Arquivos de novembro 13th, 2017

Parecia mais um dia comum de trabalho.

Pessoas entravam e saiam a todo momento e as atividades eram desenvolvidas com a normalidade esperada.

É certo que atropelos aconteciam diariamente, afinal, erámos uma equipe grande lidando com o público.

Pessoas de todas as classes sociais.

Algumas chegavam ali com pendências de milhões, dispostas e ganhar ou perder e continuar vivendo no mesmo padrão.

Outras, chegavam lutando para não perder o teto onde viviam com a família ou para ganharem alguns poucos mil reais que poderiam modificar em definitivo a vida de mais de uma dúzia de pessoas.

Cada pessoa que se aproximava do balcão era um universo desconhecido que se descortinava à nossa frente.

Por isso, a necessidade de calma e sabedoria a cada atendimento.

Naquele dia em particular, eu não estava bem.

A noite fora curta e, por isso, ativei o modo “soneca” várias vezes.

Saí atrasada, peguei um engarrafamento do além e, ao tentar mudar de faixa, por pouco não atropelei um motoqueiro.

Como estava atrasada, estacionei longe, muito longe do prédio e, quando estava no meio do estacionamento de pura lama, caiu uma pancada de chuva inesperada, o que me fez chegar ao trabalho, além de tudo, completamente encharcada.

Tentei me limpar da melhor maneira possível, secar minha roupa, ajeitar minha cara e, no caminho para meu local de atendimento, fui repetindo meu mantra do mau humor:

“Essas pessoas não têm culpa do seu dia ter começado ruim. Sorriso no rosto e eficiência, sorriso no rosto e eficiência.”

Atendi algumas pessoas quando Ele chegou.

Muito bem vestido, aproximou-se do balcão falando baixo e olhando em volta como se tivesse sendo observado.

Perguntou se tinha algum lugar onde pudéssemos conversar em particular.

Eu disse a Ele, erguendo a voz que poderíamos tratar ali mesmo sobre qualquer assunto.

Ele, sem nenhum constrangimento, falou que precisava  que os documentos que estavam em suas mãos fossem analisados em caráter de urgência e que no grosso envelope que estava sobre eles tinha uma gorda recompensa caso eu aceitasse fazer aquele pequeno favor.

Eu me afastei meio que sem entender.

Parecia, na verdade, que estava sonhando.

Não queria acreditar no que acabara de ouvir.

O salão de atendimento estava lotado e eu, completamente nervosa , apesar da vontade de gritar o que sentia, falei com ele no mesmo tom de voz que usara antes:

“Então quer dizer que o senhor está me pedindo para passar sua solicitação à frente de todas as outras e que, se assim eu fizer, vai me dar de presente todo o conteúdo que está nesse envelope gordo? É isso mesmo?”

Ele confirmou.

Ao deparar-me com sua confirmação, perdi completamente a classe e a, cada palavra, falava mais alto.

Falei tanto, xinguei tanto, esculhambei tanto que, em meio minuto, todo mundo parara para assistir ao meu espetáculo.

Meus colegas tentavam me acalmar enquanto o moço saia calmamente, não sem antes me desmentir e dizer que eu era louca e o estava acusando de algo que não fizera.

Depois que passou, sentei em um canto e dei risada.

Foi a primeira vez em que alguém tentou pagar por um “serviço diferenciado” e eu não estava preparada para isso.

Enquanto saia, ele disse que vai me processar por tê-lo acusado injustamente.

Tudo bem.

Fazer o quê?

Já sei: dormir cedo.

Deitar e capotar na certeza de que não há dinheiro que pague você não estar à venda.

 


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