Arquivos de Fevereiro 2018

Aaa se eu pudesse fazer tudo do jeito que eu bem entendesse…

 

“Levante aí a mão quem gosta de obedecer a ordens.”

O auditório barulhento, que lotado estava, de um minuto para o outro, ficou completamente vazio.

Parecia que realmente assim se tornara tal era o silêncio que tomou conta do local.

Os donos de cada par de olhos ali presentes pareciam não querer se mexer.

Temiam que o menor movimento pudesse fazer com que o interlocutor entendesse que sim, que eles gostavam de seguir leis, obedecer a ordens.

Por suas cabecinhas agitadas, passava qualquer coisa, menos o desejo de obedecer.

Seguir ordens, para eles, era deixar de realizar as próprias vontades, abandonar seus gostos e fantasias, era viver o que já estava por outro preestabelecido.

Não!

Qualquer coisa, menos isso.

“Ei! Onde estão todos vocês? Fugiram? Tudo isso por que ouviram as palavras ordem e lei? Não, minha gente, tenha pena de mim. Vamos ali descobrir que esse bicho cabeludo, de pernas, braços e tentáculos assustadores não é assim de todo mal.”

“Vejamos aqui o que diz o nosso amigo, Sr Dicionário.”

“Vocês já ouviram falar nele? Sabem quem é o Senhor Dicionário? Também conhecido injustamente como pai dos burros?  Injustamente eu digo, pois quem  a ele recorria estava procurando conhecimento e quem conhecimento procura é qualquer coisa na vida, menos burro.”

“Hoje, sei que vocês não mais por ele procuram, se é que a ele já tinham sido apresentados. Que vocês, quando têm dúvida sobre qualquer palavra, significado ou grafia vão ao Sr. Google.”

“Mas nós aqui vamos recorrer ao bom e velho dicionário.”

Ele foi até a mesa que estava no palco e abriu um grosso e empoeirado dicionário.

Enquanto foleava suas amareladas páginas, no telão aparecia todos os movimentos que fazia:

“R, aqui está.”

“Depois de encontrar o R procuro o A.”

“No dicionário se procura pela ordem que segue o alfabeto, uma letra após a outra.”

“Aqui está RE.”

“Agora, nesse sequencia lógica, procuro quando o G aparece depois do E.”

“Aqui!”

“REG.”

“Onde estará o R depois desse G minha gente?”

“Aqui está ele, agora falta tão somente o A.”

“O A como fica no começo de todas as sequencias alfabéticas é mais fácil de achar.”

“Aqui está REGRA: O que regula, disciplina, rege; norma, preceito, rédea. Preceito que determina uma norma de conduta ou de pensamento.”

“Quem nos deu essa preciosa informação – disse apontando para o dicionário que descansava sobre a mesa – foi esse monstro aqui, o Michaelis, português.”

O silêncio já não estava assim tão pesado.

Parecia que, aos poucos, os alunos haviam voltado a respirar.

“Imagine você um mundo sem regras. Já pensou como seria?”

“Pois, de agora em diante, eu declaro: Não há mais regras para nada. Não é preciso obedecer mais nada nem ninguém. Cada um pode fazer tudo, tudo mesmo o que bem entender!”

De um segundo para o outro, todos se agitaram novamente. Pareciam ter gostado da ideia.

“Quando digo sem regras é sem regra mesmo: o sol levantaria todos os dias à hora que bem entendesse, e se recolheria quando tivesse vontade. Já pensou? No dia em que ele não estivesse a fim, os relógios marcariam o meio do dia, mas ainda seria noite ou quando estivesse muito animado você estaria doido para dormir e ele permaneceria no meio do céu, como se meio dia fosse. Não haveria regras, cada um, inclusive o sol, viveria como bem entendesse.”

“E as estações do ano?”

“Elas poderiam muito bem fazer um combinado entre si e resolverem ficar em um só lugar o ano inteiro. Imagine: Elas combinam de ficar o ano inteiro em um só lugar, sem fazer rodízio e, aí, enquanto em um lugar é inverno o ano inteiro, no outro é sempre verão. Em outro canto só primavera e, lá longe, sempre outono.”

Eles pareciam estupefatos com a possibilidade de assarem ou congelarem com a permanência de uma só estação durante tanto tempo.

“Regras? Para que seguir regras?”

“Sem as regras, o carteiro pode deixar a correspondência da minha casa na sua e da sua na casa do chapéu. O padeiro pode fazer somente pão doce, afinal esse é o de que ele mais gosta, e todas as macieiras do mundo podem simplesmente nunca mais produzir uma só maçãzinha.”

“Em um mundo sem regras, você pode chegar à escola a hora em que desejar se desejar, quando desejar. Não precisa fazer trabalhos ou provas, nem respeitar os colegas e professores. Em um mundo sem regras, você pode comer só o que tiver vontade e jamais precisará arrumar a cama ou guardar os sapatos.”

“Afinal, não existem regras.”

“Seu estômago, se não estiver com vontade, não precisa digerir, nem seus rins filtrarem os líquidos que tem bebido. Não há regras. Liberdade! Cada um faz o que bem entende.”

Todos calados, imaginando admirados.

É quando Ele começa a falar um pouco mais baixo:

“Não se espantem se, quando terminarem as aulas, não tiver ninguém aqui na porta esperando você para te levar de volta para casa. Não há regras. Não se assuste se não houver comida em sua casa ou se lá estiverem confortavelmente instaladas pessoas desconhecidas. Não há regras. Não se assuste se tudo fugir da normalidade a que você está acostumado. É que as regras não mais existem.”

Houve silêncio total.

Tanto daquele que havia colocado abaixo todas as regras do universo como daqueles que gostaram em um primeiro momento, mas, agora, estavam tentando compreender como as coisas ficariam caso aquilo verdade fosse.

“Meus queridos, estão vendo como elas são importantes? Estão vendo como, sem elas, não podemos viver?”

Nova movimentação.

“Cada um de nós, dentro da sociedade em que vivemos, tem um papel a cumprir com direitos e deveres e precisamos sim cumprir nossa parte. Seguir as regras que nos são estabelecidas ou, senão, tudo vira um caos.”

“Eu tenho que cumprir regras para que vocês vivam bem, assim como vocês têm de fazer a parte que cabe a cada um para que todos vivamos bem.”

“E, agora, vamos embora. Nosso tempo juntos hoje terminou e ter horário para terminar também faz parte das regras.”

