Orquídeas

Postado em: 10 de maio de 2015

– Boa noite, senhor.

– Boa noite. Tenho uma reserva para dois. Está em nome de Marcos Paulo. Você pode, por gentileza, guardar para mim? No momento indicado te peço e você leva até a mesa?

Ele entregou ao garçom um vaso pequenino com uma orquídea muito delicada.

– Claro. Me acompanhe por favor.

Eles atravessaram o salão enquanto o moço atrasado se ajeitava e tentava achar sua convidada. Deu tempo de arrumar os cabelos e tirar toda a poeira imaginário do paletó. Ele está totalmente alinhado quando chegam até a mesa onde Bianca já cansada espera.

– Olá Bianca. Me desculpe o atraso. Por favor, me desculpe. Tive uma reunião interminável. Quando consegui sair peguei um engarrafamento que não tinha explicação.

Enquanto se desculpa ele dá um beijo leve e displicente no rosto de Bianca, como se aquilo fosse uma atitude corriqueira.

“Ela está muito mais bonita que o normal. O perfume é maravilhoso e que decote!”

– Oi Marcos Paulo. Tudo bem. Eu já estava pensando em ir embora. Mas que bom você ter chegado.

“Misericórdia! Ele hoje está demais. Miserável, me fez esperar bem mais que eu gostaria, agora chega com essa desculpa esfarrapada e eu me derreto.”

– Me desculpe, Bianca. De verdade, me desculpe. Não costumo me atrasar, mas desta vez foi uma sucessão de contra tempos.

“Já desculpei criatura! Relaxa. Nem to mais lembrando que estou te esperando há quase uma hora.”

– Compreendo. Essas coisas acontecem.

“Ela sorriu e aceitou meu beijo. Acho que me redimi.”

– Muitíssimo obrigado. Prometo nunca mais deixá-la esperando. Mais uma vez, aceite minhas desculpas.

“Nunca mais me deixar esperando? Teremos mais encontros?”

– Claro. Por hoje passa. Mas se um dia acontecer de nos encontrarmos novamente, por favor, não se atrase. Detesto esperar.

“Ela quer sair comigo outras vezes! O atraso já foi esquecido!”

– Prometido. Palavra de honra.

“Ele prometeu! Ai meu Pai, me segura ou caio dessa nuvem!”

– Agora sim, podemos conversar.

“Certeza, fui perdoado!”

– Fiquei muito feliz por você ter aceitado meu convite.

“Como não aceitaria? Será que ele não se lembra como fez esse convite? Tinha como recusar?”

– Sério? Mas como poderia ser diferente? A maneira que você fez o convite o tornou irrecusável!

Ele sorriu, olhou em volta, chegou mais perto e sussurrou:

– Você gostou mesmo?

Ela colocou no rosto seu melhor sorriso e sem tentar disfarçar disparou:

– Foi encantador!

– Me conta: o que fez esse convite ser especialmente encantador?

Bianca sorriu, ajeitou o cabelo, a roupa…

– Assim, eu cheguei aqui tem mais de uma hora. Bebi um copo d’água enquanto te esperava e foi só. Será que tem como comermos enquanto conversamos?

“Não acredito que eu disse isso! Ai meu pai. Por que sou tão indiscreta, tão direta? Aaa Bianca! Você me paga. Vou te deixar uma semana com fome!”

– Minha querida! Estou tão distraído que me esqueci o que de fato viemos fazer aqui. Garçom!

O pedido foi feito. Chegou a entrada e enquanto esperavam o prato principal o assunto voltou:

– Me explica agora?

– Explicar… Aaa claro! O motivo pelo qual seu convite se tornou irresistível!

“Não posso deixar que ele pense que sou uma bocó empolgada. Tenho que contar tudo como se receber flores e convites pra jantar fossem as coisas mais naturais do mundo pra mim. Naturalidade. Naturalidade.”

– Então Marcos, você há de concordar que não é todo dia que se começa a receber flores assim do nada, aliás, flores não, orquídeas. Você recebe, fica feliz mas não faz ideia, não tem noção de onde elas estão surgindo. Você tem irmãs?

– Não. Não tenho irmãs. Por que?

