Arquivos de setembro 1st, 2017

Quando convidei minhas daminhas e pajens para fazerem parte do meu grande dia, a maioria ainda nem andava.

“Você é louca. Esses meninos são muito pequenos, eles vão te fazer é raiva.”

E eu, na maior calma do universo:

“O que eles fizerem será lindo.”

Lógico que junto aos pequenininhos convidei também uma daminha experiente:

“Livinha, você vai por último e não deixa ninguém voltar.”

Ela, do alto dos seus sete anos:

“Pode deixar tia. Eu tenho muito jeito com crianças pequenas, não vou deixar que ninguém volte.”

De vez em quando, eu falava com uma das mães:

“Nossa gatinha já está andando?”

E ouvia na maior tranquilidade da Terra:

“Ainda não, mas tá quase!”

Muito antes do mês do casamento chegar, já estavam todas andando.

Até que, num dia, recebi um telefonema:

“O vestido dela está pronto, as passagens compradas – essa veio de São Paulo- mas eu duvido que ela entre. Na hora ela vai gritar, chorar e não vai entrar.”

E eu:

“Mas e se você mostrar lá da frente uma coisa que ela goste muito?”

“Menina, só se eu mostrar os peitos. Só olhando pra eles que ela sai em disparada.”

Eu dei risada e continuei acreditando.

O caminho que eles deviam percorrer era realmente longo. Mais de 30 metros de corredor.

Para a maioria, completamente desconhecido.

Mas eles foram.

Lindos.

Cada um foi um show à parte.

Teve menininho que voltou no meio do caminho, menininha que entrou dançando e, por fim, sentou-se e ficou olhando seu reflexo na passadeira, menininha que chorou e realmente não entrou e quem não queria, não queria e, depois, foi lindamente.

Mas, de verdade, foi um espetáculo.

Colocar crianças assim tão pequenas é o risco mais feliz que as noivas correm.

Elas podem fazer tudo que você e a mãe planejaram ou simplesmente improvisar do começo ao fim.

Quem recebe o improviso, garanto a você, tem a festa mais feliz.

 

 

Quando cheguei pensei que a proximidade me traria o inconveniente de saber tudo que se passava ao lado.

Acreditava que estar ao lado traria “laços” obrigatórios de saber, mesmo sem querer, de deixar saber sem mesmo notar.

Acreditei que qualquer movimento incomodaria e por eles seria incomodada.

Puro engano.

Há quase um mês moro em um prédio com cinco torres, onze andares, dez apartamentos por andar.

E Ela é minha vizinha.

Não sei em que andar mora, só sei que é avó.

A avó que é a personagem principal de sua casa.

Pelas janelas da cozinha e do banheiro, entra sua voz.

Às vezes, canta, outras, briga ou se indigna.

Sábado à noite, quando chegamos, eu a ouvi dizer:

“Não vou mais! Não adianta, eu não vou mais. A pior coisa que tem é a gente depender dos outros.”

E aí alguém telefonou e o netinho disse assim:

“Minha vó já tirou a roupa. Disse que não vai mais.”

E ela gritava, um homem gritava, alguém telefonava e, entre uma coisa e outra o neto repetia:

“Minha vó já tirou a roupa. Disse que não vai mais.”

E eu, aqui, imaginando a vozinha sem roupa andando pela casa.

Lá pelas tantas, a volta do mais absoluto silêncio.

No outro dia, a vovó não cantou, não gritou, só perguntou lá pelo meio das 24 horas:

“Você quer ovo?”

Não sei se quis.

No outro, nem sobre o ovo perguntou.

Devia mesmo estar magoada com tudo o que aconteceu.

Mas ontem amanheceu cantando.

E agora, enquanto escrevo, consigo ouvir sua voz  enquanto prepara o jantar, atuando como  a principal pessoa dentro da única casa que nos deixa conhecer sua rotina, amores e desencantos nessa pilha de gente.

 

 

E eles foram brigando o caminho inteiro:

“Ela está sentada perto da janela outra vez e eu tenho que vir aqui de onde não dar para ver nada.”

A mãe já usara todos os seus argumentos: que ontem ele fora ali sentado, que na volta ficaria naquela janela, que a irmã era mais nova e chorava por qualquer coisa. Falou tudo, de tudo até que resolveu tomar uma atitude extrema:

“Ao chegar lá em casa nós iremos decidir essa história de lugar no carro, à mesa e em todo e qualquer lugar de uma vez por todas.”

Ela falou sem gritar, sem alterar o tom da voz, mas foi de um jeito tão sério, mas tão sério que todos se calaram de uma vez.

E, assim, silentes e preocupados, os três pequenos foram o resto do caminho.

