Ministério Público do Amapá

Postado em: 29 de julho de 2013

Esse telefone não para de tocar.

Tudo que eu mais queria era poder terminar ao menos 100 da mil e uma coisas que tenho de fazer antes do sol nos dar tchau.

É simplesmente incrível, parece que todo o universo adivinha quando o chefe viaja e todos ao mesmo tempo resolvem entrar em contato. Todos por telefone. E ele também, o abençoado. Liga o tempo todo, todo o tempo.

Será que é coisa típica de chefe mesmo? Ele deixou tudo dito na sexta-feira, já ligou pra repetir cada uma das coisas me pediu pra fazer e agora liga a cada pouco perguntando e dando novas informações. Com um detalhe pra essa terceira etapa: Ele fala, a cada telefonema, de uma tarefa diferente. De cada uma um pequeno detalhe. Isso já tá se transformando em uma tortura.

“Olou! Eu sei que é você chefe. Sei. Não, já enviei. Já chegou. To terminando. Eu sei chefe, sei que você ama. Mas faz assim: Liga só de hora em hora, de 5 em 5 minutos eu não consigo trabalhar tá amor? Claro que quero. Ao leite e crocante. Mas promete pra mim? Que não vai me ligar mais na próxima hora? Obrigada! Te amo. Tchau.

Minha nossa senhora dos chefes agoniados, esse veio melhor que a encomenda. Minha sorte que tirando o desespero dele o cidadão é gente boa. Gente boa,  mas duvido que ele vai conseguir ficar uma hora inteira sem me telefonar.

Não acredito! Outra vez? Ligação interna, não vou atender.

“Bianca! Por que você não atende ao telefone?”

“Amiguinha, eu atendendo, mas é que hoje ele tá tocando tanto que não to dando conta. Aí resolvi ser seletiva. Como era da recepção deixei tocar.”

“A Carla vai telefonar de novo e faz favor: Atende. A mulher tá desesperada pra falar com você.”

“Tá bom, sacolé de jiló, eu vou atender.”

Antes que a emissária do desespero tivesse fechado a porta o telefone grita novamente.

“Oi Carla, diga anja de asas o que você manda?”

“Vem aqui pegar uma encomenda pra você, mas vem agora.”

“Ooo Carlota Joaquina, recebe essa encomenda pra mim, por favor. Eu to tão cheia de serviço que nem fiz xixi depois que cheguei aqui. Recebe pra mim que na hora do almoço, se eu conseguir ter esse privilégio, passo aí e pego.”

Quase não consegui terminar de falar tamanho era o desespero do outro lado da linha:

“Você não tá entendo, o cara que trouxe a encomenda disse que só entrega na sua mão. Vem logo, vem agora.”

“Misericórdia! To indo.”

Se esse cara tá tão deseperado vou deixar que descanse um pouco naquele sofá confortável. Só vou quando enviar esse e-mail ou daqui a pouco meu santo chefe liga novamente.

O telefone.

“Bianca. Carla! Você tá me telefonando do seu celular?! Misericórdia! To indo.”

Deve ser um comunicado de que foi descoberta a fonte da juventude! Só pode, ou quem sabe uma mina inesgotável de chocolate ali no outro corredor, pra esse povo tá com esse desespero todo.

“Oi Carlinha. Cadê o moço?”

” Oi. Você é a Senhorita Bianca?”

” Sim. Sou eu tão ilustre figura. Pois não.”

” Assina pra mim por favor?”

“Mas o que to recebendo mesmo? ”

“Essas rosas senhorita. Essas rosas são pra você.”

Levei um susto tão grande que olhei pra cara do rapaz e sem qualquer tipo de disfarce disparei:

“Eu que já nem queria ter levantado minha santa bundinha pra vir até aqui e agora você fala que essas flores são pra mim? Conta outra gatinho.”

“Seu nome não é Bianca?”

“É sim, eu sou a Bianca, mas tem outra Bianca no Financeiro e também devem ter outras por esse andar, em outras empresas.”

