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E muitos resolveram que em suas mãos seria um bom lugar para depositarem suas esperanças.

 

Nada mais agradável do que escutar exatamente o que se quer.

E Ele sabia falar o que muitos queriam ouvir.

Com desenvoltura, alegria, vocabulário fácil e envolvente, conseguia fazer com que muitos parassem e prestassem atenção a suas ideias.

Logo percebeu que as pessoas gostavam do que dizia.

Onde quisesse falar, havia sempre alguém disposto a ouvir.

Conforme isso foi acontecendo, Ele começou a se acostumar com a situação.

A gostar dela.

Alguns discordavam, claro, mas, quando isso acontecia, com habilidade e apoio dos que estavam a sua volta, conseguia convencer o outro de que, sim, estava certo.

Ou então, quando não era convencida, a pessoa era discretamente eliminada do grupo.

Colocada em um canto, rapidamente esquecida.

Com o passar do tempo, o número daqueles que apoiavam o que dizia foi aumentando consideravelmente.

Foi aí que Ele teve uma ideia:

“Posso ser o representante de vocês, posso ser a voz de cada um junto a esses que nos fazem sofrer.”

As pessoas gostaram.

Acharam que seriam muito bem representadas por Ele.

Com o tempo, muitos outros ficaram sabendo que aqueles que Ele representava conseguiam ser ouvidos, atendidos.

– Você não pode privilegiar só esses. Venha nos representar também!

E Ele foi.

Cada dia, conseguia atingir mais e mais pessoas.

Passou a frequentar os meios onde se fazia ouvir, entender, atender.

Ficou ainda mais conhecido e, a cada dia que passava, outros, maiores e mais diversos grupos  queriam que, sim, que Ele fosse seu líder, seu representante.

Passaram a acreditar que, sim, com Ele sendo visto e ouvido, tudo seria diferente, seria melhor, mais feliz.

E foram.

Apoiando, acreditando, lutando para que, enfim, Ele se tornasse representante de todos, da maioria.

Os discursos tornaram-se mais acalorados a cada dia e, por eles, as pessoas iam deixando de lado a resistência, acreditando cada dia mais.

Fazer com que alguém acredite em suas ideias é uma grande responsabilidade.

Ao acreditar, a pessoa deposita em quem acredita o mais precioso dos seus sentimentos: a esperança.

A esperança é, sim, tudo de mais puro, mais sagrado, que alguém pode ter.

E Ele conseguiu, com suas palavras envolventes, convencer milhares, milhões de pessoas e fazer com que eles depositassem nele sua esperança.

Dava gosto ver o rosto dessas pessoas n o dia que enfim Ele chegou aonde queria.

Aonde Ele queria chegar, onde elas queriam que Ele estivesse.

Seus olhos brilhavam, lágrimas, alegria, confiança, a mais pura e genuína esperança por dias melhores.

Reuniram-se em um só lugar as que conseguiram estar ali para o verem assumir o posto onde “há muito já deveria estar.”

Os que não conseguiram viram de suas casas, das praças, assistiram pelo mundo a chegada ao poder de quem os representaria enfim.

A lua de mel começou e tudo parecia transcorrer às mil maravilhas.

Dias melhores certamente estavam chegando.

Ele foi fazendo, trabalhando e se embolando.

O tempo passou e, lentamente, o lugar onde deveria estar os pés foi sendo ocupado pelas mãos.

Algumas pessoas começaram a achar que o mel estava se tornando menos doce.

Lenta ou rapidamente foram deixando a ideia de lado, assumindo a decepção que haviam sofrido.

A esperança foi perdendo lugar para a desconfiança e o medo ocupando lugares nunca antes visitados.

Até que chegou o dia em que Ele, que fora a esperança de mudança de milhões, foi colocado em uma sala.

Sozinho.

Sem aplausos, sem holofotes, sem microfones.

Sozinho em uma sala, foi colocado para pensar no que fizera com a esperança dos que um dia nele confiaram.
 

A graça que a incerteza tem.

 

Ai que vontade de saber o que vai acontecer daqui a pouco…

– Daqui quanto tempo?

Daqui cinco dias, cinco semanas, cinco meses, cinco anos, cinco décadas…

– Por que o cinco?

Modo de dizer. É um tanto de tempo. A gente sempre fala que não sabe o que vai acontecer daqui a cinco minutos. Por isso.

– Mas saber o que vai acontecer antes de chegar a hora, é isso?

Isso.

– Pra quê? Por quê?

Ué, eu tenho vontade.

-Você gosta de festa?

Gosto!

– Muito ou pouco?

Muito!

– Nas suas festas, nas que você organiza, faz  do que você mais gosta?

Ah… do frio na barriga, de pensar quem vai aceitar ao convite, se a decoração, o cardápio, a música vão agradar…

– Ué, o que te deixa feliz, expectante é exatamente o que você não sabe. Você escutou o que acaba de falar?

Claro que não é isso! Gosto de saber das coisas.

– Gosta nada!  Você gosta de não saber quem vai separar um tempo para ir a sua festa, gosta de não saber se vai ou não vai agradar com cada detalhe que preparou. Você gosta da incerteza.

