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“Vai, Lindinho!”

“Passa Lindinho, passa!”

“Criatura estranha, como você faz isso?”

“Não gente, não vaia não! Eles são pequenos, tadinhos, vão ficar tristes!”

“Criatura! Como você faz isso? Não tá vendo ali o coleguinha que podia receber a bola? Como você quer carregar sozinho até o gol. Bicho estranho!”

“Como é mesmo o nome daquele ali?”

“Cadê o Alan Patrick? Quem é ele? Assisti uma reportagem no domingo falando que ele é o cara. E ele tá aí jogando?”

Essa sou eu na minha primeira experiência em um estádio de futebol. Foi ontem a noite, Flamengo e Coritiba no Estádio Nacional aqui em Brasília.

Acho que todo mundo em volta sacou que eu nunca tinha entrado em um lugar nem parecido. Primeiro por que entrei olhando tudo com cara de encantada. Cara, é muito lindo! Gigantão assim, imponente. Quase 70 mil pessoas lá dentro querendo desesperadamente gols, gols!

Isso no começo, podia ser 1 x 0. Assim, isso não é resultado que se espera quando o time para o qual você vai torcer está no G4 e o adversário na zona de rebaixamento, mas ao menos isso.

E a torcida gritou e cantou. E eu lá no meio.

“Garoto estranho, vai! Pra frente moço.”

De repente o pênalti.

“Como assim, pênalti?”

E o gol.

“Caraca velho, gol?”

O povo se espanta. Ninguém esperava, né? Estádio lotado, o time vinha embalado de seis vitórias seguidas. Como assim um gol ainda no primeiro tempo?

“Bora menino, bora. É desse lado que faz gol, aqui ó, vem!”

Passou um tempo e gol.

“Poxa velho, de novo? Outro gol? Assim enfraquece a amizade. Eu venho aqui te ver, minha estreia em estádio e você deixa esses meninos fazerem dois gols ainda no primeiro tempo? Mas não faz mal, meu pai diz que 2 X 0 é um resultado muito perigoso. Vocês vão virar!”

E teve pulo e teve grito, e teve xingamento direcionado pra jogador, juiz, bandeirinha, campo, bola. Pra todo mundo. E eu ali batendo palma empolgada e falando: “Vai bonitinho, vai bonitinho.”

Se eu sabia quem era o bonitinho?

Sabia nada. Mas tava gritando: “Vai bonitinho, bora virar esse jogo.”

Mas assim, tinha hora que eu me via gritando sozinha. O povo que usava o “manto sagrado” ficou mudo e eu, tadinha de mim, a paisana, gritando e batendo palma:

“Vai menino, criatura estranha. O gol agora é para o outro lado.”

Tinha hora que eu ficava tímida, né? Só eu ali daquele lado gritando e o povo todo quieto. Ainda mais depois que olhei pra trás e vi que tinha uma moça me observando e rindo de mim! Mas não desisti não. Continuei no meu “Vai, bonitinho.”

Quando as pessoas começaram a levantar e abandonar o estádio, a partir do meio do segundo tempo, eu tentei intervir:

“Não vai embora, os meninos já estão perdendo se vocês forem embora eles ficam tristes. Fica, tá acabando.”

Mas não adiantou. A galera foi levantando e indo embora. Até os mais empolgados do começo da partida.

Teve gol né, e gente que ficou radiante, mas não consegui ver um satisfeito no meio da multidão.

Assim, tenho que confessar que eu esperava mais. O Mengão, né velho, vamos combinar a gente sempre espera show. Mas outra vez, não foi dessa vez aqui no cerrado.

Mesmo assim fiquei feliz, foi dessa vez que eu descobri os encantos de um estádio de futebol. To completamente apaixonada! É certo que eu e minha jequice sentimos falta de um narrador, da repetição do lance. Assim, coisas de gente que só assiste jogo pela televisão. Sabe como é, né? Será que eu queria que tivesse até o sofá de casa?

Não! Também não foi pra tanto. Eu sou jeca quando o assunto é futebol isso é fato. Tinha hora que o estádio inteiro gritava e eu não sabia o motivo. Eles escolheram um moço pra vaiar e eu não vi o menor sentido das vaias. E um monte de outras coisas que foram a maior novidade.

Sinto que preciso de um intensivo em relação aos meus conhecimentos futebolísticos.

A partir de hoje para ampliá-los necessito frequentar estádios, assim, pra aprender a sentir o clima, conhecer o comportamento e mostrar o “Vai bonitinho” pra galera.

Amei a ideia! kkkkk

Bianca.

– Boa noite, senhor.

– Boa noite. Tenho uma reserva para dois. Está em nome de Marcos Paulo. Você pode, por gentileza, guardar para mim? No momento indicado te peço e você leva até a mesa?

Ele entregou ao garçom um vaso pequenino com uma orquídea muito delicada.

– Claro. Me acompanhe por favor.

Eles atravessaram o salão enquanto o moço atrasado se ajeitava e tentava achar sua convidada. Deu tempo de arrumar os cabelos e tirar toda a poeira imaginário do paletó. Ele está totalmente alinhado quando chegam até a mesa onde Bianca já cansada espera.

