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Quando cheguei pensei que a proximidade me traria o inconveniente de saber tudo que se passava ao lado.

Acreditava que estar ao lado traria “laços” obrigatórios de saber, mesmo sem querer, de deixar saber sem mesmo notar.

Acreditei que qualquer movimento incomodaria e por eles seria incomodada.

Puro engano.

Há quase um mês moro em um prédio com cinco torres, onze andares, dez apartamentos por andar.

E Ela é minha vizinha.

Não sei em que andar mora, só sei que é avó.

A avó que é a personagem principal de sua casa.

Pelas janelas da cozinha e do banheiro, entra sua voz.

Às vezes, canta, outras, briga ou se indigna.

Sábado à noite, quando chegamos, eu a ouvi dizer:

“Não vou mais! Não adianta, eu não vou mais. A pior coisa que tem é a gente depender dos outros.”

E aí alguém telefonou e o netinho disse assim:

“Minha vó já tirou a roupa. Disse que não vai mais.”

E ela gritava, um homem gritava, alguém telefonava e, entre uma coisa e outra o neto repetia:

“Minha vó já tirou a roupa. Disse que não vai mais.”

E eu, aqui, imaginando a vozinha sem roupa andando pela casa.

Lá pelas tantas, a volta do mais absoluto silêncio.

No outro dia, a vovó não cantou, não gritou, só perguntou lá pelo meio das 24 horas:

“Você quer ovo?”

Não sei se quis.

No outro, nem sobre o ovo perguntou.

Devia mesmo estar magoada com tudo o que aconteceu.

Mas ontem amanheceu cantando.

E agora, enquanto escrevo, consigo ouvir sua voz  enquanto prepara o jantar, atuando como  a principal pessoa dentro da única casa que nos deixa conhecer sua rotina, amores e desencantos nessa pilha de gente.

 

 

E eles foram brigando o caminho inteiro:

“Ela está sentada perto da janela outra vez e eu tenho que vir aqui de onde não dar para ver nada.”

A mãe já usara todos os seus argumentos: que ontem ele fora ali sentado, que na volta ficaria naquela janela, que a irmã era mais nova e chorava por qualquer coisa. Falou tudo, de tudo até que resolveu tomar uma atitude extrema:

“Ao chegar lá em casa nós iremos decidir essa história de lugar no carro, à mesa e em todo e qualquer lugar de uma vez por todas.”

Ela falou sem gritar, sem alterar o tom da voz, mas foi de um jeito tão sério, mas tão sério que todos se calaram de uma vez.

E, assim, silentes e preocupados, os três pequenos foram o resto do caminho.

Você sabe muito bem o que é ter uma mãe brava e decidida. Daquelas que, quando diz que vem aí uma surpresa, podem-se esperar as maiores maravilhas, que elas realmente virão, agora, quando promete um castigo, pode ter certeza de que ele será também caprichado.

Esse era o tipo da mãe em questão e os menininhos encrenqueiros sabiam disso.

Ao chegarem a casa, ela nem deu tempo para que os três coelhinhos encontrassem suas tocas.

“Os três aqui, agora.”

Chegaram quietos e calados.

“Vamos definir aqui o lugar de cada um no carro.”

O reclamão da vez foi logo falando:

“Eu quero sentar perto da janela.”

A mãe lançou em sua direção um olhar fulminante:

“Nesse instante o senhor não tem qualquer direito de escolha. Tudo aqui será por mim decidido e ninguém vai ter direito a reclamação.”

Ele murchou e a mãe continuou:

“Faremos um sorteio, do pior para o melhor lugar e, quando terminarmos, o lugar sorteado será do seu dono para sempre. Nunca mais teremos brigas por esse motivo, pois cada um terá seu lugar definido. Todos entenderam?”

Eles concordaram.

O sorteio foi feito.

Quem ganhou de presente a janela comemorou, quem recebeu o meio chorou.

E foi em meio ao riso contido e às lágrimas escancaradas que ouviram:

“A partir desse momento, o assunto “lugar no carro” está absolutamente proibido aqui – falou ela enquanto anotava em um papel onde deveria se instalar cada um – se vocês fossem um pouco mais civilizados, poderiam fazer um rodízio dos lugares e todos ficariam felizes, mas, como não são, a partir de agora, terão suas bundas ali grudadas para sempre.”

E foi esse decreto que selou o motivo para as maiores brigas e alegrias naquela família.

Ninguém nunca mais tocou no assunto “lugar no carro” , mas, por outro lado implicância, pirraça e aporrinhação passaram a ser o assunto preferido dentro do carro e fora dele.