Claro que não gosto disso.

– Não saber o que vai acontecer é o que faz o coração acelerar. A incerteza é que faz com que você se esforce, trabalhe mais, gaste mais. Simplesmente ignorar tudo sobre aprovação dos convidados e mesmo se você vai ou não gostar, que faz toda a diferença. Garanto, não saber o que vai acontecer daqui  cinco minutos que é o bom da coisa.

-Será?

Certeza.

– Por quê?

Se você soubesse que a Amiguinha não iria mandaria um convite pra ela?

– Claro que não!

Não mandaria e ia perder a chance de saber que a moça que você jura que é sua amiga na verdade não está nem aí pra você.

– É mesmo…

E assim é com tudo na vida, menina. Não saber o que vai acontecer daqui a cinco minutos te dá  chance de procurar viver bem, viver feliz com boas expectativas, esperanças renovadas a cada instante. Caso tivesse certeza de tudo, saberia o que daria certo, errado, o que não vale a pena nem tentar… Ia ser bom de um lado, mas só de um lado bem pequenininho.

– Tá bom. Estou convencida de que a incerteza e o efeito surpresa é a melhor coisa. Então deixa eu me dedicar para isso que estou fazendo agora porque, hoje, bem aqui, acredito que isso vai dar certo e, como não sei se vai mesmo dar ou não, é melhor eu me dedicar…

Boa garota!

 

Algumas vezes se faz necessário alinhar a rota para continuar.

 

No dia 26.12.2017 Ela planejou que o ano de 2018 seria dividido em trimestres.

Planejou, contou para alguns amigos e juntos montaram um grupo de apoio: Um ano em um trimestre.

No grupo, cada um tinha e era o Anjo de alguém.

O Anjo era aquele que motivava e ajudava  o “protegido” a não perder de vista o objetivo, a manter o foco.

Os primeiros 15 dias do ano foram magníficos: mensagens de incentivos iam e vinham, as tarefas traçadas eram realizadas dia a dia e parecia que ia dar certo.

E Ela, todos os dias pela manhã se lembrava de que seus objetivos eram chapar a barriga, aprender de fato a língua portuguesa e decorar os taquigramas do método Oscar Leite Alves.

Levantava pensando nisso e, todas as noites, antes de dormir, reforçava o objetivo, além de planejar direitinho a que hora faria as atividades relacionadas a cada um deles no dia seguinte.

Acontece que, numa noite, Ela deitou tão cansada que nem se lembrou do “trio calafrio”, só deitou e apagou.

Quando acordou no outro dia, atrasada, levantou-se correndo e começou a vida, sem nem parar para pensar neles.

Foi vivendo atropeladamente e, pela primeira vez em 15 dias, não fez nada que a ajudasse a chegar mais perto de seu objetivo.

Quando foi dormir, estava tão cansada…

Um dia, Ela se encontrou com seu Anjo. Por puro acaso, se esbarraram em um shopping:

“Oi, Amiga. Nossa que sorvete lindo! Mas e o projeto da barriga sarada?”

A colher que estava no ar indo em direção à boca parou.

Ela ficou visivelmente desconcertada, olhou para os lados e, depois de pensar alguns segundos sobreo que responder, disparou:

– Estou na TPM, tô merecendo um pouco de glicose. Amanhã eu malho isso.

Seu Anjo sorriu sem gracinha também:

“Então tudo bem. Estou indo nessa.”

Foi embora.

Ela ficou ali, afogando-se no sorvete e fazendo as contas, lembrando quantos dias já estava sem fazer absolutamente nada do que havia planejado.

Enquanto pensava chegou uma mensagem no grupo:

Bonitinha, cheia de florezinhas e passarinhos dizia assim;

“Enquanto você continuar fazendo tudo igual, não terá resultado diferente.”

Abandonou as duas últimas colheradas de sorvete.

Àquela noite Ela foi à academia, estudou uma hora de Português, aprendeu 10 novos taquigramas.

Foi dormir mais tranquila.

Dormiu pensando em seus objetivos e teve um dia produtivo para alcançá-los.

Na semana seguinte, tudo foi às mil maravilhas.

Mas, no domingo, foi a um churrasco e saiu à noite com alguns amigos.

Chegou tão cansada que capotou sem pensar em nada.

Quando chegou a sexta-feira, se deu conta de que não fizera nada sobre nada.

E, assim, esquecendo e lembrando, quando Ela se deu conta, o mês de março estava terminando.

Engraçado a passagem do tempo.

Ele vai caladinho e feito mineirinho, sem fazer qualquer alarde, segue seu rumo sem nem querer saber se você está caminhando ou parado à beira do caminho.

E, desse jeito quietinho, quando Ela se deu conta, faltava uma semana para março acabar e sua barriga havia crescido e seus conhecimentos sobre Português e taquigrafia não haviam acompanhado o mesmo ritmo.

Foi um susto.

Ela correu no grupo, fez uma enquete rápida e descobriu que, das cinco duplas formadas, apenas uma estava chegando ao fim do trimestre alcançando seus objetivos.

“Contem para mim como vocês conseguiram?”