– Olá Bianca. Me desculpe o atraso. Por favor, me desculpe. Tive uma reunião interminável. Quando consegui sair peguei um engarrafamento que não tinha explicação.

Enquanto se desculpa ele dá um beijo leve e displicente no rosto de Bianca, como se aquilo fosse uma atitude corriqueira.

“Ela está muito mais bonita que o normal. O perfume é maravilhoso e que decote!”

– Oi Marcos Paulo. Tudo bem. Eu já estava pensando em ir embora. Mas que bom você ter chegado.

“Misericórdia! Ele hoje está demais. Miserável, me fez esperar bem mais que eu gostaria, agora chega com essa desculpa esfarrapada e eu me derreto.”

– Me desculpe, Bianca. De verdade, me desculpe. Não costumo me atrasar, mas desta vez foi uma sucessão de contra tempos.

“Já desculpei criatura! Relaxa. Nem to mais lembrando que estou te esperando há quase uma hora.”

– Compreendo. Essas coisas acontecem.

“Ela sorriu e aceitou meu beijo. Acho que me redimi.”

– Muitíssimo obrigado. Prometo nunca mais deixá-la esperando. Mais uma vez, aceite minhas desculpas.

“Nunca mais me deixar esperando? Teremos mais encontros?”

– Claro. Por hoje passa. Mas se um dia acontecer de nos encontrarmos novamente, por favor, não se atrase. Detesto esperar.

“Ela quer sair comigo outras vezes! O atraso já foi esquecido!”

– Prometido. Palavra de honra.

“Ele prometeu! Ai meu Pai, me segura ou caio dessa nuvem!”

– Agora sim, podemos conversar.

“Certeza, fui perdoado!”

– Fiquei muito feliz por você ter aceitado meu convite.

“Como não aceitaria? Será que ele não se lembra como fez esse convite? Tinha como recusar?”

– Sério? Mas como poderia ser diferente? A maneira que você fez o convite o tornou irrecusável!

Ele sorriu, olhou em volta, chegou mais perto e sussurrou:

– Você gostou mesmo?

Ela colocou no rosto seu melhor sorriso e sem tentar disfarçar disparou:

– Foi encantador!

– Me conta: o que fez esse convite ser especialmente encantador?

Bianca sorriu, ajeitou o cabelo, a roupa…

– Assim, eu cheguei aqui tem mais de uma hora. Bebi um copo d’água enquanto te esperava e foi só. Será que tem como comermos enquanto conversamos?

“Não acredito que eu disse isso! Ai meu pai. Por que sou tão indiscreta, tão direta? Aaa Bianca! Você me paga. Vou te deixar uma semana com fome!”

– Minha querida! Estou tão distraído que me esqueci o que de fato viemos fazer aqui. Garçom!

O pedido foi feito. Chegou a entrada e enquanto esperavam o prato principal o assunto voltou:

– Me explica agora?

– Explicar… Aaa claro! O motivo pelo qual seu convite se tornou irresistível!

“Não posso deixar que ele pense que sou uma bocó empolgada. Tenho que contar tudo como se receber flores e convites pra jantar fossem as coisas mais naturais do mundo pra mim. Naturalidade. Naturalidade.”

– Então Marcos, você há de concordar que não é todo dia que se começa a receber flores assim do nada, aliás, flores não, orquídeas. Você recebe, fica feliz mas não faz ideia, não tem noção de onde elas estão surgindo. Você tem irmãs?

– Não. Não tenho irmãs. Por que?

– Porque se tivesse irmãs talvez entendesse com mais proximidade como funciona a cabeça de uma mulher quando está recebendo esses mimos de um desconhecido.

– Me conta! Como funciona?

– Aaa não! Hoje não. Nunca estivemos sentados pra conversar. Se eu te conto logo como funciona essa criatura aqui em especial é capaz de você sair correndo.

– Bianca, Bianca. Você não me conhece. Não sabe há quanto tempo tenho te observado. Com quantas pessoas tive que conversar durante meses pra poder chegar até aqui. Não é você me contando como funciona sua cabeça que vai me fazer sair correndo, tenha certeza disso.

“Ai meu pai! Desse jeito eu apaixono! Esse moço é demais e o tanto que está cheiroso?”

– Tá bom que você não vai sair correndo, mesmo assim não vou te contar! Só te digo que mimos são sempre muito bem vindos. Mas me conta você: Se conversou assim com tantas pessoas pra saber de mim não tinha olheiros lá no escritório?

– Claro que não, Bianca! Claro que não. Continue, continue. Qual o motivo que tornou o convite irresistível?

– Foram 15 orquídeas em 03 meses. Eu estava padecendo de curiosidade. Todos os homens que passavam por mim eram o Ministério Público do Amapá em potencial. Antes que você me pergunte, esse passou a ser seu codinome. Cada homem que sorria pra mim no elevador, que chegava ao escritório pra resolver alguma coisa, todos poderiam ser. No fim, eu já estava pensando em chamar o rapaz da floricultura pra jantar.

– Ministério Público do Amapá? Vou passar mal de rir. Como você é criativa! Mas o rapaz da floricultura é meu amigo, ele nunca iria aceitar o seu convite pra sair.

