Arquivos de novembro 22nd, 2017

A angústia era visível.

Rosto vermelho, mãos derretendo, pés que não paravam de se movimentar:

“Mas eu preciso compreender. Preciso entender o motivo de tudo isso.”

Rosto sereno, mãos descansadas sobre o colo, pés tranquilamente acomodados um ao lado do outro:

– Apenas faça o que estou dizendo, vai dar certo.

Levanta, anda pela sala, procura palavras:

“Não consigo simplesmente fazer algo tão importante sem saber qual motivo, o porquê.”

Sentado estava, sentado continuou:

– Vou te contar uma história, será que você pode sentar para ouvir?

Na hora ouviu-se um baque de quem se larga no sofá mais próximo.

– Estavam em alto mar quando a brisa suave começou a cantar diferente. Começou a soprar cada vez mais forte. As nuvens brancas foram sendo tingidas pouco a pouco: de cinza a negras, foi de um instante para o outro. A tripulação do barco pequenino manteve a calma e trabalhava para que a situação não saísse do controle. Continuaram concentrados no que estavam fazendo, cada um cumprindo sua função, trabalhando para passarem por aquele momento difícil. Foi quando uma onda gigante invadiu a pequena embarcação.

Quando ela se foi, descobriram, em desespero, que havia menos um.

Esqueceram-se das atividades que desenvolviam para salvar a própria pele, para salvar a embarcação. Agora, havia menos um.

Viram, não muito longe do barco, em meio à tempestade, quem faltava.

Lançaram uma corda que milagrosamente foi pega.

Tão rapidamente quanto fora, voltara.

Agora, lutar contra a tempestade parecia ser fichinha, estavam todos ali, eram fortes e juntos destemidos.

Olhou para o narrador como se nada entendesse:

“E o que essa história tem a ver com a minha tempestade particular?”- falou já com as mãos na cabeça, voltando à realidade.

Sem alterar a voz ou a respiração:

– No pequeno barco havia regras, eles a seguiam. Quando começou a tempestade, todos sabiam o que cada um deveria fazer. Quando alguém foi atirado ao mar, desestabilizaram-se por um momento, mas, no instante seguinte, retomaram o controle, saíram da situação. Voltaram ao trabalho, cada um cumprindo o seu papel, sem questionar, até saírem sãos e salvos da tempestade.

Olhos esbugalhados denunciavam que o desespero aumentava a cada instante.

“Aonde você quer chegar com isso? Cadê a ajuda para minha situação? Diga logo, não suporto mais esperar!”

O desespero de um não contagiava o outro:

– Eles tinham na embarcação uma pessoa que já havia vivido todos os tipos de tempestades. Que já havia navegado por todos os mares, sabia exatamente o que fazer em cada uma das situações, e nele confiavam. O que dizia: façam. Era feito sem qualquer questionamento. É isso que eu quero de você, confie no que eu te proponho. Não questione. Vá sem entender mesmo, apenas faça o que te digo, vai dar certo.

Pela primeira vez, as palavras fizeram sentindo.

Pela primeira vez, sentou-se tranquilamente e decidiu obedecer.

Perguntou com sincera confiança o que deveria fazer.

Ouviu, anotou sem questionar.

Saiu dali para resolver.

Naquele dia, aprendeu a confiar no silêncio, a saber que o “espere” faz parte da resposta e que não há situação, por pior que seja, para qual não haja solução.

Basta confiar e obedecer, sem questionar.

 

 

 

 


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