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Duas pequenas.

“Eu tenho um chiclete.”

-Serio? Dá um pedaço pra mim.

“Dou não, é pequenininho.”

– Só um pedacinho.

“É pequenininho, eu te dou um pedacinho nós duas ficamos quase sem nada.”

– Duvido que você tenha. Tira aí da boca pra eu ver.

“Não!”

– O que foi?

“Engoli.”

– Bem feito! Nem sentiu o gosto!

“Pior que não tinha gosto de nada mesmo.”

– Chiclete sem gosto de nada?

“Não era chiclete. Era uma moeda.”

– Moeda? Sua doida, como você engoliu uma moeda?

“Foi sem querer. E agora?”

– Agora a mamãe vai te matar.

“Não tenho coragem de contar pra ela. Tô com medo.”

– Ué, tem que contar, ou você vai morrer entalada.

“Eu não quero morrer.”

– Tudo porque não quis me dar um pedaço do chiclete.

“Já disse que não era chiclete.”

– Mãe, a Menininha engoliu uma moeda.

*Vamos rápido, andem logo. Sua tia está esperando e eu não posso me atrasar. Esse é o concurso da minha vida. A chance que tenho de ter dinheiro para comprar pra vocês todas as bonecas do mundo. Entrem logo nesse carro.

– Ela não escutou.

“E eu vou morrer?”

– Acho melhor não. Depois dessa prova mamãe vai ter dinheiro pra comprar todas as bonecas do mundo e se você morrer todas ficarão só pra mim.

“Então como faço pra desengolir essa moeda?

-Não sei.

*Andem logo meninas.

– Você tá conseguindo respirar?

“Tô sim.”

*Vocês se comportem. Obedeçam seus tios. Nada de meter a mão onde não deve, nada de chegar perto da janela. E se virem alguma coisa na rua que tiverem vontade façam de conta que nem viram. Não quero saber de menina pidona. Menininha, você por favor, não vá colocar porcaria na boca! Olhem lá eles.

#Oi, irmã.

*Mirmã do céu, muito obrigada por cuidar das meninas pra mim. Minha sogra, coitadinha, adoeceu. Ligou desesperada falando que amanheceu sem dar conta de levantar. Muito obrigada por cuidar delas pra mim.

#O que é isso, criatura? Cuido com a maior alegria.

*Então, vou nessa.

# Deus te abençoe. Boa prova. Vamos meninas.

– Oi, tio. Oi, prima.

% Oi.

@ Oi.

“Oi, tio. Oi, prima.”

%Oi.

@Oi.

# Meninas, vocês colocaram o cinto? Nós vamos para casa, esperar o sol baixar um pouco e depois vamos para o parque. Tudo bem?

“Tudo.”

– Tudo.

# Posso saber sobre o que estão cochichando?

– Foi a Menininha.

“Não conta. Não conta!”

# Não conta o quê, Menininha?

“Não conta.”

– Uai, eu tenho que contar. Vai que eu não conto e você morre!

# Morre quem, fia de Deus? Conte logo!

– A Menininha, tia. Ela engoliu uma moeda.

# Engoliu o quê, criatura?

@Repete, por favor. Engoliu o quê?

– Ela engoliu uma moeda! E foi de R$ 0,50, dava pra comprar um dim dim.

# Menininha, onde você estava com a cabeça? Que ideia foi essa de engolir moeda? Tá pensando que é um cofre?

@ Não é conversa de vocês isso não? Diz pra mim que ela está brincando, Menininha. Fala para o tio que brincadeira da sua irmã.

“É não, tio. Eu engoli mesmo.”

@ Minha flor, você queria ter a certeza de que ninguém ia tomar sua moedinha, é? Agora ela está muito bem guardada. Mesmo assim vamos para o hospital, não dá pra ela ficar aí pra sempre.

#Sua mãe ficou sabendo disso, Menininha? Você contou pra ela?

– Eu tentei contar, mas ela começou a falar que se passar nessa prova de hoje vai ter dinheiro para comprar todas as bonecas do mundo e não sei o quê, aí parei. E essa daqui tá tão assustada com a ideia de morrer que não falou uma palavra.

#Morrer ninguém morre por virar cofre não, Menininha. Mas vai dar um trabalho pra tirar essa bendita moeda do seu bucho.

“E vai doer, tia?”

#Não sei, amor. Vamos ao médico ele vai falar.

) Então quer dizer que você engoliu uma moeda, mulherzinha? Por que não comprou balinha com esse dinheirinho?

– Dava pra comprar um dim dim de groselha, seu médico.

)Ou um dim dim de groselha?

“Eu não queria engolir não. Mas escorregou.”

) Escorregou, mulherzinha? Que judiação. Vai ali com aquele tio que ele vai tirar uma fotografia de dentro de você para ver onde essa moeda está passeando.

# Meu cofrinho, vamos lá. Só vou acreditar depois que o moço tirar essa fotografia do seu bucho.

“Não me chama de cofrinho não, tia.”

#Ué, e quem é que guarda moeda dentro? Não é o cofre? Você engoliu uma moeda, então agora é o meu cofrinho.

¨ Deixa eu ver. Olha só, a moedinha aqui!

# Misericórdia! Eu estava pensando que era brincadeira sua, Menininha.

“Tia, eu não minto.”

# Minha princesa. Só engole moeda, mas mentir você não mente, né?

“Foi só dessa vez. Nunca mais vou engolir outra.”

¨ Essa daqui vai fazer o caminho da comida e depois sair naturalmente, não tem com o que se preocupar.  Viu, cofrinho?

“Eu não sou um cofrinho.”

¨ Desculpe, Menininha. Mas fique tranquila, você vai ficar bem.

# Obrigada.

)Olha lá ela! Brilhando dentro de você. Você agora tem um ponto de luz aí dentro. Olha que charme!

