Acho melhor não confiar

Postado em: 28 de Março de 2018

Será? Será? Vai explodir, vai dar errado. Melhor não confiar.

 

Ela tinha mania de dizer que não acreditava em nada nem em ninguém.

Falava para quem quisesse ouvir que não tinha motivo para acreditar nas pessoas, não tinha como ter fé em nada.

Era feliz assim e ponto.

Na hora do aperto era mais difícil se virar, afinal fora uma opção que a fizera não acreditar, então, não tinha a quem procurar.

Mas isso fazia falta apenas por alguns segundos, depois, Ela dava seu jeito e seguia em frente.

Até que, num dia, acordou cedinho para ir trabalhar e, enquanto esperava o elevador, pensou:

“Será que alguém já andou nesse troço hoje? Tinha uma equipe fazendo manutenção nele aqui ontem, e se alguém resolveu sabotar os cabos? E se, quando eu entrar e começar a descer, ele despencar. Acho melhor não confiar.”

Desceu dez andares de escada.

Entrou em seu carro e achou que algo havia acontecido ali:

“Será que alguém entrou nesse carro durante a noite? Vi umas pessoas estranhas na garagem ontem. E se colocaram alguma coisa nele e, a hora que eu ligar, der um pipoco? Acho melhor não confiar.”

Saiu da garagem pensando como chegaria ao trabalho.

Não tinha outro carro para dirigir.

Ir de UBER, táxi ou ônibus ia requerer que tivesse confiança nos motoristas, achou melhor não confiar. Foi a pé.

Chegou ao trabalho atrasada, suada e já cansada.

Parou em frente ao elevador e lembrou-se da primeira desconfiança que tivera no dia.

Subiu, de escada, 15 andares.

Chegando lá em cima, parou exausta em frente ao bebedouro.

Olhou em volta, observou os copos, o próprio bebedouro e preferiu não confiar.

Começou a trabalhar com sede mesmo.

Quando foi ligar o computador, lembrou-se de que vira o rapaz da manutenção trabalhando em sua máquina no fim da última tarde.

Não teve coragem de ligá-la.

Foi adiantar uns relatórios à mão mesmo.

Lembrou-se de que não havia tomado café.

Só pensar em descer e depois subir 15 andares pelas escadas a fez esquecer a fome.

Quando a hora do almoço chegou, estava já desfalecendo.

Desceu correndo os 15 andares e foi caminhando para o shopping mais próximo.

Para que pudesse chegar tinha de atravessar uma avenida super  movimentada.

Foi até o semáforo e ficou esperando que ele se tornasse verde para os pedestres.

Enquanto esperava pensava:

“E se, justo na hora em que eu estiver passando, um carro arrancar e me atropelar? E se aqui na primeira fileira de carros estiver parado um psicopata só querendo que eu comece a travessia para me matar?”

Nessa altura do pensamento, o sinal ficou aberto para os pedestres.

Ali não havia o que fazer: ou Ela atravessava naquele momento ou teria que correr em meio aos carros em movimento.

Algumas pessoas já haviam passando em frente de todos os carros, Ela resolveu se arriscar: contou até três e atravessou correndo.

Ao chegar ao outro lado, suas pernas tremiam e as mãos suavam.

Tentou se acalmar enquanto se dirigia à praça de alimentação.

Para chegar lá, precisava ir até ao terceiro andar do prédio.

Já decidira: não podia confiar em elevador, muito menos em escadas rolantes.

Subiu os três andares.

Lá chegando, começou a procurar um lugar para comer.

Andou por todos os lugares, olhando atentamente cada um dos restaurantes:

“Como será que essas verduras foram lavadas? Qual a procedência dessa carne? E o estado das panelas em que essas comidas foram preparadas? Qual será?”

Fez indagações como essas na frente de cada um dos restaurantes.

Foi com a cara de um e lá pediu um suco de laranja.

Não sem antes conferir disfarçadamente se o espremedor estava mesmo limpo, se a atendente lavara as mãos, se poderia tomar seu suco em copo descartável.

“Como pude esquecer minha marmita? Não tenho como confiar nessas comidas de restaurante.”

Bebeu dois copos de suco.

Desceu os três andares de escada.

Fez o mesmo ritual para atravessar a avenida movimentada.

Subiu os 15 andares até o escritório. De escada, que fique claro.

Continuo seu trabalho manualmente mesmo.

O expediente acabou e, antes de sair, foi ao banheiro.

Ao lavar as mãos viu que tinha calos em um dos dedos da mão direita: ele fora adquirido ao longo do dia, enquanto escrevia vorazmente seus relatórios.

Desceu 15 andares.

Caminhou três quilômetros até chegar a casa.

Lá chegando, subiu 10 andares.

Resolveu que, naquele dia, não ligaria o fogão; ele podia explodir.

Não tomaria banho quente, poderia morrer eletrocutada enquanto estivesse ensaboada.

Não comeria nenhuma das coisas industrializadas que estivessem em sua geladeira: poderiam ter vindo envenenadas de fábrica.

Fez mais de um litro de suco de laranja e bebeu.

Ao se deitar estava exausta.

Foi quando pensou:

“Sempre me gabei de nunca confiar em nada nem em ninguém, mas acho que estou passando dos limites. Estou aqui morrendo de tanto cansaço por ter subido e descido escadas o dia inteiro. Meus colegas e vizinhos subiram e desceram de elevador e ninguém voou pelos ares. Andei nem sei quantos quilômetros por não confiar nos motoristas de transporte público e por ter medo de ligar meu próprio carro. Os jornais não falaram de um só acidente de carro nessa região, nem explosões de carros na garagem. Passei fome o dia inteiro com medo de ser envenenada. Se alguém tivesse sido envenenado naquele shopping, todo mundo já estaria sabendo. Não liguei meu computador com medo que ele explodisse. Ninguém lá no trabalho teve qualquer explosão ao longo do dia. Fiz toda essa marmota “por não confiar em ninguém.” Ganhei o que com isso mesmo?”

Nessa altura da reflexão, Ela sentou-se na cama.

Levou às mãos à cabeça e declarou em alto e bom som:

“Pois, a partir desse momento, eu acredito, tenho fé e confiança em tudo e todos. Começando com o Todo Poderoso a que eu posso clamar sem pudor na hora do aperto. Confio agora no técnico do elevador, motorista de transporte público, cozinheiros e todos os prestadores de serviço que me cercam e, se r qualquer perrengue acontecer ,eu olho para o céu e peço socorro. Essa história de ser incrédula e desconfiada vai acabar me matando.”

Aproveitou seu momento de sinceridade e olhando para o céu agradeceu:

“Obrigada Senhor pelo dia. A partir de agora, confio em Ti.”

Deitou rapidinho e dormiu tranquilamente.

 

 

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