“Bianca Alves Zanandréia? Será que tem outra com o sobrenome Zanandréia na empresa?”

Como minha cara de espanto não passava eu resolvi substitui-la pela de pau:

“Aaa não sei. Mas é que essas flores não são pra mim. Certeza. Não tenho ninguém pra me mandar flores não minha gente.”

Foi nessa hora, em que eu já estava quase pra colocar o rapaz pra fora com flores e tudo que o povo resolveu intervir:

“Bianca! Pára de charme. Não tá vendo que não tem jeito? As flores são pra você. Assina logo esse papel, libera o rapaz e lê esse cartão de uma vez.”

“Não, assim. É que moço, se você tá entregando essas flores pra pessoa errada depois vai dar problema pra você. Já pensou? Você ter que pagar essas orquídeas? E que orquídeas lindas! É, por que eu to te falando, essas flores não são pra mim, mas se você sair por aquela porta e descobrir que eu sou a Bianca errada, não to nem aí, não te devolvo nem a pau e…

” Biancaaaa! Larga mão de ser nojenta. Assina logo. Coitado do rapaz. Liga não moço, ela é doida mesmo. Toma seu papel vai com Deus.”

Depois de ter riscado qualquer coisa no papel o pobre rapaz se afastou assustado.

A essa altura eu tava começando a acreditar que as flores poderiam ser pra mim, só não conseguia enchergar quem tinha sido o remetente. Tava tão encantada que já não lembrava das mil coisas que tinha pra fazer nem do telefone que podia estar se esguelando.

Foi quando vi a Carla sacudindo o cartão na minha frente:

“Abre Bianca. Abre, abre logo.

Eu peguei o envelopinho amarelo e fiquei:

“Gente, o envelope é amarelo pra combinar com as flores. Adoro essas orquídeas, eu e minha irmã falávamos que eram as orquídeas girafas, por conta dessas manchinhas. Como é linda! Agora, quem será que me mandou?

A Carla tava pra ter um ataque. Ela se abanava, bebia água e parecia que tava na presença de uma celebridade de tanta agonia:

“São Sapatinho! Como pode ser tão sangue de barata desse jeito?! Abre o envelope e descobre de uma vez!”

“É que não tenho nem ideia de quem possa ser. De verdade o que eu falei pro moço não f

Quando ia começar de novo a ladainha a Carla tomou o envelope amarelo da minha mão e leu:

“Bianca querida, espero que essas flores deixem seu dia mais feliz.

Beijos,

MPA.”

“MPA? Quem é esse?”

A Carla querendo saber de quem se tratava e eu perguntando.

“Ministério Público do Amapá. Só pode né Bianca.

“Ai ai ai, minha nossa senhora das mulheres sem paquera. Deixa eu voltar pro trabalho. Que fique bem claro meu povo: Não faço nem ideia de quem possa ser esse cidadão. Mas vou pensar quem em um nome diferente de Ministério Público do Amapá pra ver se descubro que é.”

Voltei pra minha mesa pensando : quem será? Quem será?

Acontece que o serviço é tanto que não dava tempo de pensar. Mas falando sério agora que to acostumando com essas flores aqui: Quem será que me mandou isso? To aqui pensando em todo mundo que já falei que sou apaixonada por essas orquídeias mas não to vendo ninguém que possa ser… Aaa não importa. To tão feliz que tem alguém me querendo feliz que já to satisfeita.

O telefone gritando:

“Oi chefe. É mesmo. Você ficou uma hora inteira sem ligar. Que coisa mais linda de se ver. Tá de parabéns! Claro. Tá tudo “ficando pronto”o mais rápido que minha velocidade lebre falante consegue aprontar as coisas. Mas tenho uma novidade pra você: Acredita que recebi flores?”

Contei pra ele e continuei a lida.

E agora to aqui esperando que o MPA se revele. Por que não é possível. Não tem como não ter cenas dos próximos capítulos.

Bianca.

1 Response to "Ministério Público do Amapá"

E aí amiga já descobriu quem é?

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