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E Ela falava assim:

“Quando eu crescer, vou parar de fantasiar.”

“A hora em que me tornar adulta, deixo de gostar tanto de gargalhar assim tão alto, de andar de pé no chão, de comer besteira como se refeição fosse, de sonhar acordada sonhos mirabolantes.”

“Quando eu crescer, vou deixar de ser transparente e nem todo mundo que passa por mim vai saber o que vai em meu coração.”

Ela foi fazendo aniversário, assumindo responsabilidades, realizando sonhos, mas sempre descalça, como se moleca continuasse sendo.

“Quando me tornar adulta, não vou ter preguiça de me maquiar todas as manhãs para as atividades do dia.”

E ela continuou pela estrada a fora com a cara lavada e o cabelo em rabo de cavalo.

“Quando eu crescer, vou me tornar seletiva em minhas amizades e não vou contar minha vida e sonhos a todo mundo que passar por mim na rua.”

E lá foi Ela pela estrada a fora sorrindo para quem cruzava seu caminho, fazendo amizade com cada um que se sentava ao seu lado, flutuando como se borboleta fosse.

“Mas, quando eu me tornar adulta, serei uma pessoa bem séria.”

“De salto alto, roupas de uma, no máximo, duas cores e cabelo escovado todos os dias.”

O tempo passou e Ela fez vários aniversários.

Continuou transparente, cada vez mais.

Cabelos em rabo de cavalo, cara lavada, pé no chão e riso solto.

Os sonhos tomaram proporções maiores, mas continuaram fazendo parte de cada instante, todo o tempo, o tempo todo.

Sendo assim, Ela colocou tudo isso e muitas outras coisas que pensou que iria perder pelo caminho quando a idade fosse aumentando em uma mochila colorida e continuou feliz da vida, pois descobriu que algumas coisas não se perdem, se aprimoram.

 

 

 

 

E foram tantos os feriados nas últimas semanas que até sobrou um para testar minha mais nova descoberta:

Sabonete como produto de limpeza.

Eu te juro, não há produto melhor!

Com ele dá para deixar as panelas brilhando, absurdamente areadas, os rejuntes do piso branquinhos e tirar todas as marcas da cerâmica.

Também faz brilhar qualquer vidro, inclusive o do box do banheiro.

Enfim, sabonete para limpeza da casa é o que há!

Qual marca?

Logicamente a que estiver mais barata no supermercado.

Então, estava eu maravilhada por ter conseguido arrancar facilmente aquela mancha do chão, na qual já havia testado todos os produtos possíveis e imagináveis, quando alguém grita lá fora, no portão.

Vou à janela ver quem é.

Lá chegando me deparo com uma mocinha nos seus 13, 14 anos.

Sorriso lindo, quando me vê, dispara seu discurso:

“Boa tarde, tia. Estou vendendo essas jujubas porque o aluguel lá de casa vence amanhã e, se minha mãe não pagar o moço, disse que vai colocar a gente na rua. A senhora compra aqui pra me ajudar?”

Enquanto ela falava, me lembrei  de que estava completamente sem dinheiro:

– Princesa, você acredita que não tenho um centavo?

Ela, sorridente estava, sorridente continuou:

“E alimento, tia? A senhora tem?”

Antes que eu conte minha resposta: essa história de ser chamada “tia” e “senhora” pesa tanto nas primeiras vezes… mas, como tudo na vida, a gente se acostuma,  lá pelas tantas relaxa e passa a achar natural. Para mim, está ficando. Sinceramente, depois de muito relutar, está ficando natural ser chamada de “tia” por qualquer pessoa em qualquer lugar.

Voltemos aos fatos.

– Claro que tenho, gata. Alimento eu tenho. Peraí.

A menina não tinha o dinheiro para o aluguel, mas tinha bom humor, jogo de cintura.

Fui lá, peguei um pacote de farinha de trigo e, enquanto me aproximava do portão, escutei:

“Nossa tia, como você é bonita.”

Eu tive de rir.

Mais descabelada, impossível. Mais desarrumada, não tem nem como imaginar.

– Você também é muito bonita. E vem cá, você sabe fazer bolo?

Sem nem pensar ela respondeu:

“Sei sim, tia. O mais gostoso bolo de chocolate do mundo.”

Eu sorri e entreguei a ela o pacote:

– Então essa farinha aqui é para você fazer o bolo de chocolate mais gostoso do mundo e comemorar que vocês conseguiram todo o dinheiro para o aluguel.

Os olhinhos da menina linda brilharam e ela agradeceu:

“Muito obrigada, tia bonita, obrigada mesmo. Eu vou fazer o bolo porque hoje lá em casa vamos sim, ter muito o que comemorar.”

