Arquivos de Maio 2018

Alguém já te contou que chega uma hora que não é mais preciso usar aquele colírio para que seus olhos sejam examinados?

 

O Marido se arruma para ir ao oftalmologista:

“Vou ao oftalmo.”

– Aqui no bairro ou no centro?

“No centro.”

– Não quer que eu vá junto?

“Não precisa.”

– Como você vai voltar?

“Do mesmo jeito que eu for.”

– Dirigindo?

“Claro!”

– Como vai voltar dirigindo com a pupila dilatada?

“Não se dilata mais a pupila para fazer exame de vista.”

– Sério? Que legal!

O Marido sai e Ela fica pensando como será o equipamento usado para examinar os olhos que substituem a dilatação das pupilas:

– Esse povo inventa tudo, né? Que bacana não precisar mais dilatar a pupila, deve ser um aparelho bem legal que faz isso.

Ele volta e Ela ainda incrédula dispara:

– Dilatou a pupila?

“Não, criatura! Já te disse que, hoje em dia, não se dilata mais a pupila.”

Conformou-se.

O tempo passou.

E em uma bela manhã de sol:

– Meus olhos doeram o fim de semana inteiro. Vou ao oftalmo.

“Tchau.”

– Tchau.

Bate a porta e sai resmungando:

– Nem se preocupa comigo nem como será a minha volta. Como vou dirigir com a pupila dilatada? Como é que vou conseguir voltar do centro da cidade sozinha? Desatencioso. Ogro.

Mesmo reclamando horrores, vai embora.

Dirige quilômetros.

Na clínica:

– Bom dia, será que consigo um encaixe?

* Claro!

– Aqui estão os documentos.

* Dra. Fernanda, em meia hora.

– Obrigada.

Após meia hora de espera:

@Bom dia!

– Bom dia!

Papo vai, papo vem e lá pelas tantas:

– Não será preciso dilatar minhas pupilas?

@Não!

– Ah que legal!  Hoje em dia não se dilatam mais as pupilas? Ainda bem, aquilo era tão incômodo!

@ Na verdade, ainda se dilatam, mas só até uma certa idade. Na sua idade não há mais necessidade de se dilatar para que o exame seja realizado com eficiência.

Admiração total:

– Sério? Que decepção. Não tem qualquer tecnologia inovadora? Tudo se justifica pelo meu DNA? Data de nascimento adiantada? Que decepção.

A médica sorriu e ela foi embora feliz:

Apesar da data de nascimento adiantada, a dor nos seus olhos era apenas efeito da seca, ela não precisou usar aquele colírio ardido e, de quebra, ficou sabendo que vê perfeitamente de perto de longe e de tudo que é jeito.

Óculos?

Nem tão cedo!

 

Algumas vezes é preciso deixar bem claro o que se quer durante a caminhada.

 

– Então você vai se casar outra vez?

“Vou. E tenho certeza que será maravilhoso.”

– Sério mesmo que vai ter coragem de começar tudo de novo?

“Não vou começar tudo de novo. Vou continuar daqui. Não tem jeito de começar de novo.”

– Como não? Claro que tem jeito. Você vai conhecer alguém, começar a namorar, noivar, casar…

“Mas isso não é começar de novo! Quem te disse isso?”

– Se não é começar de novo é o quê, então?

“É continuar de onde se parou. Parei aqui, sozinha e agora vou caminhar com uma nova companhia.”

– O mesmo caminho?

“O caminho da minha vida. Ele é um só. Algumas vezes tem curvas, atalhos, mas é o mesmo caminho, o meu caminho.”

– E o que muda?

“O que muda? Ao longo do caminho algumas pessoas caminharam ao meu lado. Algumas por longos dias, outras passaram rapidamente. Mas foi sempre no meu caminho, na minha vida. Com algumas pessoas, andei lado a lado, com outras, de mãos dadas.”

– E com esse agora? Como será?

“Ah! com esse será com os dedos entrelaçados.”

– Que romântico…

“Espero mesmo que seja muito, que seja realmente bem romântica a caminhada.”

– Você sabe que eu não estou gostando dessa ideia, né?

