Morador do Coração

Postado em: 13 de setembro de 2017

Acredito piamente que quem é já nasce.
Dia desses perguntei a um amigo se a filhinha dele, de poucos meses, era gente boa.
É certo que acredito na mudança do ser humano sempre, em todo tempo, mas tem gente que é chata de nascença.
Não era o caso do Menino.
Menino era o típico garoto gente boa.
Sorridente, alegre, boa praça, todo mundo gostava dele.
Aonde chegava fazia amizade, conversava com todo mundo e não negava a ninguém um sorriso.
Ainda muito pequeno todos já sabiam que ele era completamente apaixonado por cachorros.
Foi “au au” a primeira palavra que falou e desde a primeira vez que viu um bichinho já queria um perto de si.

Um dia a mãe escutou ele contando a um amiguinho que tinha um cachorro.

Ela perguntou onde estava esse cachorro ao que ele respondeu todo sorridente:

“No meu coração.”

A mãe, pobrezinha, ficou confusa: não sabia se achava bom, porque, o filho tendo um cachorro morando em seu coração, ela não teria que providenciar um bichinho, ou ficava com peninha, afinal o Menino queria tanto que até criara um bicho imaginário.

A correria da vida era enorme e ela resolveu ficar feliz com a solução por ele encontrada.
Até que, um dia, o Menino chamou a mãe para uma conversa:

“Mamãe, o Marcelo me chamou de doido. Ele disse que eu fico falando que tenho cachorro, mas todo mundo sabe que não tenho e que o coração não é lugar de colocar nada, muito menos cachorro. Mamãe, eu preciso ter um, mamãe, ou eu vou ser conhecido como um mentiroso maluco.”

A mãe ficou em silêncio sem saber o que dizer. Afinal, ela já tinha usado todos os seus argumentos ao longo dos anos para adiar aquele momento, mas parecia que, daquela vez, não teria como escapar:

“Meu filho, você sabe que um cachorrinho, em nossa casa, deverá ser tratado com muito cuidado e carinho. Você que será o dono dele, terá que levá-lo para passear todos os dias, dar água, comida, além de arrumar toda a bagunça que ele fizer. Você entende que essa responsabilidade será sua?”
“Entendo, mamãe, entendo sim e a senhora pode ficar tranquila, eu vou cuidar dele direitinho.”

A mãe fez cara de pensativa e propôs um desafio:

“Vá até a cozinha e pegue um ovo na geladeira.”

O Menino, sem entender nada, buscou o ovo e trouxe para a mãe:

“Aqui está.”

A mãe segurou o ovo com cuidado e perguntou:

“Qual vai ser o nome do seu cachorro?”

“Farofa.”

Foi aí então que ela deu a mais inesperada de todas as sentenças:

“Esse aqui será o Farofa por uma semana – disse estendendo para ele o ovo – durante esse período, você fará com ele tudo que será sua obrigação com o Farofa. Quando for quarta-feira que vem conversamos.”

Ela falou isso e saiu.

O Menino ficou parado em silêncio olhando aquele ovo em sua mão por alguns minutos até que abriu um largo sorriso e foi até a cozinha.

Lá pediu ajuda e fez uma casinha para o “Farofa” onde ele jamais se machucaria e saiu com ele para passear.

Durante uma semana, o Menino passeou, deu banho, brincou e brigou com seu “cachorro” e a mãe só observando.

Quando a quarta-feira chegou de novo, mais ou menos no mesmo horário da primeira conversa, o Menino chamou a mãe:

“Mamãe, como você pode ver, eu consigo cuidar de um ovo, fazendo tudo que faria com um cachorro durante uma semana sem deixá-lo se quebrar, estou doido de vontade de te mostrar como o Farofa de verdade vai ser o cachorro mais bem cuidado do mundo.”

E a mãe, que já tinha se dado por vencida, pegou o falso Farofa com uma mão e, com a outra, entregou a ele o verdadeiro.

E foi assim, cuidado de um ovo diligentemente durante uma semana inteira, que o Menino gente boa conquistou um cachorrinho pra chamar de seu!

 

2 Responses to "Morador do Coração"

Linda história!

Eu fui um menino assim, apaixonado pelos animais. Minha sorte foi ter uma mãe que também era. Em todas as minhas fotos de infância eu estou agarrado aos cachorros e gatos dos lugares onde ia.

Adulto, tenho uma cadelinha adotada a 7 anos. Um dia eu salvei a vida dela. Todos os demais ela salvou a minha.

Meu mais velhinho é o Farofa, também!

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