– Aaa pois ele estava sendo meu principal suspeito. Era sempre o mesmo menino. Bonitinho ele, sabia? Já existia uma banca de apostas e a cada nova orquídea era uma nova rodada de lances.

– Alguém ganhou?

– Acredita que ninguém acertou, menino?

– Quando você chegou aquele dia com aquela que foi a mais linda de todas as orquídeas e pediu pra falar comigo os apostadores todos ficaram desalentados. Ninguém imaginou que seria você.

– Por que não poderia ser eu?

– Claro que podia ser você, tanto que é, mas ninguém te conhecia pra poder apostar no seu nome.

– Ai você chega todo bonitão, perfumado e manda me chamar. Eu vou correndo como sempre, tirando a caneta do cabelo e quando dou de cara com você, escuto: “Bianca, muito prazer, eu sou o Marcos Paulo. Sou eu que te envio as orquídeas. Será que pode jantar comigo amanhã?” Eu quase desmontei. Foi por pouco que não caí ali na sua frente.

– E o que tem esse pedido de tão especial?

– Não sei. Olhando agora que to vendo que você não fez nada de mais né? Mas acho que foi a surpresa de saber que você era você.

–  Que isso, Bianca. Você nunca tinha me visto na banca de jornais na hora do café?

– Já tinha visto, mas nunca imaginei que pudesse.

A comida chegou, Bianca e Marcos jantaram tranquilamente. Se olharam, conversaram, confidenciaram segredos e descobertas, divertiram-se.

Quando estavam se preparando para ir embora Marcos fez um sinal para o garçom que trouxe um vaso com a mais delicada de todas as orquídeas e um cartão em branco. Sob o olhar admirado de Bianca ele escreveu o cartão, colocou no envelope e entregou a ela sorrindo.

Com um sorriso ela leu:

“Bianca, Seu olhar me encanta desde a primeira vez, aquela em que você me revelou falar sozinha. Adorei passar esses três meses tentando descobrir quem você é. Adorei te encantar com as orquídeas e cartões. Hoje adorei me encantar com seu sorriso e seu papo leve e gostoso. Obrigada pela noite maravilhosa. Meu desejo é renovar meu encanto pelo seu olhar  e seu sorriso todos os dias. Sim, isso é uma proposta.”

Bianca levantou os olhos e sorriu.

Nunca antes foi ouvido, no silêncio de um olhar, um sim tão melodioso.

–  A senhora deseja realizar o pedido agora?

–  Ainda não. Estou esperando um amigo para o jantar. Obrigada.

–  Deseja mais água?

–  Não,muito obrigada. Essa será suficiente.

–  Fique à vontade. Me chamo Osvaldo, estou à sua disposição. Com a sua licença.

–  Muito obrigada, Osvaldo.

“Ai Osvaldo, se você soubesse… Essa água é minha ampulheta. Já passa das 20h, o amigo em questão está atrasado 5 minutos, se a água acabar vou entender que ganhei um bolo.”

O trânsito naquele horário não deveria estar tão pesado. Passava das 20h e o caminho parecia ter-se alongado. Todos os sinais estavam vermelhos, todas as faixas tinham pedestres atravessando, aos milhares. Ambulâncias, carros dos bombeiros, tudo e todos que tinham preferência resolveram mover-se na mesma direção que  ele. Já estava atrasado e ninguém cooperava para que chegasse logo ao lugar do encontro.

“Vamos minha gente! A Bianca já deve estar me esperando. Bora meu povo, ajuda aí!”

Por mais que ele gritasse e esbravejasse o trânsito continuava irritantemente lento. Não aparecia nada nem ninguém que tirasse todos os carros de seus lugares e abrisse uma avenida sem qualquer obstáculos para que ele pudesse correr. Muito menos um super herói pra tirar o carro do chão e o estacionar na porta do restaurante.  Tudo permanecia na mais imperfeita lentidão.

“Se ela não estiver mais lá quando eu chegar nunca vou me perdoar por ter saído tarde do escritório! Maldita reunião interminável. Eu deveria ter saído no meio, largado tudo e ido direto pra casa. Espera Bianca, estou chegando.”

O sinal ficou vermelho mais uma vez sem que ele andasse sequer um metro.

” Lembro perfeitamente a primeira vez que a vi. Era meu primeiro dia após um período de seis meses no Canadá. Depois de trabalhar tanto tempo longe de casa  tudo que eu queria era retomar minha rotina e aproveitar o sol da minha terra.

Cheguei cedo e fui tomar café da manhã na banca de jornais da esquina, como sempre fizera. Enquanto bebia o mais delicioso suco de laranjas do mundo a vi sorrindo.

Ela estava comendo um pão de queijo como se fosse uma rara iguaria. Enquanto mastigava devagar lia a capa de uma revista de fofoca. Estava tão concentrada que por um instante pensei que lia um artigo científico ou algo que pudesse mudar o destino da humanidade.

