Arquivos de julho 2017


Passei os últimos dias bordando corações.

Pequenininhos, singelos.

Um quadradinho na base, três logo acima. Depois uma fileira com cinco quadradinhos seguida por duas de sete. Por fim, dois quadradinhos a partir do segundo da última fileira, pulo um, faço mais dois.

Pronto!

Fiquei pensando até em abrir um empreendimento:

“Faço corações sob encomenda.”

A pessoa me encomendaria o que queria ter no coração e, enquanto a linha vermelha ia e vinha nesses poucos pontos, eu ia colocando dentro deles tudo que havia sido encomendado.

Já pensou?

Nesse pequenininho, caberiam poucas coisas, afinal são apenas 27 pontos e, como cabe apenas uma coisa em cada ponto…

Mas eu poderia fazer corações maiores…

Grandes quadros, almofadas, peças gigantescas onde, em cada uma das cruzadinhas do ponto chamado cruz, poderia colocar uma coisinha que faria a completa diferença na vida de quem o recebesse.

Imagine você!

Eu ia ficar rica, milionária!

Aí, Você que, não vê o próprio umbigo e enxerga com lente de aumento os defeitos que não são seus, começa imediatamente a pensar assim:

“Aaa se você realmente abrisse esse empreendimento e o que colocasse em cada um dos pontos passasse a fazer parte da pessoa que recebesse o coração, eu encomendaria um para Fulano. Ele precisa

tanto de um coração que tenha mais amor, mais compaixão, mais…”

Não!!!

Para, velho!

Deixa a vida dos outros quieta!

Como você é futriqueiro.

Olhe pra você.

Vasculhe o seu coraçãozinho e veja se ele precisa de reforma.

Vai ver está tão detonado que reforma não vai adiantar.

Tem de ter outro mesmo!

Difícil de admitir, né?

Também acho.

Mas, às vezes, se faz necessário.

Pensa aí e me conta: será que eu teria sucesso no meu empreendimento?

Será que, se eu fizesse corações onde conseguisse colocar todos os sentimentos bons que as pessoas precisam gostariam de ter, eu alcançaria êxito?

Talvez eu não saiba como fazê-lo, mas quem inspirou o nome do ponto tem a resposta, pode acreditar!

Existem várias maneiras de tirarmos o nosso da reta, nos eximir da responsabilidade, fazer de conta de que a história não nos diz respeito.

Mas isso é feio, muito feio.

Então, para corrermos e ficarmos bem na fita, falamos assim:

“Caso precise de alguma coisa, qualquer coisa ligue pra mim.”

Pronto – pensamos – já me coloquei à disposição. Ele agora sabe que estou aqui para o que der e vier.

Falamos isso, viramos as costas e vamos ao shopping aproveitar “aquela” promoção.

E, quando, meses depois, encontramos um amigo em comum…

“Tem visto Fulano?”

– Vi só aquele dia, na despedida. Falei pra ele que se precisasse de alguma coisa era só me telefonar, mas meu telefone nunca tocou.

Como assim, cidadão?

Seu amigo sofrendo luto, desemprego, abandono, doença e você simplesmente se coloca á disposição?

Algumas pessoas acham que se baterem à porta do amigo sofredor com uma panela de sopa e forem fazendo o que for preciso em sua casa é invasão.

Pensam que chegar sem ser chamado e fazer sem ser solicitado é violentar a individualidade da pessoa.

Talvez quem pense assim tenha razão.

Mas pode chegar com a panela de sopa em uma noite fria e levar seu abraço, seu ouvido, seu conforto, seu silêncio.

Chegar sem ser chamado e, mesmo assim, não invadir.

Mostrar àquele que não te chamou que, mesmo sem ser convidado, você, o amigo, preocupa-se de fato. Está presente de verdade para tudo, inclusive nada.

Fazer mesmo sem esperar uma solicitação formal com dia e hora marcados para execução.

Abandone o “telefone caso precise” e telefone você, vá atrás você, pois quem precisa de carinho e atenção nesse momento é aquele que sofre e não o possível consolador.
 

 

Difícil demais ter que esperar.

Difícil demais ter que ouvir apenas o silêncio.

“O que eu posso fazer?”

“O que eu devo fazer?”

“Como eu posso acelerar?”