Os alunos saíram em relativo silêncio e, enquanto os observava, o professor acalentava em seu coração a esperança de ter sido entendido e, para frente, atendido.

 

 

Quando alguém tem o incrível passa tempo de descobrir como você cuida da própria vida…

 

Era um prédio antigo, onde a maioria dos moradores eram proprietários.

Eles haviam comprado suas moradias ainda no século passado, quando os apartamentos funcionais haviam sido vendidos aos seus moradores.

Todos, na ocasião, arremataram seu teto e pagaram em longas e suaves prestações.

Àquela altura todos quitados, moradores tranquilos…

Quando Ela e o Marido se aposentaram, passaram ainda um tempo morando no apartamento cuidadosamente reformado e mobiliado.

Mas, depois que os filhos se formaram, casaram-se e foram embora de casa, cada um cuidando da própria vida, onde acharam mais conveniente, eles também resolveram se mudar.

Escolheram a dedo uma cidadezinha linda e afastada no estado de origem dos dois e para lá foram embora.

E o apartamento?

Bem, o apartamento que fora cuidado com o maior carinho por eles, enquanto lá estiveram, foi entregue aos cuidados da imobiliária de um amigo:

“Vamos deixar que ele o alugue para não termos dor de cabeça. Assim, no dia certo, o aluguel cai em nossa conta e, se tiver algum problema, ele que resolva com o inquilino.”

E, assim, com tudo planejado e resolvido, despacharam a mobília e todos os pertences pela transportadora, entraram no avião e foram os dois satisfeitos da vida de volta à terra de origem.

No dia seguinte à saída da mudança, os pintores da imobiliária chegaram ao apartamento e começaram os trabalhos.

Três dias depois, já estava tudo pronto.

Todo novinho, repaginado, como se nunca ninguém ali tivesse morado.

Quando terminaram a pintura e a limpeza do local, chegou o responsável pela parte de aluguéis da imobiliária e fotografou tudo.

Quartos, armários, banheiro, sala, cozinha, guarda-roupas, enfim, tudo foi fotografado em seus melhores ângulos.

Eles fecharam o apartamento, mas não sem antes colocar a placa na janela:

ALUGA-SE

Com o telefone da imobiliária.

Chegando ao escritório, as fotografias foram colocadas em site especializado em anunciar imóveis a serem alugados, um belo texto foi escrito e pronto.

Tudo que cabia à imobiliária foi feito.

Não demorou muito, a Moça telefonou.

Disse que tinha se encantado pelo apartamento que fora colocado no site aquela tarde.

Combinou de buscar as chaves para visitá-lo no dia seguinte.

E assim foi.

Quando a Moça entrou, foi encantamento à primeira vista.

Por via as dúvidas, ela saíra da imobiliária com dez chaves diferentes, tinha a intenção de visitar apartamentos próximos àquele.

Vai que tinha um melhor que aquele.

Não foi a nenhum outro.

Voltou à imobiliária em 20 minutos.

“A senhora já visitou os dez apartamentos?”

– Claro que não! Visitei só o por que me apaixonei pelas fotografias. Não quero ver mais nada, é ele. – disse sorrindo, cheia de certeza. – O que eu tenho que fazer para mudar o mais rápido possível?

O rapaz se espantou:

“Poucas mulheres são tão decididas.”

Ela sorriu:

– Pois você acaba de conhecer uma que é mais que decidida.

Ele passou rapidamente a lista de documentos e exigências necessárias para que o apartamento fosse alugado.

No fim daquela tarde, ela chegou com tudo pronto na imobiliária.

Disseram que, se tudo fosse aprovado, todos os documentos estivessem certos, eles levariam cinco dias para cumprir os trâmites internos e, depois desse tempo, eles entrariam em contato.

Nesse tempo, o rapaz da imobiliária aconselhou, ela poderia visitar o condomínio, saber os horários possíveis para chegada de mudança, quais eram as regras quanto ao lixo e outros detalhes de convivência.

Ela acatou a sugestão e foi até lá, colocando-se aparte de tudo.

Em cinco dias, a Moça estava com as chaves do imóvel em mão.

Poderia se mudar.

E assim o fez.

Chegou com sua mudança em uma manhã de segunda-feira de muito sol e calor.

Com o rapaz que a ajudava a mudar todas as vezes que precisara, subiu o elevador até 6º andar e lá ficou, enquanto ele e seus companheiros de trabalho levavam seus pertences para cima.

Em duas horas, tudo que ela tinha estava desordeiramente acomodado dentro daquele que seria seu ninho nos próximos três anos.

Os rapazes se foram e ela começou a trabalhar:

– Só durmo hoje quando estiver tudo organizado dentro dessa casa.

Guardou todas as suas roupas do jeitinho de que sempre gostou: absurdamente organizado.

Quando estava estendendo a cama, ouviu pela primeira vez a campainha tocar.

Estranhou.

Não dera seu endereço novo para ninguém.

Mesmo assim, pensando que era engano, foi atender.

Tentando adivinhar do que se tratava, viu através do olho mágico o que parecia ser uma senhora com alguma coisa na mão. Curiosa abriu rapidamente a porta para confirmar:

Era mesmo uma senhora com um pratinho e em cima dele a metade de um bolo de fubá.

Ela ficou parada olhando a senhoria meio que sem entender do que se tratava quando ouviu:

*Olá, eu sou sua vizinha do 304 e vim te dar as boas-vindas.

A Moça ficou alguns instantes sem reação, nunca tivera boas-vindas tão calorosas. Até que voltou:

– Que bondade a da senhora, muito obrigada. Não vou convidá-la para entrar porque aqui não há um lugar arrumado. Mas muito obrigada.

A Vizinha, muito solicita, foi logo respondendo, com um empurrãozinho de leve e um passo a frente:

*Não tem qualquer problema sua casa não estar arrumada, eu sei, dia de mudança é assim mesmo- falou e foi entrando pela casa – com quem você irá morar aqui? É casada ou solteira? Trabalha em quê?

A pobre Moça que não esperava ser invadida daquela maneira se assustou tanto que só conseguiu parar a vizinha “solícita” no meio do corredor que leva para os quartos.

Até hoje ela não sabe dizer como, mas, quando viu, já tinha pulado na frente da senhora e, antes que ela desse mais um passo, havia aberto os braços e pernas impedindo sua passagem:

– Aquele bolo a senhora trouxe foi para mim? Eu agradeço a gentileza, mas estou de dieta. Agora, por favor, tenho que continuar o meu trabalho.

