Arquivos de Maio 2018

E foi aprendendo tão rápido que quando vimos ele já conhecia todas as letras.

Um dia, estávamos sentados no chão.

Nós três.

Acima de nossas cabeças um quadro enorme com todas as letras do alfabeto.

Por cima de nós, em nossas pernas e colo, muitas, muitas letras plásticas coloridas.

Foi quando o Pai pegou a primeira letra do próprio nome e pergunto a ele:

“Filho, que letra é essa?”

E ele, sem o menor constrangimento, não pensou meio segundo para responder:

“Não faço a menor ideia!”

Rimos.

Rimos muito.

Não era tempo.

Sua pouca idade dava a ele o direito de simplesmente não saber.

Outra vez, perguntei a ele se sabia alguma coisa que agora não me lembro do que se trata. E ele, com a prontidão de sempre respondeu:

“Não sei ainda, mas eu vou aprender.”

“Claro” – falei satisfeita- “Você vai aprender isso e muito mais”.

O tempo passou e ele aprendeu o nome de cada uma das letras e, agora, no exato momento em que escrevo, está aprendendo a ajuntá-las, e que coisa linda!

Nenhuma placa, nenhum cartaz, nada nem ninguém passam por ele sem ser analisado, observado, lido.

Dia desses mostrei a ele a capa de um livro que estava escrito assim:

Você nasceu para isso.

E ele começou a ler, bem bonitinho.

Só que lá pelo meio do caminho acho que cansou ou ficou de saco cheio, sei lá.

Só sei que leu assim:

“Você nasceu parabéns!”

Leu um pedaço direitinho e o outro resolveu “adivinhar” vai que cola, né?

Daquela vez, não colou.

Mas, de vez em quando, deve dar certo.

Ele está desvendando o mundo das letras e todas as coisas que acontecem quando ajunta uma na outra.

As variações que elas fazem, os efeitos que sofrem.

E, a cada descoberta das inúmeras possibilidades, surpresa, admiração, contentamento.

E, hoje, quando perguntado que palavra é essa, ele responde em ritmo próprio, mas com a segurança cada vez maior.

 

 

 

 

Gosto muito do que é meu.

Sempre.

Meus pais são os mais bonitos e maravilhosos do mundo.

Meu irmão, o mais incrível e meu marido, o melhor de todos os homens.

Minha cunhada, a irmã mais querida que meu irmão poderia me dar.

Meu sobrinho e minha sogra, os melhores presentes que o mais maravilhoso dos homens poderia ter trazido com ele para a minha vida.

São?

Claro que são.

São os meus.

Meus amores, meu mundo.

São eles que estão comigo na hora da gargalhada e quando dos olhos escorrem o que o coração não pode segurar.

Pertencimento.

Lembro-me direitinho da alegria que senti por fazer parte, por pertencer a um grupo que iria fazer a diferença.

Estávamos nós, do Coral Jovem de Brasília, de passagem pela África do Sul, indo a Moçambique para construirmos uma igreja em uma comunidade carente.

Não sabíamos o que nos esperava, mas nosso coração estava repleto de expectativa e alegria.

No grupo, médicos, enfermeiros, dentistas, fisioterapeutas, professores, biomédicos. Todos voluntários querendo ajudar as pessoas e fazer a diferença, de alguma forma, em suas vidas enquanto paredes fossem  erguidas.

Estávamos reunidos conversando sobre o que sentíamos naquele momento e ali, bem ali, fiquei feliz em fazer parte.

A quem interessar possa, foi incrível tudo o que vivemos antes, durante e depois daquele dia.

Fazer parte, pertencer e ter alegria nisso, sinceramente, desejo a você também.

 

 

O ar entra, circula e sai. Até que um dia, por um motivo ou por outro deixa de fazer o caminho de sempre.

 

Semana passada disse tchau mais uma vez.

Uma pessoa que fez parte da minha vida por muito tempo.

Na comunidade em que vivíamos ela ocupava um papel de liderança, de destaque.

Em tudo  que acontecia, ela estava ali.

Voz potente, liderança marcante.

Não era próxima a mim, era próxima aos meus.

Mas, um dia, não sei por que, não sei para que, ela resolveu  que era hora de morar em outro lugar.

E foi.

Depois que saiu da comunidade que dividíamos, pouquíssimas vezes nos encontramos.

Sei dizer a última vez que a vi.

Parecia feliz.

Faz muito, muito tempo.

O fim veio rápido.

Inesperado.

Sem que ninguém quisesse.

Sem que ninguém nem sonhasse.