“Mas vai apagar?”

)Vai, vai sim. Um belo dia você vai ao banheiro fazer o número dois e ela vai sair junto.

“E vai doer?”

) Acho que não. Ou só um pouquinho. Mãe, traga ela aqui depois de amanhã para tirarmos outra radiografia e faça o monitoramento das fezes.

# Tudo bem. Obrigada.

) Tchau, cofrinho.

“Eu não sou cofrinho.”

O acontecido já tem uma semana.

Cofrinho está indo periodicamente ao hospital acompanhando o caminho da moeda.

E a mãe, pobrezinha, fazendo o monitoramento daquele jeito.

De acordo com a última radiografia a moedinha estava chegando ao fim do caminho.

Cofrinho, ou melhor, Menininha passa bem.

 

 

 

 

Tem hora que é preciso dar o primeiro passo sozinha

 

Ela sabia que precisava se reerguer.

Não via qualquer possibilidade, não sabia por onde começar, onde se apoiar.

Só sabia que era preciso dar o primeiro passo.

Passava dias e dias sem fazer qualquer movimento nessa direção.

Aliás, dias e dias sem qualquer movimento.

“Você precisa reagir!”

Ouvia diariamente palavras de incentivo vindas de todos os lugares.

Mas como?

Um dia, resolveu dar um passo.

Levantou-se com o sol e, antes que voltasse a se esconder embaixo da coberta, abriu portas e janelas.

Ele, que não faz qualquer tipo de cerimônia, invadiu o ambiente rapidinho.

Não tomou conhecimento da bagunça, do ranço, da poeira.

Simplesmente, foi entrando.

Quando Ela pensou em colocá-lo para fora, já era tarde demais.

Devagarzinho, como quem ainda tem todo o tempo do mundo, foi andando em direção à sala de libertação.

Por lá passara algumas vezes nos últimos dias.

Em todas elas, rápida e superficialmente.

Não ficara o tempo necessário para fazer algo que pudesse causar transformação.

Apenas fora jogar fora o que não mais poderia ficar e voltara para o ninho.

Agora não, agora seu desejo era passar tempo suficiente para realizar mudanças.

Chegou lá e tirou tudo que apertava.

Nem se lembrava quando colocara aquelas amarras.

Parou, olhou-se e não reconheceu aquele olhar triste e cansado.

“Você precisa reagir.”

Ainda pôde escutar a voz do íntimo bem intencionado.

Passou as mãos pelos cabelos.

Sentiu uma textura grudenta.

Abandono.

A pele ressecada, olhos vermelhos.

Sentou-se novamente.

Precisava mudar aquele quadro.

Não tinha forças nem para se mover.

Olhou-se novamente.

E decidiu:

*Vou fazer o que dou conta.

Alguns passos a levaram para o lugar da cachoeira.

Quente, fumengante, controlável.

Entrou e ficou ali embaixo como se não houvesse depois.

Parecia que tudo estava indo embora com a água que escorria velozmente sobre seu corpo.

Era hora de tirar o grude.

Produtos, há tanto esquecidos, foram usados com vigor.

Lá pelas tantas,escutou o que parecia ser uma música.

Foi com surpresa que percebeu que ela surgia de sua própria boca.

*Isso. Dou conta de fazer sozinha.

Desligou a cachoeira depois de mais de uma hora.

Olhou-se novamente.

Seu olhar estava mais limpo.

Parecia mais feliz.

Usou o instrumento barulhento para secar os pelos.

Passou unguentos, cremosidades, perfumes…

Coloriu a pele.

Procurou o pano mais leve, mais colorido e foi encontrar os passarinhos.

*Se estou bem?

Não.

Mas isso eu dou conta de fazer sozinha.

Então faço.

Só hoje.

Um dia de cada vez.

Espero, um dia, me encontrar bem como hoje me peguei cantando.

 

 

 

Que o medo não te limite!

 

Sempre tive medo de altura.

Sempre gostei de chegar à janela e olhar lá embaixo, chegar perto do precipício, imaginar que voava.

Sempre tive medo de brinquedos que me fizessem sair do chão.

Nunca deixei de encarar um só deles nos parques de diversão e, mesmo que fosse morrendo de medo da “manutenção desse brinquedo não ter sido bem feita”, ia me borrando, mas ia.

Quando descia, me sentia a mais corajosa de todas, a mais poderosa, uma verdadeira  heroína.

Aí conheci “aquela” montanha-russa.

Não era a mais alta.

Não era a mais rápida.

Não era a mais mais de todas.

Mas eu nunca tinha visto uma tão alta, tão rápida, tão mais mais!

Olhei e gelei.

“Acho que, nessa, eu não vou.”

Enquanto olhava de boca aberta para aquela montanha, analisando cada uma de suas curvas, subidas e descidas, o tempo que era levado para que a volta fosse completa, procurava desesperadamente uma desculpa para não conhecê-la mais de perto.

Rapidamente, antes de processar todo o medo, encontrei:

“Estou de saia, não tenho como ir.”

Os amigos que estavam comigo não quiseram nem saber, na mesma hora começaram a campanha de convencimento:

“Segura essa saia.”

“Não tem desculpas, você tem que ir.”

E lá fui eu.

Arrastada.

Com mais medo do que todas as outras vezes.

Mas fui.

Sempre fico em silêncio nas filas.

O medo me paralisa.

Mas, como tenho que andar devagarinho mesmo, então, até facilita as coisas.

Lá pelas tantas, quando era mais fácil entrar no carrinho do que voltar toda aquela multidão que formava a fila, comecei a conversar comigo:

“Você vai gostar, menina. Sempre gosta.”

Mas, dessa vez, como estava com muito medo, não estava nada fácil fazer o trabalho de convencimento. Aí, eu mesma dava voz a vontade de fugir:

*Mas estou com muito medo. Tudo o que eu queria era não estar aqui. Devia ter ficado em casa, ido ao shopping!

