Arquivos de Março 2018

Quando o sonho muda de rumo a gente senta e ch0ra.

 

Já chorou descontroladamente?

Aquele choro dolorido e triste que vem lá do fundo do coração e vai saindo sem pedir licença?

O choro que dá a sensação de abandono, desamparo…

Ela chegou a casa, bateu a porta com todas as forças que possuía, sentou-se no chão e chorou.

Não foi aquele choro que começa discreto e vai crescendo não.

Seu choro já nasceu adulto, alto, forte.

Sentada ali, encostada na porta da sala, Ela chorou como há muito não chorava.

Ela, que era a irmã mais velha de uma família com cinco meninos, aprendera desde cedo que choro era coisa de menininha.

Cada vez que escutava alguém dizer a um de seus irmãos:

“Não chore! Homem não chora. Deixe essas lágrimas para serem derramadas por sua irmãzinha.”, ela ficava brava e chorava menos.

– Como assim, deixe as lágrimas para a irmãzinha? Por que sou menina tenho de viver chorando? Quem falou? Pois eu não sou chorona, eu sou brava!

Por fim, em sua cabeça, foi ficando a ideia de que chorar era coisa para meninas bobas, não para ela.

Como não era uma menina boba, simplesmente não chorava.

Cada vez que tinha alguma necessidade de choro durante a infância e adolescência, fazia sua cara mais brava, falava, discutia, engolia se fosse o caso e seguia em frente.

No fim, já estava profissional na arte de engolir o choro.

Assim, Ela foi passando por tudo e todos na vida.

Cada vez com menos lágrimas, cada vez mais “brava”.

Ela acompanhara a gravidez da Amiga desde aquele primeiro zap:

“Amiga, estou grávida!”

A brava, que ainda não era mãe, sabia do desejo que a Amiga sempre tivera de ter filhos.

Desde a infância, fora mãezinha de bonecas, cachorrinhos, ursinhos encardidos  e a todos, sem distinção, tratava com carinho.

Agora, enfim chegara a hora em que o sonho se tornava realidade: ela estava recheada de amor, ia ser mãe.

A felicidade que sentia pela realização do sonho da Amiga era tão grande que não dava nem para contar.

Saiu de onde estava correndo, comprou o menor sapatinho que encontrou e foi beijar a barriga da “buchudinha”.

Daquele dia em diante, passou a ligar para ela todos os dias, perguntar seus desejos, fazer comidinhas especiais, levar mimos:

“Criatura, com tanta comida que você me traz, vou acabar virando uma bola. Tem gente aqui dentro comendo comigo, mas só mais uma boca, não precisa de tanta comida não!”

Ela logo colocava a mãezinha em construção no lugar dela:

– Essa menina tem que saber que, quando a tia aqui chega, tudo vira festa e, em festa, tem comida gostosa. Só estou ensinando minha sobrinha.

A Amiga começava a rir:

“Quem te disse que é menina?”

– Eu sinto!

E, assim, os meses foram passando: telefonemas quase a ponto de torrar o saco da mãe, visitas, adivinhações para tentar alguma coisa que parasse no estômago da enjoada, sapatinhos, roupinhas e mensagens de WhatsApp. Milhares, milhões delas.

E, um dia, o telefonema:

“Vou fazer a primeira ecografia, quer ir comigo?”

– Tá ficando louca? Claro que quero.

E lá foram as duas.

Todo mundo sabe que, na primeira ecografia, não dá para ver se a criaturinha é menino ou menininha, mas Ela não estava nem se importando, queria ver sua sobrinha nadando.

Foi toda serelepe.

Durante o exame, silêncio.

#É a primeira ecografia?

“É sim.”

Silêncio.

A médica ia e vinha com aquele negócio na barriga da grávida, muito séria, sem falar uma só palavra.

Até que lá pelas tantas, quando Ela já quase enfartando:

# Foi sua primeira tentativa?

“Primeira tentativa do quê, doutora?”

# Inseminação artificial?

A buchudinha arregalou os olhos:

“Teve nada artificial aqui não, moça, foi tudo natural mesmo.”

A médica olhou admirada para a mãe, abriu um largo sorriso:

# Sério? Que encanto! Você será mãe de três pessoinhas que estão graciosamente dividindo a mesma placenta!

O silêncio, agora, mais que absoluto.

Durou apenas alguns segundos.

Depois foi tanta gritaria, tanto escândalo das duas que até a médica entrou na festa.

Lá pelas tantas:

“Explica doutora, explica para gente, pelo amor de Deus, o que significa isso!”

# Você será mãe de três crianças do mesmo sexo e idênticas.

A mãe assustada:

“Meu Jesus do céu, que aventura! Tenho que avisar para o pai deles.”

Ela, que já estava empolgada com a história de ser tia de um, agora então, não cabia em si.

Saíram dali direto para o shopping:

– Preciso encontrar mais duas peças de tudo aquilo que já comprei. Pensei que era só um sobrinho, mas vou ganhar é três. Ai, meu Pai, que feliz.

A partir daquele momento, Ela falava para todo mundo que seria tia de três meninas.

“Eu não sei quem te disse que serão meninas.”

-Ninguém disse, eu sinto.

Chegou o dia de saber o sexo.

Da sala de exame a médica telefonou para outra amiga que não Ela para contar o sexo, a moça seria responsável pela organização do chá revelação.

#Pensei que seria sua amiga que veio aqui com você na primeira ecografia que faria o chá.

“Pode não, doutora. Se aqui não estiverem três meninas, a hora que eu olhasse pra ela saberia, a pobre não consegue disfarçar decepção.”

