Arquivos de junho 2018

Ir com medo pesa. Com ele é mais difícil caminhar.

 

“Tenho medo.”

– Segue em frete, faz o que eu te ensinei que você vai conseguir.

“Mas estou com muito medo.”

– Parado aqui seu medo vai passar?

“Acho que não, mas ao menos eu não vou me machucar.”

– Quem garante se você for vai se machucar?

“Quem garante que não vou?”

– Vai com medo.

“É pesado.”

– O quê?

“Ir com medo. O medo pesa. É mais difícil caminhar.”

– Difícil é ficar parado.

“Ficar parado eu não estou fazendo nada, sei como é, acaba sendo tranquilo.”

– Vai com medo mesmo. Mais tarde vai se arrepender de não ter ido. Usa o que te ensinei. É garantido você conseguir.

“Como posso começar?”

– Fica de pé.

“Estou de pé.”

– Agora começa a andar.

“Tenho medo.”

– Não fale mais que tem medo. Faça de conta que ele não existe. Simplesmente vá.

“Não é assim tão difícil.”

-Eu não disse? Espere! Pare em frente a esse espelho e diga a você mesmo o quanto é capaz e que tudo vai dar certo.

“Você é capaz e tudo vai dar certo. Confio em você.”

– Agora vá e não olhe para trás. Esquece essa história de medo, e se ele insistir em andar com você faça de conta que é seu companheiro e continue.

E assim lá foi o medroso…

Até que uma hora:

“Eu andei, continuei e de uma hora para outra estava correndo. Hoje descobri que posso voar!”

– E o medo?

“Que medo?”

 

 

 

Algumas vezes temos como escolher, outras não mais…

 

E, um dia, quando Ela terminou de contar o que sua amiga estava vivendo, Ele falou com seu jeito manso de sempre:

“Você dever aprender com a surra do outro.”

Ela pareceu admirar-se:

– Como assim?

“Ué! Quando alguém for por um caminho e se der mal, você siga por outro.”

Sinceramente, Ela não acreditava que a amiga se dera mal:

– Não pode acontecer de eu andar pelo mesmo caminho e ser diferente?

Sem mudar a expressão:

“Claro! Pode acontecer. Mas dificilmente assim será.”

Ela se ajeitou no sofá, para que o corpo concordasse com o que falaria:

– Posso muito bem fazer dar certo, andar por ele e não sofrer.

Sem desviar o olhar do jornal, sorriu:

“Se milhares por ele passaram, sofreram, se esfolaram, por que razão você se daria bem?”

Mexendo nos cabelos como se pudesse convencer o mundo:

– Tenho talento, posso fazer diferente.

Ele sorriu, tirou os óculos, abaixou o jornal, passou mansamente a mão magrela pelos cabelos:

“Minha querida, escute com atenção o seu velho pai, é impossível passar pelo fogo sem ficar ao menos chamuscado. Não há como. Eu sei. Você pode me dizer que o fogo faz que quem por ele passe saia mais forte, transformado, purificado. Mas isso vale para o ouro, para o milho da pipoca e para aquele que não tem escolha, quando vê está no fogo. Sua amiga, agora  já está vivendo essa situação, não há o que fazer, é viver e dela sair mais forte. Tenho certeza de que assim ela sairá, muito mais forte. Mas estou falando aqui de quem pode escolher em qual situação entrar. Estou falando de você, que pode hoje escolher qual caminho tomar. Estou te dizendo que, se você decidir andar por esse caminho, sua vida pode ser mais difícil. Só isso.”

Agora sim, Ela começou a refletir:

– E, se mesmo assim, mesmo correndo o risco de me queimar, de sofrer, eu escolher seguir o mesmo caminho que minha amiga?

Ele fica visivelmente admirado:

“Vou pensar que você não é assim tão inteligente quanto eu imaginava.”

Ela já não estava tão esticadinha no sofá:

– Tá me chamando de burra?

Mesmo sem perceber, Ele começou a falar um pouco mais rápido, levemente mais alto:

“Se você tem a sua frente dois caminhos, um largo e florido e outro estreito e cheio de espinhos, e prefere escolher o mais difícil, eu sinto dizer, mas parece ser pouco inteligente.”

