Menina Medrosa

Postado em: 4 de dezembro de 2017

Você tem medo de quê?

Da morte, desemprego, abandono?

A Menina tinha medo de tudo.

Crescera em uma família de dez irmãos, com a diferença de idade entre eles de um ano e meio e três anos.

Oito meninos e duas meninas.

Ela a segunda mais nova.

O sonho da Mãe era ter duas meninas e ela começou cedo.

Conheceu o Pai ainda na adolescência , apaixonou-se e, assim que os dois tiveram como pagar aluguel, água e luz, passaram no cartório, casaram-se e foram trabalhar para realizar o sonho dela, que agora já era dos dois.

O dia em que descobriram que teriam um filho foi o mais feliz de todos.

Ao descobrirem que o bebê que esperavam era um menino, choraram de tristeza.

Era uma menina que queriam.

Depois se consolaram, afinal, era o primeiro, eles eram novos, poderiam ter o segundo filho.

O Menino nasceu forte, saudável, lindo e, quando fez seis meses, foi promovido a “irmão mais velho” : ganharia uma irmãzinha.

Quando fizeram o ultrassom e descobriram ser outro menino, mais choro e decepção.

Depois se consolaram, afinal, era o segundo, eles eram novos, poderiam ter o terceiro filho.

E a sua tão sonhada filhinha teria, quando chegasse, dois seguranças para cuidar dela.

Foi esse pensamento que norteou a vida dos pais da Menina:

“Ainda somos novos, podemos ter o quarto, quinto, sexto, sétimo, oitavo filho.”

Foi quando, na oitava gravidez, descobriram que, enfim, teriam uma menina.

Eles, todos eles, os nove, comemoraram muito, afinal os meninos também já sonhavam com a Menina e, a cada nova gravidez, criavam, junto com seus pais, a bendita expectativa.

A alegria era tanta que, algumas vezes, chegavam  nem acreditar que aquela barriguinha, onde já cresceram oito meninões, agora abrigava uma menininha.

De um minuto para o outro, aquela casa, até então dominada por meninos,  seus carrinhos e bolas, foi ganhando um ar mais delicado.

Um quarto foi reformado e pintado de rosa do teto ao chão. Ficou cheio de borboletas e bonequinhas, tornou-se um lugar encantado para esperar a Menina.

Todos se prepararam e, enfim, o tão aguardado dia do nascimento chegou.

E Ela nasceu linda: um bebê rechonchudo, grandes olhos negros, boquinha delicada, um encanto.

A mãe e toda aquela homaiada derreteram-se apaixonados por ela.

E a Menina foi crescendo sorridente, boazinha, gente boa mesmo.

Dormia bem, comia direitinho, era o bebê dos sonhos.

A festa de um ano da Menina foi algo encantador.

Nem sei te dizer quantos convidados, quanto de comida, o tanto de presente.

Coisa de princesinha.

Logo depois da grande festa, a Mãe descobre que está novamente grávida.

“É, vamos ter mais um para quando formos falar dos filhos não sobrar um dedo da mão sem nome.”

Seria bom se fosse outra garotinha para fazer companhia para a Menina em seu mundo cor-de-rosa, mas, se fosse menino, também ninguém ficaria triste.

Foi uma grata surpresa quando souberam que a Garota estava chegando.

Completados os dedos das mãos, os filhos daquela família gigante foram crescendo felizes em meio a muito barulho, festas e brigas.

Coisa de irmão, coisa de família grande, de gente que se ama.

Menina e a Garota, as duas princesinhas da casa, cresciam como duas bonequinhas mimadas.

Todos viviam para fazê-las felizes.

Não havia um só desejo que ficasse sem ser satisfeito.

Garota era atirada, corajosa.

Brincava com os irmãos de luta, jogava bola, era a rainha do vídeo game.

Menina quietinha, chorona, medrosa.

Tinha medo de tudo a pobrezinha.

