabalhar, mas vai ser aqui no quentinho da minha cama.”

E, assim, começa a desenvolver os projetos que ficaram atrasados ao longo da última semana.

Lá pelo meio da manhã lembra-se da roupa que precisa ser lavada.

“Não! Lavar roupa não! Eu ia dormir o dia inteiro, o sono me traiu e me abandonou, já estou trabalhando, não vou lavar roupa.”

Continua digitando ferozmente, registrando todas as suas ideias, mas a ideia da roupa que precisa ser lavada não lhe sai da cabeça.

“Mas que droga! Eu não quero lavar roupa hoje.”

Depois de muito guerrear, foi lá e colocou a roupa pra lavar:

“Hoje, já que vocês insistem em tomar banho, todas irão para a máquina, sem qualquer critério.”

Enquanto foi colocando as roupas na máquina, encontrou as brancas que não podiam tomar banho com as coloridas, encontrou algumas que sequer poderiam ir para a máquina.

“Eu não vou separar nada! Vai todo mundo tomar banho junto! Que droga!”

Foi falando e separando tudo, começando a lavar à mão o que iria estragar se fosse para a máquina.

Quando terminou, deu de cara com a louça que estava fazendo aniversário na pia.

Lavou.

“Só estou lavando essa louça porque a pobre estava fazendo aniversário aqui, mas hoje não faço mais nada.”

Acabou de lavar.

“Vou enxugar e guardar, né? Deixar a pia seca. Mas é a última coisa que faço hoje.”

E, com essa de ver uma coisa aqui outra ali, Você, que ia dormir o dia inteiro, escreveu todo um projeto atrasado, lavou e passou roupa:

“Só essas camisas aqui ou vou ter que ficar passando todo dia.”

Lavou louça, fez comida:

“Morrendo de fome. Tem essas coisas aqui que, se começarem a semana na geladeira, vão estragar.”

Lavou o banheiro:

“Há quanto tempo será que esse banheiro não toma um banho?”

E acabou limpando toda a casa:

“Vou deixar essa casa pronta para semana.”

Lá pelas tantas, quando o sol já tinha ido embora há muito tempo, Você se lembra de que  seu plano original era dormir o dia inteiro:

“Nunca trabalhei tanto em um dia que era só para dormir. Agora vou tomar um banho e dormir, afinal, o sono não me apareceu quando devia, mas o frio não deu trégua. Depois de trabalhar tanto, um bom banho quente vai me fazer dormir feliz.”

E lá vai a sua pessoa, toda satisfeita, realizar ao menos essa parte dos seus planos.

Prepara-se fica embaixo do chuveiro e o liga na maior tranquilidade da Terra.

Nessa hora ouve um pipoco acima da sua cabeça.

O chuveiro.

Queimou.

Seu coração, que está dando mais pinote que cavalo xucro, esquece de mandar sangue para as pernas e no segundo seguinte Você está estatelado no chão.

“Eu não acredito! Nada do que planejei aconteceu e agora não consigo nem tomar um banho quente?”

Começa a se levantar lentamente, completamente revoltado, pensando em  esquentar água.

Afinal, um banho era mais que necessário para ter uma boa noite de descanso.

É quando surge do profundo do seu ser a rebeldia que devia ter acordado logo cedo:

“Passei o dia me obrigando a trabalhar feito um condenado à morte, pensando em todas as coisas que deveria fazer e por que não poderia deixar de fazer. Queria só ficar por conta do à toa e trabalhei dentro dessa casa como há muito não fazia, agora você quer me obrigar a esquentar água para tomar banho.”

Absoluto silêncio.

Esse é o triste de conversar consigo mesmo.

A pessoa pergunta, pergunta e se vê obrigada a ter que elaborar a própria resposta:

“Eu não vou esquentar água pra banho de seu ninguém. E, sim, hoje, ao menos a essa hora do dia, vou fazer a minha vontade. Nesse frio com o chuveiro queimado, eu vou sim dormir sem tomar banho.”

E foi assim que Você se levantou tranquilamente do chão do boxe, escovou os dentes, vestiu o pijama e dormiu bonitinho, bem fedido, sem tomar banho!