Eles foram contando, contando e, ao fim, Ela descobriu que, para conseguirem inserir as novas atividades à rotina, o segredo era pensar em cada um dos detalhes do dia seguinte antes de dormir e, no outro dia, antes de fazer qualquer coisa, realizar as atividades relacionadas aos propósitos a serem alcançados.

Foi aí que Ela parou para olhar para si mesma e convidou seu Anjo para uma conversa.

Depois de confessar seus “pecados”, relatar seus planos, escutou:

E quanto à história de “Um ano em um trimestre”?

“Descobri que, para mim, não dá certo.”

– Por quê?

“É muito tempo. Um trimestre é muito tempo pra mim, eu me perco. O meu negócio tem que ser dia a dia, no máximo, semana a semana.”

– Vai tentar de novo?

“Claro! Vou sim.”

E foi desse jeito que Ela revelou como seria seu novo formato, afinal havia definido uma rotina, acreditava que seria mais fácil.

– Já sabe o que vai fazer de diferente?

“Sei sim.”

– Pode contar?

“Posso! Vou deixar tudo arrumado na noite anterior e, quando  amanhecer, não importa o que eu tenha de fazer nem o quanto de preguiça toma conta de mim, as primeiras atividades do dia serão as que dizem respeito ao meu objetivo.”

– Os objetivos mudaram?

“Alguns.”

– Pode me contar?

“Hoje não, mês que vem.”

E foi assim que Ela, em vez de se render mais uma vez à auto sabotagem, fez um alinhamento de rota e continuou.

Parece que mês que vem volta para contar o que aconteceu.

 

 

 

 

Quando o sonho muda de rumo a gente senta e ch0ra.

 

Já chorou descontroladamente?

Aquele choro dolorido e triste que vem lá do fundo do coração e vai saindo sem pedir licença?

O choro que dá a sensação de abandono, desamparo…

Ela chegou a casa, bateu a porta com todas as forças que possuía, sentou-se no chão e chorou.

Não foi aquele choro que começa discreto e vai crescendo não.

Seu choro já nasceu adulto, alto, forte.

Sentada ali, encostada na porta da sala, Ela chorou como há muito não chorava.

Ela, que era a irmã mais velha de uma família com cinco meninos, aprendera desde cedo que choro era coisa de menininha.

Cada vez que escutava alguém dizer a um de seus irmãos:

“Não chore! Homem não chora. Deixe essas lágrimas para serem derramadas por sua irmãzinha.”, ela ficava brava e chorava menos.

– Como assim, deixe as lágrimas para a irmãzinha? Por que sou menina tenho de viver chorando? Quem falou? Pois eu não sou chorona, eu sou brava!

Por fim, em sua cabeça, foi ficando a ideia de que chorar era coisa para meninas bobas, não para ela.

Como não era uma menina boba, simplesmente não chorava.

Cada vez que tinha alguma necessidade de choro durante a infância e adolescência, fazia sua cara mais brava, falava, discutia, engolia se fosse o caso e seguia em frente.

No fim, já estava profissional na arte de engolir o choro.

Assim, Ela foi passando por tudo e todos na vida.

Cada vez com menos lágrimas, cada vez mais “brava”.

Ela acompanhara a gravidez da Amiga desde aquele primeiro zap:

“Amiga, estou grávida!”

A brava, que ainda não era mãe, sabia do desejo que a Amiga sempre tivera de ter filhos.

Desde a infância, fora mãezinha de bonecas, cachorrinhos, ursinhos encardidos  e a todos, sem distinção, tratava com carinho.

Agora, enfim chegara a hora em que o sonho se tornava realidade: ela estava recheada de amor, ia ser mãe.

A felicidade que sentia pela realização do sonho da Amiga era tão grande que não dava nem para contar.

Saiu de onde estava correndo, comprou o menor sapatinho que encontrou e foi beijar a barriga da “buchudinha”.

Daquele dia em diante, passou a ligar para ela todos os dias, perguntar seus desejos, fazer comidinhas especiais, levar mimos:

“Criatura, com tanta comida que você me traz, vou acabar virando uma bola. Tem gente aqui dentro comendo comigo, mas só mais uma boca, não precisa de tanta comida não!”

Ela logo colocava a mãezinha em construção no lugar dela:

– Essa menina tem que saber que, quando a tia aqui chega, tudo vira festa e, em festa, tem comida gostosa. Só estou ensinando minha sobrinha.

A Amiga começava a rir:

“Quem te disse que é menina?”

– Eu sinto!

E, assim, os meses foram passando: telefonemas quase a ponto de torrar o saco da mãe, visitas, adivinhações para tentar alguma coisa que parasse no estômago da enjoada, sapatinhos, roupinhas e mensagens de WhatsApp. Milhares, milhões delas.

E, um dia, o telefonema:

“Vou fazer a primeira ecografia, quer ir comigo?”

– Tá ficando louca? Claro que quero.

E lá foram as duas.

Todo mundo sabe que, na primeira ecografia, não dá para ver se a criaturinha é menino ou menininha, mas Ela não estava nem se importando, queria ver sua sobrinha nadando.

Foi toda serelepe.

Durante o exame, silêncio.

#É a primeira ecografia?