“Mas por que não? Ele é tão especial, gosto tanto de estar ao seu lado.”

– Não vejo a menor graça na pessoa dele.

“Eu também não vejo a menor graça na pessoa com que você resolveu andar ao lado em seu caminho e nunca te disse nada.”

– Ué? Você não gosta dele?

“Não gosto. Aliás, nunca fui com a cara.”

– Você só pode estar brincando. Sempre o tratou bem, sempre foi tão gentil com ele. Só está falando isso agora porque disse não gostar do seu escolhido.

“Claro que não! Nunca gostei dele, mas sempre te respeitei, por isso o meu silêncio em todos esses anos.”

– Mas você poderia ter me falado.

“Para quê?”

– Sua opinião sempre foi importante para mim, como espero profundamente que a minha tenha algum valor para você.

“Minha querida, olhe bem para mim. Você acha mesmo que com todas as rugas que carrego, e com as inúmeras marcas do tempo que levo para todos os lugares aonde vou, eu me importo mesmo com as opiniões que as pessoas têm sobre a minha vida?”

– Sinceramente, eu esperava que você se importasse.

“Eu me importo quando elas são sobre um assunto relevante, algo sobre minha saúde ou onde vou morar, mas sobre meu namoro?”

– Namoro? Já é namoro?

“Claro! É um namoro. Você acha que sou de brincadeira? Se estou com ele, é para uma caminhada séria.”

– Pelo amor do céu! Daqui a pouco, ele não consegue mais nem ficar em pé!

“Relaxa, quando ele não conseguir mais ficar em pé, a gente senta e continua conversando.”

– Mas ele tem o papo muito ruim!

“Com você, comigo é ótimo!”

– Ele não tem onde morar.

“Eu tenho. Ele pode vir morar aqui quando nos casarmos.”

– Casarmos???

“Você parece que não me conhece. Sou mulher séria, não quero ficar de fuleragem por aí.”

– Mas pensei que era só uma amizade mais aprofundada…

“Já viu alguém namorar inimigo?”

– Ai, meu pai do céu.

“Preciso que você vá, daqui a pouco tenho um encontro com meu noivo e não posso me atrasar.”

– Noivo? Você quer me matar de desgosto?

“Quero matar a minha solidão, só isso. Se você me dá licença, preciso me arrumar. Antes que me esqueça, o seu par, aquele que você escolheu há trinta anos para ser seu companheiro e eu fiz o casamento, é um moço bem distinto. Nunca fui de fato com a cara dele, mas o respeito e admiro como um filho, com cuja cara não vou muito, mas como um filho.”

Disse isso, apoiou-se na bengalinha e deu as costas lentamente a sua filha estarrecida.

“Não se esqueça de trancar a porta ao sair. E você não solicitou, mas que Deus te abençoe. Tchau.”

 

 

Tem dia que tudo que Você quer é dormir, mas o sono resolve fugir e não há quem o pegue novamente!

 

Ao menos uma vez na semana o despertador é desligado.

“Não precisa trabalhar, amigão. Amanhã, você pode dormir até tarde.”

Ele, todo serelepe fica em seu canto satisfeito, não precisa trabalhar antes de o sol chegar.

E Você, nobre trabalhador que pode aproveitar os encantos da cama que escolheu para chamar de sua, ao desprogramar o despertador, jura por tudo que é santo que desprogramou também seu metabolismo:

“Amanhã, vou dormir até cansar. O frio chegou e, como todo dia tenho que abandonar minhas cobertas, amanhã é dia de passar tempo com elas.”

E vai dormir todo preparado para o pior dos frios: pijama flanelado, meias…

Em sua cabecinha de trabalhador que dedicará o dia de folga a ficar nos braços de Morfeu, torce para que o frio permaneça firme e forte.

Vai dormir feliz da vida, afinal, o sol o encontrará na cama, dormindo profundamente e acordar será um processo lento, longo e com várias recaídas.

Dorme sem nem ver quando isso acontece.

Porque tem hora em que a gente vê que tá quase dormindo, né?

Outra hora, a gente dorme que nem vê.