 

E foi aprendendo tão rápido que quando vimos ele já conhecia todas as letras.

Um dia, estávamos sentados no chão.

Nós três.

Acima de nossas cabeças um quadro enorme com todas as letras do alfabeto.

Por cima de nós, em nossas pernas e colo, muitas, muitas letras plásticas coloridas.

Foi quando o Pai pegou a primeira letra do próprio nome e pergunto a ele:

“Filho, que letra é essa?”

E ele, sem o menor constrangimento, não pensou meio segundo para responder:

“Não faço a menor ideia!”

Rimos.

Rimos muito.

Não era tempo.

Sua pouca idade dava a ele o direito de simplesmente não saber.

Outra vez, perguntei a ele se sabia alguma coisa que agora não me lembro do que se trata. E ele, com a prontidão de sempre respondeu:

“Não sei ainda, mas eu vou aprender.”

“Claro” – falei satisfeita- “Você vai aprender isso e muito mais”.

O tempo passou e ele aprendeu o nome de cada uma das letras e, agora, no exato momento em que escrevo, está aprendendo a ajuntá-las, e que coisa linda!

Nenhuma placa, nenhum cartaz, nada nem ninguém passam por ele sem ser analisado, observado, lido.

Dia desses mostrei a ele a capa de um livro que estava escrito assim:

Você nasceu para isso.

E ele começou a ler, bem bonitinho.

Só que lá pelo meio do caminho acho que cansou ou ficou de saco cheio, sei lá.

Só sei que leu assim:

“Você nasceu parabéns!”

Leu um pedaço direitinho e o outro resolveu “adivinhar” vai que cola, né?

Daquela vez, não colou.

Mas, de vez em quando, deve dar certo.

Ele está desvendando o mundo das letras e todas as coisas que acontecem quando ajunta uma na outra.

As variações que elas fazem, os efeitos que sofrem.

E, a cada descoberta das inúmeras possibilidades, surpresa, admiração, contentamento.

E, hoje, quando perguntado que palavra é essa, ele responde em ritmo próprio, mas com a segurança cada vez maior.

 

 

 

 

Gosto muito do que é meu.

Sempre.

Meus pais são os mais bonitos e maravilhosos do mundo.

Meu irmão, o mais incrível e meu marido, o melhor de todos os homens.

Minha cunhada, a irmã mais querida que meu irmão poderia me dar.

Meu sobrinho e minha sogra, os melhores presentes que o mais maravilhoso dos homens poderia ter trazido com ele para a minha vida.

São?

Claro que são.

São os meus.

Meus amores, meu mundo.

São eles que estão comigo na hora da gargalhada e quando dos olhos escorrem o que o coração não pode segurar.

Pertencimento.

Lembro-me direitinho da alegria que senti por fazer parte, por pertencer a um grupo que iria fazer a diferença.

Estávamos nós, do Coral Jovem de Brasília, de passagem pela África do Sul, indo a Moçambique para construirmos uma igreja em uma comunidade carente.

Não sabíamos o que nos esperava, mas nosso coração estava repleto de expectativa e alegria.

No grupo, médicos, enfermeiros, dentistas, fisioterapeutas, professores, biomédicos. Todos voluntários querendo ajudar as pessoas e fazer a diferença, de alguma forma, em suas vidas enquanto paredes fossem  erguidas.

Estávamos reunidos conversando sobre o que sentíamos naquele momento e ali, bem ali, fiquei feliz em fazer parte.

A quem interessar possa, foi incrível tudo o que vivemos antes, durante e depois daquele dia.

Fazer parte, pertencer e ter alegria nisso, sinceramente, desejo a você também.

 

 

O ar entra, circula e sai. Até que um dia, por um motivo ou por outro deixa de fazer o caminho de sempre.

 

Semana passada disse tchau mais uma vez.

Uma pessoa que fez parte da minha vida por muito tempo.

Na comunidade em que vivíamos ela ocupava um papel de liderança, de destaque.

Em tudo  que acontecia, ela estava ali.

Voz potente, liderança marcante.

Não era próxima a mim, era próxima aos meus.