“É sim.”

Silêncio.

A médica ia e vinha com aquele negócio na barriga da grávida, muito séria, sem falar uma só palavra.

Até que lá pelas tantas, quando Ela já quase enfartando:

# Foi sua primeira tentativa?

“Primeira tentativa do quê, doutora?”

# Inseminação artificial?

A buchudinha arregalou os olhos:

“Teve nada artificial aqui não, moça, foi tudo natural mesmo.”

A médica olhou admirada para a mãe, abriu um largo sorriso:

# Sério? Que encanto! Você será mãe de três pessoinhas que estão graciosamente dividindo a mesma placenta!

O silêncio, agora, mais que absoluto.

Durou apenas alguns segundos.

Depois foi tanta gritaria, tanto escândalo das duas que até a médica entrou na festa.

Lá pelas tantas:

“Explica doutora, explica para gente, pelo amor de Deus, o que significa isso!”

# Você será mãe de três crianças do mesmo sexo e idênticas.

A mãe assustada:

“Meu Jesus do céu, que aventura! Tenho que avisar para o pai deles.”

Ela, que já estava empolgada com a história de ser tia de um, agora então, não cabia em si.

Saíram dali direto para o shopping:

– Preciso encontrar mais duas peças de tudo aquilo que já comprei. Pensei que era só um sobrinho, mas vou ganhar é três. Ai, meu Pai, que feliz.

A partir daquele momento, Ela falava para todo mundo que seria tia de três meninas.

“Eu não sei quem te disse que serão meninas.”

-Ninguém disse, eu sinto.

Chegou o dia de saber o sexo.

Da sala de exame a médica telefonou para outra amiga que não Ela para contar o sexo, a moça seria responsável pela organização do chá revelação.

#Pensei que seria sua amiga que veio aqui com você na primeira ecografia que faria o chá.

“Pode não, doutora. Se aqui não estiverem três meninas, a hora que eu olhasse pra ela saberia, a pobre não consegue disfarçar decepção.”

Elas riram.

Chegou o dia da festa e lá Ela ficou sabendo que seria tia sim, de três meninos.

A bichinha ficou murcha por trinta segundos e disparou:

– Eu senti triplamente errado. Tem problema não, minha gente, vou aprender a ser tia de menino para que, quando a Amiga tiver meninas,  eu esteja bem treinada.

E continuou feliz curtindo a gravidez da amiga.

Em vez de cor-de-rosa, seus sonhos de tia passaram a ser azuis, só isso mudou.

Com o passar do tempo, o avanço da gestação, os desafios foram aparecendo.

Vieram  a internação e a sentença:

# Mãezinha, eles estão querendo nascer antes da hora. É preciso ficar internada, pernas pra cima, sem levantar nem para banho para a gente segurar esses rapazinhos no forninho até a hora certa.

Ela praticamente mudou-se com a amiga para o hospital.

Revezava com o pai dos meninos o tempo todo.

Tornou-se profissional em carregamento de comadre, em distração de grávida acamada, animadora de gestante.

Sofria a cada visita médica e exame detalhado em que descobria que o colo do útero estava se abrindo e não havia mais o que pudesse ser feito.

Todas as providências foram tomadas, todos os recursos utilizados, mas, por mais que a Amiga estivesse quase de cabeça para baixo para tentar fazer com que os bebês ficassem ali, não teve jeito, eles nasceram com 23 semanas de gestação.

Dois ainda não estavam completamente formados.

Esses não conseguiram.

Eram muito pequenos, frágeis demais.

E Ela, sentada ali no chão da sala, chorando desesperadamente, se perguntava o porquê de tudo.

Não havia o que fazer, era só chorar.

A Amiga, que estava muito mais sofrida que ela, ficara no hospital se recuperando do parto, e Ela fugira para chorar.

Ficou ali por horas, chorando alto, jogando fora toda sua frustração e dor.

Lá pelas tantas, se lembrou:

– Dois se foram, mas ainda tem um pequenininho lutando pela vida na incubadora. E minha amiga? Ela precisa de mim!

Foi até um espelho, olhou para si e deu uma bronca:

– Pare de chorar! Muitas coisas incríveis ainda estão por vir. Tome um banho e volte pra lá agora, esqueceu que você é brava?

Ajuntou a si mesma, fez do seu ombro o mais forte dos lugares e voltou para junto de sua Amiga, que precisava dela mais que nunca.

 

Será? Será? Vai explodir, vai dar errado. Melhor não confiar.

 

Ela tinha mania de dizer que não acreditava em nada nem em ninguém.

Falava para quem quisesse ouvir que não tinha motivo para acreditar nas pessoas, não tinha como ter fé em nada.

Era feliz assim e ponto.

Na hora do aperto era mais difícil se virar, afinal fora uma opção que a fizera não acreditar, então, não tinha a quem procurar.

Mas isso fazia falta apenas por alguns segundos, depois, Ela dava seu jeito e seguia em frente.

Até que, num dia, acordou cedinho para ir trabalhar e, enquanto esperava o elevador, pensou:

“Será que alguém já andou nesse troço hoje? Tinha uma equipe fazendo manutenção nele aqui ontem, e se alguém resolveu sabotar os cabos? E se, quando eu entrar e começar a descer, ele despencar. Acho melhor não confiar.”