Eu queria ter conversado mais, mas quando ela terminou a frase, saiu correndo para encontrar a mãe.

No caminho, exibiu seu sorriso e suas jujubas a um casal que passava e conseguiu um pouco mais de dinheiro.

Eu voltei para o meu chão com sabonete na certeza de que qualquer batalha, quando enfrentada com um sorriso otimista, fica mais fácil de ser lutada, de ser vencida.

 

 

– Você quer?

“Quero.”

– Tem certeza?

“Absoluta.”

– Não é assim tão bonito, não caiu tão bem.

“Mas eu quero.”

– A cor não é a mais adequada para a ocasião.

“Mas eu quero.”

– As pessoas vão se escandalizar.

“Elas não pagam minhas contas.”

– Acho que nem mesmo ele vai gostar.

“Ele gosta é de mim, então, vai gostar sim.”

– Depois, com o passar do tempo, quando você for olhar os registros, não vai se arrepender?

“É claro que não!”

– Esse é um momento único, nunca mais você terá nada nem parecido com ele.

“Não vou me arrepender. Aliás, nunca tive tanta certeza como tenho agora.”

– Nada que eu disser vai te convencer?

“Nadinha. Estou decidida.”

– Só mais uma coisa: já parou para pensar nas pessoas que ainda não estão aqui? Quando elas se depararem com os registros, poderão achar que você não é normal.

“Você está falando dos meus filhos que ainda não nasceram?”

– Deles mesmos, podem estranhar!

“Minha amiga, relaxe, um fruto não cai longe do pé. E, além do mais, eu serei, com toda a certeza, a mais inesquecível de todas as noivas.”

E foi assim que ela casou de vestido vermelho.

 

Feliz aquele que tem um trabalho para chamar de seu!

Que levanta todas as manhãs e vai para o lugar que escolheu ir e vai satisfeito!

Feliz aquele que faz o que sempre sonhou.

Aquele que descobriu cedo como se divertir e ganhar a vida ou quem sabe ganhar a vida se divertindo.

Feliz aquele que vê, enquanto desempenha as atividades que nunca sonhou, que dá tempo de mudar e ir atrás do sonho.

Feliz aquele que tem coragem de tomar tal atitude.

Feliz aquele que toma as rédeas da vida nas mãos e mostra ao mundo quem está no controle do seu pequeno universo.

Feliz, feliz quem tem atitude.

Desejo então, que você seja, um dia de cada vez, feliz!

 

As coisas comuns da vida me fazem feliz.

Quando eu acho uma vaga em frente ao prédio a que preciso ir, quando bato um papo legal com o vendedor de saco de lixo que trabalha no semáforo pelo qual passo todos os dias, quando carrego as compras de uma senhorinha até sua casa são exemplos de coisas que me deixam feliz, que me fazem acreditar que sou uma pessoa super importante e especial.

Dia desses recebi uma mensagem em um grupo do WhatsApp que contava a história do Vítor Fernandes.

Um rapaz de 18 anos, lindo por sinal, que, em março, foi fazer exames de rotina e descobriu estar com leucemia.

Começou o tratamento imediatamente e seu organismo não respondeu como o esperado.

Os médicos continuaram investigando e foi descoberto que  Vítor tem Leucemia Linfoblástica Aguda Tipo B e precisa de um transplante de medula.

A mensagem que recebi pedia para que eu me tornasse uma doadora de medula óssea. Quem sabe poderia ajuda-lo.

Lembro que compartilhei com todos os grupos dos quais faço parto e na legenda escrevi “Poderia ser um de nós”. Isso porque não conheço o rapaz, nem amigos em comum temos.

Encaminhei.

Fiz minha parte.

A vida é tão corrida, né?

Tenho minhas coisas aqui e já compartilhei.

Esqueci.

Dias atrás vi, em uma rede social, que ele fez aniversário e ainda está à espera de um doador.

Quando uma pessoa precisa de doação de medula óssea, os primeiros a serem “pesquisados” quanto à compatibilidade são os pais e irmãos. A chance de 100% de compatibilidade com esse grupo é de 25%.

Depois é que se parte para a busca da doação não aparentada, ou seja, de pessoas que não são da família.

Foi nessa fase da procura para o Vítor que eu recebi a mensagem. Afinal, a chance de encontrar a pessoa compatível em pessoas desconhecidas é de 1 em cada 100 mil pessoas.

1 a cada 100 mil pessoas!

E eu aqui moscando.