Hoje, mais de 20 anos depois daquele dia, é gargalhando que eles lembram do medo que sentiram ao ouvir: “agora terão suas bundas grudadas ali para sempre”.

É certo que bunda alguma foi grudada, mas cada um deles, ainda hoje, quando podem escolher o lugar onde se sentar, inconscientemente, procuram o lugar, onde na infância um dia foram grudados, lamentando sempre não poderem voltar no tempo e sentarem-se todos juntos no carro da mãe.

Lamentando:

Sim!

Afinal, tudo passa e as pequenas coisas, as mais irritantes, deixam saudades.

Sempre!

 

 

 

 

 

 

Lembro exatamente o dia que ouvi a sua voz pela primeira vez.

Estávamos chegando à nossa casa, eu e minha mãe em um fim de tarde de céu azul.

Fora um dia cansativo e justamente naquele meu pai não fora nos buscar.

Descemos do ônibus atravessamos a rua e o quintal. Enquanto ela abria a porta o escutei pela primeira vez.

Não sei se mamãe o ouviu, mas eu relacionei a sua voz à solidão.

Muitos anos depois conheci Ana Terra.

Sua relação com ele era íntima, quase visceral.

Mulher forte e valente vislumbrava cada pequena alteração de sua entonação. Acreditava perfeitamente que antes de cada um dos grandes acontecimentos de sua vida ele vinha lhe avisar.

Adolescente que era fiquei com aquilo na cabeça e quando agosto chegava com seus ipês amarelos e grama seca eu reclamava todos os dias por ouvir, naquela casa onde todos os dias minha mãezinha abre a porta, a voz do vento.

 

Lá ele conversa com as árvores, longe, muito longe e só quando o nosso silêncio aparece se pode ouvir seu tagarelar.

Já aqui de onde escrevo…

Fico imaginando como seria desesperador para os Três Porquinhos, fugindo pela segunda vez do Lobo Mau, esconderem-se  aqui na minha sala.

No décimo andar de um prédio rodeado por casas e outros prédios menores por todos os lados, o vento canta, grita e sapateia aqui dentro da sala.

Tem hora que penso, enquanto não me acostumo a sua presença constante:

“Dessa vez eu fico surda, não é possível tanto assobio.”

Outra hora:

“O prédio vai cair sem balançar. Vai ser de uma só vez.”

Mas aí ele se cala.

E Ana Terra? Será que daria conta de desvendar tanta cantoria?

Quando acredito que ele se foi, calou-se ou resolveu cantar longe daqui, simplesmente vem chegando como quem não quer nada e solta um forte grito só para me lembrar que enquanto agosto não acabar ele será meu companheiro constante.

E eu, caso não queira enlouquecer que trate de ignorá-lo ou acostumar-me às suas melodia.

 

Recomeçar é muito mais difícil que começar.

Quando você começa, está empolgado com o desconhecido, com o que pode vir, com as inúmeras possibilidades que se apresentam.

Agora, quando recomeça…

O recomeço envolve consciência das decepções, das dificuldades, dos pontos fracos.

Quando você nunca antes passou por aquele caminho, vai andando e procurando flores, admirando o canto dos pássaros, aproveitando o calor do sol.

Agora, quando tem que trilhar o mesmo caminho outra vez…

Sabe onde há pedras de que, na primeira vez, não conseguiu desviar, sabe onde o rio é mais bravo e conhece exatamente o ponto onde pode aproveitar a correnteza a seu favor, sabe onde tem pé de fruta carregado, sabe onde pode descansar.

Recomeçar é pensar que você, caso não tivesse parado, já poderia estar longe, muito longe.

Mais feliz, mais realizado, mais rico.

Recomeçar é reconhecer que as paradas, às vezes, se fazem necessárias, afinal, o mundo não deixa de girar um só segundo e as pessoas continuam nascendo, morrendo, adoecendo, casando e dando-se em casamento.

Por esse ou aquele motivo p, por vezes, é preciso parar e, depois, recomeçar.

Porque, acredite, não é por que você parou um pouquinho que desistiu!

Não é porque hoje comeu um brigadeiro que desistiu da dieta, não é porque fumou um cigarro que desistiu de parar de fumar.

Não é porque há uma semana não vai à academia que desistiu de malhar.

Não!

Parar, comer, fumar, não malhar, não é desistir.

Devia ter parado? Ter comido, fumado, não malhado?

Não!

Mas parou, comeu, fumou, não malhou! Tem como voltar não tempo?

Não!

Mas tem como recomeçar.

Tem como pegar o dia de hoje e agir outra vez, como se fosse a primeira vez.

Recomeçar.

