Bianca

Postado em: 8 de dezembro de 2011

Em 2007 tive uma filha.

Bianca o nome dela.

Não se assute, não é nada disso que você está pensando. 

Com ela eu ia contar para as pessoas o que via pela rua. Ela ia andar de ônibus, assalariada, estudante, doida pra passar em concurso público, patetinha, frequentadora de espetáculos “de grátis”. Assim, não precisa olhar muito de perto pra descobrir que essa moça era bem a minha cara.

Um dia, escrevi tudo o que eu queria mostrar dela, coloquei dentro de uma pastinha e fui na redação de O Coletivo.

Fui disposta a convencer o editor chefe do jornal que era uma ótima o leitor se ver no jornal.

Ele pegou meu texto disse que era legal mas que não tinha como implantar a ideia.

Na ocasião eu tinha baixa resistência a frustração. Com essa pancada na minha imunidade peguei minha pastinha e enterrei a mocinha.

Passou um tempão, nem sei quanto e  depois de muito tempo e mais ainda de insistência do Vítor coloquei a Bianca dentro de outra pastinha e levei para o editor do Na Hora.

Com ele falei várias vezes e o moço se mostrou interessado na “causa” mas também tinha algumas impossibilidades que não me pareceram assim tão intransponíveis, mas que foram, afinal, a pobre Bianca nunca mostrou sua carinha em canto algum.

Passou o tempo e ninguém mais falou nela, até ontem, quando meu agente literário, o mesmo moço que faz propaganda desse blog, me lembrou da moçoila.

Estava guardando a menina esses anos todos pra mostrar o material inédito que um dia escrevi, mas como agora tenho você não preciso guardá-la pra jornais.

Por isso, hoje inauguro a Categoria Bianca. Nela vou escrever tudo que vi no meio da rua de engraçado, que vivi, fantasiei e / ou presenciei.

Viajar é a palavra de ordem, mas como somos muito amigos, eu e você, quando tiver muito delírio ou pura verdade, eu te conto.

Esse texto que se segue é exatamente o mesmo que mostrei aos dois editores que apresentei minha filha. Espero que você goste:

Tem dia que a gente acorda com uma incrível vontade de gritar. O que? Isso é o que menos importa. Gritar qualquer coisa pra qualquer um, o que importa é gritar. O modelo do grito pode ser daquele dos meninos dando birra. Você já viu como eles se comportam? Aquele molequinho filho da sua amiga, que  ainda é  parcialmente banguelo, mal anda, mas dá birra como ninguém. Se ele tá no colo do pobre do pai e de um minuto pro outro se vê contrariado ele fica duro, joga o corpo pra trás e grita, grita com toda a força dos pulmões. O pai, com medo de ficar surdo, faz a vontade do garoto, e tudo se resolve.

Pois bem, eu amanheci desse jeito hoje: com vontade de gritar feito um menino birrento. Fui trabalhar, e tudo que eu via só aumentava minha vontade e minha irritação. Cheguei ao trabalho com a educação feito a de uma mocinha criada em colégio suiço: um primor. As meninas logo estranharam:

– Bianca, o que você tem hoje? Tá falando tão baixinho,  tão quieta.

– É vontade de gritar, tô louca pra dar uns gritos, então tô tentando falar baixinho, ficar quietinha, assim pra não dar vazão aos meus instintos.

 Elas riram e continuamos a trabalhar.

Quando saímos pro almoço eu tive uma idéia brilhante.

Passando pela plataforma superior da rodoviária, tinha um menino vendendo pilhas.

 – Oito pilha é só um real. Oito pilha é só um real.

 Ele parecia tão feliz. Gritava assim com toda a força dos pulmões e tava  sorrindo, um sorriso lindo, tranquilo. Parecia que não tinha qualquer problema, que tudo  ia embora no grito.

Quando tava voltando do almoço não resisti.

 – Oi tudo bem? Posso gritar um pouquinho pra você? –  Pedi com uma cara de coitada, assim quase mendigando.

 Ele me olhou assustado e perguntou:

 – O que dona?

– É isso mesmo, deixa eu gritar, só um pouquinho.

– Ué dona, quer gritar, grita. Mas eu não te pago nada!

 Você não pode imaginar a minha felicidade. Eu de salto alto, de blazer, saia justa, maquiada embaixo do sol da uma 1 hora da tarde gritando com toda a força dos meus pulmões:

 – Oito pilha é só um real! Olha aqui freguesa, pilha, pilha. Você tá precisando de pilha? Aqui é só um real!

 As pessoas passavam e me olhavam assustadas, alguns colegas vieram saber se estava tudo bem e acabaram levando “oito pilha por um real”.

Depois de meia hora, devolvi as pilhas para oEduardo, e voltei pro escritório suada, maquiagem derretida, despenteada e feliz da vida, leve como uma pluma, tendo matado minha vontade de gritar, com um amigo novo e ainda proposta de emprego:

– Olha dona Bianca, quando a senhora quiser pode voltar, viu? Se quiser vir amanhã no mesmo horário vou tá aqui. – Disse ele com o sorriso mais lindo que eu já vi, na certeza de que fez um bom negócio.

Não resisti, tive que dar uma mexidinha no texto, só de leve. Mas tá sinalizado.

Beijos pra vc que me visita.

Vivian.

 

3 Responses to "Bianca"

Essa Bianca tá a sua cara…

kkkk
Qq semelhança é mera coincidência.

por onde anda a Bianca?

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