Desceu dez andares de escada.

Entrou em seu carro e achou que algo havia acontecido ali:

“Será que alguém entrou nesse carro durante a noite? Vi umas pessoas estranhas na garagem ontem. E se colocaram alguma coisa nele e, a hora que eu ligar, der um pipoco? Acho melhor não confiar.”

Saiu da garagem pensando como chegaria ao trabalho.

Não tinha outro carro para dirigir.

Ir de UBER, táxi ou ônibus ia requerer que tivesse confiança nos motoristas, achou melhor não confiar. Foi a pé.

Chegou ao trabalho atrasada, suada e já cansada.

Parou em frente ao elevador e lembrou-se da primeira desconfiança que tivera no dia.

Subiu, de escada, 15 andares.

Chegando lá em cima, parou exausta em frente ao bebedouro.

Olhou em volta, observou os copos, o próprio bebedouro e preferiu não confiar.

Começou a trabalhar com sede mesmo.

Quando foi ligar o computador, lembrou-se de que vira o rapaz da manutenção trabalhando em sua máquina no fim da última tarde.

Não teve coragem de ligá-la.

Foi adiantar uns relatórios à mão mesmo.

Lembrou-se de que não havia tomado café.

Só pensar em descer e depois subir 15 andares pelas escadas a fez esquecer a fome.

Quando a hora do almoço chegou, estava já desfalecendo.

Desceu correndo os 15 andares e foi caminhando para o shopping mais próximo.

Para que pudesse chegar tinha de atravessar uma avenida super  movimentada.

Foi até o semáforo e ficou esperando que ele se tornasse verde para os pedestres.

Enquanto esperava pensava:

“E se, justo na hora em que eu estiver passando, um carro arrancar e me atropelar? E se aqui na primeira fileira de carros estiver parado um psicopata só querendo que eu comece a travessia para me matar?”

Nessa altura do pensamento, o sinal ficou aberto para os pedestres.

Ali não havia o que fazer: ou Ela atravessava naquele momento ou teria que correr em meio aos carros em movimento.

Algumas pessoas já haviam passando em frente de todos os carros, Ela resolveu se arriscar: contou até três e atravessou correndo.

Ao chegar ao outro lado, suas pernas tremiam e as mãos suavam.

Tentou se acalmar enquanto se dirigia à praça de alimentação.

Para chegar lá, precisava ir até ao terceiro andar do prédio.

Já decidira: não podia confiar em elevador, muito menos em escadas rolantes.

Subiu os três andares.

Lá chegando, começou a procurar um lugar para comer.

Andou por todos os lugares, olhando atentamente cada um dos restaurantes:

“Como será que essas verduras foram lavadas? Qual a procedência dessa carne? E o estado das panelas em que essas comidas foram preparadas? Qual será?”

Fez indagações como essas na frente de cada um dos restaurantes.

Foi com a cara de um e lá pediu um suco de laranja.

Não sem antes conferir disfarçadamente se o espremedor estava mesmo limpo, se a atendente lavara as mãos, se poderia tomar seu suco em copo descartável.

“Como pude esquecer minha marmita? Não tenho como confiar nessas comidas de restaurante.”

Bebeu dois copos de suco.

Desceu os três andares de escada.

Fez o mesmo ritual para atravessar a avenida movimentada.

Subiu os 15 andares até o escritório. De escada, que fique claro.

Continuo seu trabalho manualmente mesmo.

O expediente acabou e, antes de sair, foi ao banheiro.

Ao lavar as mãos viu que tinha calos em um dos dedos da mão direita: ele fora adquirido ao longo do dia, enquanto escrevia vorazmente seus relatórios.

Desceu 15 andares.

Caminhou três quilômetros até chegar a casa.

Lá chegando, subiu 10 andares.

Resolveu que, naquele dia, não ligaria o fogão; ele podia explodir.

Não tomaria banho quente, poderia morrer eletrocutada enquanto estivesse ensaboada.

Não comeria nenhuma das coisas industrializadas que estivessem em sua geladeira: poderiam ter vindo envenenadas de fábrica.

Fez mais de um litro de suco de laranja e bebeu.

Ao se deitar estava exausta.

Foi quando pensou:

“Sempre me gabei de nunca confiar em nada nem em ninguém, mas acho que estou passando dos limites. Estou aqui morrendo de tanto cansaço por ter subido e descido escadas o dia inteiro. Meus colegas e vizinhos subiram e desceram de elevador e ninguém voou pelos ares. Andei nem sei quantos quilômetros por não confiar nos motoristas de transporte público e por ter medo de ligar meu próprio carro. Os jornais não falaram de um só acidente de carro nessa região, nem explosões de carros na garagem. Passei fome o dia inteiro com medo de ser envenenada. Se alguém tivesse sido envenenado naquele shopping, todo mundo já estaria sabendo. Não liguei meu computador com medo que ele explodisse. Ninguém lá no trabalho teve qualquer explosão ao longo do dia. Fiz toda essa marmota “por não confiar em ninguém.” Ganhei o que com isso mesmo?”