Dizendo isso, ela segurou a senhorinha pelo braço e foi conduzindo até a porta de saída.

A mulher, com os olhos muito arregalados, ia falando sem parar pelo caminho:

*Você não vai querer do meu bolo mesmo? Com o que trabalha? E o seu marido?

A Moça que agora já era dona da situação:

– Muito obrigada pela visita, muito obrigada pelo bolo e pelas boas-vindas. Até logo.

Disse isso, colocou a senhora no meio do corredor e, de um salto, já estava com a porta trancada atrás de si.

Suspirou fundo e pensou:

– Caso eu receba mais boas-vindas assim, estou perdida.

Recomeçou os trabalhos.

Lá pelas tantas, quando já estava com a cozinha quase pronta, a campainha tocou novamente.

Ela pensou duas vezes antes de olhar através do olho mágico.

A primeira experiência não havia sido muito agradável e ela estava trabalhando em um ritmo tão bom para ser interrompida.

A curiosidade foi mais forte que ela.

Do outro lado da porta estavam duas meninas.

Suspirou fundo, abriu a porta:

“Oi, nossa avó quer saber por que você não aceitou o bolo que ela te trouxe.”

A Moça chegou a não acreditar no que acabara de ouvir:

– Oi?

E a outra menina repetiu:

“Nossa vó quer saber por que você não aceitou o bolo que ela te trouxe.”

A Moça ficou séria de repente:

– Eu não aceitei o bolo que a avó de vocês me trouxe porque estou de dieta e também porque ela invadiu a minha casa. Agora vocês me deem licença porque tenho muito o que fazer. Boa tarde e passar bem.

A essa altura, além de cansada e indignada, ela já estava com raiva.

Onde já se viu tamanha petulância.

O dia terminou sem outros atropelos e, quando a noite chegou, ela já conseguira arrumar tudo:

– Nada como ser minimalista, consigo arrumar tudo que tenho em um dia apenas.

Comeu qualquer coisa, tomou banho e foi dormir.

Antes de o sol nascer, ela saiu.

Correu, voltou, tomou banho e foi trabalhar.

Chegou no fim do dia, tomou banho e foi para o curso que fazia à noite.

Quando enfim voltou para casa, estava exausta.

Abriu a porta e já ia passando direto quando viu que, embaixo da porta, havia um bilhete:

“Vizinha nova, não sei se você já recebeu a visita da senhora do 304 com a desculpa de lhe dar as boas-vindas, levando um pedaço de bolo. Ela vai querer investigar sua vida para contar a todos embaixo do prédio e por onde passar. Além de contar, ela vai aumentar as informações que receber. Cuidado! Não caia nessa!”

Não havia assinatura.

A Moça ficou parada ali sem saber a quem agradecer.

O tempo passou e sua vida seguiu normalmente, com a rotina apertada de sempre.

Saindo cedo, chegando tarde, falando bom dia, boa tarde, boa noite para quem passasse por ela no condomínio.

No fim de semana, recebia os  alguns amigos e sua vida era resumida nisso.

Um dia, o elevador em que ela descia parou no terceiro andar.

Entrou um rapaz lindo, alto, inteligente, parecia ouvir em seu fone de ouvido algo muito interessante, mesmo assim, acenou com a cabeça desejando bom dia.

De repente, Ele se vira para a Moça, tira o fone de ouvido e dispara:

# Você é a nova moradora do sexto andar?

Ela sorriu:

– Sim, sou eu.

Ele ainda sorrindo baixou o tom de voz:

# Você recebeu um bilhete embaixo da sua porta?

Imitando o tom de sussurro a Moça respondeu:

– Sim, eu recebi. Fiquei procurando a quem agradecer e não achei. Devo agradecer a você?

Ele riu gostoso:

# Não precisa se incomodar em agradecer, só desejo que você não passe pelos constrangimentos que passei.

Ela sorriu, voltou a voz para o volume habitual:

– Eu agradeço muito sua gentileza e preocupação, mas ela chegou antes de você. Aliás, ela chegou quase junto comigo. Eu tinha acabado de arrumar o primeiro cômodo da casa quando a campainha tocou.

# Sério mesmo? Que triste você ter que passar por esse constrangimento. Ela me atacou quando cheguei, depois, fiquei sabendo que é uma rotina dela fazer isso. Aí eu fico vigiando as pessoas que chegam para eu atacá-las antes dela. Uma pena que não consigo em  todas as vezes.

A essa altura, a Moça já ria alto e gostoso:

– Que bonito da sua parte fazer isso. Muita gentileza sua. Mas acho que a mim ela não mais incomoda. Ela invadiu mesmo minha casa, tive que segurar de leve seu bracinho já quase no banheiro e mostrar a saída com firmeza.

# Não, minha amiga, fique tranquila, ela volta. Está apenas estudando um novo jeito de te atacar, descobrir detalhes da sua vida.

Eles já estavam fora do prédio, mas, antes de continuar, ele olhou em volta:

# Ela está te estudando para saber como fará para descobrir detalhes da sua vida. Abordou-me dia desses perguntando se eu sei “quem é você”. Fique tranquila, ela ainda não desistiu de você.

Eles conversaram mais um tempo e a Moça, agora, sabendo que sua vizinha “querida” ainda não desistira dela, saiu pensando qual repelente usar.

Pensando admirada em como as pessoas preocupam-se mais com a vida dos outros do que com a única vida da qual precisam dar conta: a própria.

Enquanto pensava nisso, viu a vizinha apertando o passo em sua direção.

Rapidamente atravessou a rua, entrou em seu carro e deu tchauzinho, enquanto a via ficando para trás com uma carinha decepcionada…

– Ó vizinhazinha desocupada, enquanto puder evitar nosso encontro, evitarei, quando não puder mais, a gente vê o que faz. Obrigada, vizinho caridoso. Sem saber me meti em um divertido vespeiro.

E, assim, começou mais um dia corrido e feliz.

 

 

 

Pessoas admiráveis estão por toda parte, não é preciso ir muito longe para encontrá-las

 

Pessoas admiráveis.

Onde encontrá-las?

Acredito sinceramente que elas estão por toda a parte.

Você pode achá-las em laboratórios trabalhando arduamente a fim de desvendar os mistérios da ciência e salvar milhares de vidas, em salas de aula influenciando gerações, em uma esquina vendendo cafezinho ou entregando correspondência de porta em porta.

Quando comecei a escrever hoje, tentei encontrar o que as pessoas admiráveis têm em comum.