Rapidamente consegui olhar tudo. Também, ela é desse tamanhinho, dá pra ver toda a moça com uma olhada instantânea. Cabelo curto e escuro. Seios pequenos, barriga lisa e bumbum empinado. Enquanto fazia a avaliação formal ela acabou de comer e começou a amassar o papel. Distraída pareceu ter lido algo muito interessante. Sorriu.

Enquanto eu admirava seu sorriso, ela começou a falar. Procurei algum fone ou algo que indicasse que ela estava falando ao celular. Rapidamente descobri que a moça estava falando sozinha. Me assustei. De louco basta eu. Já ia virando o rosto quando nossos olhares se encontraram.

Ela sorriu e disparou: ” Repara não, eu falo sozinha. O tempo todo.”

Antes que eu pudesse dizer qualquer coisa ela se virou e saiu rapidamente.

Fique ali parado imaginando quem seria aquela mulher que confessava tão naturalmente a um desconhecido falar sozinha o tempo todo.

Eu precisava descobrir.

Agora, depois de seis meses investigando, escrevendo cartões, mandando flores e tentando me fazer notar, finalmente eu iria descobrir quem era a Bianca.

Isso é, se eu conseguisse estacionar. Consegui chegar, agora só falta uma vaga pra deixar esse carro. Uma vaga!!!”

–  Pois não, senhora.

–  Osvaldo, to achando que meu amigo se perdeu no caminho. Quanto devo pela água?

–  Imagina. Não deve nada, senhora.

– Então muito obrigada por tamanha gentileza. Já vou indo.

– Senhora, com a sua licença, algumas das principais vias de acesso estão interditadas devido às reformas de ampliação, o cavalheiro que a senhora espera pode estar atrasado por esse motivo.

– É uma possibilidade. Vou terminar esse gelo derretido.

– Com a sua licença.

“Juro por todos os meus sapatos que se ele não chegar em 5 minutos eu vou embora!”

Nesse instante, a porta se abre.

A impressão que se tem é que ela ficará sentada enquanto houver gelo no copo. Uma mulher tão bonita não espera por muito tempo.

A reserva foi feita para às 20h.

Ela chegou 19h15.

Ansiosa a moça. Previdente talvez.

Dizem que o charme é fazer-se esperar. Acredito que para ela o melhor de tudo é começar, resolver.

“Acho que cheguei cedo demais! Marcamos às 20h, ainda são 19h17 e eu já estou aqui. Desespero sempre foi minha marca registrada. E se ele não vier?”

Talvez já estivesse aqui por perto quando marcaram o encontro aí resolveu vir logo. Será que ela anda assim tão bonita e perfumada normalmente?

“Não! Ele vem. Vem sim. Tenho certeza.

Desde que enviou flores a primeira vez tem sido sempre tão gentil e educado. Assim, é certo que demorou muito tempo para se revelar, mas quando isso aconteceu nunca se mostrou de outra maneira.

Flores…

Elas sempre me encantaram. Ainda mais quando chegam de forma misteriosa. Fico completamente deslumbrada. Isso passou a acontecer com frequência. Tanta, que  por fim, nesses últimos dias, todo o escritório já esperava que chegassem no fim da tarde.

E os cartões? Sempre lindos e com a misteriosa assinatura: MPA.

Eu já estava pra montar uma banca de apostas. Eram tantos os palpites de quem poderia ser o moço.

Até que um dia, acompanhando uma orquídea, veio um cartão que dizia: “Seus olhos me encantam todas as manhãs”

Pronto!

O moço que queria transformar o escritório, minha casa, o prédio inteiro em uma reserva ecológica se chamava Marcos Paulo. Nos cumprimentávamos  todos os dias na hora do café.

Quando descobri quem era o MPA, quase saí flutuando. Ele  era o cara mais cheiroso e bem vestido de todos! E parecia ser também o mais tímido.

Timidez é a única coisa que pode explicar um cara enviar flores 15  vezes pra uma criatura sem ao menos revelar o próprio nome. Juro, eu juro que já estava pensando em convidar o entregador pra sair.

Até que antes de ontem, parece que alguém contou a ele minhas intenções com o entregador, e o próprio moço foi ao escritório entregar as flores e me chamar pra jantar. Pensei que meu coração estava criando asas.

Prometo que te conto como tudo aconteceu, mas outra hora. Agora eu to tão nervosa esperando por ele que não vou conseguir. Depois me cobra que te conto com riqueza de detalhes.”

O copo d’água já está pela metade. Mesmo assim ela ainda não parece impaciente. Ao contrário da maioria das pessoas que esperam não está procurando algo no celular, não olha as horas a cada pouco. Parece curtir a espera como se tudo fizesse parte do encontro.

“E agora, depois de tanto mistério e investimento. É, investimento. Tenho uma coleção com 15 orquídeas dadas por ele, não acredito que depois de tudo isso vou ganhar um bolo.

20h.

Quando esse gelo derreter eu vou embora.”

Esse telefone não para de tocar.

Tudo que eu mais queria era poder terminar ao menos 100 da mil e uma coisas que tenho de fazer antes do sol nos dar tchau.

É simplesmente incrível, parece que todo o universo adivinha quando o chefe viaja e todos ao mesmo tempo resolvem entrar em contato. Todos por telefone. E ele também, o abençoado. Liga o tempo todo, todo o tempo.