Nessa altura da reflexão, Ela sentou-se na cama.

Levou às mãos à cabeça e declarou em alto e bom som:

“Pois, a partir desse momento, eu acredito, tenho fé e confiança em tudo e todos. Começando com o Todo Poderoso a que eu posso clamar sem pudor na hora do aperto. Confio agora no técnico do elevador, motorista de transporte público, cozinheiros e todos os prestadores de serviço que me cercam e, se r qualquer perrengue acontecer ,eu olho para o céu e peço socorro. Essa história de ser incrédula e desconfiada vai acabar me matando.”

Aproveitou seu momento de sinceridade e olhando para o céu agradeceu:

“Obrigada Senhor pelo dia. A partir de agora, confio em Ti.”

Deitou rapidinho e dormiu tranquilamente.

 

 

E justo agora quando o mundo inteiro cheira a chocolate Ela resolve ficar sem doce.

 

Ela acordou cedo e ficou quietinha na cama como se ainda estivesse dormindo.

No almoço de família no meio da tarde, na festa com as amigas à noite e em tudo que comera.

Lembrou-se de quantas vezes repetira o almoço e de quantos pedaços de torta fora feita a sua sobremesa.

E na festa à noite?

Foram tantos pães de queijo, coxinhas e doces que não dá nem pra contar. Também, aqueles doces estavam tão lindos e com a cara tão irresistível, tão deliciosos…

Comera que se lambera.

Mas agora, ao se lembrar, deu uma vergonha que ela chega se encolheu.

“Estou comendo como um javali desenfreado, meu Pai. Preciso me controlar.”

Sentou na cama

Coçou a cabeça.

Espreguiçou.

“Será que javali come muito? Vai ver estou acusando o moço de um pecado que ele nem comete.”

Levantou na velocidade de um bicho preguiça sonolento e se arrastou até o banheiro.

Enquanto reinava, começou a assistir ao vídeo de um canal que seguia.

Lá, um casal contava, de maneira bem humorada e saltitante, que estava sem consumir açúcar há alguns meses e estava sentindo uma diferença absurda: disposição, criatividade, ânimo…, tudo tinha melhorado.

Além de terem perdido medidas, claro.

Lembrou-se dos dias que ficara sem todas as iguarias adocicadas e como realmente o peso diminuíra. Não vira todas aquelas vantagens que o povo do “Cadê a chave” falara no vídeo não, mas o peso diminuíra.

“Disso que preciso! Preciso ficar sem açúcar!”

Antes de pensar direito, falou bem alto para quem quisesse ouvir:

“Vou ficar sem comer açúcar por um tempo!”

Quando acabou de ouvir as próprias palavras, se lembrou dos milhares de chocolates que vira nas lojas:

“Misericórdia, minha gente, e a páscoa?”

O arrependimento tomou conta do coração de maneira imediata.

Enquanto ouvia as palavras de apoio que vinham de toda a casa por sua decisão, ela ia se arrependendo, se arrependendo…

“Posso muito bem gritar aqui que vou começar essa abstinência depois da Páscoa, ninguém vai me condenar por isso.”

Mas aí vem a consciência pequenininha e perturbadora, dando voz, ação e coração ao conflito interno:

– Mas você já falou pra todo mundo que vai começar a partir de hoje. Não tem palavra não, é?

Ela, toda contrariada e já se lembrando dos relatos da Nilce sobre como foi difícil a crise de abstinência do açúcar:

“Ai, meu Pai! Todo mundo comendo chocolate durante dias em todos os lugares e eu olhando? Como vou resistir?”

– Pense bem, criatura. Enquanto todo mundo estiver queimando as calorias ganhas na páscoa, você vai estar à frente: queimando só as que já estão aí, não vai ter nada de novo.

Ela, em um muxoxo de fazer pena, tentou contestar de todas as maneiras, mas foi derrotada em cada um dos seus argumentos:

“É verdade, né? Vou embarcar nessa então.”

E aquela vozinha, que na verdade era sua aliada, disparou para finalizar:

– Cada vez que você sentir vontade de comer alguma coisa engordativa, qualquer coisa, doce ou salgada, pense assim: valem a pena as calorias que vou ganhar com isso? Certamente, não valem, aí você se arrepende antes de comer.

A indignação tomou conta de quem ainda nem havia se levantado do trono para começar a dieta:

“Como assim? Eu disse que vou parar de comer AÇÚCAR agora e você já quer que eu coloque na berlinda todas as coisas que for comer? Poupe a minha pessoa. Tenha dó.”

E quem só estava tentando ajudar:

– Não está mais aqui quem falou.

Ela terminou o reinado e foi embora para começar a vida sem açúcar.

 

 

Olha só o resultado por se esforçar menos!

 

Ao lado da escada que faz com que se suba sem qualquer esforço, está a imóvel.

A primeira, com seu ritmo próprio, faz com que aquele que dela se serve chegue lá em cima ou cá embaixo no ritmo que foi programada.

Não há como acelerar ou diminuir o esforço da máquina.

Ela segue em ritmo pré-determinado.