Nesse dia, Você, nosso dorminhoco em potencial, dorme e nem fica sabendo. O melhor dos jeitos.

Quando a noite é boa, o sono é solto, aquele que dorme não toma conhecimento do tempo que passa.

Dorme e pronto.

Os ponteiros do relógio, lenta e preguiçosamente, fazem o seu caminho como quem não quer nada e Você dorme como um anjo.

Lá pelas tantas, quando tem certeza de que ainda está dormindo, seus olhos simplesmente se abrem!

“Como assim? Acordei? Não acredito! Eu não preciso acordar agora. Hoje é domingo e o sol ainda nem chegou. Dorme, dorme, dorme!”

E vira para um lado, vira para o outro.

“Não faz isso comigo, por favor, dorme. Hoje, nós vamos dormir o dia inteiro. Dorme por favor.”

E assim você segue, por longos e intermináveis minutos, tentando se convencer de que precisa continuar dormindo.

Como a parte de cima do seu olho resolveu desgrudar da parte de baixo, o resto do corpo resolve que é hora de acordar também:

“Agora, dá vontade de fazer xixi? Mas que coisa! Eu quero continuar dormindo.”

Vira de um lado para o outro, tentando esquecer a vontade de fazer xixi:

“Eu não quero fazer xixi, eu quero dormir. Dorme, criatura! Dorme.”

Mas a vontade vai aumentando a cada segundo que passa e chega uma hora que você tem a opção de continuar na cama e fazer uma poça embaixo de si ou correr até o banheiro.

Levanta e, fora do casulo formado pelas cobertas, está tão frio, mas tão frio que sua vontade é voltar sem ir ao banheiro.

Sai correndo.

“Levantei só para fazer xixi porque não tinha jeito, mas que fique claro: vou voltar a dormir.”

No caminho de volta à cama, passa os olhos pelo relógio que silenciosamente faz o seu trabalho:

“Acordei no mesmo horário de sempre. Mas eu vou voltar a dormir!”

Deita “daquele jeito” e começa a repetir:

“Dorme, dorme, dorme.”

Os olhos, teimosamente se abrem de novo e, enquanto Você vê o sol levantar-se lentamente, começa a fazer a lista de tudo que precisa fazer naquele dia.

“Como assim? Eu não tenho que fazer nada hoje! Hoje é meu dia de dormir.”

A lista com coisas a serem feitas começa a se multiplicar em sua cabeça e, depois de tentar todas as posições, de todos os lados, de todos os jeitos, se dá conta que não há o que fazer: o sono não vai se encontrar com sua pessoa novamente.

“Eu posso até trabalhar, mas vai ser aqui no quentinho da minha cama.”

E, assim, começa a desenvolver os projetos que ficaram atrasados ao longo da última semana.

Lá pelo meio da manhã lembra-se da roupa que precisa ser lavada.

“Não! Lavar roupa não! Eu ia dormir o dia inteiro, o sono me traiu e me abandonou, já estou trabalhando, não vou lavar roupa.”

Continua digitando ferozmente, registrando todas as suas ideias, mas a ideia da roupa que precisa ser lavada não lhe sai da cabeça.

“Mas que droga! Eu não quero lavar roupa hoje.”

Depois de muito guerrear, foi lá e colocou a roupa pra lavar:

“Hoje, já que vocês insistem em tomar banho, todas irão para a máquina, sem qualquer critério.”

Enquanto foi colocando as roupas na máquina, encontrou as brancas que não podiam tomar banho com as coloridas, encontrou algumas que sequer poderiam ir para a máquina.

“Eu não vou separar nada! Vai todo mundo tomar banho junto! Que droga!”

Foi falando e separando tudo, começando a lavar à mão o que iria estragar se fosse para a máquina.

Quando terminou, deu de cara com a louça que estava fazendo aniversário na pia.

Lavou.

“Só estou lavando essa louça porque a pobre estava fazendo aniversário aqui, mas hoje não faço mais nada.”

Acabou de lavar.

“Vou enxugar e guardar, né? Deixar a pia seca. Mas é a última coisa que faço hoje.”