“Que shopping, garota. Nós duas somos valentes e vamos gostar um monte dessa montanha também.”

*Valente é você. Eu sou medrosa, minha vontade é derreter aqui.

“Chega! Para de frescura! Estou tentando te tratar com carinho, mas assim não dá. Nós vamos nessa bagaça e acabou.”

*Você não devia me tratar assim, estamos de saia. Todo mundo vai ver nosso fundo. Vamos embora daqui.

“Claro que não! O fundo estará protegido! Esqueceu que estaremos sentadas em cima dele?”

*Sua marmota.

“Relaxa, garota. Se quiser tentar segurar a saia é por sua conta. Eu não vou nem me preocupar com isso. Também estava com medo, lá no começo da fila. Agora, quero só me divertir. Qualquer coisa a gente vê depois.”

*Louca! Você é doida. E me leva para essas coisas que me fazem morrer de medo.

“Te convenci?”

*Claro que não! Mas como eu e você somos uma só, tenho que relaxar para não morrer!

E foi assim que me convenci a relaxar, curtir e ir de saia mesmo na montanha russa mais alta, mais veloz e mais mais da minha vida.
E pela primeira vez na vida, passeei em uma montanha russa sem ver quase nada, pois tinha uma saia grudada na testa!

 

 

 

Falar a verdade algumas vezes pode ser verdadeiramente difícil

 

Mentir todo mundo mente.

Nem que seja uma vez ou outra.

“Eu não minto.”

Vai dizer que nunca mentiu na vida?

“Eu não minto.”

Vai dizer que nunca mentiu na vida mesmo?

“Já sim, claro. Mas isso foi há mais de trinta anos. O que vale é que hoje eu não minto mais.”

Conta aí sua mentira.

“Para quê, criatura? Desenterrar história velha para quê?”

Conta aí, não te custa.

“Foi uma besteira, uma vez, minha vó disse que me amava e eu respondi: “Eu também” e na hora aquela vozinha falou assim na minha cabeça: “Larga de ser mentirosa.” Mas aí, era eu já tinha dito. Ficou por isso mesmo.”

Que horror! Você não amava sua avó?

“Isso não vem ao caso, o que vale aqui é que hoje eu não minto mais.”

Eu duvido que se uma amiga te pergunta se está gorda você diz que está.

“Duvida? Duvide não, gato!”

Você fala?

“Não sou super sincera, aliás, estou longe, muito longe disso. Não saio por aí falando o que penso não, mas não me pergunte o que eu acho.”

Se perguntar você fala?

“Falo.”

Jura?

“Ué, a pessoa perguntou. Antes pergunto se ela quer mesmo saber o que penso. Se ela diz que sim,eu aviso que não douro a pílula. Se a pessoa concordar eu falo.”

Não quero nunca perguntar nada pra você.

“Fica tranquilo, eu não falo nada não.”

Só uma curiosidade: Alguém já te perguntou se estava gorda?

“Ai, meu pai! Perguntou.”

E aí?

“Eu disse que estava.”

E aí?

“Aí que eu disse que estava e a amiga dela veio me xingar.”

Mas é claro! Mulher nenhuma no universo quer ouvir que está gorda.

“Mas eu não cheguei nela e disse que ela estava gorda não. Eu estava no meu canto, ela chegou, perguntou e eu falei.”

E quando a verdade é muito inconveniente?

“Aí a gente tem que disfarçar para não ter que mentir.”

Quando vem a pergunta fatídica: Gostou do meu cabelo?

“É triste essa. A resposta de praxe é: “Menina, a única pessoa que tem que gostar do seu cabelo é você”. Afinal, é a sua pessoa que vai carregá-lo para onde for”.

Mas, aí, você tá falando que gostou.

“Eu não! Estou valorizando a escolha que ela fez.”

Você tá fugindo de dar sua opinião.

“Fugindo léguas, mas o que importa aqui é não mentir. Eu falo isso e mudo de assunto. Não minto e não perco a amiga.”

Mas o malabarismo é gigante.

“Demais. Mas dá certo.”

Sempre?

“Sempre.”

Então, tá. Mas eu prefiro não ter que fazer tanto malabarismo. Não me importo de fugir da verdade aqui ou acolá.

“Entendo, mas onde aprendi que a gente deve sempre falar a verdade, não há nenhuma exceção, por isso o rigor.”

Você acredita em tudo que é dito lá?

“Acredito em tudo mesmo, por isso, o malabarismo para cumprir o que lá está.”

Agora, você me fez pensar…

“Que bom! Era essa ideia, porque lá não há exceções!”

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

E muitos resolveram que em suas mãos seria um bom lugar para depositarem suas esperanças.

 

Nada mais agradável do que escutar exatamente o que se quer.

E Ele sabia falar o que muitos queriam ouvir.

Com desenvoltura, alegria, vocabulário fácil e envolvente, conseguia fazer com que muitos parassem e prestassem atenção a suas ideias.

Logo percebeu que as pessoas gostavam do que dizia.

Onde quisesse falar, havia sempre alguém disposto a ouvir.

Conforme isso foi acontecendo, Ele começou a se acostumar com a situação.

A gostar dela.

Alguns discordavam, claro, mas, quando isso acontecia, com habilidade e apoio dos que estavam a sua volta, conseguia convencer o outro de que, sim, estava certo.

Ou então, quando não era convencida, a pessoa era discretamente eliminada do grupo.

Colocada em um canto, rapidamente esquecida.

Com o passar do tempo, o número daqueles que apoiavam o que dizia foi aumentando consideravelmente.

Foi aí que Ele teve uma ideia:

“Posso ser o representante de vocês, posso ser a voz de cada um junto a esses que nos fazem sofrer.”

As pessoas gostaram.

Acharam que seriam muito bem representadas por Ele.