Elas riram.

Chegou o dia da festa e lá Ela ficou sabendo que seria tia sim, de três meninos.

A bichinha ficou murcha por trinta segundos e disparou:

– Eu senti triplamente errado. Tem problema não, minha gente, vou aprender a ser tia de menino para que, quando a Amiga tiver meninas,  eu esteja bem treinada.

E continuou feliz curtindo a gravidez da amiga.

Em vez de cor-de-rosa, seus sonhos de tia passaram a ser azuis, só isso mudou.

Com o passar do tempo, o avanço da gestação, os desafios foram aparecendo.

Vieram  a internação e a sentença:

# Mãezinha, eles estão querendo nascer antes da hora. É preciso ficar internada, pernas pra cima, sem levantar nem para banho para a gente segurar esses rapazinhos no forninho até a hora certa.

Ela praticamente mudou-se com a amiga para o hospital.

Revezava com o pai dos meninos o tempo todo.

Tornou-se profissional em carregamento de comadre, em distração de grávida acamada, animadora de gestante.

Sofria a cada visita médica e exame detalhado em que descobria que o colo do útero estava se abrindo e não havia mais o que pudesse ser feito.

Todas as providências foram tomadas, todos os recursos utilizados, mas, por mais que a Amiga estivesse quase de cabeça para baixo para tentar fazer com que os bebês ficassem ali, não teve jeito, eles nasceram com 23 semanas de gestação.

Dois ainda não estavam completamente formados.

Esses não conseguiram.

Eram muito pequenos, frágeis demais.

E Ela, sentada ali no chão da sala, chorando desesperadamente, se perguntava o porquê de tudo.

Não havia o que fazer, era só chorar.

A Amiga, que estava muito mais sofrida que ela, ficara no hospital se recuperando do parto, e Ela fugira para chorar.

Ficou ali por horas, chorando alto, jogando fora toda sua frustração e dor.

Lá pelas tantas, se lembrou:

– Dois se foram, mas ainda tem um pequenininho lutando pela vida na incubadora. E minha amiga? Ela precisa de mim!

Foi até um espelho, olhou para si e deu uma bronca:

– Pare de chorar! Muitas coisas incríveis ainda estão por vir. Tome um banho e volte pra lá agora, esqueceu que você é brava?

Ajuntou a si mesma, fez do seu ombro o mais forte dos lugares e voltou para junto de sua Amiga, que precisava dela mais que nunca.

 

Será? Será? Vai explodir, vai dar errado. Melhor não confiar.

 

Ela tinha mania de dizer que não acreditava em nada nem em ninguém.

Falava para quem quisesse ouvir que não tinha motivo para acreditar nas pessoas, não tinha como ter fé em nada.

Era feliz assim e ponto.

Na hora do aperto era mais difícil se virar, afinal fora uma opção que a fizera não acreditar, então, não tinha a quem procurar.

Mas isso fazia falta apenas por alguns segundos, depois, Ela dava seu jeito e seguia em frente.

Até que, num dia, acordou cedinho para ir trabalhar e, enquanto esperava o elevador, pensou:

“Será que alguém já andou nesse troço hoje? Tinha uma equipe fazendo manutenção nele aqui ontem, e se alguém resolveu sabotar os cabos? E se, quando eu entrar e começar a descer, ele despencar. Acho melhor não confiar.”

Desceu dez andares de escada.

Entrou em seu carro e achou que algo havia acontecido ali:

“Será que alguém entrou nesse carro durante a noite? Vi umas pessoas estranhas na garagem ontem. E se colocaram alguma coisa nele e, a hora que eu ligar, der um pipoco? Acho melhor não confiar.”

Saiu da garagem pensando como chegaria ao trabalho.

Não tinha outro carro para dirigir.

Ir de UBER, táxi ou ônibus ia requerer que tivesse confiança nos motoristas, achou melhor não confiar. Foi a pé.

Chegou ao trabalho atrasada, suada e já cansada.

Parou em frente ao elevador e lembrou-se da primeira desconfiança que tivera no dia.

Subiu, de escada, 15 andares.

Chegando lá em cima, parou exausta em frente ao bebedouro.

Olhou em volta, observou os copos, o próprio bebedouro e preferiu não confiar.

Começou a trabalhar com sede mesmo.

Quando foi ligar o computador, lembrou-se de que vira o rapaz da manutenção trabalhando em sua máquina no fim da última tarde.

Não teve coragem de ligá-la.

Foi adiantar uns relatórios à mão mesmo.

Lembrou-se de que não havia tomado café.

Só pensar em descer e depois subir 15 andares pelas escadas a fez esquecer a fome.

Quando a hora do almoço chegou, estava já desfalecendo.

Desceu correndo os 15 andares e foi caminhando para o shopping mais próximo.

Para que pudesse chegar tinha de atravessar uma avenida super  movimentada.

Foi até o semáforo e ficou esperando que ele se tornasse verde para os pedestres.

Enquanto esperava pensava:

“E se, justo na hora em que eu estiver passando, um carro arrancar e me atropelar? E se aqui na primeira fileira de carros estiver parado um psicopata só querendo que eu comece a travessia para me matar?”

Nessa altura do pensamento, o sinal ficou aberto para os pedestres.

Ali não havia o que fazer: ou Ela atravessava naquele momento ou teria que correr em meio aos carros em movimento.

Algumas pessoas já haviam passando em frente de todos os carros, Ela resolveu se arriscar: contou até três e atravessou correndo.