Ele era a simpatia ambulante.

Pequenino, cabeleira farta, olhos verdes e vivos tinha sempre um sorriso, um ensinamento, um chocolate.

Por onde ia, todos o conheciam.

Professor, cantor, maestro, esposo, pai, irmão, tio, amigo.

Tudo aquilo em um homem só.

Um homenzinho pequenininho e bom de papo.

Sua maior arma, a música.

Acreditava que ela transformava vidas, fazia as pessoas melhores, contribuía para o crescimento de quem a ela se dedicasse.

E, por isso, a ensinava.

Todo o tempo.

O tempo todo.

Seus filhos foram a ela apresentados ainda na infância e a ela se dedicam até hoje.

Os cinco.

Durante a semana ensinava, sua arte na escola.

Na melhor e mais conceituada escola da cidade.

Ensinava analfabetos.

Entravam ali vendo apenas bolinhas em cima, embaixo, mais perninhas, menos perninhas, bolinhas pretas e brancas.

Nada mais.

Saiam lendo, cantando, tocando.

Fazendo, sentindo, sendo música.

No fim de semana, o coral.

Igreja.

“Quem pode cantar com você?”

– Ué, você pode. O ensaio é hoje, às 15h.

Quem quisesse podia chegar que era acolhido, bem tratado.

– Você sabe cantar?

“Sei.”

– Ensaio às 15h. E você, não é amigo dele? Por que não vem também?

* Não sei cantar.

– Ué, vem também, eu te ensino.

E ensinava mesmo!

E, quando o ensaio acabava no sábado, bem depois das 17h, ele já combinava e convidava para a aula de teoria no domingo de manhã.

“Onde?”

– Lá em casa, às 8h.

E, nessas aulas “lá em casa”, tinha pão de queijo, chazinho, rapadura, risada, acompanhamento feito pelos papagaios…

Isso, papagaios.

Ele tinha, em uma gaiola bem grande, três papagaios que solfejavam melhor que qualquer aluno que, por ali, passou.

Quando as músicas eram ensaiadas, eles cantavam juntos.

Naquelas aulas, tinha-se a garantia de aprendizado e alegria.

Ao longe, podia se ouvir o crescimento de seus alunos.

E quem levava pãozinho e chazinho, caladinha sempre, era sua esposa e fiel escudeira. De quando em vez, durante uma conversinha na hora de ir embora, um aluno ouvia dela o mais delicado dos elogios:

# Eu estava te escutando lá da cozinha, você canta muito bem – dizia baixinho em forma de carinho.

O conhecimento do mestre era algo que nunca foi guardado, muito menos reliquiado.

Sua casa, sempre aberta, era refúgio e porto seguro para quem dele precisasse.

Seu conhecimento e sabedoria eram para quem dele se aproximasse.

Ele acolhia quem queria cantar e não sabia, quem tinha fome em aprender, mas também, fome de pão, abrigava quem queria tocar um instrumento mas não tinha onde se abrigar.

Tudo que ele tinha era seu caso você precisasse.

Pensando em pessoas admiráveis, me lembrei dele e vi o que elas têm em comum:

As pessoas admiráveis se doam para quem delas precisam.

Estendem a mão, ajudam, acodem.

Pessoas admiráveis vivem para servir, fazem o bem sem olhar quem recebe o bem que fazem.

 

 

Algumas vezes é preciso seguir o próprio coração

 

“Você vai ser feliz se andar por aqui.”

*Por aí, eu não vou.

“Por aqui, você vai ser feliz.”

*Mas, por aí, eu não vou.

“Então vai por onde?”

*Por ali.

“Mas ali é escuro, nunca ninguém por ali andou. Não há garantia de felicidade.”

*Eu sei. Mas, se eu for por onde você quer, minha infelicidade está garantida.

“Será?”

*Certeza. Por aqui nunca ninguém foi, não há referência nem qualquer parâmetro estabelecido, vou construir minha felicidade.

“Então, vai.”

*Obrigada por compreender. Eu mando notícias. Adeus, vou escrever minha história.

“Seja feliz.”

*Serei.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Os animais conhecem quem é “gente boa” antes de você. Pode acreditar.

 

Ele era um cara gente boa

Gentil com as crianças, carinhoso com os animais, paciente com os idosos.

Típico “bom moço”.

Mesmo com seu ar sério e à primeira vista com cara de poucos amigos, tinha sempre crianças perto de si.

Ele sorria e elas vinham.

Conversavam, ouviam histórias, contavam as suas e se despediam felizes como se velhos amigos fossem.

Com os animais, não era diferente.

Cachorros e gatos que não deixavam que ninguém deles se aproximasse sentiam segurança ao vê-lo chegar, mesmo que fosse a primeira vez.

Iam ao seu colo, lambiam sua mão, brincavam com ele.

“Esse cara é gente boa.”

– Como você sabe?

“Olha só, o Falcão gostou dele de cara. Esse cachorro não deixa desconhecido nenhum chegar perto dele e olha a farra que os dois estão fazendo. Pode ter certeza que é gente boa. A gente pode até errar, mas os cachorros não erram.”

– Não sei não, ele tem a cara muito estranha.

“Pode acreditar no que estou falando, ele é gente muito boa!”

Cada um foi para um lado e nunca mais se viram.

Nem as amigas, nem o cara, nem mesmo o cachorrinho em questão nunca mais viu nenhum dos três.

O tempo passou, as estações voaram e, quando se deram conta, já era novamente verão.

E, naquele fim de tarde, comecinho de noite, enquanto caía uma típica tempestade da estação, seu carro resolveu apagar na faixa do meio de uma pista lotada e engarrafada até não poder mais.

Enquanto ela tentava dar partida no carro desesperadamente, ouviu uma batida em sua janela.

Era um homem, completamente encharcado que pedia para que ela virasse o volante para a direita que ele iria empurrar o carro até o acostamento.

Ela, que era o agoniamento em pessoa, obedeceu sem nem pensar.

Em pouco tempo seu carro estava no acostamento, em relativa segurança.

O moço então pediu para que ela abaixasse o vidro.

Ele perguntou se o carro tinha gasolina e depois de uma rápida conversa desconfiou qual era o problema.

Pediu que ela levantasse a tampa do motor, mexeu daqui, mexeu dali e fez o carro funcionar.

Ao terminar, encharcado até “os ossos” disse a ela:

*Não se esqueça de levá-lo à oficina. Se esse problema se repetir ,você pode não conseguir fazê-lo funcionar.