Com o tempo, muitos outros ficaram sabendo que aqueles que Ele representava conseguiam ser ouvidos, atendidos.

– Você não pode privilegiar só esses. Venha nos representar também!

E Ele foi.

Cada dia, conseguia atingir mais e mais pessoas.

Passou a frequentar os meios onde se fazia ouvir, entender, atender.

Ficou ainda mais conhecido e, a cada dia que passava, outros, maiores e mais diversos grupos  queriam que, sim, que Ele fosse seu líder, seu representante.

Passaram a acreditar que, sim, com Ele sendo visto e ouvido, tudo seria diferente, seria melhor, mais feliz.

E foram.

Apoiando, acreditando, lutando para que, enfim, Ele se tornasse representante de todos, da maioria.

Os discursos tornaram-se mais acalorados a cada dia e, por eles, as pessoas iam deixando de lado a resistência, acreditando cada dia mais.

Fazer com que alguém acredite em suas ideias é uma grande responsabilidade.

Ao acreditar, a pessoa deposita em quem acredita o mais precioso dos seus sentimentos: a esperança.

A esperança é, sim, tudo de mais puro, mais sagrado, que alguém pode ter.

E Ele conseguiu, com suas palavras envolventes, convencer milhares, milhões de pessoas e fazer com que eles depositassem nele sua esperança.

Dava gosto ver o rosto dessas pessoas n o dia que enfim Ele chegou aonde queria.

Aonde Ele queria chegar, onde elas queriam que Ele estivesse.

Seus olhos brilhavam, lágrimas, alegria, confiança, a mais pura e genuína esperança por dias melhores.

Reuniram-se em um só lugar as que conseguiram estar ali para o verem assumir o posto onde “há muito já deveria estar.”

Os que não conseguiram viram de suas casas, das praças, assistiram pelo mundo a chegada ao poder de quem os representaria enfim.

A lua de mel começou e tudo parecia transcorrer às mil maravilhas.

Dias melhores certamente estavam chegando.

Ele foi fazendo, trabalhando e se embolando.

O tempo passou e, lentamente, o lugar onde deveria estar os pés foi sendo ocupado pelas mãos.

Algumas pessoas começaram a achar que o mel estava se tornando menos doce.

Lenta ou rapidamente foram deixando a ideia de lado, assumindo a decepção que haviam sofrido.

A esperança foi perdendo lugar para a desconfiança e o medo ocupando lugares nunca antes visitados.

Até que chegou o dia em que Ele, que fora a esperança de mudança de milhões, foi colocado em uma sala.

Sozinho.

Sem aplausos, sem holofotes, sem microfones.

Sozinho em uma sala, foi colocado para pensar no que fizera com a esperança dos que um dia nele confiaram.
 

A graça que a incerteza tem.

 

Ai que vontade de saber o que vai acontecer daqui a pouco…

– Daqui quanto tempo?

Daqui cinco dias, cinco semanas, cinco meses, cinco anos, cinco décadas…

– Por que o cinco?

Modo de dizer. É um tanto de tempo. A gente sempre fala que não sabe o que vai acontecer daqui a cinco minutos. Por isso.

– Mas saber o que vai acontecer antes de chegar a hora, é isso?

Isso.

– Pra quê? Por quê?

Ué, eu tenho vontade.

-Você gosta de festa?

Gosto!

– Muito ou pouco?

Muito!

– Nas suas festas, nas que você organiza, faz  do que você mais gosta?

Ah… do frio na barriga, de pensar quem vai aceitar ao convite, se a decoração, o cardápio, a música vão agradar…

– Ué, o que te deixa feliz, expectante é exatamente o que você não sabe. Você escutou o que acaba de falar?

Claro que não é isso! Gosto de saber das coisas.

– Gosta nada!  Você gosta de não saber quem vai separar um tempo para ir a sua festa, gosta de não saber se vai ou não vai agradar com cada detalhe que preparou. Você gosta da incerteza.

Claro que não gosto disso.

– Não saber o que vai acontecer é o que faz o coração acelerar. A incerteza é que faz com que você se esforce, trabalhe mais, gaste mais. Simplesmente ignorar tudo sobre aprovação dos convidados e mesmo se você vai ou não gostar, que faz toda a diferença. Garanto, não saber o que vai acontecer daqui  cinco minutos que é o bom da coisa.

-Será?

Certeza.

– Por quê?

Se você soubesse que a Amiguinha não iria mandaria um convite pra ela?

– Claro que não!

Não mandaria e ia perder a chance de saber que a moça que você jura que é sua amiga na verdade não está nem aí pra você.

– É mesmo…

E assim é com tudo na vida, menina. Não saber o que vai acontecer daqui a cinco minutos te dá  chance de procurar viver bem, viver feliz com boas expectativas, esperanças renovadas a cada instante. Caso tivesse certeza de tudo, saberia o que daria certo, errado, o que não vale a pena nem tentar… Ia ser bom de um lado, mas só de um lado bem pequenininho.

– Tá bom. Estou convencida de que a incerteza e o efeito surpresa é a melhor coisa. Então deixa eu me dedicar para isso que estou fazendo agora porque, hoje, bem aqui, acredito que isso vai dar certo e, como não sei se vai mesmo dar ou não, é melhor eu me dedicar…

Boa garota!

 

Algumas vezes se faz necessário alinhar a rota para continuar.

 

No dia 26.12.2017 Ela planejou que o ano de 2018 seria dividido em trimestres.

Planejou, contou para alguns amigos e juntos montaram um grupo de apoio: Um ano em um trimestre.

No grupo, cada um tinha e era o Anjo de alguém.

O Anjo era aquele que motivava e ajudava  o “protegido” a não perder de vista o objetivo, a manter o foco.

Os primeiros 15 dias do ano foram magníficos: mensagens de incentivos iam e vinham, as tarefas traçadas eram realizadas dia a dia e parecia que ia dar certo.