Ao chegar ao outro lado, suas pernas tremiam e as mãos suavam.

Tentou se acalmar enquanto se dirigia à praça de alimentação.

Para chegar lá, precisava ir até ao terceiro andar do prédio.

Já decidira: não podia confiar em elevador, muito menos em escadas rolantes.

Subiu os três andares.

Lá chegando, começou a procurar um lugar para comer.

Andou por todos os lugares, olhando atentamente cada um dos restaurantes:

“Como será que essas verduras foram lavadas? Qual a procedência dessa carne? E o estado das panelas em que essas comidas foram preparadas? Qual será?”

Fez indagações como essas na frente de cada um dos restaurantes.

Foi com a cara de um e lá pediu um suco de laranja.

Não sem antes conferir disfarçadamente se o espremedor estava mesmo limpo, se a atendente lavara as mãos, se poderia tomar seu suco em copo descartável.

“Como pude esquecer minha marmita? Não tenho como confiar nessas comidas de restaurante.”

Bebeu dois copos de suco.

Desceu os três andares de escada.

Fez o mesmo ritual para atravessar a avenida movimentada.

Subiu os 15 andares até o escritório. De escada, que fique claro.

Continuo seu trabalho manualmente mesmo.

O expediente acabou e, antes de sair, foi ao banheiro.

Ao lavar as mãos viu que tinha calos em um dos dedos da mão direita: ele fora adquirido ao longo do dia, enquanto escrevia vorazmente seus relatórios.

Desceu 15 andares.

Caminhou três quilômetros até chegar a casa.

Lá chegando, subiu 10 andares.

Resolveu que, naquele dia, não ligaria o fogão; ele podia explodir.

Não tomaria banho quente, poderia morrer eletrocutada enquanto estivesse ensaboada.

Não comeria nenhuma das coisas industrializadas que estivessem em sua geladeira: poderiam ter vindo envenenadas de fábrica.

Fez mais de um litro de suco de laranja e bebeu.

Ao se deitar estava exausta.

Foi quando pensou:

“Sempre me gabei de nunca confiar em nada nem em ninguém, mas acho que estou passando dos limites. Estou aqui morrendo de tanto cansaço por ter subido e descido escadas o dia inteiro. Meus colegas e vizinhos subiram e desceram de elevador e ninguém voou pelos ares. Andei nem sei quantos quilômetros por não confiar nos motoristas de transporte público e por ter medo de ligar meu próprio carro. Os jornais não falaram de um só acidente de carro nessa região, nem explosões de carros na garagem. Passei fome o dia inteiro com medo de ser envenenada. Se alguém tivesse sido envenenado naquele shopping, todo mundo já estaria sabendo. Não liguei meu computador com medo que ele explodisse. Ninguém lá no trabalho teve qualquer explosão ao longo do dia. Fiz toda essa marmota “por não confiar em ninguém.” Ganhei o que com isso mesmo?”

Nessa altura da reflexão, Ela sentou-se na cama.

Levou às mãos à cabeça e declarou em alto e bom som:

“Pois, a partir desse momento, eu acredito, tenho fé e confiança em tudo e todos. Começando com o Todo Poderoso a que eu posso clamar sem pudor na hora do aperto. Confio agora no técnico do elevador, motorista de transporte público, cozinheiros e todos os prestadores de serviço que me cercam e, se r qualquer perrengue acontecer ,eu olho para o céu e peço socorro. Essa história de ser incrédula e desconfiada vai acabar me matando.”

Aproveitou seu momento de sinceridade e olhando para o céu agradeceu:

“Obrigada Senhor pelo dia. A partir de agora, confio em Ti.”

Deitou rapidinho e dormiu tranquilamente.

 

 

E justo agora quando o mundo inteiro cheira a chocolate Ela resolve ficar sem doce.

 

Ela acordou cedo e ficou quietinha na cama como se ainda estivesse dormindo.

No almoço de família no meio da tarde, na festa com as amigas à noite e em tudo que comera.

Lembrou-se de quantas vezes repetira o almoço e de quantos pedaços de torta fora feita a sua sobremesa.

E na festa à noite?

Foram tantos pães de queijo, coxinhas e doces que não dá nem pra contar. Também, aqueles doces estavam tão lindos e com a cara tão irresistível, tão deliciosos…

Comera que se lambera.

Mas agora, ao se lembrar, deu uma vergonha que ela chega se encolheu.

“Estou comendo como um javali desenfreado, meu Pai. Preciso me controlar.”

Sentou na cama

Coçou a cabeça.

Espreguiçou.

“Será que javali come muito? Vai ver estou acusando o moço de um pecado que ele nem comete.”

Levantou na velocidade de um bicho preguiça sonolento e se arrastou até o banheiro.

Enquanto reinava, começou a assistir ao vídeo de um canal que seguia.

Lá, um casal contava, de maneira bem humorada e saltitante, que estava sem consumir açúcar há alguns meses e estava sentindo uma diferença absurda: disposição, criatividade, ânimo…, tudo tinha melhorado.

Além de terem perdido medidas, claro.

Lembrou-se dos dias que ficara sem todas as iguarias adocicadas e como realmente o peso diminuíra. Não vira todas aquelas vantagens que o povo do “Cadê a chave” falara no vídeo não, mas o peso diminuíra.

“Disso que preciso! Preciso ficar sem açúcar!”

Antes de pensar direito, falou bem alto para quem quisesse ouvir:

“Vou ficar sem comer açúcar por um tempo!”