E se for eu essa “uma pessoa” pra ele?

Telefonei para o Hemocentro, agendei minha doação para o outro dia e fui.

Estava marcado para 15:30h.

Tudo aconteceu tão simples e tão rapidamente que às 15:41 eu já estava saindo do estacionamento.

Agora, sou cadastrada no REDOME – Registro Nacional de Doadores Voluntários de Medula Óssea.

Posso não ser A pessoa que irá ajudar o Vítor, mas posso, um dia, ser A pessoa na vida de alguém.

Isso doando 10ml de sangue!

Olha que mágico!

Quando encontrarem alguém que é 100% compatível comigo, eu serei chamada para doar minha medula.

Moço, eu te conto quando esse dia chegar, mas, só de imaginar, já me emociono.

Já pensou?

Doar o que meu corpo fabrica sem eu nem saber como e salvar a vida de alguém?

Misericórdia, vou ficar feliz demais!

O procedimento de doação é indolor e dura cerca de 90 minutos e, em 15 dias, minha medula estará completamente refeita.

Já fiz o cadastro, então, não posso deixar meus dados desatualizados, preciso ser facilmente encontrada.

Agora, é só esperar, pois eu posso ser a A pessoa entre 100 mil na vida de alguém e quando esse dia chegar vou me sentir a mais feliz e importante do mundo inteiro!

 

 

 

 

 

Em meu último dia antes das férias,  me despedi de todos na maior farra:

“Daqui a 30 dias, estarei de volta, meu povo. Não chorem. Estarei mais bronzeada, mais bonita, mais sarada. Por favor, não se apavorem. Mesmo que algum nativo sarado queira me sequestrar, não temam, eu não os abandonarei. Só um detalhe: vou silenciar o grupo para que vocês sintam minha falta.”

Beijei todo mundo, fiz farra com a geral, mas, em vez de silenciar o grupo do

trabalho, saí dele.

Não queria nem saber o que se passava no escritório durante minhas férias.

Paz e tranquilidade longe dali eram tudo o que eu queria.

Depois disso, aeroporto e água salgada.

Praia, sol e mar.

Descansei corpo, alma e coração.

Nunca em minha vida, tinha ficado tanto tempo longe do cerrado.

Nunca fora tão feliz.

Só que até o muito bom dura pouco.

Consegui heroicamente ficar todo esse tempo sem dizer se quer um “olá” pra ninguém. Sai dos grupos, dei férias às redes sociais e fiquei sem saber de nada que rolava.

Os 30 dias passaram voando e eu voltei.

Cheguei cheia de chaveirinhos e novidades, mas nem tanto quanto as novidades que lá encontrei.

Já na recepção, deparei-me com uma moça diferente:

“Bom dia. A Lili tá de folga?”

– A Lili não trabalha mais aqui.

Fiquei assustada, mas continuei entrando.

E, a cada mesa por que passava, sentia falta do rosto de um amigo. É que seu lugar estava ocupado por uma carinha completamente desconhecida.

Minhas pernas foram amolecendo quando me dei conta, ao chegar à minha mesa, que metade do pessoal a que eu dera tchau há trinta dias, tinha recebido tchau também do “big boss”.

“O que aconteceu aqui?” – perguntei a um remanescente.

“Eles estão cortando gastos. Mandaram embora todo o pessoal antigo e contrataram esse monte de menino pela metade do preço.”

Fiquei chocada, mas não me dei o direito de ficar de luto muito tempo.

Comecei a trabalhar imediatamente.

E o medo?

Tinha que colocar em dia minhas atividades o mais rápido possível, não podia dar motivo para aquela onda me pegar.

Passei a primeira semana pós-férias querendo ficar quase invisível para que ninguém se lembrasse de mim.

Vai que lembram e mostram a rua?

Não adiantou.

Justo na terça-feira, depois que o trabalho que ficara parado 30 dias estava todo girando em perfeita harmonia com o universo, recebi o telefonema:

“Oi, flor. Vem aqui ao RH.”

Olhei para meus colegas e disparei:

“Daqui a pouco, volto buscar minhas coisas.”

E assim foi.

Cheguei lá, eles me contaram uma história triste sobre redução dos custos e clientes.

Que eu era maravilhosa e que sentiriam minha falta.

Sentiriam falta, mas, mesmo assim, mandariam embora?

Tá certo.

Deram uma carta de recomendação e disseram que eu arrumaria emprego fácil em outra empresa do mesmo segmento. Afinal, era muito eficiente como Ouvidora.

Agradeci, fiz uma graça como se aquele momento fosse a realização de um sonho.

