Pilha de gente

Postado em: 1 de setembro de 2017

Quando cheguei pensei que a proximidade me traria o inconveniente de saber tudo que se passava ao lado.

Acreditava que estar ao lado traria “laços” obrigatórios de saber, mesmo sem querer, de deixar saber sem mesmo notar.

Acreditei que qualquer movimento incomodaria e por eles seria incomodada.

Puro engano.

Há quase um mês moro em um prédio com cinco torres, onze andares, dez apartamentos por andar.

E Ela é minha vizinha.

Não sei em que andar mora, só sei que é avó.

A avó que é a personagem principal de sua casa.

Pelas janelas da cozinha e do banheiro, entra sua voz.

Às vezes, canta, outras, briga ou se indigna.

Sábado à noite, quando chegamos, eu a ouvi dizer:

“Não vou mais! Não adianta, eu não vou mais. A pior coisa que tem é a gente depender dos outros.”

E aí alguém telefonou e o netinho disse assim:

“Minha vó já tirou a roupa. Disse que não vai mais.”

E ela gritava, um homem gritava, alguém telefonava e, entre uma coisa e outra o neto repetia:

“Minha vó já tirou a roupa. Disse que não vai mais.”

E eu, aqui, imaginando a vozinha sem roupa andando pela casa.

Lá pelas tantas, a volta do mais absoluto silêncio.

No outro dia, a vovó não cantou, não gritou, só perguntou lá pelo meio das 24 horas:

“Você quer ovo?”

Não sei se quis.

No outro, nem sobre o ovo perguntou.

Devia mesmo estar magoada com tudo o que aconteceu.

Mas ontem amanheceu cantando.

E agora, enquanto escrevo, consigo ouvir sua voz  enquanto prepara o jantar, atuando como  a principal pessoa dentro da única casa que nos deixa conhecer sua rotina, amores e desencantos nessa pilha de gente.

 

 

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