Quando acabou de ouvir as próprias palavras, se lembrou dos milhares de chocolates que vira nas lojas:

“Misericórdia, minha gente, e a páscoa?”

O arrependimento tomou conta do coração de maneira imediata.

Enquanto ouvia as palavras de apoio que vinham de toda a casa por sua decisão, ela ia se arrependendo, se arrependendo…

“Posso muito bem gritar aqui que vou começar essa abstinência depois da Páscoa, ninguém vai me condenar por isso.”

Mas aí vem a consciência pequenininha e perturbadora, dando voz, ação e coração ao conflito interno:

– Mas você já falou pra todo mundo que vai começar a partir de hoje. Não tem palavra não, é?

Ela, toda contrariada e já se lembrando dos relatos da Nilce sobre como foi difícil a crise de abstinência do açúcar:

“Ai, meu Pai! Todo mundo comendo chocolate durante dias em todos os lugares e eu olhando? Como vou resistir?”

– Pense bem, criatura. Enquanto todo mundo estiver queimando as calorias ganhas na páscoa, você vai estar à frente: queimando só as que já estão aí, não vai ter nada de novo.

Ela, em um muxoxo de fazer pena, tentou contestar de todas as maneiras, mas foi derrotada em cada um dos seus argumentos:

“É verdade, né? Vou embarcar nessa então.”

E aquela vozinha, que na verdade era sua aliada, disparou para finalizar:

– Cada vez que você sentir vontade de comer alguma coisa engordativa, qualquer coisa, doce ou salgada, pense assim: valem a pena as calorias que vou ganhar com isso? Certamente, não valem, aí você se arrepende antes de comer.

A indignação tomou conta de quem ainda nem havia se levantado do trono para começar a dieta:

“Como assim? Eu disse que vou parar de comer AÇÚCAR agora e você já quer que eu coloque na berlinda todas as coisas que for comer? Poupe a minha pessoa. Tenha dó.”

E quem só estava tentando ajudar:

– Não está mais aqui quem falou.

Ela terminou o reinado e foi embora para começar a vida sem açúcar.

 

 

Olha só o resultado por se esforçar menos!

 

Ao lado da escada que faz com que se suba sem qualquer esforço, está a imóvel.

A primeira, com seu ritmo próprio, faz com que aquele que dela se serve chegue lá em cima ou cá embaixo no ritmo que foi programada.

Não há como acelerar ou diminuir o esforço da máquina.

Ela segue em ritmo pré-determinado.

Quem a usa não quer suar ou fazer esforço, quer simplesmente chegar sem que o coração acelere.

Em nome disso, entrega à máquina seu poder de escolha da velocidade, deixa que ela decida.

E sobe no primeiro degrau que surge à sua frente e, assim, desliza confortavelmente rumo ao seu destino.

Gasta o tempo que a máquina estava programada para gastar.

Só então, quando é expulso da escada, reassume o andamento da própria vida.

Segue novamente em velocidade particular.

“Estou precisando tanto emagrecer. Acontece que não tenho tempo de fazer exercícios.”

– Por que não abandona a escada rolante e o elevador?

O fora de forma em questão arregala os olhos:

“Mas aí vou suar, ficar cansado, chegar aos lugares pingando.”

– Mas aí você vai emagrecer. Não há outro jeito de perder peso, a não ser suando.

Ficou pensativo.

Continuou frequentando a escada que rola e o elevador.

Não é fácil mesmo abandonar aqueles que fazem o serviço pela gente.

Afinal, eles são mágicos!

Na primeira não é preciso apertar nada, esperar nada. É só subir e ficar olhando em volta, ela faz tudo.

No segundo, basta apertar um botão e esperar.

Como por um passe de mágicas, abre-se uma porta.

Lá no fundo, um espelho onde se pode observar a própria silhueta.

Escolhe-se o andar que deseja ir e as portas se fecham.

A caixa espelhada vai até o destino escolhido em questão de segundos.

Por que motivo, razão ou circunstância deixar de andar nessa “caixa mágica” que te conduz até lá em cima no último e mais alto dos andares ou até o último subsolo onde moram somente as máquinas, sem qualquer esforço?

Para que ficar procurando as escadas escondidas atrás de portas corta fogo?

Para que subir carregada de coisas se a caixa mágica leva e traz tudo sem nada dizer?

Não tenho como negar, poder dar o controle do meu tempo à escada que vai em seu próprio ritmo e subir e descer ao bel- prazer da caixa mágica é algo extremamente tentador.

E se a maioria o faz, por que eu também não posso fazê-lo?

– Pode sim.

“Posso?”

– Pode.

“Só não pode reclamar.”

– Do quê?

“De não ter tempo de fazer exercícios. Afinal, cada vez que entra na “caixa mágica” ou na escada que sobe sozinha, está deixando uma série de exercícios pra depois.”

-Verdade…

Disse distraidamente enquanto entrava no elevador.

 

 

 

Ele estava sofrendo muito quando se deparou com a rotina do sol…

 

E Ele ouviu tudo no mais absoluto silêncio.

Já havia discutido sobre aquilo muitas vezes, usado todos os seus argumentos, achado ruim, brigado, xingado.

Cansara.

Agora, só o silêncio.

“Terminou?”

-Terminei.

Escutou o último grito.

Saiu da sala sem fazer barulho.

Sentia-se extremamente infeliz e injustiçado.

Seu corpo doía.

Cada pedacinho, como se por cima dele tivesse passado um rolo compressor.

Não queria que tudo terminasse assim.

Havia começado de um jeito tão encantador…

Mesmo sem aceitar o fim resolveu ir embora.

