Vila Feliz

Postado em: 1 de junho de 2012

Era uma vila com casinhas muito lindas.

Umas maiores, outras menores. Algumas tinham carros na garagem, outras não. Alguns carros eram muito, muito caros e bonitos. Outros simples. Os bonitões estavam sempre limpos e brilhando, já os simples alguns eram arrumadinhos, outros esculhambadinhos.

As casas da vila estavam distribuídas em um grande gramado. Gramado lindo, bem cuidado, verdinho sempre. Sempre mesmo, até em julho no auge da seca do cerrado o gramado era verde. Algumas vezes apareciam uns queimados aqui e acolá, mas nada que comprometesse a beleza do todo.

Os habitantes da vila viviam felizes.

Felizes assim né, uma hora mais outra menos. De vez em quando as representantes do sexo feminino tinham suas TPMs normais. O difícil era quando várias habitantes de uma mesma casa tinham a tal TPEMICA juntas. Mas aí é outro drama.

Quando havia alguma festa na praça a alegria era geral. As pessoas até se esqueciam por um momento de uma coisinha ou outra que amarelava o gramado e curtiam, curtiam muito.

Na maior parte do tempo a vida era tranquila e feliz a não ser…

Toda primeira noite de lua cheia tinha uma grande cerimônia na vila.

Não importava se  o céu estava limpo, se a lua estava espiando ou completamente desaparecida. Não fazia diferença se chovia ou fazia frio. Toda primeira noite de lua cheia as pessoas se reuniam em uma grande fila.

Em um canto da vila existia uma tenda. Toda fechada onde ninguém conseguia entrar. Essa tenda ficava iluminada somente na primeira noite de lua cheia de cada mês.

Assim que as pessoas viam que as luzes da tal tenda estavam acessas elas corriam formandoa fila.

A corrida era desabalada. Todos queriam ocupar os primeiros lugares. E todos, dos mais velhos aos mais novos, dos mais endinheirados aos menos afortunados, todos entravam na fila.

Apesar de grande a tenda tinha só uma abertura na frente. Era uma abertura tão pequena que dava para passar apenas um envelope. Cabiam envelopes bem cheios, mas apenas envelopes.

E todos os meses era a mesma história: as pessoas viam as luzes acessas, entravam na fila e pegavam seus envelopes. Alguns saiam olhando pra eles e sorrindo, outros olhavam e choravam. Ainda outros tentavam mostrar indiferença, mas poucos conseguiam.

Até que um dia…

A tenda desapareceu.

O primeiro a notar sua ausência ficou logo desesperado e deu o alarme:

A tenda que fica iluminada desapareceu!

Como assim?

As pessoas se perguntavam e olhando umas para as outras tentavam adivinhar o que aconteceria dalí pra frente.

O que faremos sem a tenda?

O que será de nós?

Até que pode se ouvir o mais otimista de todos:

Faltam ainda três noites para a primeira de lua cheia. Vamos esperar, ela vai aparecer no mesmo lugar de sempre.

E assim foi.

E assim foi a espera, por que o reaparecimento mesmo que é bom não aconteceu. Cada uma das noites começou e terminou, a lua se tornou cheia e a tenda não ressurgiu.

E agora?

O caos se instalou em definitivo na vila, todos até então felizes, contentes, radiantes e sorridentes não sabiam como seria a vida dali pra frente sem a entrega dos envelopes.

Até que surge uma outra notícia:

Joãozinho se mudou.

Pra onde?

A vila vizinha.

Mas por que ele fez isso?

Lá tem uma tenda maior que fica iluminada a cada troca de lua!

Cada troca?

É!

Mas eu nunca quero me mudar da Vila Feliz. Aqui é tão bom, as pessoas tão amigas. Gosto tanto de viver por aqui!

Mas e a tenda? Como você vai viver sem ela?

Não sei. Ainda to pensando no que fazer?

E você vai ficar aí pensando por quanto tempo?

Não sei… Pensando bem, como faz pra mudar pra lá?

Tem que esperar ter lugar em uma das casas. Ele disse que na dele tem um lugar desocupado e to indo pra embora hoje mesmo.

Vou sentir tanto sua falta… Mas quando tiver outra você me avisa?

Claro! Aviso sim. Deixa eu anotar seu telefone.

Será que não vale a pena esperar pela volta da nossa tenda?

E se ela nunca voltar? É preciso tomar uma atitude.

É verdade! Chegou a hora de tomar uma atitude, antes que a atitude que outros tomaram passe a tomar conta da gente!

 

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