Hoje, só por hoje, recomece e não pare mais, não coma mais, não fume mais e malhe, criatura!

Recomece hoje.

Só por hoje.

E, quando hoje for amanhã, recomece outra vez, só que mais facilmente.

 

 

Hoje ele toma forma.

Guardei há tanto e nunca mais fui vê-lo, mas hoje ele começa a se realizar.

Deixe-me ver, lembro que coloquei em uma caixa como se para presente fosse e depositei longe do sol, da poeira e dos curiosos.

Bem ali, no fundo daquele armário onde ninguém mexe.

Onde foi mesmo?

Pensava que tinha sido nessa porta.

Ou quem sabe nesta daqui.

Aqui, achei!

A caixa parece um pouco amarelada, mas continua linda.

O laço um tanto amassado, afinal o tempo passou e o coloca e tira das coisas acabou amassando o pobre enfeite.

Mas deixe-me enfim olhar de novo em seus pequeninos olhos.

Ué?

Onde ele foi parar?

A caixa está absurdamente vazia!

Que tristeza, ele sumiu!

E o pior de tudo: não sei como ele era de fato, não tenho como reconstruí-lo nem fazê-lo novamente.

Foi assim que eu descobri que sonhos guardados, mesmo que muito bem guardados, perdem sua forma, seu cheiro, sua essência e, enfim, desaparecem.

Sonhos encaixotados para serem depois “disso ou daquilo” realizados deixam de existir.

Em vez de gavetas, sonhos têm que ocupar paredes, porta-retratos, corações.

Por que sonhos longe dos corações são apenas desejos comuns, que se perdem com o tempo.

Então, deixe-me ir, por que eu, hoje, acordei para realizar meu sonho.

 

“Estou tão feliz! Vou comer chocolate para comemorar.”

Depois:

“Estou tão triste! Vou comer chocolate para me alegrar.”

Dali a pouco:

“A vida está tão boa ! Vou comer chocolate para celebrar.”

Logo mais:

“Está tudo tão sem graça! “Vou comer chocolate para me animar.”

Quando se quer fazer, comer, abandonar ou agarrar, qualquer motivo é motivo, qualquer desculpa cai como uma luva.

Por isso, você que está aí tão assim ou daquele jeito use isso como motivo suficiente para beber água é preciso se hidratar!

 

Encontros são deliciosos.

Ainda mais aqueles que nos surpreendem no trânsito, no estacionamento, na fila do supermercado…

Quando você sente no peito saudade, a graça divina, com toda a sua delicadeza e amor, encarrega-se de fazer com que ela se vá.

Delícia é pensar em um velho amigo que hoje mora longe e encontrá-lo.

Melhor ainda é saber que ele está feliz, com a família linda, satisfeito da vida.

Bom demais contar a ele as últimas novidades da própria vida e ver em seus olhos a alegria pela sua felicidade.

E, aí, ao longo do dia, enquanto anda por uma estrada longe de casa escuta uma buzina, vê um aceno e reconhece:

“Vamos voltar, é o Amigo!”

E que maravilha encontrar assim, pela pura ação do Criador da amizade, um outro amigo querido.

Lindo, voltava de um ensaio fotográfico com a esposa.

Já com nove meses, Ela resplandece a beleza que apenas mulheres que esperam a chegada de seus tesouros exibem.

E como foi bom vê-los.

Estão encantadores, o moço radiante, a menina envolvendo a menininha, todos lindos e felizes.

E, nos dois encontros, todos em um lindo sábado de sol, os abraços, beijos e olhares carinhosos que trocamos tornaram-se instantaneamente em combustível.

Combustível para dizermos com um sorriso que nossa amizade tem mais de 20 anos e sabermos que, mesmo de longe, torcemos sim pela felicidade uns dos outros.

 

 


Passei os últimos dias bordando corações.

Pequenininhos, singelos.

Um quadradinho na base, três logo acima. Depois uma fileira com cinco quadradinhos seguida por duas de sete. Por fim, dois quadradinhos a partir do segundo da última fileira, pulo um, faço mais dois.

Pronto!

Fiquei pensando até em abrir um empreendimento:

“Faço corações sob encomenda.”

A pessoa me encomendaria o que queria ter no coração e, enquanto a linha vermelha ia e vinha nesses poucos pontos, eu ia colocando dentro deles tudo que havia sido encomendado.

Já pensou?

Nesse pequenininho, caberiam poucas coisas, afinal são apenas 27 pontos e, como cabe apenas uma coisa em cada ponto…

Mas eu poderia fazer corações maiores…

Grandes quadros, almofadas, peças gigantescas onde, em cada uma das cruzadinhas do ponto chamado cruz, poderia colocar uma coisinha que faria a completa diferença na vida de quem o recebesse.