Será que é coisa típica de chefe mesmo? Ele deixou tudo dito na sexta-feira, já ligou pra repetir cada uma das coisas me pediu pra fazer e agora liga a cada pouco perguntando e dando novas informações. Com um detalhe pra essa terceira etapa: Ele fala, a cada telefonema, de uma tarefa diferente. De cada uma um pequeno detalhe. Isso já tá se transformando em uma tortura.

“Olou! Eu sei que é você chefe. Sei. Não, já enviei. Já chegou. To terminando. Eu sei chefe, sei que você ama. Mas faz assim: Liga só de hora em hora, de 5 em 5 minutos eu não consigo trabalhar tá amor? Claro que quero. Ao leite e crocante. Mas promete pra mim? Que não vai me ligar mais na próxima hora? Obrigada! Te amo. Tchau.

Minha nossa senhora dos chefes agoniados, esse veio melhor que a encomenda. Minha sorte que tirando o desespero dele o cidadão é gente boa. Gente boa,  mas duvido que ele vai conseguir ficar uma hora inteira sem me telefonar.

Não acredito! Outra vez? Ligação interna, não vou atender.

“Bianca! Por que você não atende ao telefone?”

“Amiguinha, eu atendendo, mas é que hoje ele tá tocando tanto que não to dando conta. Aí resolvi ser seletiva. Como era da recepção deixei tocar.”

“A Carla vai telefonar de novo e faz favor: Atende. A mulher tá desesperada pra falar com você.”

“Tá bom, sacolé de jiló, eu vou atender.”

Antes que a emissária do desespero tivesse fechado a porta o telefone grita novamente.

“Oi Carla, diga anja de asas o que você manda?”

“Vem aqui pegar uma encomenda pra você, mas vem agora.”

“Ooo Carlota Joaquina, recebe essa encomenda pra mim, por favor. Eu to tão cheia de serviço que nem fiz xixi depois que cheguei aqui. Recebe pra mim que na hora do almoço, se eu conseguir ter esse privilégio, passo aí e pego.”

Quase não consegui terminar de falar tamanho era o desespero do outro lado da linha:

“Você não tá entendo, o cara que trouxe a encomenda disse que só entrega na sua mão. Vem logo, vem agora.”

“Misericórdia! To indo.”

Se esse cara tá tão deseperado vou deixar que descanse um pouco naquele sofá confortável. Só vou quando enviar esse e-mail ou daqui a pouco meu santo chefe liga novamente.

O telefone.

“Bianca. Carla! Você tá me telefonando do seu celular?! Misericórdia! To indo.”

Deve ser um comunicado de que foi descoberta a fonte da juventude! Só pode, ou quem sabe uma mina inesgotável de chocolate ali no outro corredor, pra esse povo tá com esse desespero todo.

“Oi Carlinha. Cadê o moço?”

” Oi. Você é a Senhorita Bianca?”

” Sim. Sou eu tão ilustre figura. Pois não.”

” Assina pra mim por favor?”

“Mas o que to recebendo mesmo? ”

“Essas rosas senhorita. Essas rosas são pra você.”

Levei um susto tão grande que olhei pra cara do rapaz e sem qualquer tipo de disfarce disparei:

“Eu que já nem queria ter levantado minha santa bundinha pra vir até aqui e agora você fala que essas flores são pra mim? Conta outra gatinho.”

“Seu nome não é Bianca?”

“É sim, eu sou a Bianca, mas tem outra Bianca no Financeiro e também devem ter outras por esse andar, em outras empresas.”

“Bianca Alves Zanandréia? Será que tem outra com o sobrenome Zanandréia na empresa?”

Como minha cara de espanto não passava eu resolvi substitui-la pela de pau:

“Aaa não sei. Mas é que essas flores não são pra mim. Certeza. Não tenho ninguém pra me mandar flores não minha gente.”

Foi nessa hora, em que eu já estava quase pra colocar o rapaz pra fora com flores e tudo que o povo resolveu intervir:

“Bianca! Pára de charme. Não tá vendo que não tem jeito? As flores são pra você. Assina logo esse papel, libera o rapaz e lê esse cartão de uma vez.”

“Não, assim. É que moço, se você tá entregando essas flores pra pessoa errada depois vai dar problema pra você. Já pensou? Você ter que pagar essas orquídeas? E que orquídeas lindas! É, por que eu to te falando, essas flores não são pra mim, mas se você sair por aquela porta e descobrir que eu sou a Bianca errada, não to nem aí, não te devolvo nem a pau e…

” Biancaaaa! Larga mão de ser nojenta. Assina logo. Coitado do rapaz. Liga não moço, ela é doida mesmo. Toma seu papel vai com Deus.”

Depois de ter riscado qualquer coisa no papel o pobre rapaz se afastou assustado.

A essa altura eu tava começando a acreditar que as flores poderiam ser pra mim, só não conseguia enchergar quem tinha sido o remetente. Tava tão encantada que já não lembrava das mil coisas que tinha pra fazer nem do telefone que podia estar se esguelando.

Foi quando vi a Carla sacudindo o cartão na minha frente:

“Abre Bianca. Abre, abre logo.