Qualquer desagrado que sofria a fazia chorar longamente.

Não era raro vê-la em um cantinho chorando desconsolada como se o mundo estivesse para acabar nos próximos cinco minutos.

Quando alguém corria para acudir e ia investigar o que acontecera, fora um pirulito que caiu ou um móvel que não saiu da frente enquanto ela ia passando e acertara o seu dedinho do pé.

Qualquer coisa era motivo para longas sessões de choro.

Era tanto choro e tanto “tô com medo” que as pessoas foram se acostumando e acudiam cada vez menos.

Sabiam que era drama.

Mas, naquela cabecinha de meninazinha dramática, fervilhavam ideias e mil e muitas possiblidades…

O tempo voa e, para a mãe, eles cresceram  muito rápido.

Cada um foi cuidar da própria vida: os meninos se tornaram médicos, engenheiros,  professores, empresários…

Garota tornou-se administradora e fazia dupla com Menina a cada ideia mirabolantemente tímida que ela tinha.

E Menina, bem, Menina tinha muito medo de tudo, mas maiores que isso eram suas ideias, sua criatividade e a vontade que tinha de produzir, de fazer acontecer tudo de um jeito inovador, de ajudar as pessoas.

Ela descobriu, ainda na infância, a capacidade que tinha de fazer as coisas de um jeito  diferente.

Quando havia algum problema de espaço no quarto que dividia com Garota, ela sempre pensava em uma maneira de arrumar as coisas que nunca ninguém tinha sequer imaginado e tudo se arrumava, ficava maravilhoso, dava certo mesmo.

Quando a Mãe chegava e encontrava aquela arrumação espetacular perguntava:

“Quem fez isso?”

E ela ficava quietinha.

Mesmo com todos os elogios que ouvia, não tinha coragem de assumir que fora sua a ideia.
Os irmãos contavam à mãe, falavam que ela era a autora de tão bela arte, mesmo assim, Menina se retraia.

Quando tinham uma festa para decorar e não tinham com o quê, Menina decorava com qualquer coisa que estivesse à mão: balões, papel crepom, os brinquedos, as louças da casa, qualquer coisa, e dava certo.

Dava certo, era sucesso e ela se encolhia.

Tinha medo.

Quando chegavam a casa e, por algum motivo, não tinha comida para todos, ela ia para a cozinha e resolvia a situação.

Depois ficava quietinha em um canto, tinha medo de que não tivesse ficado do agrado.

E assim era quando tinha que organizar a vida financeira da família, quando alguém estava com um problema que mais parecia um novelo de lã emaranhado: Menina resolvia tudo, mas não gostava que soubessem que fora ela.

Ela descobriu, com o tempo, que podia ajudar outras pessoas, fora da sua família, sem que soubessem do que fizera, e assim, passou  a ajudar conhecidos e desconhecidos em suas pequenas necessidades sem deixar rastros, sem contar a ninguém.

Passava, via o de que precisavam e, depois, vinha e resolvia o problema escondida de tudo e todos.

Em silêncio.

Até que um dia, lá pelas tantas, Menina percebeu que o parque em que brincara durante toda a infância estava completamente destruído e abandonado.

Isso a incomodou tanto que ela resolveu agir.

Conversou com seus irmão e, juntos, montaram um plano de ação: iriam revitalizar o parque.

Daqui a pouco, teriam filhos e onde eles brincariam?

Sob a liderança da Menina eles visitaram empresários, convidaram a comunidade e trabalharam durante meses, consertando cercas, trocando balanços, plantando árvores, pintando bancos.

A movimentação no bairro foi tão grande que eles decidiram que precisavam fazer uma festa na reinauguração do parque.

Uma banda de sucesso, que nascera ali entre aquelas árvores e ganhara o mundo, aceitou o convite de voltar para casa e participar da festa, fazer o show de reinauguração.