E, com essa de ver uma coisa aqui outra ali, Você, que ia dormir o dia inteiro, escreveu todo um projeto atrasado, lavou e passou roupa:

“Só essas camisas aqui ou vou ter que ficar passando todo dia.”

Lavou louça, fez comida:

“Morrendo de fome. Tem essas coisas aqui que, se começarem a semana na geladeira, vão estragar.”

Lavou o banheiro:

“Há quanto tempo será que esse banheiro não toma um banho?”

E acabou limpando toda a casa:

“Vou deixar essa casa pronta para semana.”

Lá pelas tantas, quando o sol já tinha ido embora há muito tempo, Você se lembra de que  seu plano original era dormir o dia inteiro:

“Nunca trabalhei tanto em um dia que era só para dormir. Agora vou tomar um banho e dormir, afinal, o sono não me apareceu quando devia, mas o frio não deu trégua. Depois de trabalhar tanto, um bom banho quente vai me fazer dormir feliz.”

E lá vai a sua pessoa, toda satisfeita, realizar ao menos essa parte dos seus planos.

Prepara-se fica embaixo do chuveiro e o liga na maior tranquilidade da Terra.

Nessa hora ouve um pipoco acima da sua cabeça.

O chuveiro.

Queimou.

Seu coração, que está dando mais pinote que cavalo xucro, esquece de mandar sangue para as pernas e no segundo seguinte Você está estatelado no chão.

“Eu não acredito! Nada do que planejei aconteceu e agora não consigo nem tomar um banho quente?”

Começa a se levantar lentamente, completamente revoltado, pensando em  esquentar água.

Afinal, um banho era mais que necessário para ter uma boa noite de descanso.

É quando surge do profundo do seu ser a rebeldia que devia ter acordado logo cedo:

“Passei o dia me obrigando a trabalhar feito um condenado à morte, pensando em todas as coisas que deveria fazer e por que não poderia deixar de fazer. Queria só ficar por conta do à toa e trabalhei dentro dessa casa como há muito não fazia, agora você quer me obrigar a esquentar água para tomar banho.”

Absoluto silêncio.

Esse é o triste de conversar consigo mesmo.

A pessoa pergunta, pergunta e se vê obrigada a ter que elaborar a própria resposta:

“Eu não vou esquentar água pra banho de seu ninguém. E, sim, hoje, ao menos a essa hora do dia, vou fazer a minha vontade. Nesse frio com o chuveiro queimado, eu vou sim dormir sem tomar banho.”

E foi assim que Você se levantou tranquilamente do chão do boxe, escovou os dentes, vestiu o pijama e dormiu bonitinho, bem fedido, sem tomar banho!

 

E foi aprendendo tão rápido que quando vimos ele já conhecia todas as letras.

Um dia, estávamos sentados no chão.

Nós três.

Acima de nossas cabeças um quadro enorme com todas as letras do alfabeto.

Por cima de nós, em nossas pernas e colo, muitas, muitas letras plásticas coloridas.

Foi quando o Pai pegou a primeira letra do próprio nome e pergunto a ele:

“Filho, que letra é essa?”

E ele, sem o menor constrangimento, não pensou meio segundo para responder:

“Não faço a menor ideia!”

Rimos.

Rimos muito.

Não era tempo.

Sua pouca idade dava a ele o direito de simplesmente não saber.

Outra vez, perguntei a ele se sabia alguma coisa que agora não me lembro do que se trata. E ele, com a prontidão de sempre respondeu:

“Não sei ainda, mas eu vou aprender.”

“Claro” – falei satisfeita- “Você vai aprender isso e muito mais”.

O tempo passou e ele aprendeu o nome de cada uma das letras e, agora, no exato momento em que escrevo, está aprendendo a ajuntá-las, e que coisa linda!

Nenhuma placa, nenhum cartaz, nada nem ninguém passam por ele sem ser analisado, observado, lido.

Dia desses mostrei a ele a capa de um livro que estava escrito assim:

Você nasceu para isso.

E ele começou a ler, bem bonitinho.

Só que lá pelo meio do caminho acho que cansou ou ficou de saco cheio, sei lá.

Só sei que leu assim:

“Você nasceu parabéns!”