Quem a usa não quer suar ou fazer esforço, quer simplesmente chegar sem que o coração acelere.

Em nome disso, entrega à máquina seu poder de escolha da velocidade, deixa que ela decida.

E sobe no primeiro degrau que surge à sua frente e, assim, desliza confortavelmente rumo ao seu destino.

Gasta o tempo que a máquina estava programada para gastar.

Só então, quando é expulso da escada, reassume o andamento da própria vida.

Segue novamente em velocidade particular.

“Estou precisando tanto emagrecer. Acontece que não tenho tempo de fazer exercícios.”

– Por que não abandona a escada rolante e o elevador?

O fora de forma em questão arregala os olhos:

“Mas aí vou suar, ficar cansado, chegar aos lugares pingando.”

– Mas aí você vai emagrecer. Não há outro jeito de perder peso, a não ser suando.

Ficou pensativo.

Continuou frequentando a escada que rola e o elevador.

Não é fácil mesmo abandonar aqueles que fazem o serviço pela gente.

Afinal, eles são mágicos!

Na primeira não é preciso apertar nada, esperar nada. É só subir e ficar olhando em volta, ela faz tudo.

No segundo, basta apertar um botão e esperar.

Como por um passe de mágicas, abre-se uma porta.

Lá no fundo, um espelho onde se pode observar a própria silhueta.

Escolhe-se o andar que deseja ir e as portas se fecham.

A caixa espelhada vai até o destino escolhido em questão de segundos.

Por que motivo, razão ou circunstância deixar de andar nessa “caixa mágica” que te conduz até lá em cima no último e mais alto dos andares ou até o último subsolo onde moram somente as máquinas, sem qualquer esforço?

Para que ficar procurando as escadas escondidas atrás de portas corta fogo?

Para que subir carregada de coisas se a caixa mágica leva e traz tudo sem nada dizer?

Não tenho como negar, poder dar o controle do meu tempo à escada que vai em seu próprio ritmo e subir e descer ao bel- prazer da caixa mágica é algo extremamente tentador.

E se a maioria o faz, por que eu também não posso fazê-lo?

– Pode sim.

“Posso?”

– Pode.

“Só não pode reclamar.”

– Do quê?

“De não ter tempo de fazer exercícios. Afinal, cada vez que entra na “caixa mágica” ou na escada que sobe sozinha, está deixando uma série de exercícios pra depois.”

-Verdade…

Disse distraidamente enquanto entrava no elevador.

 

 

 

Ele estava sofrendo muito quando se deparou com a rotina do sol…

 

E Ele ouviu tudo no mais absoluto silêncio.

Já havia discutido sobre aquilo muitas vezes, usado todos os seus argumentos, achado ruim, brigado, xingado.

Cansara.

Agora, só o silêncio.

“Terminou?”

-Terminei.

Escutou o último grito.

Saiu da sala sem fazer barulho.

Sentia-se extremamente infeliz e injustiçado.

Seu corpo doía.

Cada pedacinho, como se por cima dele tivesse passado um rolo compressor.

Não queria que tudo terminasse assim.

Havia começado de um jeito tão encantador…

Mesmo sem aceitar o fim resolveu ir embora.

Não dava mais.

Ele dizia a verdade.

Ela não acreditava.

Ele não tinha como provar.

Ela só escutava a própria voz.

Pegou algumas coisas, arrastou-se até o carro, saiu sem rumo.

Rodou, rodou, rodou até encontrar a solidão.

Parou.

O sol ia embora silenciosamente.

Ele desceu do carro e sentou-se para observar.

Quando se deu conta, estava sozinho na mais profunda escuridão.

Pensou em voltar e tentar se explicar novamente.

Desistiu.

Entrou no carro e foi procurar um lugar para passar a noite.

Ao encontrar, não se deu o trabalho de acender as luzes.

Ficou parado olhando a escuridão.

Viu os astros passarem pelo céu e a noite terminar.

Silenciosamente, como fora, o sol voltou.

Encontrou-o com a mesma roupa, sem comer, arrasado do mesmo jeito.

Ao ver a manhã já indo longe, Ele se lembrou de que, no meio da madrugada, a escuridão fora terrível.

De que, a certa altura, tivera a impressão de que até mesmo as estrelas tinham indo descansar.

Mas de que o sol, mesmo assim, voltara a brilhar.

Foi quando Ele resolveu se levantar, precisava sair daquela situação.

Ficar parado, chorando e sentindo-se injustiçado não mudaria nada em sua vida.

Tomou um banho.

Comeu.

E saiu.

Para onde?

Não sabia.

Fazer o quê?

Não tinha ideia.

Mas saiu.

Já se encolhera, era hora de se esticar!

 

 

 

Tratar-se bem, algumas vezes é a mais difícil das missões

 

Algumas vezes, escolhemos ter misericórdia com aqueles que nos cercam.

Compreendemos os erros das pessoas, perdoamos, aceitamos, acolhemos e continuamos.

Mantemos a amizade, o convívio.

E acredito sinceramente que isso é o certo a fazer.

Exercer misericórdia com aqueles que nos cercam é algo extremamente razoável e de bom tom.

Melhora o convívio, traz harmonia, paz.