Ela agradeceu o quanto pode e, quando já estava indo embora, olhou bem para o moço e se deu conta de que ele era aquele que ela achara estranho no outro dia.

– Você não é amigo da Menina?

Ele sorriu e confirmou:

*Sou sim.

– Então, é de lá que te conheço. Você ficou amigo do Falcão, não foi?

*Aquele Falcão é uma figura – disse sorrindo.

-Então, qual seu nome?

E foi assim que, em meio a toda aquela confusão, trocaram cartões de visitas e se despediram.

Ela se lembrando do que a Menina repetira aquele dia:

“Esse cara é gente boa. É gente boa sim.”

Ele pensando que precisava tirar aquela roupa molhada, tomar um banho quente.

O tempo passou e a moça, apesar de estar completamente admirada com a atitude do cara gente boa, esqueceu rapidamente o fato. E ele, depois de seco, nunca mais se lembrou dela.

Até que, um dia, a moça encontrou o cartão do Cara, lembrou-se de sua gentileza e mandou que lhe entregassem um mimo desses que se dá aos homens com um cartão de agradecimento.

O Cara recebeu e achou estranho.

Para ele era tão natural ajudar gente em apuros que nem se lembrava mais da moça.

Mesmo assim, telefonou para agradecer.

Combinaram de se encontrar e coisa e tal.

Encontraram-se uma, duas, três vezes e quando se deram conta já sabiam mil e uma coisas da vida um do outro.

Já estavam aprendendo, ensinando, sendo felizes com a companhia do outro.

Quando acontecia alguma dificuldade lá ou cá, era para o outro que telefonavam e, quando alguma alegria dava o ar da graça, a mesma coisa acontecia.

Até que um dia se deram conta que a amizade podia ir para o próximo estágio.

Tomaram todas aquelas providências para que os até então amigos fossem morar juntos, compartilhassem o mesmo nome, casa, cama…

E, agora, quando o papo é “como faço para encontrar um homem descente?”

Ela, em meio a feliz confusão que vive com crianças cantando e cachorros latindo, dá a receita:

“Observe como gatos e cachorros se comportam com ele. Se os bichinhos gostarem do moço, invista que o cara é gente boa. A gente pode até errar, mas cachorros e gatos não erram jamais!”

Para começar, sendo rápido e fácil vale a pena

 

Cozinhar é uma arte.

Alquimia de quem recebeu o dom de encantar todos os sentidos ao mesmo tempo e ainda satisfazer desejos.

Enquanto um prato é preparado, ouve-se a melodia de tudo que é usado durante a transformação do óbvio no inesperado.

Seguido do aroma que vem do laboratório encantado faz aguçar a imaginação de como será o sabor, a cor, a textura de algo assim tão perfumado.

Quando enfim apresentado encanta os olhos, com suas cores, disposição, beleza.

E, ao encontrar-se com as papilas gustativas, o ciclo de perfeição se fecha: o som, aroma, beleza, textura e sabor juntos tornam a refeição não apenas algo para “matar a fome” ,mas sim o viver de uma bela e inesquecível experiência.

Afinal, aquela experiência foi de total encantamento.

E quem são os magos dessa arte?

Dias desses, assisti ao bate papo com uma chef elegantíssima e famosa.

Ela dizia que cozinhar é um trabalho muito duro, muito difícil.

Que são horas e horas em pé de transpiração, mãos doloridas e calejadas, cortadas, muitas vezes queimadas.

A vida de um cozinheiro não é nada fácil, muito menos glamorosa.

Fiquei pensando que eu e minhas habilidades culinárias, que lutamos em uma micro cozinha, dia a dia, para tentar apenas sair do zero na escala de aprovação do paladar familiar, somos somente uma poeirinha flutuante no universo dessa arte.

A arte da transformação, da paciência, do resultado no seu próprio tempo, temperatura e espaço.

Ela não tinha o menor interesse em cozinhar.

“Você sabe fritar ovo, minha filha?”

Ela sorria e, enquanto saia de fininho, respondia como em um sussurro:

– Fritar não sei, mas desconfio que se for mexido sai alguma coisa.

Um dia, a mãe, que se preocupava de verdade com o que comeria aquela menina quando fosse viver sozinha, a escutou conversando com uma amiga:

– Eu até tenho vontade de me aventurar na cozinha, mas é que essa história de ter que esperar para as coisas acontecerem me angustia. Você não pode fazer nada fora do tempo ou tudo dá errado. Não tenho paciência.

A amiga pareceu se assustar:

* Como assim?

Ela, já impaciente:

– Você já seguiu uma receita? Já fez alguma coisa na cozinha?

A moça que parecia gostar de fazer além de comer:

* Já fiz uma coisinha ou outra. Sigo receitas sim e sempre dão certo.

– Mas você segue passo a passo? Obedece aos tempos determinados?

A amiga ainda admirada:

* Ué, sigo sim. Até porque, se a gente não seguir direitinho, dá errado. Se deixar demais no forno, por exemplo, queima. Se deixar de menos, fica cru.

– Então! É isso que eu não aguento. Vai me dando um desespero em ter que esperar. Não tenho paciência nem de fazer pipoca na pipoqueira. Amo pipoca de panela, mas minha paciência só dá pra pipoca de micro-ondas.

A amiga começou a gargalhar:

*Então, é por isso que você não cozinha? Por que não aguenta esperar?

Ela, muito séria, como quem desabafa um sofrimento:

– Não sei o motivo da sua risada. É verdade o que estou falando.

A amiga parou de rir, viu que era verdade o que Ela dizia e se recompondo:

*Menina, pensa comigo: tudo precisa de tempo pra ficar pronto. Tudo tem o tempo certo para você olhar e dizer: pode ir para o mundo. Já pensou se você ficar grávida hoje e seu bebê “nascer” amanhã? Você vai sofrer um aborto sem nem saber que ficou grávida.

A ansiosa de plantão arregalou os olhos e permaneceu em silêncio.

A Amiga continuou:

*E se jogasse hoje uma semente no chão e amanhã a árvore estivesse adulta? Onde estariam fincadas essas raízes? E se um menino de 17 anos entrasse hoje na faculdade e amanhã saísse médico? Como seria formado esse profissional?

Aí Ela indignou-se:

– É muito diferente. Essas coisas precisam mesmo de tempo para amadurecer, crescer, formar. Agora, cozinhar? Esperar o pão crescer? Esperar o feijão cozinhar? Esperar o tempo de o bolo assar? Eu não tenho paciência.