Não dava mais.

Ele dizia a verdade.

Ela não acreditava.

Ele não tinha como provar.

Ela só escutava a própria voz.

Pegou algumas coisas, arrastou-se até o carro, saiu sem rumo.

Rodou, rodou, rodou até encontrar a solidão.

Parou.

O sol ia embora silenciosamente.

Ele desceu do carro e sentou-se para observar.

Quando se deu conta, estava sozinho na mais profunda escuridão.

Pensou em voltar e tentar se explicar novamente.

Desistiu.

Entrou no carro e foi procurar um lugar para passar a noite.

Ao encontrar, não se deu o trabalho de acender as luzes.

Ficou parado olhando a escuridão.

Viu os astros passarem pelo céu e a noite terminar.

Silenciosamente, como fora, o sol voltou.

Encontrou-o com a mesma roupa, sem comer, arrasado do mesmo jeito.

Ao ver a manhã já indo longe, Ele se lembrou de que, no meio da madrugada, a escuridão fora terrível.

De que, a certa altura, tivera a impressão de que até mesmo as estrelas tinham indo descansar.

Mas de que o sol, mesmo assim, voltara a brilhar.

Foi quando Ele resolveu se levantar, precisava sair daquela situação.

Ficar parado, chorando e sentindo-se injustiçado não mudaria nada em sua vida.

Tomou um banho.

Comeu.

E saiu.

Para onde?

Não sabia.

Fazer o quê?

Não tinha ideia.

Mas saiu.

Já se encolhera, era hora de se esticar!

 

 

 

Tratar-se bem, algumas vezes é a mais difícil das missões

 

Algumas vezes, escolhemos ter misericórdia com aqueles que nos cercam.

Compreendemos os erros das pessoas, perdoamos, aceitamos, acolhemos e continuamos.

Mantemos a amizade, o convívio.

E acredito sinceramente que isso é o certo a fazer.

Exercer misericórdia com aqueles que nos cercam é algo extremamente razoável e de bom tom.

Melhora o convívio, traz harmonia, paz.

Parabéns a você que consegue assim fazê-lo.

Algumas vezes, tratamos quem nos olha no espelho todas as manhãs com tanta crueldade.

Não temos carinho nem delicadeza ao nos depararmos com os nossos próprios erros.

Chegamos de sola falando mal, flagelando, fazendo sofrer.

Não temos qualquer misericórdia quando nós mesmos cometemos os mesmos erros que perdoamos nos outros.

E passamos a conviver com a amargura do “desamor” ´próprio.

O perdão que não liberamos a nós mesmos e a crueldade com que nos tratamos fazem que sejamos espantalhos humanos andando desamparados.

Sim, desamparados, sem perdão.

Pois o mais precioso amparo que podemos ter na vida é aquele que encontramos dentro do nosso próprio coração e tratarmos a nós mesmos com carinho, amor e atenção.

Aproveite o hoje e perdoe-se, ame-se e volte a viver.

 

Ser alguém na vida de alguém é o melhor dos presentes. Pra quem o é.

 

Nada como ter para onde voltar.

Uma vez, li o relato de um garoto dizendo que, quando decidiu mudar-se de cidade, ouviu de seus pais que ele poderia ir tranquilo, caso alguma coisa desse errado e ele precisasse voltar, as portas estariam sempre abertas.

Ter para onde voltar abre as portas do mundo.

Dá a certeza de que pode bater assas, afinal, o ninho seguro estará sempre esperando você.

Ela tinha para onde voltar.

Sempre soube que tinha.

E começou indo cedo.

Começou dando uns passos pequenos e vacilantes.

Ia e voltava rapidinho.

Ficava um tempo, respirava, descansava e, quietinha, planejava ir mais longe, ficar mais tempo.

E lá ia Ela.

Mais longe, mais tempo.

Voltava feliz, contando mil e uma coisas: sabores, cheiros, texturas, pessoas.

Voltava e passava um tempo.

Quando menos se esperava, a mochila já estava novamente nas costas: mais longe, mais tempo.

Houve um ano em que passou mais tempo lá do que cá.

As coisas começaram a acontecer por onde ia.

Seu trabalho começou a ser reconhecido onde era apresentado.

Mesmo tendo para onde voltar, ficava mais tempo no mundo do que no seu porto seguro.

Precisava conquistar o mundo.

Tudo ia muito bem: as portas se abriam por onde passava, céu azul, pássaros cantando e, quando havia tempestade, sempre havia um teto seguro sobre sua cabeça, comida quente, calor  humano.

Mas, um dia, depois de muito tempo só de bonança, o céu ficou escuro  e começou a cair uma grande tempestade: em meio àquele temporal, Ela não tinha um teto, não tinha roupas quentes, abrigo ou comida.

Tudo parecia estar fora do lugar e Ela perdeu o chão.

Tudo, tudo, tudo mesmo, se fora como levado pelo vento: amigos, trabalho, reconhecimento, dinheiro…

Não havia mais onde colocar os pés, onde abrigar sua cabeça.

Ela não sabia nem mesmo como voltar ao porto que era seu.

Telefonou.

O tempo que passou pareceu uma eternidade.

Mas não foi, foram apenas horas.

Aqueles que faziam tudo ficar tranquilo não mandaram que desse um jeito e voltasse.

Não!

Eles foram até Ela.

“Como está você, Garota?”

Não perguntaram o que Ela fizera para estar daquele jeito.

Não perguntaram onde estavam seus amigos, o que Ela fizera com sua casa e com o dinheiro que ganhara.