E Ela, todos os dias pela manhã se lembrava de que seus objetivos eram chapar a barriga, aprender de fato a língua portuguesa e decorar os taquigramas do método Oscar Leite Alves.

Levantava pensando nisso e, todas as noites, antes de dormir, reforçava o objetivo, além de planejar direitinho a que hora faria as atividades relacionadas a cada um deles no dia seguinte.

Acontece que, numa noite, Ela deitou tão cansada que nem se lembrou do “trio calafrio”, só deitou e apagou.

Quando acordou no outro dia, atrasada, levantou-se correndo e começou a vida, sem nem parar para pensar neles.

Foi vivendo atropeladamente e, pela primeira vez em 15 dias, não fez nada que a ajudasse a chegar mais perto de seu objetivo.

Quando foi dormir, estava tão cansada…

Um dia, Ela se encontrou com seu Anjo. Por puro acaso, se esbarraram em um shopping:

“Oi, Amiga. Nossa que sorvete lindo! Mas e o projeto da barriga sarada?”

A colher que estava no ar indo em direção à boca parou.

Ela ficou visivelmente desconcertada, olhou para os lados e, depois de pensar alguns segundos sobreo que responder, disparou:

– Estou na TPM, tô merecendo um pouco de glicose. Amanhã eu malho isso.

Seu Anjo sorriu sem gracinha também:

“Então tudo bem. Estou indo nessa.”

Foi embora.

Ela ficou ali, afogando-se no sorvete e fazendo as contas, lembrando quantos dias já estava sem fazer absolutamente nada do que havia planejado.

Enquanto pensava chegou uma mensagem no grupo:

Bonitinha, cheia de florezinhas e passarinhos dizia assim;

“Enquanto você continuar fazendo tudo igual, não terá resultado diferente.”

Abandonou as duas últimas colheradas de sorvete.

Àquela noite Ela foi à academia, estudou uma hora de Português, aprendeu 10 novos taquigramas.

Foi dormir mais tranquila.

Dormiu pensando em seus objetivos e teve um dia produtivo para alcançá-los.

Na semana seguinte, tudo foi às mil maravilhas.

Mas, no domingo, foi a um churrasco e saiu à noite com alguns amigos.

Chegou tão cansada que capotou sem pensar em nada.

Quando chegou a sexta-feira, se deu conta de que não fizera nada sobre nada.

E, assim, esquecendo e lembrando, quando Ela se deu conta, o mês de março estava terminando.

Engraçado a passagem do tempo.

Ele vai caladinho e feito mineirinho, sem fazer qualquer alarde, segue seu rumo sem nem querer saber se você está caminhando ou parado à beira do caminho.

E, desse jeito quietinho, quando Ela se deu conta, faltava uma semana para março acabar e sua barriga havia crescido e seus conhecimentos sobre Português e taquigrafia não haviam acompanhado o mesmo ritmo.

Foi um susto.

Ela correu no grupo, fez uma enquete rápida e descobriu que, das cinco duplas formadas, apenas uma estava chegando ao fim do trimestre alcançando seus objetivos.

“Contem para mim como vocês conseguiram?”

Eles foram contando, contando e, ao fim, Ela descobriu que, para conseguirem inserir as novas atividades à rotina, o segredo era pensar em cada um dos detalhes do dia seguinte antes de dormir e, no outro dia, antes de fazer qualquer coisa, realizar as atividades relacionadas aos propósitos a serem alcançados.

Foi aí que Ela parou para olhar para si mesma e convidou seu Anjo para uma conversa.

Depois de confessar seus “pecados”, relatar seus planos, escutou:

E quanto à história de “Um ano em um trimestre”?

“Descobri que, para mim, não dá certo.”

– Por quê?

“É muito tempo. Um trimestre é muito tempo pra mim, eu me perco. O meu negócio tem que ser dia a dia, no máximo, semana a semana.”

– Vai tentar de novo?

“Claro! Vou sim.”

E foi desse jeito que Ela revelou como seria seu novo formato, afinal havia definido uma rotina, acreditava que seria mais fácil.

– Já sabe o que vai fazer de diferente?

“Sei sim.”

– Pode contar?

“Posso! Vou deixar tudo arrumado na noite anterior e, quando  amanhecer, não importa o que eu tenha de fazer nem o quanto de preguiça toma conta de mim, as primeiras atividades do dia serão as que dizem respeito ao meu objetivo.”

– Os objetivos mudaram?

“Alguns.”

– Pode me contar?

“Hoje não, mês que vem.”

E foi assim que Ela, em vez de se render mais uma vez à auto sabotagem, fez um alinhamento de rota e continuou.

Parece que mês que vem volta para contar o que aconteceu.

 

 

 

 

Quando o sonho muda de rumo a gente senta e ch0ra.

 

Já chorou descontroladamente?

Aquele choro dolorido e triste que vem lá do fundo do coração e vai saindo sem pedir licença?

O choro que dá a sensação de abandono, desamparo…

Ela chegou a casa, bateu a porta com todas as forças que possuía, sentou-se no chão e chorou.

Não foi aquele choro que começa discreto e vai crescendo não.

Seu choro já nasceu adulto, alto, forte.

Sentada ali, encostada na porta da sala, Ela chorou como há muito não chorava.

Ela, que era a irmã mais velha de uma família com cinco meninos, aprendera desde cedo que choro era coisa de menininha.

Cada vez que escutava alguém dizer a um de seus irmãos:

“Não chore! Homem não chora. Deixe essas lágrimas para serem derramadas por sua irmãzinha.”, ela ficava brava e chorava menos.

– Como assim, deixe as lágrimas para a irmãzinha? Por que sou menina tenho de viver chorando? Quem falou? Pois eu não sou chorona, eu sou brava!