Leu um pedaço direitinho e o outro resolveu “adivinhar” vai que cola, né?

Daquela vez, não colou.

Mas, de vez em quando, deve dar certo.

Ele está desvendando o mundo das letras e todas as coisas que acontecem quando ajunta uma na outra.

As variações que elas fazem, os efeitos que sofrem.

E, a cada descoberta das inúmeras possibilidades, surpresa, admiração, contentamento.

E, hoje, quando perguntado que palavra é essa, ele responde em ritmo próprio, mas com a segurança cada vez maior.

 

 

 

 

Gosto muito do que é meu.

Sempre.

Meus pais são os mais bonitos e maravilhosos do mundo.

Meu irmão, o mais incrível e meu marido, o melhor de todos os homens.

Minha cunhada, a irmã mais querida que meu irmão poderia me dar.

Meu sobrinho e minha sogra, os melhores presentes que o mais maravilhoso dos homens poderia ter trazido com ele para a minha vida.

São?

Claro que são.

São os meus.

Meus amores, meu mundo.

São eles que estão comigo na hora da gargalhada e quando dos olhos escorrem o que o coração não pode segurar.

Pertencimento.

Lembro-me direitinho da alegria que senti por fazer parte, por pertencer a um grupo que iria fazer a diferença.

Estávamos nós, do Coral Jovem de Brasília, de passagem pela África do Sul, indo a Moçambique para construirmos uma igreja em uma comunidade carente.

Não sabíamos o que nos esperava, mas nosso coração estava repleto de expectativa e alegria.

No grupo, médicos, enfermeiros, dentistas, fisioterapeutas, professores, biomédicos. Todos voluntários querendo ajudar as pessoas e fazer a diferença, de alguma forma, em suas vidas enquanto paredes fossem  erguidas.

Estávamos reunidos conversando sobre o que sentíamos naquele momento e ali, bem ali, fiquei feliz em fazer parte.

A quem interessar possa, foi incrível tudo o que vivemos antes, durante e depois daquele dia.

Fazer parte, pertencer e ter alegria nisso, sinceramente, desejo a você também.

 

 

O ar entra, circula e sai. Até que um dia, por um motivo ou por outro deixa de fazer o caminho de sempre.

 

Semana passada disse tchau mais uma vez.

Uma pessoa que fez parte da minha vida por muito tempo.

Na comunidade em que vivíamos ela ocupava um papel de liderança, de destaque.

Em tudo  que acontecia, ela estava ali.

Voz potente, liderança marcante.

Não era próxima a mim, era próxima aos meus.

Mas, um dia, não sei por que, não sei para que, ela resolveu  que era hora de morar em outro lugar.

E foi.

Depois que saiu da comunidade que dividíamos, pouquíssimas vezes nos encontramos.

Sei dizer a última vez que a vi.

Parecia feliz.

Faz muito, muito tempo.

O fim veio rápido.

Inesperado.

Sem que ninguém quisesse.

Sem que ninguém nem sonhasse.

E, quando a hora do adeus chegou, a trouxeram de volta.

E, ali, na hora de darmos a ela o adeus, olhei em volta e vi a comunidade que eu, assim como ela, um dia deixei para trás.

Estavam todos ali: pessoas que me viram crescer, pessoas com as quais cresci, pessoas que vi crescer.

Olhei em volta e me deparei admirada com a minha história no rosto daquelas pessoas.

Professores, líderes, colegas, amigos, conhecidos de longa data, tios, primos…

Todos ali, reunidos em um mesmo lugar.

No lugar onde nos lembramos sem rodeios que o ar que está entrando e saindo agora pode sair e não voltar nunca mais.

E, enquanto os via, ia me lembrando de todas as coisas que vivemos juntos.

Com muitos deles vivi muitas, muitas coisas.

Com outros, poucas, passageiras.

Com alguns aprendi, viajei, sonhei, realizei, chorei, brinquei.

De outros fui madrinha de casamento.

De uma, quase fui daminha. Adoeci na semana.

E, depois de tudo que tinha vivido, resolvi me afastar.