Não recriminaram quando souberam que vendera o carro e o que fizera com o dinheiro.

Nada!

Apenas a abraçaram.

Abraçaram, beijaram e disseram:

“Quer voltar para casa com a gente?”

Ela pensou e, ainda chorando, lembrou-se do que a trouxera até ali:

– Eu não queria voltar assim, sem nada nas mãos.

“Então você quer recomeçar aqui mesmo?”

Ela deu o mais triste sorriso que alguém já vira em seu rosto:

– É isso! Quero recomeçar aqui.

Eles sorriram e a abraçaram:

“Então, pare de chorar e vamos começar de novo agora mesmo!”

E eles começaram.

Juntos.

Quando Ela já estava conseguindo andar sozinha, eles a beijaram e partiram.

E Ela se reergueu.

Passou rapidamente por onde estava e continuou crescendo.

E cresceu muito.

Ficou forte outra vez.

Reconquistou o que havia perdido.

Ganhou o que nunca tinha sonhado.

E um dia se pegou pensando que nada disso teria acontecido se não tivesse tido apoio.

Ficou tão agradecida e feliz que resolveu olhar para os lados:

– Alguém que está aqui perto de mim pode estar sofrendo, precisando de apoio para continuar. Foi tão bom ter onde me apoiar quando precisei.

E, naquele momento,Ela decidiu tornar-se o porto seguro de alguém.

Estava pensando aqui se você também não podia ser “a pessoa especial” na vida de alguém. Vai ver tem uma pessoas aí ao seu lado esperando uma palavra de apoio vinda de você para ter a vida transformada.

Quer tentar?

 

 

 

 

Algumas vezes tudo que temos na vida é medo e o “será”

 

– Certeza de que tudo vai dar certo.

“Será?”

– Certeza. Tudo vai dar certo.

“Como você pode ter tanta certeza?”

– Pode acreditar. Vai dar certo.

E Ele acreditou.

Acreditou que daria certo.

E foi fazer a parte que lhe cabia.

Sabe como é, né?

Vai dar certo?

Vai!

Mas tem de fazer alguma coisa.

Não dá pra ficar com a cara para o alto esperando acontecer, esperando dar certo.

E Ele foi para cima.

Assim, vamos conversar aqui só nós dois: Você já viu alguém ter alguma necessidade e ficar sentado em um sofá não muito confortável à espera de um milagre?

Eu já.

Ficou, ficou até que cansou.

Ainda bem que Ele não ficou parado, foi para cima.

E as coisas começaram a mudar de rumo, a dar certo.

O tempo, que não para, trouxe com ele resultados positivos, aqueles que Ele há tanto sonhava.

Foi quando se encontraram novamente:

– Você está tão diferente, parece mais feliz.

“As coisas têm dado certo.”

– Sério?

“De verdade. Depois daquele encontro que tivemos, acreditei que tudo poderia ser diferente e tem sido.”

– O que mudou?

“Quase nada, só meu jeito de agir.”

Ele sorriu:

– O que você mudou no seu jeito de agir?

“Mudei minha alimentação, minhas horas de sono, a prática de exercícios físicos que não existia para mim passou a fazer parte da minha rotina, meu jeito de encarar as coisas com mais positividade e otimismo.”

O amigo, visivelmente admirado:

– Estou de boca aberta com você!

“Fecha a boca rapaz! Eu tinha de fazer algo diferente ou teria o mesmo resultado para sempre. Algumas vezes, é difícil, mas aí me lembro de onde eu estava e para onde eu quero ir, aí continuo fazendo diferente, um dia de cada vez.”

Um silêncio sorridente se instalou entre os dois:

“Muito obrigado por acreditar em mim quando eu mesmo não colocava fé na minha pessoa. Hoje, sei que vai dar certo, um dia de cada vez.”

E, assim, Ele continuou mudando um pouco a cada dia, mantendo as mudanças já conquistadas e olhando sempre seu alvo, sem nem pensar em parar a mudança.

 

 

 

Cada coisa que Ela ouviu e mesmo assim ficou firme em suas certezas.

 

Da vida deles todos cuidavam:

“Vocês vão mesmo namorar? Mas são tão diferentes, nada em vocês parece combinar. Têm certeza mesmo?”

Parece que, a partir do momento que decidiram começar um relacionamento que ia além da amizade, todos os olhares se voltaram a eles.

Uma agonia.

Patrulhas surgiram onde quer que estivessem.

Parecia que as pessoas se dividiam entre torcer para que desse certo ou para que terminasse o mais rápido possível.

E eles, tranquilos, seguiam suas vidinhas, indiferente a tudo e todos.

Agradeciam a quem por eles torcia.

Ignoravam solenemente a quem colocava gosto ruim às decisões que tomavam dia a dia.

Até que um dia…

“Vocês vão mesmo namorar de longe? Como assim? Ele vai se mudar para o outro lado do mundo e, mesmo assim, vocês vão continuar esse namoro? Não seria melhor terminar? Não seria melhor que vocês se casassem de uma vez?”

Em cada lugar a que chegavam, alguém dava uma opinião diferente.

Todos já tinham decidido o que era melhor para a vida do casal: terminar e fazer de conta que aquele amor jamais existira, diziam alguns. Casar e começar logo a vida a dois, diziam outros.

Eles sorriam em silêncio, davam-se as mãos e se retiravam.

Até que o dia da despedida chegou.

Ele iria para o outro lado do mundo.

Mas combinara com Ela tudo direitinho.

Cada um dos passos que dariam enquanto separados estivessem já estava acertado.