Por fim, em sua cabeça, foi ficando a ideia de que chorar era coisa para meninas bobas, não para ela.

Como não era uma menina boba, simplesmente não chorava.

Cada vez que tinha alguma necessidade de choro durante a infância e adolescência, fazia sua cara mais brava, falava, discutia, engolia se fosse o caso e seguia em frente.

No fim, já estava profissional na arte de engolir o choro.

Assim, Ela foi passando por tudo e todos na vida.

Cada vez com menos lágrimas, cada vez mais “brava”.

Ela acompanhara a gravidez da Amiga desde aquele primeiro zap:

“Amiga, estou grávida!”

A brava, que ainda não era mãe, sabia do desejo que a Amiga sempre tivera de ter filhos.

Desde a infância, fora mãezinha de bonecas, cachorrinhos, ursinhos encardidos  e a todos, sem distinção, tratava com carinho.

Agora, enfim chegara a hora em que o sonho se tornava realidade: ela estava recheada de amor, ia ser mãe.

A felicidade que sentia pela realização do sonho da Amiga era tão grande que não dava nem para contar.

Saiu de onde estava correndo, comprou o menor sapatinho que encontrou e foi beijar a barriga da “buchudinha”.

Daquele dia em diante, passou a ligar para ela todos os dias, perguntar seus desejos, fazer comidinhas especiais, levar mimos:

“Criatura, com tanta comida que você me traz, vou acabar virando uma bola. Tem gente aqui dentro comendo comigo, mas só mais uma boca, não precisa de tanta comida não!”

Ela logo colocava a mãezinha em construção no lugar dela:

– Essa menina tem que saber que, quando a tia aqui chega, tudo vira festa e, em festa, tem comida gostosa. Só estou ensinando minha sobrinha.

A Amiga começava a rir:

“Quem te disse que é menina?”

– Eu sinto!

E, assim, os meses foram passando: telefonemas quase a ponto de torrar o saco da mãe, visitas, adivinhações para tentar alguma coisa que parasse no estômago da enjoada, sapatinhos, roupinhas e mensagens de WhatsApp. Milhares, milhões delas.

E, um dia, o telefonema:

“Vou fazer a primeira ecografia, quer ir comigo?”

– Tá ficando louca? Claro que quero.

E lá foram as duas.

Todo mundo sabe que, na primeira ecografia, não dá para ver se a criaturinha é menino ou menininha, mas Ela não estava nem se importando, queria ver sua sobrinha nadando.

Foi toda serelepe.

Durante o exame, silêncio.

#É a primeira ecografia?

“É sim.”

Silêncio.

A médica ia e vinha com aquele negócio na barriga da grávida, muito séria, sem falar uma só palavra.

Até que lá pelas tantas, quando Ela já quase enfartando:

# Foi sua primeira tentativa?

“Primeira tentativa do quê, doutora?”

# Inseminação artificial?

A buchudinha arregalou os olhos:

“Teve nada artificial aqui não, moça, foi tudo natural mesmo.”

A médica olhou admirada para a mãe, abriu um largo sorriso:

# Sério? Que encanto! Você será mãe de três pessoinhas que estão graciosamente dividindo a mesma placenta!

O silêncio, agora, mais que absoluto.

Durou apenas alguns segundos.

Depois foi tanta gritaria, tanto escândalo das duas que até a médica entrou na festa.

Lá pelas tantas:

“Explica doutora, explica para gente, pelo amor de Deus, o que significa isso!”

# Você será mãe de três crianças do mesmo sexo e idênticas.

A mãe assustada:

“Meu Jesus do céu, que aventura! Tenho que avisar para o pai deles.”

Ela, que já estava empolgada com a história de ser tia de um, agora então, não cabia em si.

Saíram dali direto para o shopping:

– Preciso encontrar mais duas peças de tudo aquilo que já comprei. Pensei que era só um sobrinho, mas vou ganhar é três. Ai, meu Pai, que feliz.

A partir daquele momento, Ela falava para todo mundo que seria tia de três meninas.

“Eu não sei quem te disse que serão meninas.”

-Ninguém disse, eu sinto.

Chegou o dia de saber o sexo.

Da sala de exame a médica telefonou para outra amiga que não Ela para contar o sexo, a moça seria responsável pela organização do chá revelação.

#Pensei que seria sua amiga que veio aqui com você na primeira ecografia que faria o chá.

“Pode não, doutora. Se aqui não estiverem três meninas, a hora que eu olhasse pra ela saberia, a pobre não consegue disfarçar decepção.”

Elas riram.

Chegou o dia da festa e lá Ela ficou sabendo que seria tia sim, de três meninos.

A bichinha ficou murcha por trinta segundos e disparou:

– Eu senti triplamente errado. Tem problema não, minha gente, vou aprender a ser tia de menino para que, quando a Amiga tiver meninas,  eu esteja bem treinada.

E continuou feliz curtindo a gravidez da amiga.

Em vez de cor-de-rosa, seus sonhos de tia passaram a ser azuis, só isso mudou.

Com o passar do tempo, o avanço da gestação, os desafios foram aparecendo.

Vieram  a internação e a sentença:

# Mãezinha, eles estão querendo nascer antes da hora. É preciso ficar internada, pernas pra cima, sem levantar nem para banho para a gente segurar esses rapazinhos no forninho até a hora certa.

Ela praticamente mudou-se com a amiga para o hospital.

Revezava com o pai dos meninos o tempo todo.

Tornou-se profissional em carregamento de comadre, em distração de grávida acamada, animadora de gestante.

Sofria a cada visita médica e exame detalhado em que descobria que o colo do útero estava se abrindo e não havia mais o que pudesse ser feito.

Todas as providências foram tomadas, todos os recursos utilizados, mas, por mais que a Amiga estivesse quase de cabeça para baixo para tentar fazer com que os bebês ficassem ali, não teve jeito, eles nasceram com 23 semanas de gestação.