Eu peguei o envelopinho amarelo e fiquei:

“Gente, o envelope é amarelo pra combinar com as flores. Adoro essas orquídeas, eu e minha irmã falávamos que eram as orquídeas girafas, por conta dessas manchinhas. Como é linda! Agora, quem será que me mandou?

A Carla tava pra ter um ataque. Ela se abanava, bebia água e parecia que tava na presença de uma celebridade de tanta agonia:

“São Sapatinho! Como pode ser tão sangue de barata desse jeito?! Abre o envelope e descobre de uma vez!”

“É que não tenho nem ideia de quem possa ser. De verdade o que eu falei pro moço não f

Quando ia começar de novo a ladainha a Carla tomou o envelope amarelo da minha mão e leu:

“Bianca querida, espero que essas flores deixem seu dia mais feliz.

Beijos,

MPA.”

“MPA? Quem é esse?”

A Carla querendo saber de quem se tratava e eu perguntando.

“Ministério Público do Amapá. Só pode né Bianca.

“Ai ai ai, minha nossa senhora das mulheres sem paquera. Deixa eu voltar pro trabalho. Que fique bem claro meu povo: Não faço nem ideia de quem possa ser esse cidadão. Mas vou pensar quem em um nome diferente de Ministério Público do Amapá pra ver se descubro que é.”

Voltei pra minha mesa pensando : quem será? Quem será?

Acontece que o serviço é tanto que não dava tempo de pensar. Mas falando sério agora que to acostumando com essas flores aqui: Quem será que me mandou isso? To aqui pensando em todo mundo que já falei que sou apaixonada por essas orquídeias mas não to vendo ninguém que possa ser… Aaa não importa. To tão feliz que tem alguém me querendo feliz que já to satisfeita.

O telefone gritando:

“Oi chefe. É mesmo. Você ficou uma hora inteira sem ligar. Que coisa mais linda de se ver. Tá de parabéns! Claro. Tá tudo “ficando pronto”o mais rápido que minha velocidade lebre falante consegue aprontar as coisas. Mas tenho uma novidade pra você: Acredita que recebi flores?”

Contei pra ele e continuei a lida.

E agora to aqui esperando que o MPA se revele. Por que não é possível. Não tem como não ter cenas dos próximos capítulos.

Bianca.

Lindo. LINDO. Lindinho, lindão, lindãozinho.

Nossa! Deve ser mesmo lindo demais. Isso se for verdade toda essa lindeza, pq tu tem um gosto estragado…

É verdade! O moço é lindo de todas as maneiras que você quiser falar. Pode até ser chamado de lindinhozinho. Moreno alto, olhos verdes, barriga de tanquinho, braços fortes e cabelo de enfiar a mão.

Cabelo de enfiar a mão? O que vem esse tipo de cabelo?

Calma que te explico!

Cabelo de enfiar a mão nada mais é que aquele cabelo que você comoeça a passar a mão e a dona dos dedinhos desliza sem a menor dificuldade. E o melhor: atrás de si  o caminho em perfeita ordem, como se nunca nessa vida houvese inteção de dessarumá-lo.

Pois então, desse jeito que é cabelo do moço!

Tá bom, mas e aí?

Todos esses atributos formam meu sonho de consumo.

Não me diga! De qualquer mortal do sexo feminino fofa.

Eu juro! Fiz essa exata descrição do homem “sonho de consumo” prá minha professora de História quando eu tinha 14 anos. De lá prá cá minha mão já se embrenhou em um monte de arapuca, além de ter procurado uns cabelinhos e não ter achado nada ou muito pouco, mas cabelo desse jeito ficou só no sonho.

Mas com um sonho tão definido desde tão cedo você nunca correu atrás do cabeludo idealizado?

Então, eu conheci o Lindo.

Conheceu? E como foi? Ele é cabeludo?

Deixa eu contar! Um dia conheci o Lindo. Gente do céu! Não sei nem te contar o tanto que o cabelo do moço é maravilhosamente gostoso.

Só o cabelo? E o resto?

Não! O cabelo, o rosto, o resto, TUDO!

Tá bom. Já entedi, mas e aí? E a atitude?

Hihihi Atitude, atituuude tive algumas.

Teve? Quais foram? Pode me contar?

Bem, eu disse oi!

Disse oi? E desde quando isso é atitude?

Aaaa conversei dia desses, saímos pra assistir uma peça de teatro…

Só vocês dois? Então estamos evoluindo! 🙂

É, fomos nós dois e mais 20 pessoas. Mas sentamos um do lado do outro.

Misericórdia!

Aaaa! Não vou mais te contar nada não! Você nem me entende! Eu sou tímida. Tímida, tímida mas tão tímida que quando ele chega perto e diz olá eu tenho vontade de desaparecer e não consigo nem sorrir. Então quando estamos eu ele e mais 20 pessoas acho bom por que fico olhando pra ele de longe. Mas nesse dia do teatro sentamos um ao lado do outro e conversamos um monte!

Meu Pai do céu! Você é mt mais bicho do mato que eu imaginava. Desse jeito vai ficar velha e sozinha pra sempre criatura!