Construí laços por perto, mas não tão perto a ponto de os antigos e novos se entrelaçassem.

Afastamento.

Opção.

Mas olhando todos ali, diante da finitude da vida, senti saudades.

Saudades de tudo que vivi com eles.

Saudades das coisas que poderíamos ter vivido se eu não tivesse optado por me afastar.

Vontade de voltar?

Melhor continuar de onde a gente está, enquanto o ar ainda entra, circula e sai.

 

 

 

 

 

Não adianta, uma coisa sempre será uma coisa e outra coisa pra sempre outra coisa.

 

“Uma coisa é uma coisa. Outra coisa é outra coisa.”

– Como assim?

“Não tem como misturar tudo. Tem coisa que é separada uma da outra e pronto.”

– Do que você está falando?

“Ué, que uma coisa é uma coisa e outra coisa é outra coisa.”

– Essa profundidade eu já compreendi. Já vi que hoje você amanheceu querendo filosofar. Só não entendi ainda o que, sobre o quê.

“É que o povo fica falando que uma coisa é outra coisa e que outra coisa é uma coisa, aí eu fico bravo.”

Respira fundo, estica a coluna:

– Você bebeu alguma coisa?

“Bebi sim.”

-Talvez isso explique. Bebeu o quê?

“Água.”

– E tinha o que nessa água?

“Ué, essas coisas que tem nessa água aí da geladeira.”

– Quer dizer que bebeu água pura?

“Foi.”

-Então tá, continue.

“Então, aquela Menina chegou aqui em casa hoje dizendo isso, eu quase morri.”

– Dizendo o quê?

“Que uma coisa é outra coisa e que outra coisa é uma coisa.”

-E você? Respondeu o que a ela?

“Que não! Que uma coisa é uma coisa e outra coisa é outra coisa.”

-Ela aceitou?

“Nada, ficou um tempão querendo me convencer de que eu estou errado, mas eu não deixei.”

A ideia de entender sobre o que Ele falava já não mais existia.

-Que bom que você é firme. Muito bem.

“No fim, foi embora convencida.”

Surgiu aí um lampejo de esperança em descobrir do que se tratava o assunto:

-Foi mesmo? Ela foi embora convencida do quê?

“De que água, essa água que sai da torneira é água e que gelo, aquele gelo que a gente coloca dentro do suco, é gelo e não tem nada a ver com água.”

– Mas gelo é – desistiu – gelo, né?

“É. Água é água e gelo é gelo. Uma coisa é uma coisa e outra coisa é outra coisa.”

Falou todo satisfeito por ter convencido mais uma sobre sua descoberta.

 

Eu sou sim a mais sábia da família, afinal, sou a mais velha.

 

– Acho natural dar a minha opinião. Quando chego a um lugar, vejo uma pessoa, presencio uma situação, para mim é super  tranquilo dizer o que penso sobre o assunto.

“Mas você dá sua opinião quando as pessoas pedem, né?”

– Também quando me pedem, mas não necessariamente.  Falo quando acho que devo, quando é conveniente.

“Mas sempre é conveniente?”

– Sempre! Muitas vezes, as pessoas não percebem que precisam mudar nisso ou naquilo. Eu vou lá e aviso.

“Em qual situação você faz isso?”

– Ué, sempre que acho que devo. Sempre mesmo. Tenho uma sobrinha mesmo, coitadinha, que não entende nada quando o assunto cabelo. Anda com um cabelão reto de dar medo, volumoso, esvoaçado. Um horror. Sempre que a vejo, sugiro para que faça alguma coisa, pra ver se fica mais bonitinha, a pobre.

“E ela escuta, presta atenção, atende?”

Silêncio.

– Acho que não. Aliás, da última vez em que falei alguma coisa, parece que ela nem escutou.

“Bingo! Chegou exatamente aonde eu queria.”

-Aonde você queria chegar?

“A esse ponto, criatura. Quem fala demais não é ouvido. Você vive aí distribuindo sua opinião de graça sem que ninguém solicite e as pessoas não dão o mínimo valor.”

– Essa ingrata não dá, mas outras pessoas dão.