E, quando a hora do adeus chegou, a trouxeram de volta.

E, ali, na hora de darmos a ela o adeus, olhei em volta e vi a comunidade que eu, assim como ela, um dia deixei para trás.

Estavam todos ali: pessoas que me viram crescer, pessoas com as quais cresci, pessoas que vi crescer.

Olhei em volta e me deparei admirada com a minha história no rosto daquelas pessoas.

Professores, líderes, colegas, amigos, conhecidos de longa data, tios, primos…

Todos ali, reunidos em um mesmo lugar.

No lugar onde nos lembramos sem rodeios que o ar que está entrando e saindo agora pode sair e não voltar nunca mais.

E, enquanto os via, ia me lembrando de todas as coisas que vivemos juntos.

Com muitos deles vivi muitas, muitas coisas.

Com outros, poucas, passageiras.

Com alguns aprendi, viajei, sonhei, realizei, chorei, brinquei.

De outros fui madrinha de casamento.

De uma, quase fui daminha. Adoeci na semana.

E, depois de tudo que tinha vivido, resolvi me afastar.

Construí laços por perto, mas não tão perto a ponto de os antigos e novos se entrelaçassem.

Afastamento.

Opção.

Mas olhando todos ali, diante da finitude da vida, senti saudades.

Saudades de tudo que vivi com eles.

Saudades das coisas que poderíamos ter vivido se eu não tivesse optado por me afastar.

Vontade de voltar?

Melhor continuar de onde a gente está, enquanto o ar ainda entra, circula e sai.

 

 

 

 

 

Não adianta, uma coisa sempre será uma coisa e outra coisa pra sempre outra coisa.

 

“Uma coisa é uma coisa. Outra coisa é outra coisa.”

– Como assim?

“Não tem como misturar tudo. Tem coisa que é separada uma da outra e pronto.”

– Do que você está falando?

“Ué, que uma coisa é uma coisa e outra coisa é outra coisa.”

– Essa profundidade eu já compreendi. Já vi que hoje você amanheceu querendo filosofar. Só não entendi ainda o que, sobre o quê.

“É que o povo fica falando que uma coisa é outra coisa e que outra coisa é uma coisa, aí eu fico bravo.”

Respira fundo, estica a coluna:

– Você bebeu alguma coisa?

“Bebi sim.”

-Talvez isso explique. Bebeu o quê?

“Água.”

– E tinha o que nessa água?

“Ué, essas coisas que tem nessa água aí da geladeira.”

– Quer dizer que bebeu água pura?

“Foi.”

-Então tá, continue.

“Então, aquela Menina chegou aqui em casa hoje dizendo isso, eu quase morri.”

– Dizendo o quê?

“Que uma coisa é outra coisa e que outra coisa é uma coisa.”

-E você? Respondeu o que a ela?

“Que não! Que uma coisa é uma coisa e outra coisa é outra coisa.”

-Ela aceitou?

“Nada, ficou um tempão querendo me convencer de que eu estou errado, mas eu não deixei.”

A ideia de entender sobre o que Ele falava já não mais existia.

-Que bom que você é firme. Muito bem.

“No fim, foi embora convencida.”

Surgiu aí um lampejo de esperança em descobrir do que se tratava o assunto:

-Foi mesmo? Ela foi embora convencida do quê?

“De que água, essa água que sai da torneira é água e que gelo, aquele gelo que a gente coloca dentro do suco, é gelo e não tem nada a ver com água.”

– Mas gelo é – desistiu – gelo, né?

“É. Água é água e gelo é gelo. Uma coisa é uma coisa e outra coisa é outra coisa.”

Falou todo satisfeito por ter convencido mais uma sobre sua descoberta.

 

Eu sou sim a mais sábia da família, afinal, sou a mais velha.

 

– Acho natural dar a minha opinião. Quando chego a um lugar, vejo uma pessoa, presencio uma situação, para mim é super  tranquilo dizer o que penso sobre o assunto.

“Mas você dá sua opinião quando as pessoas pedem, né?”

– Também quando me pedem, mas não necessariamente.  Falo quando acho que devo, quando é conveniente.

“Mas sempre é conveniente?”

– Sempre! Muitas vezes, as pessoas não percebem que precisam mudar nisso ou naquilo. Eu vou lá e aviso.

“Em qual situação você faz isso?”

– Ué, sempre que acho que devo. Sempre mesmo. Tenho uma sobrinha mesmo, coitadinha, que não entende nada quando o assunto cabelo. Anda com um cabelão reto de dar medo, volumoso, esvoaçado. Um horror. Sempre que a vejo, sugiro para que faça alguma coisa, pra ver se fica mais bonitinha, a pobre.