E não há o que fazer, apenas esperar.

Você pode pensar em outra coisa, sair para correr, patinar, pedalar.

Trabalhar em qualquer outro projeto.

Comer, dormir ou viajar, mas, sobre aquele determinado assunto que tanto tira sua paz, a única coisa que deve fazer é esperar.

“Mas eu não dou conta! Vou enlouquecer.”

Esperar nunca enlouqueceu ninguém.

Não há registros na história.

Não que eu saiba.

Esperar ouvindo o silêncio de quem tem o poder de decisão pode até ser desesperador, mas te garanto: não enlouquecedor.

Cada vez que se lembrar do motivo de sua ansiedade, respire, tome água, faça um chá.

Pense em outra coisa e espere.

Não há silêncio que dure para sempre, não há espera que seja eterna.

Um dia, exatamente naquele dia em que não há qualquer expectativa, o silêncio termina e você ouve todas as respostas que sempre desejou.

“Um dia? Mas quando?”

Não se sabe.

Todos, em algum momento, simplesmente não ouviram nada.

Chegou a sua vez.

Relaxe e curta o silêncio, pois até ele tem seus encantos.

Não pergunte quando ele findará, apenas acredite que um dia acabará.

Pois ele sempre tem fim.

 

E um belo dia, você descobre que o papel higiênico não brota ao lado do vaso.
Descobre que a cama não tem “função auto estudante ” nem as roupas auto lavagem e passagem.
Descobre que as contas, se não forem pegas e pagas, sequer saem do escaninho.
Descobre enfim que, para tudo, absolutamente tudo acontecer, é preciso que alguém vá lá e faça…
E antes dessa tão grandiosa descoberta? Como a vida acontecera até ali?
As roupas abandonadas no banheiro eram vistas, a próxima vez, limpas, cheirosas e passadas dentro do guarda-roupa.
O quarto que, ficava para trás todas as manhãs como se um furacão por ali houvesse passado, era encontrado em forma de paraíso já no meio do dia.
E agora…
A comida que nem sequer sabia como tinha ido parar na cozinha aparecia em seu prato assim que o estômago roncava.
Agora, cada vez que vai ao banheiro, tem de conferir se há papel, ou então, caminhar até a área de serviço, pegar o guerreiro.
Ainda no banheiro, caso esqueça a toalha, terá de sair molhando a casa inteira atrás de um paninho.
Enfim, tudo, tudo mesmo ao seu redor, a partir de agora, depende do seu próprio motor! Não adianta querer terceirizar, chegou a sua vez de atuar.
Só há uma fonte de energia que fará a vida girar: a sua própria!
Por isso, não deixe nada jogado, enrolado, não pago ou para amanhã. Afinal, tudo que jogar, enrolar, não pagar ou abandonar assim ficará.
 Bem vindo ao mundo real, ao mundo onde você e só você é o dono do motor!

 

Ele tocava antes do sol.

Não eram todos os dias, mas, quando precisava percorrer grandes distâncias e chegar junto com o astro rei ao seu lugar de destino, era assim que acontecia.

Ele ouviu a musiquinha irrequieta e insistente.

Foi a última vez.

Levantou a tempo de cumprir todas as atividades matinais antes que seu amigo chegasse.

Aquele ritual tão particular que cada um tem o seu, mas todos fazem basicamente as mesmas coisas: banheiro, cozinha, guarda-roupa, celular…

Cumpriu tudo e, quando o amigo motorista avisou que já estava chegando, juntou suas coisas e saiu todo arrumado, perfumado, bonitão.

Foi a última vez.

No carro conversou, contou piada, ouviu os planos para a próxima semana do seu amigo, contou os seus.

Falou dos filhos, da namorada, das férias que já estavam agendadas e completamente programadas, das contas pagas, cursos que estavam prestes a ser concluídos.

Dois segundos depois da hora fechada, enviou mensagem a um amigo, marcando um compromisso para o dia seguinte, quando estaria de volta à cidade.

Lá fora o vento cantava uma sinfonia digna do inverno no cerrado: alta, potente, quase ensurdecedora. Ainda tinha muita estrada pra rodar, faltava muito para o sol chegar. Ele resolveu reclinar, cochilar, dormir um pouco.

Foi a última vez.