Parabéns a você que consegue assim fazê-lo.

Algumas vezes, tratamos quem nos olha no espelho todas as manhãs com tanta crueldade.

Não temos carinho nem delicadeza ao nos depararmos com os nossos próprios erros.

Chegamos de sola falando mal, flagelando, fazendo sofrer.

Não temos qualquer misericórdia quando nós mesmos cometemos os mesmos erros que perdoamos nos outros.

E passamos a conviver com a amargura do “desamor” ´próprio.

O perdão que não liberamos a nós mesmos e a crueldade com que nos tratamos fazem que sejamos espantalhos humanos andando desamparados.

Sim, desamparados, sem perdão.

Pois o mais precioso amparo que podemos ter na vida é aquele que encontramos dentro do nosso próprio coração e tratarmos a nós mesmos com carinho, amor e atenção.

Aproveite o hoje e perdoe-se, ame-se e volte a viver.

 

Ser alguém na vida de alguém é o melhor dos presentes. Pra quem o é.

 

Nada como ter para onde voltar.

Uma vez, li o relato de um garoto dizendo que, quando decidiu mudar-se de cidade, ouviu de seus pais que ele poderia ir tranquilo, caso alguma coisa desse errado e ele precisasse voltar, as portas estariam sempre abertas.

Ter para onde voltar abre as portas do mundo.

Dá a certeza de que pode bater assas, afinal, o ninho seguro estará sempre esperando você.

Ela tinha para onde voltar.

Sempre soube que tinha.

E começou indo cedo.

Começou dando uns passos pequenos e vacilantes.

Ia e voltava rapidinho.

Ficava um tempo, respirava, descansava e, quietinha, planejava ir mais longe, ficar mais tempo.

E lá ia Ela.

Mais longe, mais tempo.

Voltava feliz, contando mil e uma coisas: sabores, cheiros, texturas, pessoas.

Voltava e passava um tempo.

Quando menos se esperava, a mochila já estava novamente nas costas: mais longe, mais tempo.

Houve um ano em que passou mais tempo lá do que cá.

As coisas começaram a acontecer por onde ia.

Seu trabalho começou a ser reconhecido onde era apresentado.

Mesmo tendo para onde voltar, ficava mais tempo no mundo do que no seu porto seguro.

Precisava conquistar o mundo.

Tudo ia muito bem: as portas se abriam por onde passava, céu azul, pássaros cantando e, quando havia tempestade, sempre havia um teto seguro sobre sua cabeça, comida quente, calor  humano.

Mas, um dia, depois de muito tempo só de bonança, o céu ficou escuro  e começou a cair uma grande tempestade: em meio àquele temporal, Ela não tinha um teto, não tinha roupas quentes, abrigo ou comida.

Tudo parecia estar fora do lugar e Ela perdeu o chão.

Tudo, tudo, tudo mesmo, se fora como levado pelo vento: amigos, trabalho, reconhecimento, dinheiro…

Não havia mais onde colocar os pés, onde abrigar sua cabeça.

Ela não sabia nem mesmo como voltar ao porto que era seu.

Telefonou.

O tempo que passou pareceu uma eternidade.

Mas não foi, foram apenas horas.

Aqueles que faziam tudo ficar tranquilo não mandaram que desse um jeito e voltasse.

Não!

Eles foram até Ela.

“Como está você, Garota?”

Não perguntaram o que Ela fizera para estar daquele jeito.

Não perguntaram onde estavam seus amigos, o que Ela fizera com sua casa e com o dinheiro que ganhara.

Não recriminaram quando souberam que vendera o carro e o que fizera com o dinheiro.

Nada!

Apenas a abraçaram.

Abraçaram, beijaram e disseram:

“Quer voltar para casa com a gente?”

Ela pensou e, ainda chorando, lembrou-se do que a trouxera até ali:

– Eu não queria voltar assim, sem nada nas mãos.

“Então você quer recomeçar aqui mesmo?”

Ela deu o mais triste sorriso que alguém já vira em seu rosto:

– É isso! Quero recomeçar aqui.

Eles sorriram e a abraçaram:

“Então, pare de chorar e vamos começar de novo agora mesmo!”

E eles começaram.

Juntos.

Quando Ela já estava conseguindo andar sozinha, eles a beijaram e partiram.

E Ela se reergueu.

Passou rapidamente por onde estava e continuou crescendo.

E cresceu muito.

Ficou forte outra vez.

Reconquistou o que havia perdido.

Ganhou o que nunca tinha sonhado.

E um dia se pegou pensando que nada disso teria acontecido se não tivesse tido apoio.

Ficou tão agradecida e feliz que resolveu olhar para os lados:

– Alguém que está aqui perto de mim pode estar sofrendo, precisando de apoio para continuar. Foi tão bom ter onde me apoiar quando precisei.

E, naquele momento,Ela decidiu tornar-se o porto seguro de alguém.

Estava pensando aqui se você também não podia ser “a pessoa especial” na vida de alguém. Vai ver tem uma pessoas aí ao seu lado esperando uma palavra de apoio vinda de você para ter a vida transformada.

Quer tentar?

 

 

 

 


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