Quando se veriam, como fariam para se comunicar, quando, enfim, juntos estariam novamente.

Tudo combinado.

Inclusive o acordo do silêncio:

“Amor, todos nos dão tantos conselhos, sei que são bem-intencionados, afinal são nossos amigos, querem o nosso melhor. Mesmo assim, não compreenderam o que de fato desejamos. Por isso, vamos ficar em silêncio. Não vamos contar nossos planos a ninguém.”

Combinaram assim e lá se foi o moço.

Naquela época não era assim tão fácil a comunicação, não existia a chance de se falarem a cada instante, a cada passo que davam.

As letras marcadas no papel demoravam semanas para ir e vir.

Tudo era mais lento, mais demorado, mais romântico, mais sofrido até.

Quando uma correspondência chegava, era imediatamente respondida e postada.

Quem amava fazia sua parte quase de maneira instantânea, mas tinham os motivos externos que eram muitos…

As cartas passavam por muitas mãos, durante muitos dias, muitos lugares, continentes, até que conseguiam chegar ao destino.

E algumas vezes, nem chegavam.

Algumas vezes, a rota para elas imaginada era interrompida ainda no começo do caminho: caiam em algum lugar sem que fossem vistas, misturavam-se com aqueles que iam para  outro destino, eram perdidas e nunca mais encontradas…

Quem as esperava sofria, lamentava…

Mas sabia, tinha certeza de que não chegara porque se perdera, não porque não fora enviada.

E cada uma que conseguia passar por todos os obstáculos com sucesso era grandemente comemorada, lá e cá.

Os telefonemas tinham dia e hora certos para acontecer.

Eram aos domingos, no começo da noite.

Nesse dia e hora, todos eram carinhosamente conduzidos para longe da sala onde ficava o telefone e a moça, que cá estava, podia conversar com seu amado por 15 preciosos minutos.

E, assim, com o passar dos dias e a rotina de comunicação estabelecida, a vida continuou com tranquilidade.

Tranquilidade parcial.

As pessoas, aquelas mesmas pessoas que falavam no começo do namoro que tinham opinião formada, quando ficaram sabendo que ele iria embora, todas elas tinham o que falar cada vez que a encontravam:

“Tem certeza que ele volta? Olha lá, vai ver você tá aí perdendo o seu tempo. Lá deve ter tantas mulheres interessantes. Vai ver, a essa hora, ele já arrumou outra e te esqueceu. Por que você não dá uma chance àquele Rapaz. Ele sempre gostou de você.”

Ela sorria, suspirava fundo e falava:

– Nós temos um combinado, no tempo certo, nos reencontraremos.

Quem tentava “abrir seus olhos”, algumas vezes, ficava sem graça com tamanha obstinação e se afastava, outras continuavam tentando e acabavam ouvindo:

– Você está sendo inconveniente. Por favor, pare.

A pressão sobre quem fica é sempre muito grande e, por mais que Ela fosse fina e educada, algumas vezes, tinha que se impor com mais veemência.

No mês em que fez um ano que ele fora, em uma reunião de família, uma tia que não a via há meses, chegou perto dela sem a menor cerimônia:

“E aí? Vai ficar fazendo esse tipinho de mocinha abandonada até quando? Você sabe que esse cara foi para o outro lado do mundo e, a essa hora, deve estar se divertindo horrores com todos os tipos de mulheres enquanto você está aqui feito um arbusto seco e abandonado: sozinha. Diz pra mim: até quando vai ficar assim?”

Nesse dia, ela não estava para brincadeira, no mesmo tom que a tia falou, ela respondeu:

– Arbusto seco e abandonado? A senhora está me confundindo com quem? Eu sei muito bem quem ele é, sei o que combinamos, conheço o que sinto por ele e o que ele sente por mim. Não estou fazendo “tipinho de mocinha abandonada” não! Fiz um combinado com meu namorado e estou cumprindo minha parte no trato assim como sei que ele, que é um homem sério e de palavra, está cumprindo a parte dele. Quanto à senhora, por favor, nunca mais se refira a mim desse jeito  nem queira saber o que se passa na minha vida. Com a sua licença.

E foi embora.

As pessoas são muito cruéis e têm a horrível mania de desqualificar o amor que não conhecem, nunca conheceram e, muitas vezes, nunca conhecerão.

O tempo, que, nesse caso, muitas vezes, não funciona como aliado, foi passando indiferente  a tudo e todos.

As pressões sobre Ela diminuíram por um tempo, ao menos no núcleo familiar, depois daquele espalho que ela deu na tia.

Mas foi só por um tempo, depois voltou com tudo.

Mas um dia as coisas começaram a mudar: a moça, que, apesar de toda a sua confiança, por vezes, aparecia triste era só sorrisos.

Não dizia nada a ninguém, pois esse era o combinado, mas seu comportamento estava estranhamente diferente.

E, um dia, sem alarde ou grande festa, Ele chegou.

De mansinho, em silêncio, a surpreendeu realizando suas atividades de sempre, mas o esperando como fazia todos os dias.

As pessoas, que opinavam e davam pitacos mil, ficaram admiradas ao verem que aquele casal tão novinho teve a firmeza de seguirem o propósito e compromisso que tinham feito.

Seus planos, feitos em silêncio, foram concretizados e, hoje, eles vivem juntos e felizes lá do outro lado do mundo.

E de quem falava mal, colocava gosto ruim, é possível ouvir de quando em vez:

“Sempre torci por eles. Sempre soube que seriam muito felizes juntos. Dei a maior força quando Ela ficou aqui sozinha, tinha certeza que esse amor seria para a vida inteira.”

