Arquivos de Fevereiro 19th, 2018

Os animais conhecem quem é “gente boa” antes de você. Pode acreditar.

 

Ele era um cara gente boa

Gentil com as crianças, carinhoso com os animais, paciente com os idosos.

Típico “bom moço”.

Mesmo com seu ar sério e à primeira vista com cara de poucos amigos, tinha sempre crianças perto de si.

Ele sorria e elas vinham.

Conversavam, ouviam histórias, contavam as suas e se despediam felizes como se velhos amigos fossem.

Com os animais, não era diferente.

Cachorros e gatos que não deixavam que ninguém deles se aproximasse sentiam segurança ao vê-lo chegar, mesmo que fosse a primeira vez.

Iam ao seu colo, lambiam sua mão, brincavam com ele.

“Esse cara é gente boa.”

– Como você sabe?

“Olha só, o Falcão gostou dele de cara. Esse cachorro não deixa desconhecido nenhum chegar perto dele e olha a farra que os dois estão fazendo. Pode ter certeza que é gente boa. A gente pode até errar, mas os cachorros não erram.”

– Não sei não, ele tem a cara muito estranha.

“Pode acreditar no que estou falando, ele é gente muito boa!”

Cada um foi para um lado e nunca mais se viram.

Nem as amigas, nem o cara, nem mesmo o cachorrinho em questão nunca mais viu nenhum dos três.

O tempo passou, as estações voaram e, quando se deram conta, já era novamente verão.

E, naquele fim de tarde, comecinho de noite, enquanto caía uma típica tempestade da estação, seu carro resolveu apagar na faixa do meio de uma pista lotada e engarrafada até não poder mais.

Enquanto ela tentava dar partida no carro desesperadamente, ouviu uma batida em sua janela.

Era um homem, completamente encharcado que pedia para que ela virasse o volante para a direita que ele iria empurrar o carro até o acostamento.

Ela, que era o agoniamento em pessoa, obedeceu sem nem pensar.

Em pouco tempo seu carro estava no acostamento, em relativa segurança.

O moço então pediu para que ela abaixasse o vidro.

Ele perguntou se o carro tinha gasolina e depois de uma rápida conversa desconfiou qual era o problema.

Pediu que ela levantasse a tampa do motor, mexeu daqui, mexeu dali e fez o carro funcionar.

Ao terminar, encharcado até “os ossos” disse a ela:

*Não se esqueça de levá-lo à oficina. Se esse problema se repetir ,você pode não conseguir fazê-lo funcionar.

Ela agradeceu o quanto pode e, quando já estava indo embora, olhou bem para o moço e se deu conta de que ele era aquele que ela achara estranho no outro dia.

– Você não é amigo da Menina?

Ele sorriu e confirmou:

*Sou sim.

– Então, é de lá que te conheço. Você ficou amigo do Falcão, não foi?

*Aquele Falcão é uma figura – disse sorrindo.

-Então, qual seu nome?

E foi assim que, em meio a toda aquela confusão, trocaram cartões de visitas e se despediram.

Ela se lembrando do que a Menina repetira aquele dia:

“Esse cara é gente boa. É gente boa sim.”

Ele pensando que precisava tirar aquela roupa molhada, tomar um banho quente.

O tempo passou e a moça, apesar de estar completamente admirada com a atitude do cara gente boa, esqueceu rapidamente o fato. E ele, depois de seco, nunca mais se lembrou dela.

Até que, um dia, a moça encontrou o cartão do Cara, lembrou-se de sua gentileza e mandou que lhe entregassem um mimo desses que se dá aos homens com um cartão de agradecimento.

O Cara recebeu e achou estranho.

Para ele era tão natural ajudar gente em apuros que nem se lembrava mais da moça.

Mesmo assim, telefonou para agradecer.

Combinaram de se encontrar e coisa e tal.

Encontraram-se uma, duas, três vezes e quando se deram conta já sabiam mil e uma coisas da vida um do outro.

Já estavam aprendendo, ensinando, sendo felizes com a companhia do outro.

Quando acontecia alguma dificuldade lá ou cá, era para o outro que telefonavam e, quando alguma alegria dava o ar da graça, a mesma coisa acontecia.

Até que um dia se deram conta que a amizade podia ir para o próximo estágio.

Tomaram todas aquelas providências para que os até então amigos fossem morar juntos, compartilhassem o mesmo nome, casa, cama…

E, agora, quando o papo é “como faço para encontrar um homem descente?”

Ela, em meio a feliz confusão que vive com crianças cantando e cachorros latindo, dá a receita:

“Observe como gatos e cachorros se comportam com ele. Se os bichinhos gostarem do moço, invista que o cara é gente boa. A gente pode até errar, mas cachorros e gatos não erram jamais!”


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