A essa altura, Ela estava de braços e pernas cruzadas:

– Mas eu quero.

Ele, de um segundo para o outro, teve seu rosto transformado, arregalou os olhos e perguntou sem rodeios:

“Você já está no meio do caminho? Não há mais tempo de escolher, minha filha? É isso mesmo?”

Ela que não tinha mais para onde se encolher respondeu baixinho:

– É, pai. Não há mais o que escolher.

O silêncio tomou conta da sala, mesmo assim os olhos do pai calmo e amoroso ainda procuravam os dela e, quando os encontraram, o que Ela viu foi amor:

“Minha princesa, por que você não falou comigo quando ainda tinha escolha?”

Ela já não falava, só chorava:

– Você me desculpa, pai?

Ele, que já não sabia mais por onde andava jornal, nem óculos, nem serenidade, se aproxima da menina chorona e acaricia seus cabelos com uma ternura só sua:

“Minha menina, escolheu o caminho mais difícil foi? Então me dê aqui a sua mão, eu não vou deixar que ande por ele sozinha. Vou estar com você, ao seu lado, de mãos dadas até o final. Fique tranquila, tudo vai dar certo.”

E foi assim que Ela dormiu chorando no colo do pai, acreditando que seria difícil, mas que daria conta e sairia sim mais forte, muito mais forte.

 

 

O “helicóptero” começava a cantar baixinho e ia aumentando o volume, aumentando…

 

Você já dormiu com alguém que ronca?

Ela já!

“Preciso deitar e dormir antes dele.”

– Boa noite, amor.

“Boa noite, meu dengo. Não dorme não, espere que eu durma primeiro.”

Ele com a cara mais indignada do mundo:

– Falou aquela que não ronca.

“Meu ronco é mansinho, nem te atrapalha.”

– Não? Você não ouve, por isso pensa assim.

Silêncio.

Após meio segundo de silêncio houve um helicóptero que se aproxima.

Primeiro mansa e delicadamente.

“Eu não acredito que Ele já dormiu. Não é possível.”

Depois com maior velocidade e dinamismo, parece que vai levantar voo a qualquer momento.

“Misericórdia! Como dorme rápido esse homem.”

Chacoalha o moço com força e ele dá um longo suspiro e muda de posição:

“Amor, você disse que ia me esperar dormir primeiro.”

– Estou esperando.

“Tá nada. O ronco já está comendo solto. Vai ler um livro enquanto eu durmo. Juro que pego no sono rápido.”

– Hum hum.

Vira para o outro lado e continua dormindo, ainda em absoluto silêncio.

“Dorme, dorme, dorme. Dorme rápido antes que ele volte a roncar.”

O helicóptero começa a fazer seu barulho característico e Ela nem vê quando pega no sono.

A moça sabe que também ronca depois que dorme. Algumas vezes, Ele a filmou para provar que também é incomodado durante a noite. E o pior, o ronco dela, cada noite, é de um jeito, não existe essa história de ser apenas uma coisa, somente o helicóptero.

A noite passa tranquilamente, ao menos para Ela, mas, de manhã logo cedo, junto com a chegada do sol, Ela escuta o helicóptero voando baixo, bem no seu ouvido.

Sacode de um lado, sacode do outro e nada.

“Eu não quero acordar tão cedo, mereço dormir até o despertador tocar.”

Sacode de um jeito e Ele para. Antes que seu braço se acomode na cama, o helicóptero volta.

“Tadinho, já dormi a noite inteira, deixe-me ver se consigo administrar esse ronco. Como será que consigo colocá-lo dentro do meu sono?”

Pensou Ela, complacente com o seu amor.

“Vou pensar que estou em um heliporto esperando meu helicóptero particular, assim, consigo colocar o ronco dele no meu sonho e durmo.”

De um minuto para o outro Ela estava em uma sala onde amigos que há muito Ela não via separavam roupas para um bazar.