– Porque se tivesse irmãs talvez entendesse com mais proximidade como funciona a cabeça de uma mulher quando está recebendo esses mimos de um desconhecido.

– Me conta! Como funciona?

– Aaa não! Hoje não. Nunca estivemos sentados pra conversar. Se eu te conto logo como funciona essa criatura aqui em especial é capaz de você sair correndo.

– Bianca, Bianca. Você não me conhece. Não sabe há quanto tempo tenho te observado. Com quantas pessoas tive que conversar durante meses pra poder chegar até aqui. Não é você me contando como funciona sua cabeça que vai me fazer sair correndo, tenha certeza disso.

“Ai meu pai! Desse jeito eu apaixono! Esse moço é demais e o tanto que está cheiroso?”

– Tá bom que você não vai sair correndo, mesmo assim não vou te contar! Só te digo que mimos são sempre muito bem vindos. Mas me conta você: Se conversou assim com tantas pessoas pra saber de mim não tinha olheiros lá no escritório?

– Claro que não, Bianca! Claro que não. Continue, continue. Qual o motivo que tornou o convite irresistível?

– Foram 15 orquídeas em 03 meses. Eu estava padecendo de curiosidade. Todos os homens que passavam por mim eram o Ministério Público do Amapá em potencial. Antes que você me pergunte, esse passou a ser seu codinome. Cada homem que sorria pra mim no elevador, que chegava ao escritório pra resolver alguma coisa, todos poderiam ser. No fim, eu já estava pensando em chamar o rapaz da floricultura pra jantar.

– Ministério Público do Amapá? Vou passar mal de rir. Como você é criativa! Mas o rapaz da floricultura é meu amigo, ele nunca iria aceitar o seu convite pra sair.

– Aaa pois ele estava sendo meu principal suspeito. Era sempre o mesmo menino. Bonitinho ele, sabia? Já existia uma banca de apostas e a cada nova orquídea era uma nova rodada de lances.

– Alguém ganhou?

– Acredita que ninguém acertou, menino?

– Quando você chegou aquele dia com aquela que foi a mais linda de todas as orquídeas e pediu pra falar comigo os apostadores todos ficaram desalentados. Ninguém imaginou que seria você.

– Por que não poderia ser eu?

– Claro que podia ser você, tanto que é, mas ninguém te conhecia pra poder apostar no seu nome.

– Ai você chega todo bonitão, perfumado e manda me chamar. Eu vou correndo como sempre, tirando a caneta do cabelo e quando dou de cara com você, escuto: “Bianca, muito prazer, eu sou o Marcos Paulo. Sou eu que te envio as orquídeas. Será que pode jantar comigo amanhã?” Eu quase desmontei. Foi por pouco que não caí ali na sua frente.

– E o que tem esse pedido de tão especial?

– Não sei. Olhando agora que to vendo que você não fez nada de mais né? Mas acho que foi a surpresa de saber que você era você.

–  Que isso, Bianca. Você nunca tinha me visto na banca de jornais na hora do café?

– Já tinha visto, mas nunca imaginei que pudesse.

A comida chegou, Bianca e Marcos jantaram tranquilamente. Se olharam, conversaram, confidenciaram segredos e descobertas, divertiram-se.

Quando estavam se preparando para ir embora Marcos fez um sinal para o garçom que trouxe um vaso com a mais delicada de todas as orquídeas e um cartão em branco. Sob o olhar admirado de Bianca ele escreveu o cartão, colocou no envelope e entregou a ela sorrindo.

Com um sorriso ela leu:

“Bianca, Seu olhar me encanta desde a primeira vez, aquela em que você me revelou falar sozinha. Adorei passar esses três meses tentando descobrir quem você é. Adorei te encantar com as orquídeas e cartões. Hoje adorei me encantar com seu sorriso e seu papo leve e gostoso. Obrigada pela noite maravilhosa. Meu desejo é renovar meu encanto pelo seu olhar  e seu sorriso todos os dias. Sim, isso é uma proposta.”

Bianca levantou os olhos e sorriu.

Nunca antes foi ouvido, no silêncio de um olhar, um sim tão melodioso.

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