A amiga sorriu e concluiu:

*Não faz mal. Não há qualquer problema em não gostar de cozinhar. Você não gosta, não cozinha. Vai passar a vida inteira refém de alguém cozinhar para você, pagar caro em restaurante, nunca vai ter a alegria de ver quem você ama sentindo seu carinho através da comida, mas isso não tem problema nenhum. É opção. Agora, deixa de onda. Você espera para tudo nessa vida e só não quer esperar o tempo que as comidas precisam para ficarem prontas? Inventa outra, gatinha.

A mãe, que até agora estava ouvindo a conversa riu baixinho e foi cuidar da vida.

Naquela noite, Ela escolheu uma receita.

Foi ao Sr. Google e digitou assim: “receitas fáceis e rápidas”.

Vieram várias listas de receitas que prometiam ser fáceis até para quem nunca “fritou um ovo”.

E começou devagarzinho, cheia de medos e dedos.

Seguiu a receita, obedeceu ao tempo de cada um dos passos.

E deu certo.

Saiu delicioso.

De vez em quando começou repetir o ritual de cozinhar.

“Tá gostando de cozinhar, minha neguinha?”

– Tô nada. Só inventando uma coisinha. São receitinhas fáceis e rápidas.

Um dia, resolveu comprar um livro de receitas.

No outro, viu a propagando de um curso de risotos e se interessou:

– Ouvi dizer que algumas pessoas dizem não saber cozinhar e, mesmo assim, fazem risoto. Eu não sei fazer nada então vou aprender ao menos esse prato que é coringa!

Ao fim do curso, convidou alguns amigos para jantar e, ao final da noite, escutou:

#Sua comida estava maravilhosa. Você cozinha muito bem, está de parabéns!

Ficou feliz.

Ela gostou de seu trabalho.

Gostou do que comeu.

Gostou do que ouviu.

Resolveu estudar, aprender, resolveu crescer devagarzinho.

E, um dia, algum tempo depois, enquanto via pela enésima vez  a costela que já estava no forno há mais de uma hora, deparou-se com o sorriso daquela velha amiga:

*Quem te viu e quem te vê, menina.

Ela, que não precisava de qualquer explicação, foi direto ao ponto:

-Aquela noite, eu fiquei pensando no que você me falou: por não gostar de fazer uma coisa tão legal, por nunca ter-me permitido conhecer, por preguiça de tentar, eu estava me privando de um grande prazer –  falou sorrindo.

A amiga feliz por ter feito parte da mudança:

*Esse tempo que você coloca aqui é o mais delicioso de todos, sua cachorrinha!

Abraçaram-se em meio a uma gargalhada com perfume de costela assada e Ela agradeceu:

-Obrigada por me mostrar, naquele dia, que minha impaciência estava tirando de mim o que hoje é minha grande alegria e mostrar também que tudo que eu falava era só desculpa para minha preguiça. Depois que descobri os prazeres da cozinha, ando de olho nas outras desculpas que dou para boicotar novidades em minha vida. Olho e trato logo de dar um chute em cada uma delas.

Ah, sim, minha irmã, tenho descoberto cada coisa aqui dentro – falou apontando para a própria cabeça.

Dia desses descobri que… eita, deixa eu olhar essa costela. Agora, acho que está pronta!

E assim foram servir o almoço, pois havia pessoas famintas esperando por “sua” costela.

 

 

Não perca a capacidade de se encantar. Ao menos hoje.

 

Com o tempo, você descobre que a beleza está em toda parte.

Lá longe, existem sim belezas mil.

Aliás, o mundo inteiro está aí, cheio de lugares extraordinários, completamente encantadores, lindos!

Mas, por mais incrível que possa parecer, é possível sim achar o belo bem perto da gente.

Lugares pelos quais passamos todos os dias e já se tornaram tão comuns que fomos perdendo, aos poucos, a capacidade de nos admirar com a beleza que neles há.

Já reparou como isso acontece?

Quando você se mudou para essa cidade, onde hoje mora, achava tudo encantador.

Cada esquina uma surpresa, cada monumento, cada beleza natural, um verdadeiro espetáculo.

Mas depois, com o tempo…

Tudo foi perdendo a graça…

Não!

Não foi isso, criatura!

O que aconteceu, na verdade, foi que aquilo que era admirável tornou-se comum com o seu ir e vir.

Você se acostumou tanto que, agora, não se admira mais.

Na verdade,  até estranha quando vê alguém parado, admirando, tirando foto.

A graça, para você, já não existe.

Estou falando de lugares.

E as pessoas?

A gente se acostuma com elas também.

E que triste é se acostumar com as pessoas.

Essa semana, um amigo querido segurou nos braços sua filhinha pela primeira vez.

Ainda no hospital, lá do outro lado do mundo, onde mora, nos telefonou e contou, completamente encantado, como são lindos os dedinhos de sua pequenininha.

Que ela nasceu com as unhas grandes, lindas.

Ele está absurdamente encantando, admirado com a filhinha e cada detalhe do seu frágil corpinho, cada movimento desse serzinho que acaba de nascer.

Admirar as pessoas, encantar-se com elas, talvez seja a maior e melhor de todas as proezas que realizamos ao longo da vida.

“Mas Ela não faz nada mais que me encante.”

No começo, serzinho de luz, você se encantava até com o jeito que ela coçava a cabeça.

Quando tudo era novidade, até as “unhas grandes” eram lindas.

O problema não é Ela que mudou o jeito de se comportar, o problema é você que mudou o jeito de olhar.

Lembre as coisas que você admirava na cidade nova?

Continuam as mesmas, no mesmo lugar, da mesma cor e posição.

Você, que se encantou com “aquele” ângulo, acostumou-se com ele e nunca tentou olhar por uma nova perspectiva.

Simplesmente, parou de procurar com o que se encantar e parou de olhar.

Com as coisas da cidade, você não devia, mas até pode fazer isso.

Agora, com as pessoas…

Com as pessoas não, anjinho.

Aquela por quem um dia você se encantou continua sendo a mesma pessoa.

Seus olhinhos que se acostumaram com isso ou aquilo.

Então olhe hoje de cima para baixo, de trás para frente e procure novas nuances, novas perspectivas de encantamento.

Pois encantar-se faz bem.

Sempre!

 

 

Algumas coisas não há o que discutir, são certas ou erradas e pronto

 

Será que todo mundo sabe a diferença entre o certo e o errado?