Não vou não! Ele também me ligou, aí reparei na voz dele.

Voz dele? O que tem ela?

É linda! Linda demais. Além da barriga.

A barriga você também viu enquanto falavam ao telefone?

Não né! Tinha visto outro dia, mas é que ela, minha nossinhora, ela é linda demais. Tanquinho total.

Já falou isso pra ele?

Falar pra ele? Tá maluca? Claro que não! Deve ter um monte de gente falando, melhor calar.

Aaaa tá. Então deixa ele sem saber nem que você existe.

Mas ele sabe que eu existo! Sempre fala oi quando passa por mim.

Meu Pai do céu. Como pode ser assim tão sonsa? Só isso já te deixa satisfeita?

Não né. Mas acho bonitinho…

Então me fala logo, de maneira resumida os atributos dessa peça pra gente mudar de assunto e nunca mais tocar nele.

🙂 Eu já disse lá em cima: Moreno alto, cabelo de enfiar a mão, olhos verdes, corpo escultural com barriga de tanquinho. :0

Vai ficar olhando ou tomar uma atitude?

Ai meu Pai do céu! Tomar uma atitude!

Então tá. Só fala comigo de novo depoiso que fizer alguma coisa. Tchau!

Bianca.

 

Tem coisa nessa vida que só acontece comigo! Tipo encontrar um homem lindo no elevador, ele vir cheio de graça, a porta se abrir e eu sair correndo.

Só eu nessa Terra inteira sou capaz de fazer tamanha insensatez.

Nem sei por onde começar, pq o ódio que habita esse coração é tão grande que se eu me detiver nos detalhes sou capaz de explodir.

Fui com a Lili resolver um problema em um prédio desses de muitos andares. Entramos no elevador querendo subir e ao invés disso descemos.

Que droga! Desceu!

Desceu e foi pro último andar da garagem.

Pronto! Isso era tudo que estávamos precisando. Além de estarmos atrasadas esse bendito vai pra bem abaixo do térreo e ainda abre a porta pra ninguém. Fecha porta, fecha.

E a Lili tá que aperta o botãozinho pra fechar.

Quando ela tava quase conseguindo eis que surge uma mão entre as portas.

Foi parecendo aqueles comerciais em que o modelo vem desfilando devagar e faz aquela entrada triunfal.

O moço tava vindo em direção ao elevador e quando viu que a porta ia se fechar apertou o passo, no último segundo interrompeu a “fechadura” e adentrou os portais do elevador.

E que moço…

Moreno, alto, sorriso lindo, dentes perfeitos, cabelo liso…

Entrou, sorriu.

O elevador subiu. Enfim.

Parou.

Entraram três mulheres.

Eu tenho uma mania. Alguns insistem em chamar de TOC, mas eu juro que é uma mania simples: tirar cabelo da roupa das pessoas.

É assim: se a pessoa está de costas pra mim e tem um cabelo na blusa eu vou, analiso rapidamente a posição em que o fio se encontra e se estiver posicionado de um jeito que eu consiga tirá-lo sem encostar na pessoa vou lá e tiro.

Sempre dá certo.

Um jeito simples e discreto de me divertir, além de prestar um serviço a um nobre desconhecido.

Uma das mulheres que entrou tava com as costas cheia de cabelos.

Eu fiz a análise instantânea e comecei a tirar os fios.

E para minha surpresa o bonitão me acompanhou!

Nunca, em toda minha vida tinha visto uma dupla de trabalho ser formada de maneira tão instantânea. Foi rapidinho, entre um andar e outro limpamos as costas da mulher inteira e ela nem notou.

Quando terminamos olhei pra ele, comemoramos o sucesso da parceria e demos risada.

Tudo em silêncio, sem que e a beneficiada notasse.

As portas do elevador se abriram e eu sai.

Esperei que ele saísse e fomos conversando até que encontrei a sala para onde tinha ido. Na despedida trocamos telefone e ele ficou de me ligar.

Foi isso que aconteceu?

Não! Não foi isso!

As portas do elevador se abriram e eu sai com a Lili. Ele desceu no mesmo andar e seguiu pelo mesmo corredor.

As duas marmotas, Bianca e Lili que desceram na frente foram andando em desabalada carreira.

Os filhotes de mamute que atendem por Bi e Li saíram correndo até encontrarem a porta desejada e entrarem desesperadas, sem ao menos olharem pra trás. Nem dizer tchau as criaturas do pântano não disseram! Não tem nem bicho assustado que nã se ofenderia se fosse aqui comparado.

Foi mal marmotas e mamutes, eu não quis ofender.

Acho que anta cai bem pra minha pessoa. Afinal tinha acabado de fazer um trabalho de equipe com eficiência comprovada e nem disse tchau.

Eu podia ao menos ter falado tchau. Ao menos um sorrisinho uma demonstração de que sou uma pessoa educada… Mas nada, nadinha.

Não é preciso falar mais nada né?

O ódio expresso no começo já define muito bem meu estado de espírito.

Vou dormir.

Revoltadamente, Bianca.

Em 2007 tive uma filha.

Bianca o nome dela.

Não se assute, não é nada disso que você está pensando. 