Mas, um dia, não sei por que, não sei para que, ela resolveu  que era hora de morar em outro lugar.

E foi.

Depois que saiu da comunidade que dividíamos, pouquíssimas vezes nos encontramos.

Sei dizer a última vez que a vi.

Parecia feliz.

Faz muito, muito tempo.

O fim veio rápido.

Inesperado.

Sem que ninguém quisesse.

Sem que ninguém nem sonhasse.

E, quando a hora do adeus chegou, a trouxeram de volta.

E, ali, na hora de darmos a ela o adeus, olhei em volta e vi a comunidade que eu, assim como ela, um dia deixei para trás.

Estavam todos ali: pessoas que me viram crescer, pessoas com as quais cresci, pessoas que vi crescer.

Olhei em volta e me deparei admirada com a minha história no rosto daquelas pessoas.

Professores, líderes, colegas, amigos, conhecidos de longa data, tios, primos…

Todos ali, reunidos em um mesmo lugar.

No lugar onde nos lembramos sem rodeios que o ar que está entrando e saindo agora pode sair e não voltar nunca mais.

E, enquanto os via, ia me lembrando de todas as coisas que vivemos juntos.

Com muitos deles vivi muitas, muitas coisas.

Com outros, poucas, passageiras.

Com alguns aprendi, viajei, sonhei, realizei, chorei, brinquei.

De outros fui madrinha de casamento.

De uma, quase fui daminha. Adoeci na semana.

E, depois de tudo que tinha vivido, resolvi me afastar.

Construí laços por perto, mas não tão perto a ponto de os antigos e novos se entrelaçassem.

Afastamento.

Opção.

Mas olhando todos ali, diante da finitude da vida, senti saudades.

Saudades de tudo que vivi com eles.

Saudades das coisas que poderíamos ter vivido se eu não tivesse optado por me afastar.

Vontade de voltar?

Melhor continuar de onde a gente está, enquanto o ar ainda entra, circula e sai.

 

 

 

 

 

Não adianta, uma coisa sempre será uma coisa e outra coisa pra sempre outra coisa.

 

“Uma coisa é uma coisa. Outra coisa é outra coisa.”

– Como assim?

“Não tem como misturar tudo. Tem coisa que é separada uma da outra e pronto.”

– Do que você está falando?

“Ué, que uma coisa é uma coisa e outra coisa é outra coisa.”

– Essa profundidade eu já compreendi. Já vi que hoje você amanheceu querendo filosofar. Só não entendi ainda o que, sobre o quê.

“É que o povo fica falando que uma coisa é outra coisa e que outra coisa é uma coisa, aí eu fico bravo.”

Respira fundo, estica a coluna:

– Você bebeu alguma coisa?

“Bebi sim.”

-Talvez isso explique. Bebeu o quê?

“Água.”

– E tinha o que nessa água?

“Ué, essas coisas que tem nessa água aí da geladeira.”

– Quer dizer que bebeu água pura?

“Foi.”

-Então tá, continue.

“Então, aquela Menina chegou aqui em casa hoje dizendo isso, eu quase morri.”

– Dizendo o quê?

“Que uma coisa é outra coisa e que outra coisa é uma coisa.”

-E você? Respondeu o que a ela?

“Que não! Que uma coisa é uma coisa e outra coisa é outra coisa.”

-Ela aceitou?

“Nada, ficou um tempão querendo me convencer de que eu estou errado, mas eu não deixei.”

A ideia de entender sobre o que Ele falava já não mais existia.

-Que bom que você é firme. Muito bem.

“No fim, foi embora convencida.”

Surgiu aí um lampejo de esperança em descobrir do que se tratava o assunto:

-Foi mesmo? Ela foi embora convencida do quê?

“De que água, essa água que sai da torneira é água e que gelo, aquele gelo que a gente coloca dentro do suco, é gelo e não tem nada a ver com água.”

– Mas gelo é – desistiu – gelo, né?

“É. Água é água e gelo é gelo. Uma coisa é uma coisa e outra coisa é outra coisa.”

Falou todo satisfeito por ter convencido mais uma sobre sua descoberta.

 

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