Algumas vezes, penso que não.

A gente vê as pessoas fazendo, com tanta naturalidade, aquilo que nos foi ensinado ser errado que dá até um nó aqui no miolo.

Certas pessoas tentam relativizar e dizer que “depende”,pode ser certo ou errado, mas outras não há o que contestar, não tem jeito.

“Bom dia, o senhor está bem?”

*Oi, meu filho, tudo bem.

“Você não fala com ele?”

– Eu não, é só o porteiro.

“Como assim é “só” o porteiro? É o porteiro do seu prédio, criatura, como você não fala com ele?”

– Você que é esquisito, fala “oi” até com as paredes.

Admiro grandemente quem não cumprimenta, quem ignora solenemente as pessoas que trabalham para deixar a nossa vida melhor, mais segura, mais confortável.

Como assim?

O que seria de nós e da nossa cidade se não fossem nossos porteiros, os lixeiros, varredores de rua, os motoristas de ônibus, padeiros, garçons?

O que seria da gente se, em  todas as manhãs antes do sol nascer, muitos deles não estivessem a postos fazendo seu trabalho?

Como seria se, em cada restaurante a que chegássemos, tivéssemos de ir cozinha a dentro conversando com o cozinheiro para contar a ele o que queríamos comer e ter de procurar na geladeira onde fica a água com gás, simplesmente por que a profissão de garçom ainda não fora inventada?

`-Mas eu já fui assaltado em uma rua onde havia segurança paga, o porteiro já foi grosso comigo, um varredor de rua já quase passou a vassoura em cima do meu pé! E garçons, tenha dó, já vivi cada absurdo com garçons…

“Foram todos os porteiros, padeiros, garçons que, de uma só vez, te fizeram as coisas que te desagradaram?”

Estou sendo chata?

É que acredito, sinceramente, que tratar as pessoas com respeito e delicadeza seja o certo, incontestavelmente.

E que isso traz, ao longo do dia, ao longo da vida, coisas boas para quem faz e para quem recebe.

Tem outra coisa que também acho muito estranha.

Nesse ponto, de repente, você me deixe falando sozinha, afinal não faz a menor diferença pra você o que eu acho certo ou errado, mas juro que é só mais essa coisa.

Jogar papel no chão.

– Eu jogo mesmo. Se não tiver papel no chão, haverá trabalho para o lixeiro.

“Engraçado, né? Joga papel no chão para garantir o trabalho do lixeiro, mas, com o ganha-pão do coveiro você não quer colaborar.”

Cara, dia desses, assisti a um vídeo de uma pessoa jogando sacos de lixos lotados na enxurrada.

Como assim?

Quem joga papel pela janela do carro ou sacos de lixo na enxurrada está sujando o que, meu povo?

Acredito, sinceramente, que não há como dizer que jogar lixo na rua pode ser relativizado, se certo ou errado.

Não há o que falar.

As ruas são uma extensão da nossa casa.

Elas também fazem parte do que é nosso.

– Mas todo mundo joga lixo na rua.

“Sua mãe ensinou que você não é todo mundo!”

Em algum momento na vida, é ensinado, ao menos uma vez, que se devem cumprimentar as pessoas, tratar bem aqueles que trabalham para deixar nossa vida mais limpa, mais confortável. Afinal, alguém serve a você, mas você, na roda viva da vida, também serve a alguém e gosta de ser bem tratado, acarinhado.

Alguma vez na vida, foi ensinado que jogar lixo na rua é colaborar para entupir os bueiros, poluir os rios, deixar a cidade com cara de abandono.

Todos fomos ensinados.

Nem todos aprendemos.

Algumas coisas são certas, outras erradas.

Não importa onde ou como fomos criados, educados, tratar bem as pessoas e colaborar para a manutenção da limpeza das nossas cidades é o certo, não há como relativizar.

 

 

Escolher ficar perto de quem é feliz desde antes do sol chegar é sim um grande presente

 

Sua pequena casa era rodeada por árvores, flores e um gramado muito bem cuidado.

“Por que você não aumenta essa casa?”

“Tanto terreno só pra te dar trabalho.”

“Aqui daria para construir uma piscina, ali uma quadra, logo mais ali na frente um parquinho. Não entendo alguém com tanto terreno e uma casa tão pequenininha, sem nada a sua volta.”

As pessoas têm a incrível mania de se meterem onde não são chamadas.

Dar sugestões a quem não pediu, opinarem sobre o que ninguém quer saber.

Incrível isso.

Todo mundo parecia saber muito bem o que Ela devia fazer com aquilo que era só seu.

Tolinhos.

Pitaqueiros de plantão nada sabiam.

Ela sim conhecia as agruras e alegrias de viver em uma casinha tão pequena, rodeada por um espaço tão amplo com tantas árvores, flores e frutos.

Só ela e o Sr. Antônio, o fiel escudeiro do seu reino encantado, conheciam os segredos daquelas árvores e seus moradores secretos.

Ali com ela, moravam passarinhos de várias espécies que construíam seus ninhos, chocavam seus ovinhos, criavam seus filhotes ao alcance de seus olhos encantados.

Eram tantos e tão coloridos que o espetáculo de cada manhã tornava-se praticamente imperdível.

Eram eles que convenciam o sol a se levantar a cada manhã.

Só podia.

Acordavam muito antes dele e punham-se a cantar.

Cantar alto, sem economizar nada de seus ”pulmõezinhos”.

Começavam aos poucos, parecia que um ia acordando o outro.

De repente, era uma conversaria tão grande, uma cantoria tão animada, que nem o sol resistia: vinha chegando de mansinho também para coroar a festa.

Quando a festa animada e o sol se juntavam, era impossível continuar dormindo.

Quem estava há horas na cama era convidado com tanta insistência que acabava tendo de se levantar também.

Mas, um dia, Ela decidiu que acordar junto com os passarinhos era pouco, precisava aproveitar mais as manhãs, acordar ainda mais cedo.

Mas como?

Achava injusto usar despertador quando tinha cantores que a acordavam lindamente.

Mas agora inventara de acordar antes deles e não via outra solução.

Dormiu pensando nisso, conversando com o Criador sobre o assunto.

No outro dia, antes que qualquer passarinho começasse a cantar, pensou ter ouvido uma leve batida na janela:

“Tuc, tuc, tuc.”

Seguido de um canto diferente, suave, doce.

“Tuc, tuc, tuc.”