Dois ainda não estavam completamente formados.

Esses não conseguiram.

Eram muito pequenos, frágeis demais.

E Ela, sentada ali no chão da sala, chorando desesperadamente, se perguntava o porquê de tudo.

Não havia o que fazer, era só chorar.

A Amiga, que estava muito mais sofrida que ela, ficara no hospital se recuperando do parto, e Ela fugira para chorar.

Ficou ali por horas, chorando alto, jogando fora toda sua frustração e dor.

Lá pelas tantas, se lembrou:

– Dois se foram, mas ainda tem um pequenininho lutando pela vida na incubadora. E minha amiga? Ela precisa de mim!

Foi até um espelho, olhou para si e deu uma bronca:

– Pare de chorar! Muitas coisas incríveis ainda estão por vir. Tome um banho e volte pra lá agora, esqueceu que você é brava?

Ajuntou a si mesma, fez do seu ombro o mais forte dos lugares e voltou para junto de sua Amiga, que precisava dela mais que nunca.

 

Será? Será? Vai explodir, vai dar errado. Melhor não confiar.

 

Ela tinha mania de dizer que não acreditava em nada nem em ninguém.

Falava para quem quisesse ouvir que não tinha motivo para acreditar nas pessoas, não tinha como ter fé em nada.

Era feliz assim e ponto.

Na hora do aperto era mais difícil se virar, afinal fora uma opção que a fizera não acreditar, então, não tinha a quem procurar.

Mas isso fazia falta apenas por alguns segundos, depois, Ela dava seu jeito e seguia em frente.

Até que, num dia, acordou cedinho para ir trabalhar e, enquanto esperava o elevador, pensou:

“Será que alguém já andou nesse troço hoje? Tinha uma equipe fazendo manutenção nele aqui ontem, e se alguém resolveu sabotar os cabos? E se, quando eu entrar e começar a descer, ele despencar. Acho melhor não confiar.”

Desceu dez andares de escada.

Entrou em seu carro e achou que algo havia acontecido ali:

“Será que alguém entrou nesse carro durante a noite? Vi umas pessoas estranhas na garagem ontem. E se colocaram alguma coisa nele e, a hora que eu ligar, der um pipoco? Acho melhor não confiar.”

Saiu da garagem pensando como chegaria ao trabalho.

Não tinha outro carro para dirigir.

Ir de UBER, táxi ou ônibus ia requerer que tivesse confiança nos motoristas, achou melhor não confiar. Foi a pé.

Chegou ao trabalho atrasada, suada e já cansada.

Parou em frente ao elevador e lembrou-se da primeira desconfiança que tivera no dia.

Subiu, de escada, 15 andares.

Chegando lá em cima, parou exausta em frente ao bebedouro.

Olhou em volta, observou os copos, o próprio bebedouro e preferiu não confiar.

Começou a trabalhar com sede mesmo.

Quando foi ligar o computador, lembrou-se de que vira o rapaz da manutenção trabalhando em sua máquina no fim da última tarde.

Não teve coragem de ligá-la.

Foi adiantar uns relatórios à mão mesmo.

Lembrou-se de que não havia tomado café.

Só pensar em descer e depois subir 15 andares pelas escadas a fez esquecer a fome.

Quando a hora do almoço chegou, estava já desfalecendo.

Desceu correndo os 15 andares e foi caminhando para o shopping mais próximo.

Para que pudesse chegar tinha de atravessar uma avenida super  movimentada.

Foi até o semáforo e ficou esperando que ele se tornasse verde para os pedestres.

Enquanto esperava pensava:

“E se, justo na hora em que eu estiver passando, um carro arrancar e me atropelar? E se aqui na primeira fileira de carros estiver parado um psicopata só querendo que eu comece a travessia para me matar?”

Nessa altura do pensamento, o sinal ficou aberto para os pedestres.

Ali não havia o que fazer: ou Ela atravessava naquele momento ou teria que correr em meio aos carros em movimento.

Algumas pessoas já haviam passando em frente de todos os carros, Ela resolveu se arriscar: contou até três e atravessou correndo.

Ao chegar ao outro lado, suas pernas tremiam e as mãos suavam.

Tentou se acalmar enquanto se dirigia à praça de alimentação.

Para chegar lá, precisava ir até ao terceiro andar do prédio.

Já decidira: não podia confiar em elevador, muito menos em escadas rolantes.

Subiu os três andares.

Lá chegando, começou a procurar um lugar para comer.

Andou por todos os lugares, olhando atentamente cada um dos restaurantes:

“Como será que essas verduras foram lavadas? Qual a procedência dessa carne? E o estado das panelas em que essas comidas foram preparadas? Qual será?”

Fez indagações como essas na frente de cada um dos restaurantes.

Foi com a cara de um e lá pediu um suco de laranja.

Não sem antes conferir disfarçadamente se o espremedor estava mesmo limpo, se a atendente lavara as mãos, se poderia tomar seu suco em copo descartável.

“Como pude esquecer minha marmita? Não tenho como confiar nessas comidas de restaurante.”

Bebeu dois copos de suco.

Desceu os três andares de escada.

Fez o mesmo ritual para atravessar a avenida movimentada.

Subiu os 15 andares até o escritório. De escada, que fique claro.

Continuo seu trabalho manualmente mesmo.

O expediente acabou e, antes de sair, foi ao banheiro.

Ao lavar as mãos viu que tinha calos em um dos dedos da mão direita: ele fora adquirido ao longo do dia, enquanto escrevia vorazmente seus relatórios.

Desceu 15 andares.

Caminhou três quilômetros até chegar a casa.

Lá chegando, subiu 10 andares.

Resolveu que, naquele dia, não ligaria o fogão; ele podia explodir.