Foi quando sua tia, que nem frequenta aquela comunidade, chegou e começou a tumultuar o ambiente. Falando umas coisas desconexas, atrapalhando o começo da reunião que aconteceria enquanto eles separavam as roupas.

Ela, que nunca se posicionava em situações de conflito, resolveu intervir:

“Então tá, tia. Vamos agora orar para começar a reunião. –  a tia parece que concordou e ficou em silêncio.- Senhor Deus, obrigada por estarmos aqui reunidos…”

Foi quando Ela sentiu seu corpo todo chacoalhar:

– Amor, amor, acorda! Você está falando.

Ela acordou assustada:

“Eu falando? Claro que não!”

– Você estava falando, orando, menina! Oque aconteceu?

“Eu não! Eu acabei de conseguir dormir. Coloquei seu ronco no meio do meu sonho. Tudo estava se encaixando direitinho. Minha tia estava falando, cada vez que você roncava era ela falando e aí eu dormia sem atropelos. Por que você me acordou?”

A indignação tomara conta da moça.

– Você dorme tranquilamente e eu? Como eu fico?

E foi assim que os dois começaram o dia azedos.

Ela, porque tivera o seu drible do ronco interrompido e Ele, porque fora acordado por sua fala inesperada.

– Não tem jeito. De hoje não passa, vamos marcar a consulta com o especialista do sono ou dormir em quartos separados.

E foram, cada um para o seu lado, destilar seu azedume.

 

 

Parte do Grupo das Meninas e seus amores.

 

E ontem foi dia de tomar café com as amigas.

Com as amigas, seus filhos, maridos.

Nós nos reunimos todas.

Assim, quase todas.

Uma, que mora em um bairro mais longe, não conseguiu vir.

Mandou um vídeo para o grupo, participou rapidinho.

Outra estava viajando.

Ficou um tempão em uma chamada telefônica, estava em um local sem internet.

Outra ainda, a que mora longe de verdade, na Inglaterra, ficou o tempo todo com a gente por uma chamada de vídeo.

Cheguei atrasada e os grupos já estavam divididos: homens, mulheres, crianças.

Todos conversando, comendo, divertindo-se, cada qual a seu próprio modo.

Foi quando começamos a cumprir o propósito pelo qual essa reunião foi feita.

Esse grupo é formado por mulheres que se conheceram ainda meninas.

A faixa etária varia um monte e eu tenho o privilégio de ser a mais velha.

Engraçado como fomos nos unindo, nos juntando, misturando.

Hoje, enquanto cumpríamos o propósito pelo qual nos juntamos, ouvi mais de uma vez:

“Conheci essa menina quando ainda era criança.”

Sinal claro de que lá se vão décadas.

Mais de uma, muitas vezes.

Uma delas que ali estava é filha da minha professora da segunda série. Ela estava “muito grávida” quando me deu aula.

Outra foi aluna da minha mãe no ano em que minha avó morreu e, por isso, eu acabei dando aula pra ela por uns dias.

Fomos todas aos casamentos uma das outras.

A não ser de uma delas, que ficou durinha nas pernas e casou logo, antes que nós chegássemos a sua vida.

Ao menos a maioria de nós.

Outras estudaram juntas desde a infância, começo da adolescência.

Meu marido deu aula para muitas delas e hoje meu príncipe é o melhor amigo do filho de uma.

As filhas de duas foram minhas daminhas.

Fui madrinha de uma delas.

Duas foram minhas madrinhas.

Ou seja: nossas histórias foram se entrelaçando ao longo do tempo de uma maneira tão fantástica e indescritível que não dá para dizer assim:

“Foi aqui que nos encontramos, juntamos, misturamos.”

Foi a vida que nos trouxe uma para perto das outras, nos ajuntou, misturou e nos fez um grupo, o Grupo das Meninas.

E eu acho encantador como ele funciona.

Não pode ninguém expressar uma necessidade que a solução surge de maneira espontânea.

Dia desses, pedi a indicação de um pediatra.

Uma amiga minha, de  outro grupo, estava precisando de um.

Recebi a indicação de uns 10 em poucos minutos.