O toque parecia ser feito por uma pessoa.

Ela até se assustou.

Mas, depois, ouviu novamente o canto.

Lembrou-se do seu pedido antes de dormir.

Levantou e foi até a janela.

Chegou devagarzinho, a tempo de ver um passarinho bem pequeno batendo de leve o bico contra o vidro.

Ela abriu a janela de leve e ele voou.

Pousou no galho mais próximo, cantou novamente a mesma melodia que ela ouvira ainda na cama e foi embora.

Ela ficou parada ali, olhando boquiaberta a escuridão que a rodeava.

Não se ouvia qualquer outro som além das folhas que conversavam com o vento.

Esse fora o primeiro passarinho a acordar naquela manhã.

Antes que qualquer um se levantasse, ele fora ser o seu despertador.

E não só aquele dia.

Aquele foi o primeiro do que passou a ser um ritual: muito antes de os outros cantarem, lá estava ele para que Ela pudesse acordar antes, fazer seu dia render.

Um presente delicado todas as manhãs.

Presente para quem escolheu morar perto de quem é feliz desde antes do sol chegar.

 

 

 

 

Havia chovido o dia inteiro.

Desde o amanhecer até aquela hora, o fim da tarde, o céu derramara toda água acumulada nos últimos dias.

Mas para que aquele dia de férias não fosse perdido, no finzinho o sol resolveu dar o ar de sua graça.

Como se fosse mágica a água que lavara a rua desapareceu os passarinhos começaram a maior festa e o sol, todo sorridente parecia que sempre estivera ali.

Quando as Meninas olharam pela janela e viram toda aquela festa correram até a mãe e pediram para irem à praça.

A praça era o lugar preferido para os fins de tarde.

A mãe que tivera duas criaturinhas tristes por estarem engaioladas durante todo o dia topou a ideia correndo, e assim as três foram felizes á praça.

Lá chegando as Meninas logo encontraram os coleguinhas e começaram as brincadeiras de todos os dias.

Até que lá pelas tantas, Menininha viu a Garota.

Garota andava rápido, muito rápido, no cantinho da calçada.

Braços abertos, coluna ereta, olhava para frente e andava sempre no mesmo ritmo.

Menininha resolveu se aproximar para descobrir por que ela andava de braços abertos.

Foi chegando perto e só então viu que Garota estava andando no meio fio.

Que bacana!

Como se fosse uma equilibrista de circo ela andava desenvolta, apresentando seu espetáculo a quem quisesse assistir.

Menininha foi acompanhando de perto.

Sem encostar, sem atrapalhar.

Foi nessa hora em que ela estava completamente encantada com as habilidades da outra que veio um Menino correndo e deu um empurrão na Garota.

Ela esticou mais os braços, levantou o quanto pode uma das pernas, balançou o corpo tentando encontrar o ponto de equilíbrio perdido, mas mesmo assim não teve jeito: caiu.

O Menino empurrou e saiu correndo, mas ainda viu que Garota caiu lentamente como florzinha quem vem bailando da árvore bem alta até encostar ao chão majestosamente.

“Você se machucou?” –  Perguntou Menininha assustada.

* Não! Estou bem. – Disse ela sorrindo.

“Por que ele fez isso?”

*Aaa ele é bobo. Diz que não sou equilibrista de circo pra ficar me exibindo assim. Eu não sou hoje, mas um dia serei.

“Equilibrista de circo? O que é isso?”

*É um pessoa que fica lá no alto – disse apontando para o céu – andando em cima de uma corda. Lá em cima não tem ninguém para empurrá-la e assim ela vai de um lado para o outro.

“Sério? E você está aqui treinando?”

A Garota sorriu, passou a mão na cabeça da Menininha e disse que sim.

“Eu posso ser equilibrista aqui no seu circo?” – disse Menininha já transformando a praça em circo.

A Garota pensou rapidamente e em trinta segundos o circo já estava pronto e iluminado.

Lá no alto a corda esticada e embaixo uma rede de segurança:

*Você ainda está aprendendo, não pode ir para o alto sem a rede de segurança.

A Menininha parecia insegura, era sua primeira vez como equilibrista:

“E se eu cair?”

Garota mais experiente era a confiança em pessoa:

*Não se preocupe. É só andar com os braços esticados, queixo levantado e olhos fixos lá na frente. Também, se você cair tem a rede de segurança, ela não vai deixar que se machuque.

Menininha não parecia assim tão confiante e por isso Garota, equilibrista experiente que era a desmontou rapidamente o circo e voltou para o meio fio da praça:

*Vamos treinar aqui no meio fio antes que o espetáculo comece. Eu te ajudo.

E segurando a mão de Menininha, Garota foi passando a ela toda sua confiança.

Depois de poucos metros Menininha já andava sozinha e com desenvoltura.

*Acho que podemos começar o espetáculo, Menininha.

Ela arregalou os olhinhos encantados:

“Estou pronta para me apresentar no seu circo?”

*Claro que está! Depois de mim você é a maior de todas as equilibristas deste circo.

O circo foi novamente armado: luzes com efeitos, rede de segurança, lotação máxima.

Garota tomou o lugar do mestre de cerimônias e anunciou:

*Senhoras e senhores, com vocês Garota e Menininha, as maiores equilibristas da Terra!

Elas entraram, agradeceram, subiram pela escadinha solta 25 metros e começaram o show.

Luz só existia para iluminar as duas.

*Você primeiro, Menininha. – Falou baixinho Garota.

Ela foi, um pouco vacilante, mas foi.

A plateia em silêncio e expectativa.

Em poucos minutos ela atravessara toda a corda.

Todos aplaudiram de pé.

Menininha nem acreditava que havia se saído tão bem.

As luzes se acenderam, ela agradeceu emocionada.

Todo o clima foi retomado e Garota começou seu espetáculo.

Menininha do outro lado da corda esperava ansiosa a chegada de sua companheira.

No tempo determinado ela chegou, flutuando como uma pluma.

Se abraçaram.

Mais uma vez muitos aplausos.

Nessa hora ao longe ouviu-se uma voz familiar:

– Menininha, hora de ir.

No mesmo instante as luzes se apagaram, a plateia sumiu, circo desarmado e elas de volta à praça.

“Preciso ir, Garota. Mamãe está me chamando.”

*Tudo bem, Menininha, amanhã fazemos outro espetáculo.

E assim uma equilibrista voltou para casa enquanto a outra foi jogar bola com o irmão.

 

 

 


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