“Que dão o quê. As pessoas só são mais educadas que essa moça, mas ninguém dá a menor importância ao que você diz.”

– Dão, eles dão importância sim. Até porque sou a mais velha da família, sei mais que todo mundo quando o assunto é vida, as pessoas valorizam, sim, o que eu falo.

“Pobrezinha de você. Está enganada, minha filha. Tenho certeza de que está enganada.”

-Por que diz isso?

“Pense comigo: você é a pessoa mais velha da família, certo?”

-Certo.

“Vamos partir do princípio que é a mais sábia, certo?”

-Certo. Eu sou mesmo a mais sábia.

“Não está parecendo, mas vamos continuar a análise dos fatos.”

Silêncio.

“Se emitisse menos sua opinião, cada vez em que abrisse a boca para falar alguma coisa, as pessoas prestariam atenção. Afinal, aquilo seria uma coisa rara, portanto, deveria ser valorizada.”

-Será?

“Certeza! Você já viu menino que chora demais? Ele chora, chora e quase ninguém liga. Afinal chora por tudo, todo o tempo. Agora, aquele menino que é de boa, resolve seus problemas sem escândalo, sem choro, quando começa a chorar, todo mundo vai acudir, pois se trata de algo sério.”

-É verdade.

“Então, criatura pitaqueira. Aprenda a ficar calada, a emitir sua opinião quando for solicitada. Porque, quando as pessoas perguntarem o que você acha, o que pensa, estão, de fato, querendo saber o que se passa aí na sua cabeça.”

-Mas eu já estou tão acostumada a dar meus conselhos…

“Já parou para imaginar que as pessoas não veem isso como conselhos? Já parou para imaginar que elas só não a xingam e mandam ir para o inferno porque você é a mais velha de todas e, apesar de você encher o saco, respeitam e, por isso, se calam?”

-Será?

“Certeza. Essa sobrinha aí que não entende nada de cabelo mesmo, já deve ter tido vontade de te mandar ir às favas muitas vezes durante a vida. Só não manda por educação. E mais: quem sabe ela acha seu cabelo ridículo também e, mesmo assim, não fala nada. Já pensou nisso?”

– Mas meu cabelo nunca foi ridículo.

“Olha aí! Ela também não deve achar o próprio cabelo ridículo. Gosta do jeito que é e você fica falando, enchendo o saco da pobre.”

-Eu só quero ajudar.

“Ela já te pediu opinião alguma vez?”

– Não.

“Então não dê.”

-Mas o que eu vou falar quando chegar à casa das pessoas, quando encontrá-las? Qual sugestão vou dar?

“Sugestão? Palpite? Nenhum! Você vai ficar calada. Chegue procurando alguma coisa para elogiar. Fique calada, observando alguma coisa para elogiar. Quando vier a vontade de dar sugestão, conselho ou pitaco, respire fundo e elogie.”

– Eu nunca fui de elogiar. Sempre fui de aconselhar.

“Então, fofa, é hora de mudar.”

– Mas agora, no fim da vida?

“Nunca é tarde. Sempre dá tempo de alguma nova coisa. Por que você não começa com essa sobrinha do cabelo?”

– O cabelo dela é muito estranho, você não tem ideia.

“Mas tente. Quando a vontade atacar, você fala que ele ao menos está cheiroso. Ou ela anda com ele sujo e ensebado?”

-Não! Ela é cafona, mas é limpinha. Eu acho.

“Então, comece assim e, se for à casa de alguém nesse fim de semana, nada de dar sugestão de nada. Lembre-se de que você é a mais velha, de que tem que ser sábia, falar coisas que edificam e nunca, nunca, nunca se esqueça: quem fala demais não é ouvido!”

– Eu vou tentar.

“Não! Nada de tentar, você vai conseguir!”

Nessa hora da conversa, o Uber chegou e, assim que entraram, a velhinha pitaqueira olhou para o motorista:

-Nossa, mas você podia encerar esse carro por dentro.

Suspiro.

“Desisto.”

 


Publicações

Maio 2018
D S T Q Q S S
« abr   jun »
 12345
6789101112
13141516171819
20212223242526
2728293031  

Arquivo