Gelo derretido

Postado em: 8 de maio de 2015

–  A senhora deseja realizar o pedido agora?

–  Ainda não. Estou esperando um amigo para o jantar. Obrigada.

–  Deseja mais água?

–  Não,muito obrigada. Essa será suficiente.

–  Fique à vontade. Me chamo Osvaldo, estou à sua disposição. Com a sua licença.

–  Muito obrigada, Osvaldo.

“Ai Osvaldo, se você soubesse… Essa água é minha ampulheta. Já passa das 20h, o amigo em questão está atrasado 5 minutos, se a água acabar vou entender que ganhei um bolo.”

O trânsito naquele horário não deveria estar tão pesado. Passava das 20h e o caminho parecia ter-se alongado. Todos os sinais estavam vermelhos, todas as faixas tinham pedestres atravessando, aos milhares. Ambulâncias, carros dos bombeiros, tudo e todos que tinham preferência resolveram mover-se na mesma direção que  ele. Já estava atrasado e ninguém cooperava para que chegasse logo ao lugar do encontro.

“Vamos minha gente! A Bianca já deve estar me esperando. Bora meu povo, ajuda aí!”

Por mais que ele gritasse e esbravejasse o trânsito continuava irritantemente lento. Não aparecia nada nem ninguém que tirasse todos os carros de seus lugares e abrisse uma avenida sem qualquer obstáculos para que ele pudesse correr. Muito menos um super herói pra tirar o carro do chão e o estacionar na porta do restaurante.  Tudo permanecia na mais imperfeita lentidão.

“Se ela não estiver mais lá quando eu chegar nunca vou me perdoar por ter saído tarde do escritório! Maldita reunião interminável. Eu deveria ter saído no meio, largado tudo e ido direto pra casa. Espera Bianca, estou chegando.”

O sinal ficou vermelho mais uma vez sem que ele andasse sequer um metro.

” Lembro perfeitamente a primeira vez que a vi. Era meu primeiro dia após um período de seis meses no Canadá. Depois de trabalhar tanto tempo longe de casa  tudo que eu queria era retomar minha rotina e aproveitar o sol da minha terra.

Cheguei cedo e fui tomar café da manhã na banca de jornais da esquina, como sempre fizera. Enquanto bebia o mais delicioso suco de laranjas do mundo a vi sorrindo.

Ela estava comendo um pão de queijo como se fosse uma rara iguaria. Enquanto mastigava devagar lia a capa de uma revista de fofoca. Estava tão concentrada que por um instante pensei que lia um artigo científico ou algo que pudesse mudar o destino da humanidade.

Rapidamente consegui olhar tudo. Também, ela é desse tamanhinho, dá pra ver toda a moça com uma olhada instantânea. Cabelo curto e escuro. Seios pequenos, barriga lisa e bumbum empinado. Enquanto fazia a avaliação formal ela acabou de comer e começou a amassar o papel. Distraída pareceu ter lido algo muito interessante. Sorriu.

Enquanto eu admirava seu sorriso, ela começou a falar. Procurei algum fone ou algo que indicasse que ela estava falando ao celular. Rapidamente descobri que a moça estava falando sozinha. Me assustei. De louco basta eu. Já ia virando o rosto quando nossos olhares se encontraram.

Ela sorriu e disparou: ” Repara não, eu falo sozinha. O tempo todo.”

Antes que eu pudesse dizer qualquer coisa ela se virou e saiu rapidamente.

Fique ali parado imaginando quem seria aquela mulher que confessava tão naturalmente a um desconhecido falar sozinha o tempo todo.

Eu precisava descobrir.

Agora, depois de seis meses investigando, escrevendo cartões, mandando flores e tentando me fazer notar, finalmente eu iria descobrir quem era a Bianca.

Isso é, se eu conseguisse estacionar. Consegui chegar, agora só falta uma vaga pra deixar esse carro. Uma vaga!!!”

–  Pois não, senhora.

–  Osvaldo, to achando que meu amigo se perdeu no caminho. Quanto devo pela água?

–  Imagina. Não deve nada, senhora.

– Então muito obrigada por tamanha gentileza. Já vou indo.

– Senhora, com a sua licença, algumas das principais vias de acesso estão interditadas devido às reformas de ampliação, o cavalheiro que a senhora espera pode estar atrasado por esse motivo.

– É uma possibilidade. Vou terminar esse gelo derretido.

– Com a sua licença.

“Juro por todos os meus sapatos que se ele não chegar em 5 minutos eu vou embora!”

Nesse instante, a porta se abre.

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