Isso deu um gás e tanto e, assim, foi tudo organizado, uma grande festa de comemoração do renascimento do parque.

Chegou o grande dia e o sol levantou cedo, querendo também participar.

O dia inteiro foi de sucesso absoluto.

Pessoas vieram de todas as partes da cidade e as crianças brincaram em cada canto do parque, aproveitando todo o trabalho feito por seus pais e amigos, por elas mesmas.

Ao fim da tarde, o show.

Os meninos da banda cantaram com o coração e foi um sucesso.

As pessoas se divertiram, cantaram, se emocionaram e a Menina, seus irmãos e toda a equipe envolvida estavam de alma lavada: tudo dera certo.

No fim do show, começaram os agradecimentos a todos os envolvidos no projeto.

A Menina, sempre tímida e discreta, começou a sair de fininho.

Ela ia andando, se afastando e, quando olhava para frente, lá estava um deles.

Discretamente mudava de direção e, como quem não quer nada, ia para o outro lado e, do nada, outro aparecia à sua frente.

Foi só na terceira vez que ela olhou por todos os lados e viu cada um de seus nove irmãos: ela estava cercada!

Eles foram chegando perto, chegando perto e rapidamente Menina se viu em uma“gaiola de irmãos”.

Começou a rir de nervosa e perguntou:

“O que vocês estão fazendo? Eu preciso ir ao banheiro.”

Eles, um com a cara mais safada do que o outro, tiveram um porta voz:

“Sabemos o que você quer fazer no banheiro, Maria mijona, mas vai fazer mais tarde. Agora, você vai ficar aqui com a gente.”

Foi nessa hora que todos começaram a ouvir o seguinte:

“Dona Maria do queijo está aqui? – Viu-se uma mãozinha no meio da multidão – a senhora sabe quem coloca todas as semanas na sua cozinha verduras e frutas?”

Ouviu-se um fraco não.

“Ricardinho, você sabe quem paga todos os meses a sua escola?”

Ouviu-se um não.

“Dona Esmerada, a senhora sabe quem comprou a sua cadeira de rodas?”

Ouviu-se um não.

E ele foi repetindo a pergunta às pessoas, se elas sabiam quem tinha feito o bem a elas e uma a uma foi repetindo que não sabia quem o fizera.

Nessa hora, a Menina estava sentada no chão, escondida, grudada nas pernas de seus irmão, chorando baixinho.

“Essa pessoa – continuou ele- que fez todo esse bem a vocês sem ser identificar está aqui hoje.”

Ouviu-se uma movimentação como se estivessem levantando voo, naquele momento, centenas de passarinhos.

“Essa pessoa que ajudou quietinha a tantos de vocês e a mim também, afinal eu nunca soube e ainda não sei, quem pagou meu aluguel quando eu estava prestes a ser despejado, está aqui no parque hoje. Pode estar ao seu lado agora, aí juntinho a você.

Acredito eu, que nosso benfeitor ou benfeitora nunca vai se revelar à nós.”

Nessa hora, a Menina parou de chorar e ficou olhando fixamente para Garota que também estava ali dentro da gaiola de pernas.

E foi assim que ela escutou pela caixas de som do parque:

“Por isso, faça o bem a quem você encontrar pelo bairro, a qualquer um, porque, fazendo isso, você pode estar retribuindo a quem cuida de você em silêncio.”

Nessa hora, a gaiola de irmãos se abaixou e a Menina chorona e medrosa foi coberta, esmagada, amassada pelos beijos e abraços dos seus irmãos que cochichavam baixinho em seu ouvido:

“Eles não sabem, mas nós sabemos que o anjo desse bairro é a nossa Menina medrosa.”

Você tem medo de quê?

Da morte, desemprego, abandono?

A Menina tinha medo de tudo.

A Menina medrosa tinha nele sua companhia em tudo que fazia e de mãos dadas com o medo, conquistava o mundo!

 

 

 

 

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