E se não precisasse obedecer?

Postado em: 28 de Fevereiro de 2018

Aaa se eu pudesse fazer tudo do jeito que eu bem entendesse…

 

“Levante aí a mão quem gosta de obedecer a ordens.”

O auditório barulhento, que lotado estava, de um minuto para o outro, ficou completamente vazio.

Parecia que realmente assim se tornara tal era o silêncio que tomou conta do local.

Os donos de cada par de olhos ali presentes pareciam não querer se mexer.

Temiam que o menor movimento pudesse fazer com que o interlocutor entendesse que sim, que eles gostavam de seguir leis, obedecer a ordens.

Por suas cabecinhas agitadas, passava qualquer coisa, menos o desejo de obedecer.

Seguir ordens, para eles, era deixar de realizar as próprias vontades, abandonar seus gostos e fantasias, era viver o que já estava por outro preestabelecido.

Não!

Qualquer coisa, menos isso.

“Ei! Onde estão todos vocês? Fugiram? Tudo isso por que ouviram as palavras ordem e lei? Não, minha gente, tenha pena de mim. Vamos ali descobrir que esse bicho cabeludo, de pernas, braços e tentáculos assustadores não é assim de todo mal.”

“Vejamos aqui o que diz o nosso amigo, Sr Dicionário.”

“Vocês já ouviram falar nele? Sabem quem é o Senhor Dicionário? Também conhecido injustamente como pai dos burros?  Injustamente eu digo, pois quem  a ele recorria estava procurando conhecimento e quem conhecimento procura é qualquer coisa na vida, menos burro.”

“Hoje, sei que vocês não mais por ele procuram, se é que a ele já tinham sido apresentados. Que vocês, quando têm dúvida sobre qualquer palavra, significado ou grafia vão ao Sr. Google.”

“Mas nós aqui vamos recorrer ao bom e velho dicionário.”

Ele foi até a mesa que estava no palco e abriu um grosso e empoeirado dicionário.

Enquanto foleava suas amareladas páginas, no telão aparecia todos os movimentos que fazia:

“R, aqui está.”

“Depois de encontrar o R procuro o A.”

“No dicionário se procura pela ordem que segue o alfabeto, uma letra após a outra.”

“Aqui está RE.”

“Agora, nesse sequencia lógica, procuro quando o G aparece depois do E.”

“Aqui!”

“REG.”

“Onde estará o R depois desse G minha gente?”

“Aqui está ele, agora falta tão somente o A.”

“O A como fica no começo de todas as sequencias alfabéticas é mais fácil de achar.”

“Aqui está REGRA: O que regula, disciplina, rege; norma, preceito, rédea. Preceito que determina uma norma de conduta ou de pensamento.”

“Quem nos deu essa preciosa informação – disse apontando para o dicionário que descansava sobre a mesa – foi esse monstro aqui, o Michaelis, português.”

O silêncio já não estava assim tão pesado.

Parecia que, aos poucos, os alunos haviam voltado a respirar.

“Imagine você um mundo sem regras. Já pensou como seria?”

“Pois, de agora em diante, eu declaro: Não há mais regras para nada. Não é preciso obedecer mais nada nem ninguém. Cada um pode fazer tudo, tudo mesmo o que bem entender!”

De um segundo para o outro, todos se agitaram novamente. Pareciam ter gostado da ideia.

“Quando digo sem regras é sem regra mesmo: o sol levantaria todos os dias à hora que bem entendesse, e se recolheria quando tivesse vontade. Já pensou? No dia em que ele não estivesse a fim, os relógios marcariam o meio do dia, mas ainda seria noite ou quando estivesse muito animado você estaria doido para dormir e ele permaneceria no meio do céu, como se meio dia fosse. Não haveria regras, cada um, inclusive o sol, viveria como bem entendesse.”

“E as estações do ano?”

“Elas poderiam muito bem fazer um combinado entre si e resolverem ficar em um só lugar o ano inteiro. Imagine: Elas combinam de ficar o ano inteiro em um só lugar, sem fazer rodízio e, aí, enquanto em um lugar é inverno o ano inteiro, no outro é sempre verão. Em outro canto só primavera e, lá longe, sempre outono.”

Eles pareciam estupefatos com a possibilidade de assarem ou congelarem com a permanência de uma só estação durante tanto tempo.

“Regras? Para que seguir regras?”

“Sem as regras, o carteiro pode deixar a correspondência da minha casa na sua e da sua na casa do chapéu. O padeiro pode fazer somente pão doce, afinal esse é o de que ele mais gosta, e todas as macieiras do mundo podem simplesmente nunca mais produzir uma só maçãzinha.”

“Em um mundo sem regras, você pode chegar à escola a hora em que desejar se desejar, quando desejar. Não precisa fazer trabalhos ou provas, nem respeitar os colegas e professores. Em um mundo sem regras, você pode comer só o que tiver vontade e jamais precisará arrumar a cama ou guardar os sapatos.”

“Afinal, não existem regras.”

“Seu estômago, se não estiver com vontade, não precisa digerir, nem seus rins filtrarem os líquidos que tem bebido. Não há regras. Liberdade! Cada um faz o que bem entende.”

Todos calados, imaginando admirados.

É quando Ele começa a falar um pouco mais baixo:

“Não se espantem se, quando terminarem as aulas, não tiver ninguém aqui na porta esperando você para te levar de volta para casa. Não há regras. Não se assuste se não houver comida em sua casa ou se lá estiverem confortavelmente instaladas pessoas desconhecidas. Não há regras. Não se assuste se tudo fugir da normalidade a que você está acostumado. É que as regras não mais existem.”

Houve silêncio total.

Tanto daquele que havia colocado abaixo todas as regras do universo como daqueles que gostaram em um primeiro momento, mas, agora, estavam tentando compreender como as coisas ficariam caso aquilo verdade fosse.

“Meus queridos, estão vendo como elas são importantes? Estão vendo como, sem elas, não podemos viver?”

Nova movimentação.

“Cada um de nós, dentro da sociedade em que vivemos, tem um papel a cumprir com direitos e deveres e precisamos sim cumprir nossa parte. Seguir as regras que nos são estabelecidas ou, senão, tudo vira um caos.”

“Eu tenho que cumprir regras para que vocês vivam bem, assim como vocês têm de fazer a parte que cabe a cada um para que todos vivamos bem.”

“E, agora, vamos embora. Nosso tempo juntos hoje terminou e ter horário para terminar também faz parte das regras.”

Os alunos saíram em relativo silêncio e, enquanto os observava, o professor acalentava em seu coração a esperança de ter sido entendido e, para frente, atendido.

 

 

2 Responses to "E se não precisasse obedecer?"

Muito bom texto! Parabéns

Obrigada, Lilian!
Volte sempre.

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