Imagine você!

Eu ia ficar rica, milionária!

Aí, Você que, não vê o próprio umbigo e enxerga com lente de aumento os defeitos que não são seus, começa imediatamente a pensar assim:

“Aaa se você realmente abrisse esse empreendimento e o que colocasse em cada um dos pontos passasse a fazer parte da pessoa que recebesse o coração, eu encomendaria um para Fulano. Ele precisa

tanto de um coração que tenha mais amor, mais compaixão, mais…”

Não!!!

Para, velho!

Deixa a vida dos outros quieta!

Como você é futriqueiro.

Olhe pra você.

Vasculhe o seu coraçãozinho e veja se ele precisa de reforma.

Vai ver está tão detonado que reforma não vai adiantar.

Tem de ter outro mesmo!

Difícil de admitir, né?

Também acho.

Mas, às vezes, se faz necessário.

Pensa aí e me conta: será que eu teria sucesso no meu empreendimento?

Será que, se eu fizesse corações onde conseguisse colocar todos os sentimentos bons que as pessoas precisam gostariam de ter, eu alcançaria êxito?

Talvez eu não saiba como fazê-lo, mas quem inspirou o nome do ponto tem a resposta, pode acreditar!

Existem várias maneiras de tirarmos o nosso da reta, nos eximir da responsabilidade, fazer de conta de que a história não nos diz respeito.

Mas isso é feio, muito feio.

Então, para corrermos e ficarmos bem na fita, falamos assim:

“Caso precise de alguma coisa, qualquer coisa ligue pra mim.”

Pronto – pensamos – já me coloquei à disposição. Ele agora sabe que estou aqui para o que der e vier.

Falamos isso, viramos as costas e vamos ao shopping aproveitar “aquela” promoção.

E, quando, meses depois, encontramos um amigo em comum…

“Tem visto Fulano?”

– Vi só aquele dia, na despedida. Falei pra ele que se precisasse de alguma coisa era só me telefonar, mas meu telefone nunca tocou.

Como assim, cidadão?

Seu amigo sofrendo luto, desemprego, abandono, doença e você simplesmente se coloca á disposição?

Algumas pessoas acham que se baterem à porta do amigo sofredor com uma panela de sopa e forem fazendo o que for preciso em sua casa é invasão.

Pensam que chegar sem ser chamado e fazer sem ser solicitado é violentar a individualidade da pessoa.

Talvez quem pense assim tenha razão.

Mas pode chegar com a panela de sopa em uma noite fria e levar seu abraço, seu ouvido, seu conforto, seu silêncio.

Chegar sem ser chamado e, mesmo assim, não invadir.

Mostrar àquele que não te chamou que, mesmo sem ser convidado, você, o amigo, preocupa-se de fato. Está presente de verdade para tudo, inclusive nada.

Fazer mesmo sem esperar uma solicitação formal com dia e hora marcados para execução.

Abandone o “telefone caso precise” e telefone você, vá atrás você, pois quem precisa de carinho e atenção nesse momento é aquele que sofre e não o possível consolador.
 

 

Difícil demais ter que esperar.

Difícil demais ter que ouvir apenas o silêncio.

“O que eu posso fazer?”

“O que eu devo fazer?”

“Como eu posso acelerar?”

E não há o que fazer, apenas esperar.

Você pode pensar em outra coisa, sair para correr, patinar, pedalar.

Trabalhar em qualquer outro projeto.

Comer, dormir ou viajar, mas, sobre aquele determinado assunto que tanto tira sua paz, a única coisa que deve fazer é esperar.

“Mas eu não dou conta! Vou enlouquecer.”

Esperar nunca enlouqueceu ninguém.

Não há registros na história.

Não que eu saiba.

Esperar ouvindo o silêncio de quem tem o poder de decisão pode até ser desesperador, mas te garanto: não enlouquecedor.

Cada vez que se lembrar do motivo de sua ansiedade, respire, tome água, faça um chá.

Pense em outra coisa e espere.

Não há silêncio que dure para sempre, não há espera que seja eterna.

Um dia, exatamente naquele dia em que não há qualquer expectativa, o silêncio termina e você ouve todas as respostas que sempre desejou.

“Um dia? Mas quando?”

Não se sabe.

Todos, em algum momento, simplesmente não ouviram nada.

Chegou a sua vez.

Relaxe e curta o silêncio, pois até ele tem seus encantos.

Não pergunte quando ele findará, apenas acredite que um dia acabará.

Pois ele sempre tem fim.

 


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