Em outra ocasião, uma amiga precisava de alguém para fazer uma palestra em sua escola sobre prevenção ao suicídio. Falei com a psicóloga do grupo. Perguntei se podia passar seu telefone para a moça, ela disse que sim.

Passei e esqueci, nem fiquei sabendo se tinha dado certo.

O tempo voou e, num belo dia, ela manda no grupo uma mensagem de voz toda emocionada:

Tinha atravessado a cidade, ido a uma região bem carente e distante para dar a palestra e tinha sido maravilhoso.

E assim é com tudo.

Qualquer tipo de consultoria, aconselhamento, lugar pra chorar, gargalhar é só chegar e falar.

Sempre tem um colo amigo, um conselho, alguma delas, quando não todas, disposta a ouvir, auxiliar.

É um porto seguro em meio a tantos grupos cheios de bom dia, boa tarde, boa noite vazios.

Hoje, nós nos encontramos para revelar nossa amiga de oração.

Não sei o que você pensa sobre isso, mas nós oramos e isso nos faz bem.

Por isso, oramos umas pelas outras.

Há alguns meses, a mentora no grupo nos propôs que fizéssemos um “amigo oculto de oração” e assim o fizemos.

Quanto à mentora eu esclareço: é aquela que se lembra do aniversário de todo mundo, que marca os encontros e que responde a todas as besteiras que qualquer uma de nós fale. É quem mantém a liga do negócio.

E, assim, proposta aceita, fizemos o sorteio virtual com os pedidos e começamos a orar.

A data da revelação parecia distante…

Até porque a data é justo uma semana antes de uma delas mudar-se de mala, cuia, filhos e maridos para o Canadá.

E, hoje enquanto nos despedíamos, dessa que foi nossa última reunião por agora, com quase todo mundo junto, ouvi a seguinte frase:

“Agora, nós, que já tínhamos uma casa na Inglaterra para visitar, vamos ter uma também no Canadá.”

Não gosto dessa frase.

Eu não tenho o costume de visitar os amigos.

Não vou à casa dos que moram no meu bairro, aqui na cidade, os que moram do outro lado do mundo podem ficar tranquilos: certamente eu jamais vou aparecer.

Mas a data que parecia distante chegou rapidinho e foi emocionante, deliciosamente emocionante ouvir as declarações de amor e amizade do nosso grupo.

São reais, inspiradoras, sinceras.

A tecnologia nos dá a alegria de nos mantermos sempre unidas.

Porque, mesmo todas morando no cerrado, se não fosse a tecnologia, sabemos com tranquilidade que não estaríamos assim tão próximas.

E, mesmo que agora seja cada dia mais difícil nos reunirmos de fato, as agendas sejam cada dia mais lotadas, é confortante saber que, não importa onde cada uma de nós esteja, quando o grilinho do Whatsapp gritar, haverá uma rede de apoio, um Grupo de Meninas para um socorro mútuo e eficiente!

 

 

 

Tem hora a gente sente uns sintomas tão estranhos que chega a estranhar.

 

E Ela acordou procurando por Ele.

Virou-se na cama e sentiu o seu cheiro.

Tudo remexido, parecia que o moço acabara de sair.

Seu cheiro estava por toda a parte e lá embaixo porta acabara de bater.

Silêncio.

Sentou-se e mais acordada um pouco deu-se conta de que não era nada daquilo.

Não havia cheiro, não havia nada remexido, não havia barulho na porta.

Nada.

Só o silêncio dentro de casa e a cantoria do vento lá fora.

Ela que há muito não se lembrava dele se arrastou até o banheiro sem entender que sonho fora aquele.

Fora tão real que tivera até cheiro, gosto, textura.

Os fantasmas apareciam em forma de sonho agora.

Desde quando?

Qual sentido?

Com que propósito?

Lentamente foi se lembrando de cada um dos detalhes vividos no sonho.

Riu sozinha.

Quanto mais se lembrava mais ria.

Por fim, gargalhava.

Fora um sonho bom.

E por quê ele agora?

Tinha um motivo.

Tinha uma razão de ser.

Era saudade.


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