Você sabe muito bem o que é ter uma mãe brava e decidida. Daquelas que, quando diz que vem aí uma surpresa, podem-se esperar as maiores maravilhas, que elas realmente virão, agora, quando promete um castigo, pode ter certeza de que ele será também caprichado.

Esse era o tipo da mãe em questão e os menininhos encrenqueiros sabiam disso.

Ao chegarem a casa, ela nem deu tempo para que os três coelhinhos encontrassem suas tocas.

“Os três aqui, agora.”

Chegaram quietos e calados.

“Vamos definir aqui o lugar de cada um no carro.”

O reclamão da vez foi logo falando:

“Eu quero sentar perto da janela.”

A mãe lançou em sua direção um olhar fulminante:

“Nesse instante o senhor não tem qualquer direito de escolha. Tudo aqui será por mim decidido e ninguém vai ter direito a reclamação.”

Ele murchou e a mãe continuou:

“Faremos um sorteio, do pior para o melhor lugar e, quando terminarmos, o lugar sorteado será do seu dono para sempre. Nunca mais teremos brigas por esse motivo, pois cada um terá seu lugar definido. Todos entenderam?”

Eles concordaram.

O sorteio foi feito.

Quem ganhou de presente a janela comemorou, quem recebeu o meio chorou.

E foi em meio ao riso contido e às lágrimas escancaradas que ouviram:

“A partir desse momento, o assunto “lugar no carro” está absolutamente proibido aqui – falou ela enquanto anotava em um papel onde deveria se instalar cada um – se vocês fossem um pouco mais civilizados, poderiam fazer um rodízio dos lugares e todos ficariam felizes, mas, como não são, a partir de agora, terão suas bundas ali grudadas para sempre.”

E foi esse decreto que selou o motivo para as maiores brigas e alegrias naquela família.

Ninguém nunca mais tocou no assunto “lugar no carro” , mas, por outro lado implicância, pirraça e aporrinhação passaram a ser o assunto preferido dentro do carro e fora dele.

Hoje, mais de 20 anos depois daquele dia, é gargalhando que eles lembram do medo que sentiram ao ouvir: “agora terão suas bundas grudadas ali para sempre”.

É certo que bunda alguma foi grudada, mas cada um deles, ainda hoje, quando podem escolher o lugar onde se sentar, inconscientemente, procuram o lugar, onde na infância um dia foram grudados, lamentando sempre não poderem voltar no tempo e sentarem-se todos juntos no carro da mãe.

Lamentando:

Sim!

Afinal, tudo passa e as pequenas coisas, as mais irritantes, deixam saudades.

Sempre!

 

 

 

 

 

 

Lembro exatamente o dia que ouvi a sua voz pela primeira vez.

Estávamos chegando à nossa casa, eu e minha mãe em um fim de tarde de céu azul.

Fora um dia cansativo e justamente naquele meu pai não fora nos buscar.

Descemos do ônibus atravessamos a rua e o quintal. Enquanto ela abria a porta o escutei pela primeira vez.

Não sei se mamãe o ouviu, mas eu relacionei a sua voz à solidão.

Muitos anos depois conheci Ana Terra.

Sua relação com ele era íntima, quase visceral.

Mulher forte e valente vislumbrava cada pequena alteração de sua entonação. Acreditava perfeitamente que antes de cada um dos grandes acontecimentos de sua vida ele vinha lhe avisar.

Adolescente que era fiquei com aquilo na cabeça e quando agosto chegava com seus ipês amarelos e grama seca eu reclamava todos os dias por ouvir, naquela casa onde todos os dias minha mãezinha abre a porta, a voz do vento.

 

Lá ele conversa com as árvores, longe, muito longe e só quando o nosso silêncio aparece se pode ouvir seu tagarelar.

Já aqui de onde escrevo…

Fico imaginando como seria desesperador para os Três Porquinhos, fugindo pela segunda vez do Lobo Mau, esconderem-se  aqui na minha sala.

No décimo andar de um prédio rodeado por casas e outros prédios menores por todos os lados, o vento canta, grita e sapateia aqui dentro da sala.

Tem hora que penso, enquanto não me acostumo a sua presença constante:

“Dessa vez eu fico surda, não é possível tanto assobio.”

Outra hora:

“O prédio vai cair sem balançar. Vai ser de uma só vez.”

Mas aí ele se cala.

E Ana Terra? Será que daria conta de desvendar tanta cantoria?

Quando acredito que ele se foi, calou-se ou resolveu cantar longe daqui, simplesmente vem chegando como quem não quer nada e solta um forte grito só para me lembrar que enquanto agosto não acabar ele será meu companheiro constante.

E eu, caso não queira enlouquecer que trate de ignorá-lo ou acostumar-me às suas melodia.

 


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