Sei, sei…

 

Nunca antes ninguém tinha me escutado, tido que até eu posso ter uma vida melhor.
Nada como ser tratado com amor.
A gente ouve direto histórias incríveis de como o amor transforma a vida das pessoas.
Sejam elas crianças pequenas, adolescentes donos do mundo ou adultos deprimidos.
Não há aquele que, ao ser tratado com amor, não tenha a vida transformada.
Ao ler as histórias dessas transformações, fico maravilhada com o poder que ele, o amor, tem e mais encantada ainda me torno ao me deparar com o comportamento assumido por quem decide amar.
Misericórdia!
É muita paciência, altruísmo, resignação.
É amor prático demais.
Porque amor é prática, né?
Amor é ação, é mão na massa.
E, quando alguém decide amar aquele que nunca recebeu essa poção transformadora com  todos os seus nuances e desafios, tem de estar pronto para tudo.
Eles se conheceram no meio da rua.
Estava uma tarde quente com aquele calor que parecia fazer apenas naquela cidade e mais em nenhum outro lugar na Terra.
Ela tomando o maior sorvete que encontrara no cardápio.
Ele sentado na calçada apreciando aquele espetáculo.
Foi quando, entre uma e outra olhada no celular, Ela viu o menino sentado no chão. Descalço, sujo até não mais poder, parecia encantado com o que a via saborear.
Ela ficou um pouco constrangida com a posição que ocupava, afinal, estava sendo admirada enquanto comia.
Olhou no relógio e viu que tinha um tempo.
Sem olhar para os lados, pegou o cardápio e quando viu já estava sentada na calçada ao lado do Menino, mostrando a ele o cardápio:
“E, aí, vai querer qual?”
Ele se assustou.
Claro, não era todo dia que ele tinha a dona do objeto de seu desejo sentada ao seu lado, e ainda na calçada.
– Não, dona, quero nada não senhora.
Ela abriu o olho maior que podia, sinceramente assustada:
“Poxa vida, eu aqui tomando sorvete sozinha, precisando de uma companhia e você não quer sentar comigo? Tomar um sorvete também? Vamos lá, senta comigo, escolhe um sorvete.”
Ele, que era tímido, mas não era bobo, pegou o cardápio e, enquanto olhava admirado, imaginava qual seria o mais o gostoso:
– Posso escolher qualquer um?
Ela não se conteve, tinha que rir:
“Qualquer um.”
Eles levantaram da calçada e foram para a mesa.
E, como em um passe de mágicas, apareceu em frente ao Menino o maior sorvete que eles montavam ali.
E ele comeu, saboreando cada colherada.
Lá pelas tantas, quando já sabiam muito da vida um do outro ele perguntou:
– Você não vai tirar uma fotografia comigo?
“Não, por quê?”
– Todo mundo que me dá alguma coisa tira fotografia e coloca no Facebook, Instagram, pra mostrar para os amigos o quanto é gente boa. Sabe como é, ajuda menino que mora na rua, tem bom coração. Isso ajuda as pessoas a se promoveram.
Ela riu.
“Eu não gosto de me promover. O que a gente faz, come ou deixa de fazer ou comer é segredo nosso.”
Eles conversaram  e gargalharam até terminarem a última colherada gelada.
Beberam água, apertaram as mãos e marcaram um novo encontro, na próxima semana no mesmo lugar.
E, na próxima semana, por mais que um acreditasse que o outro não iria, os dois foram.
E, assim, aquele encontro no meio da semana, encaixado caprichosamente no meio da tarde, foi se tornando um ritual.
Nesse ritual semanal, eles conversavam sobre tudo, brigavam, discutiam, riam e choravam.
Um foi se tornando para o outro o ombro amigo de que precisavam.
Sem pedir nada, sem exigir qualquer coisa.
Um dia, o Menino chegou e estendeu a Ela o cardápio:
– Pode escolher o que quiser.
Ela achou estranho, nos últimos meses não havia o que discutir quem sempre falava essa frase era ela.
“O que é isso, Menino? Essa fala é minha!”
– Eu sei, mas, hoje, quem fala isso sou eu.
Ela riu mais um pouco e escolheu o sorvete mais barato que havia no cardápio.
Ele indignou-se:
“Poxa vida, desse jeito você me ofende! Quando você me convida, eu escolho o que quero e você paga sem reclamar.
Quando é minha vez de pagar, você escolhe o mais barato de todos?”
– Mas Menino – falou ela sem graça – esse dinheiro você leva pra sua mãe pra ajudar em casa, não é pra ficar me dando sorvete.
Ele, contrariado foi lá e escolheu o sorvete preferido da moça.
“Eu já te conheço, posso escolher sozinho o seu sorvete.”
Eles tomaram tudo como sempre e, ao final, quando o Menino satisfeito pagou a conta, disse a Ela:
– Você foi a primeira pessoa que parou para me escutar na vida. Nunca antes, alguém tinha me dado atenção, perguntado sobre meus planos, mostrado pra mim que até eu posso ter um futuro melhor. Eu nunca tinha recebido tanto amor e tomado tanto sorvete. Esse sorvete é só para te agradecer.
Ela sorriu com lágrimas nos olhos e passando a mão na cabeça do Menino:
“Vamos ali, eu preciso te levar a um lugar.”
E os dois saíram andando lado a lado.
Iria começar uma nova fase naquela amizade, onde o amor ao próximo seria colocado a prova.
Provado enquanto fosse, testado enquanto voltasse.


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