Com ela eu ia contar para as pessoas o que via pela rua. Ela ia andar de ônibus, assalariada, estudante, doida pra passar em concurso público, patetinha, frequentadora de espetáculos “de grátis”. Assim, não precisa olhar muito de perto pra descobrir que essa moça era bem a minha cara.

Um dia, escrevi tudo o que eu queria mostrar dela, coloquei dentro de uma pastinha e fui na redação de O Coletivo.

Fui disposta a convencer o editor chefe do jornal que era uma ótima o leitor se ver no jornal.

Ele pegou meu texto disse que era legal mas que não tinha como implantar a ideia.

Na ocasião eu tinha baixa resistência a frustração. Com essa pancada na minha imunidade peguei minha pastinha e enterrei a mocinha.

Passou um tempão, nem sei quanto e  depois de muito tempo e mais ainda de insistência do Vítor coloquei a Bianca dentro de outra pastinha e levei para o editor do Na Hora.

Com ele falei várias vezes e o moço se mostrou interessado na “causa” mas também tinha algumas impossibilidades que não me pareceram assim tão intransponíveis, mas que foram, afinal, a pobre Bianca nunca mostrou sua carinha em canto algum.

Passou o tempo e ninguém mais falou nela, até ontem, quando meu agente literário, o mesmo moço que faz propaganda desse blog, me lembrou da moçoila.

Estava guardando a menina esses anos todos pra mostrar o material inédito que um dia escrevi, mas como agora tenho você não preciso guardá-la pra jornais.

Por isso, hoje inauguro a Categoria Bianca. Nela vou escrever tudo que vi no meio da rua de engraçado, que vivi, fantasiei e / ou presenciei.

Viajar é a palavra de ordem, mas como somos muito amigos, eu e você, quando tiver muito delírio ou pura verdade, eu te conto.

Esse texto que se segue é exatamente o mesmo que mostrei aos dois editores que apresentei minha filha. Espero que você goste:

Tem dia que a gente acorda com uma incrível vontade de gritar. O que? Isso é o que menos importa. Gritar qualquer coisa pra qualquer um, o que importa é gritar. O modelo do grito pode ser daquele dos meninos dando birra. Você já viu como eles se comportam? Aquele molequinho filho da sua amiga, que  ainda é  parcialmente banguelo, mal anda, mas dá birra como ninguém. Se ele tá no colo do pobre do pai e de um minuto pro outro se vê contrariado ele fica duro, joga o corpo pra trás e grita, grita com toda a força dos pulmões. O pai, com medo de ficar surdo, faz a vontade do garoto, e tudo se resolve.

Pois bem, eu amanheci desse jeito hoje: com vontade de gritar feito um menino birrento. Fui trabalhar, e tudo que eu via só aumentava minha vontade e minha irritação. Cheguei ao trabalho com a educação feito a de uma mocinha criada em colégio suiço: um primor. As meninas logo estranharam:

– Bianca, o que você tem hoje? Tá falando tão baixinho,  tão quieta.

– É vontade de gritar, tô louca pra dar uns gritos, então tô tentando falar baixinho, ficar quietinha, assim pra não dar vazão aos meus instintos.

 Elas riram e continuamos a trabalhar.

Quando saímos pro almoço eu tive uma idéia brilhante.

Passando pela plataforma superior da rodoviária, tinha um menino vendendo pilhas.

 – Oito pilha é só um real. Oito pilha é só um real.

 Ele parecia tão feliz. Gritava assim com toda a força dos pulmões e tava  sorrindo, um sorriso lindo, tranquilo. Parecia que não tinha qualquer problema, que tudo  ia embora no grito.

Quando tava voltando do almoço não resisti.

 – Oi tudo bem? Posso gritar um pouquinho pra você? –  Pedi com uma cara de coitada, assim quase mendigando.

 Ele me olhou assustado e perguntou:

 – O que dona?

– É isso mesmo, deixa eu gritar, só um pouquinho.

– Ué dona, quer gritar, grita. Mas eu não te pago nada!

 Você não pode imaginar a minha felicidade. Eu de salto alto, de blazer, saia justa, maquiada embaixo do sol da uma 1 hora da tarde gritando com toda a força dos meus pulmões:

 – Oito pilha é só um real! Olha aqui freguesa, pilha, pilha. Você tá precisando de pilha? Aqui é só um real!

 As pessoas passavam e me olhavam assustadas, alguns colegas vieram saber se estava tudo bem e acabaram levando “oito pilha por um real”.

Depois de meia hora, devolvi as pilhas para oEduardo, e voltei pro escritório suada, maquiagem derretida, despenteada e feliz da vida, leve como uma pluma, tendo matado minha vontade de gritar, com um amigo novo e ainda proposta de emprego:

– Olha dona Bianca, quando a senhora quiser pode voltar, viu? Se quiser vir amanhã no mesmo horário vou tá aqui. – Disse ele com o sorriso mais lindo que eu já vi, na certeza de que fez um bom negócio.

Não resisti, tive que dar uma mexidinha no texto, só de leve. Mas tá sinalizado.

Beijos pra vc que me visita.

Vivian.

 


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