Não tomaria banho quente, poderia morrer eletrocutada enquanto estivesse ensaboada.

Não comeria nenhuma das coisas industrializadas que estivessem em sua geladeira: poderiam ter vindo envenenadas de fábrica.

Fez mais de um litro de suco de laranja e bebeu.

Ao se deitar estava exausta.

Foi quando pensou:

“Sempre me gabei de nunca confiar em nada nem em ninguém, mas acho que estou passando dos limites. Estou aqui morrendo de tanto cansaço por ter subido e descido escadas o dia inteiro. Meus colegas e vizinhos subiram e desceram de elevador e ninguém voou pelos ares. Andei nem sei quantos quilômetros por não confiar nos motoristas de transporte público e por ter medo de ligar meu próprio carro. Os jornais não falaram de um só acidente de carro nessa região, nem explosões de carros na garagem. Passei fome o dia inteiro com medo de ser envenenada. Se alguém tivesse sido envenenado naquele shopping, todo mundo já estaria sabendo. Não liguei meu computador com medo que ele explodisse. Ninguém lá no trabalho teve qualquer explosão ao longo do dia. Fiz toda essa marmota “por não confiar em ninguém.” Ganhei o que com isso mesmo?”

Nessa altura da reflexão, Ela sentou-se na cama.

Levou às mãos à cabeça e declarou em alto e bom som:

“Pois, a partir desse momento, eu acredito, tenho fé e confiança em tudo e todos. Começando com o Todo Poderoso a que eu posso clamar sem pudor na hora do aperto. Confio agora no técnico do elevador, motorista de transporte público, cozinheiros e todos os prestadores de serviço que me cercam e, se r qualquer perrengue acontecer ,eu olho para o céu e peço socorro. Essa história de ser incrédula e desconfiada vai acabar me matando.”

Aproveitou seu momento de sinceridade e olhando para o céu agradeceu:

“Obrigada Senhor pelo dia. A partir de agora, confio em Ti.”

Deitou rapidinho e dormiu tranquilamente.

 

 

E justo agora quando o mundo inteiro cheira a chocolate Ela resolve ficar sem doce.

 

Ela acordou cedo e ficou quietinha na cama como se ainda estivesse dormindo.

No almoço de família no meio da tarde, na festa com as amigas à noite e em tudo que comera.

Lembrou-se de quantas vezes repetira o almoço e de quantos pedaços de torta fora feita a sua sobremesa.

E na festa à noite?

Foram tantos pães de queijo, coxinhas e doces que não dá nem pra contar. Também, aqueles doces estavam tão lindos e com a cara tão irresistível, tão deliciosos…

Comera que se lambera.

Mas agora, ao se lembrar, deu uma vergonha que ela chega se encolheu.

“Estou comendo como um javali desenfreado, meu Pai. Preciso me controlar.”

Sentou na cama

Coçou a cabeça.

Espreguiçou.

“Será que javali come muito? Vai ver estou acusando o moço de um pecado que ele nem comete.”

Levantou na velocidade de um bicho preguiça sonolento e se arrastou até o banheiro.

Enquanto reinava, começou a assistir ao vídeo de um canal que seguia.

Lá, um casal contava, de maneira bem humorada e saltitante, que estava sem consumir açúcar há alguns meses e estava sentindo uma diferença absurda: disposição, criatividade, ânimo…, tudo tinha melhorado.

Além de terem perdido medidas, claro.

Lembrou-se dos dias que ficara sem todas as iguarias adocicadas e como realmente o peso diminuíra. Não vira todas aquelas vantagens que o povo do “Cadê a chave” falara no vídeo não, mas o peso diminuíra.

“Disso que preciso! Preciso ficar sem açúcar!”

Antes de pensar direito, falou bem alto para quem quisesse ouvir:

“Vou ficar sem comer açúcar por um tempo!”

Quando acabou de ouvir as próprias palavras, se lembrou dos milhares de chocolates que vira nas lojas:

“Misericórdia, minha gente, e a páscoa?”

O arrependimento tomou conta do coração de maneira imediata.

Enquanto ouvia as palavras de apoio que vinham de toda a casa por sua decisão, ela ia se arrependendo, se arrependendo…

“Posso muito bem gritar aqui que vou começar essa abstinência depois da Páscoa, ninguém vai me condenar por isso.”

Mas aí vem a consciência pequenininha e perturbadora, dando voz, ação e coração ao conflito interno:

– Mas você já falou pra todo mundo que vai começar a partir de hoje. Não tem palavra não, é?

Ela, toda contrariada e já se lembrando dos relatos da Nilce sobre como foi difícil a crise de abstinência do açúcar:

“Ai, meu Pai! Todo mundo comendo chocolate durante dias em todos os lugares e eu olhando? Como vou resistir?”

– Pense bem, criatura. Enquanto todo mundo estiver queimando as calorias ganhas na páscoa, você vai estar à frente: queimando só as que já estão aí, não vai ter nada de novo.

Ela, em um muxoxo de fazer pena, tentou contestar de todas as maneiras, mas foi derrotada em cada um dos seus argumentos:

“É verdade, né? Vou embarcar nessa então.”

E aquela vozinha, que na verdade era sua aliada, disparou para finalizar:

– Cada vez que você sentir vontade de comer alguma coisa engordativa, qualquer coisa, doce ou salgada, pense assim: valem a pena as calorias que vou ganhar com isso? Certamente, não valem, aí você se arrepende antes de comer.

A indignação tomou conta de quem ainda nem havia se levantado do trono para começar a dieta:

“Como assim? Eu disse que vou parar de comer AÇÚCAR agora e você já quer que eu coloque na berlinda todas as coisas que for comer? Poupe a minha pessoa. Tenha dó.”

E quem só estava tentando ajudar:

– Não está mais aqui quem falou.

Ela terminou o reinado e foi embora para começar a vida sem açúcar.

 

 


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