O motorista virou piloto e que já era tempo da máquina que controlava dar tudo de si, por isso acelerou, acelerou, acelerou…

Mas o vento quis participar e tirou do chão quem sabia aonde chegar.

Girou, rodou, bateu, parou.

Um desmontou, quebrou.

O outro não mais acordou.

Foi a última vez.

 

 

E então? O Senhor foi lá?

Você não esqueceu mesmo do pedido, hein?

Claro que não!

Fui sim.

E aí?

Você me pediu que desse um susto nele mês passado, não foi?

Foi sim. E aí?

Deixei passar um mês, como o solicitado e hoje cedinho fui ao seu encontro.

Chegando ao quarto Ele não estava.

E olha que cheguei cedinho e estava um frio terrível. Mesmo assim a cama já estava arrumada e não havia ninguém em casa.

Passei pela cozinha vazia e, para minha surpresa, só havia comida saudável. Nada de massas, doces, bebida alcoólica ou produtos a serem fritos. A fruteira estava cheia e na geladeira, a única bebida que tinha era água.

Fiquei por ali e já estava para ir procurar em algum outro lugar quando ouvi o barulho na porta, esperei que a pessoa entrasse. Era Ele.

Todo suado estava vindo da corrida:

“Hoje foram meus primeiros oito quilômetros. Nunca senti tanto orgulho de mim mesmo. Nem parece que comecei só há um mês! Já perdi dez quilos e consigo correr sem dificuldade.”

Ele começou a se dirigir ao banheiro e continuou falando com alguém que eu não consegui ver:

“Também comemoro o primeiro mês sem cigarro, refrigerante, doce e cerveja. Nunca fui tão leve, tão feliz. Alguns dias, sinto vontade de esganar um, matar e morrer, mas aí paro e penso em quem eu era, quem eu sou e em quem eu quero me tornar. Penso, reflito e bebo água, como uma fruta e continuo. Não posso andar para trás, a meia maratona para a qual me inscrevi está chegando!
Bendita a hora que resolvi mudar!”
Ele continuou falando, mas eu fui embora. Não tinha motivo para eu continuar ali. Ele agora é outra pessoa.

Está visivelmente mais saudável e feliz. Já mudou, não merece passar um susto.

Preciso ir bem ali, um coração sofrido vai passar por um infarto.

E eu fiquei parada e sozinha, pensando feliz que as pessoas inteligentes ao serem advertidas atendem seus amigos, não precisam sofrer com esse ou aquele problema para se cuidarem ou mudar, basta alguém chegar e advertir.

 

Eu a vi de longe.

Não, eu o vi de longe.

Seus cabelos.

Compridos estavam ao sabor do vento.

Ela estava sentada sobre uma plataforma, cabeça baixa, olhos fixos em um livro.

Mas de longe vi apenas seus cabelos.

Eu os vi e fiquei torcendo para que o sinal que ditaria se eu iria parar ou continuar me ordenasse que ali parasse.

Precisava ver quem era a dona daquela moldura que se movia ao sabor da natureza.

Quem deixava, naquele fim de manhã ensolarado, que seus cabelos ficassem assim tão livremente ao sabor do vento?

Para minha sorte, enquanto me aproximava, o amarelo tornou-se vermelho e eu parei, a sua frente.

Aumentei a música que já tocava dentro do carro e pude observar quando lentamente ela levantou os olhos.

Nossos olhares se encontraram e ela sorriu pelo tempo suficiente para me encantar.

Rapidamente abaixou a cabeça e continuou a leitura.

Eu, absolutamente enlevado, fiquei parado ansioso por um novo olhar.

O verde chegou, tive que ir.

Fui dirigindo devagar, procurando um retorno, meus olhos precisavam encontrar os dela novamente.

Dei a volta, naquela cidade, que me era confusa e desconhecida, e consegui voltar àquela avenida, para encontrar a plataforma vazia.

Olhei em volta a tempo de vê-la embarcar sorridente.

Pensei em segui-la, buzinar, pedir mais um segundo de sua atenção, fazer alguma coisa, qualquer coisa.

Nada fiz.

E, desde então, procuro, em manhãs ensolaradas, a garota que com sorriso encantador e cabelos ao vento arrebatou meu coração.

 


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