“E ela escuta, presta atenção, atende?”

Silêncio.

– Acho que não. Aliás, da última vez em que falei alguma coisa, parece que ela nem escutou.

“Bingo! Chegou exatamente aonde eu queria.”

-Aonde você queria chegar?

“A esse ponto, criatura. Quem fala demais não é ouvido. Você vive aí distribuindo sua opinião de graça sem que ninguém solicite e as pessoas não dão o mínimo valor.”

– Essa ingrata não dá, mas outras pessoas dão.

“Que dão o quê. As pessoas só são mais educadas que essa moça, mas ninguém dá a menor importância ao que você diz.”

– Dão, eles dão importância sim. Até porque sou a mais velha da família, sei mais que todo mundo quando o assunto é vida, as pessoas valorizam, sim, o que eu falo.

“Pobrezinha de você. Está enganada, minha filha. Tenho certeza de que está enganada.”

-Por que diz isso?

“Pense comigo: você é a pessoa mais velha da família, certo?”

-Certo.

“Vamos partir do princípio que é a mais sábia, certo?”

-Certo. Eu sou mesmo a mais sábia.

“Não está parecendo, mas vamos continuar a análise dos fatos.”

Silêncio.

“Se emitisse menos sua opinião, cada vez em que abrisse a boca para falar alguma coisa, as pessoas prestariam atenção. Afinal, aquilo seria uma coisa rara, portanto, deveria ser valorizada.”

-Será?

“Certeza! Você já viu menino que chora demais? Ele chora, chora e quase ninguém liga. Afinal chora por tudo, todo o tempo. Agora, aquele menino que é de boa, resolve seus problemas sem escândalo, sem choro, quando começa a chorar, todo mundo vai acudir, pois se trata de algo sério.”

-É verdade.

“Então, criatura pitaqueira. Aprenda a ficar calada, a emitir sua opinião quando for solicitada. Porque, quando as pessoas perguntarem o que você acha, o que pensa, estão, de fato, querendo saber o que se passa aí na sua cabeça.”

-Mas eu já estou tão acostumada a dar meus conselhos…

“Já parou para imaginar que as pessoas não veem isso como conselhos? Já parou para imaginar que elas só não a xingam e mandam ir para o inferno porque você é a mais velha de todas e, apesar de você encher o saco, respeitam e, por isso, se calam?”

-Será?

“Certeza. Essa sobrinha aí que não entende nada de cabelo mesmo, já deve ter tido vontade de te mandar ir às favas muitas vezes durante a vida. Só não manda por educação. E mais: quem sabe ela acha seu cabelo ridículo também e, mesmo assim, não fala nada. Já pensou nisso?”

– Mas meu cabelo nunca foi ridículo.

“Olha aí! Ela também não deve achar o próprio cabelo ridículo. Gosta do jeito que é e você fica falando, enchendo o saco da pobre.”

-Eu só quero ajudar.

“Ela já te pediu opinião alguma vez?”

– Não.

“Então não dê.”

-Mas o que eu vou falar quando chegar à casa das pessoas, quando encontrá-las? Qual sugestão vou dar?

“Sugestão? Palpite? Nenhum! Você vai ficar calada. Chegue procurando alguma coisa para elogiar. Fique calada, observando alguma coisa para elogiar. Quando vier a vontade de dar sugestão, conselho ou pitaco, respire fundo e elogie.”

– Eu nunca fui de elogiar. Sempre fui de aconselhar.

“Então, fofa, é hora de mudar.”

– Mas agora, no fim da vida?

“Nunca é tarde. Sempre dá tempo de alguma nova coisa. Por que você não começa com essa sobrinha do cabelo?”

– O cabelo dela é muito estranho, você não tem ideia.

“Mas tente. Quando a vontade atacar, você fala que ele ao menos está cheiroso. Ou ela anda com ele sujo e ensebado?”

-Não! Ela é cafona, mas é limpinha. Eu acho.

“Então, comece assim e, se for à casa de alguém nesse fim de semana, nada de dar sugestão de nada. Lembre-se de que você é a mais velha, de que tem que ser sábia, falar coisas que edificam e nunca, nunca, nunca se esqueça: quem fala demais não é ouvido!”

– Eu vou tentar.

“Não! Nada de tentar, você vai conseguir!”

Nessa hora da conversa, o Uber chegou e, assim que entraram, a velhinha pitaqueira olhou para o motorista:

-Nossa, mas você podia encerar esse carro por dentro.

Suspiro.

“Desisto.”

 


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