Enquanto isso, a única coisa que girava em minha cabeça era:

“Ainda bem que não fiz dívida no cartão de crédito, ainda bem que quitei a viagem antes de ir, ainda bem que não tenho dívida, ainda bem que não tenho dívida.”

E, agora, enquanto procuro outro emprego, repito o mantra: ainda bem que não tenho dívida.

Só que, assim, não posso me alegrar demais não, porque não tenho hoje, mas, amanhã, elas surgirão. Então, mudarei o mantra:

Quem tem um emprego pra mim? Quem tem um emprego pra mim?

 

 

 

 

 

De um minuto para o outro, tudo mudou.

O que parecia estável e certo, o “para sempre” simplesmente não existe mais.

Foi-se.

Não sei ao certo em que curva do caminho nos perdemos.

Via sinais, indícios, aqui e ali, de que as coisas não iam bem, mas, no momento seguinte, céu azul, pássaros cantando.

Acreditava assim que era apenas mais um desentendimento.

Além do mais, havia amor.

Ele nunca deixou de existir.

Ao menos aqui no meu peito, não.

Mas teve um dia em que os sinais, indícios, aqui e ali, de que as coisas não iam bem vieram com tudo e, no momento seguinte,  nuvens pesadas, tempestade, raios e trovões.

Eu pensei: com a volta do sol, vem o céu azul e pássaros cantando. O astro rei fará com que tudo volte ao normal.

Ledo engano.

A tempestade se instalou de verdade.

Até que um dia recebi a sugestão:

“É melhor você se mudar. Vai ser mais tranquilo para nós dois, para as meninas.”

Como assim?

Mudar?

Para onde?

Essa é a minha casa. Tudo aqui foi metodicamente planejado, sonhado, construído também por mim.

A tempestade se instala e eu tenho de sair?

E nosso amor?

Mudar para onde?

A tempestade e o céu negro que só moravam na relação que até então era meu porto seguro, instalaram-se dentro de mim.

Pedi dois dias para procurar um lugar em que pudesse me instalar.

Em duas horas, havia ajuntado minhas roupas, alguns livros, conversado com minhas filhas e partido.

Saí sem rumo, como se indigente fosse.

Parei e chorei.

Chorei como criança toda a dor e frustração de algo que não queria estar vivendo.

Eu não podia ficar parado no meio da rua simplesmente chorando.

Não o fiz.

Hoje tem quatro meses que esse dia, o mais doloroso da minha existência, ficou para trás.

Assim, ainda não posso dizer que estou pronto para outra.

Ainda não posso dizer que o sol voltou a brilhar, mas está entre nuvens, de quando em vez, ele mostra a cara, todo pimpão.

Esse lugar aqui, onde vim morar, bem no meio da tempestade, já o reconheço como minha casa.

Sei o nome de alguns vizinhos que, assim como eu, estão passando uma temporada entre uma fase e outra da vida.

As coisas estão se acalmando de tal maneira e assumindo uma normalidade que chego a pensar que tudo sempre foi assim.

Quando isso me vem à cabeça me recordo, mesmo sem querer, de tudo que eu tanto amo e não mais existe. Aí, dá aquela vontade gigante de encolher. É nessa hora que me pergunto:

“Encolher pra onde, criatura? Encolhendo vai ter alguém pra te ajudar a esticar?”

Não vai.

Não há ninguém, nem para consolar nem para qualquer outra coisa.

Então, o negócio é não me encolher, não retroceder.

E, como sinal de coragem e desencolhimento hoje, não vou esquecer a toalha na hora do banho e quando deitar para dormir vou apagar a luz e desligar a televisão.

Desencolhimento, assim como crescimento, se dá aos poucos, por isso, caminho devagar e com alegria, valorizando cada pequena conquista!

 

 

 

A Menina adolescente conta ao pai um acontecido com o amigo.

No dia seguinte, outro acontecimento.

No terceiro dia um elogio ao Garoto.

E assim vai.

A cada dia uma história, um elogio, uma gargalhada envolvendo o dito.

Tão engraçado, tão inteligente, tão lindo!

De uma hora para outra desaparece.

As histórias somem e não se escuta mais falar nada do rapaz.

“Cadê aquele seu amigo?”

– Que amigo? Eu não tenho amigo.

“Como assim não tem amigo, menina? E aquele Garoto que até semana passada era tão engraçado, tão inteligente, tão lindo?”

A Menina olha o pai como quem vê um alienígena:

-Ué, ele tá lá.

O pai, um tanto admirado:

“ Você passou dias e dias falando nele e agora simplesmente: “Ele tá lá”? Está lá aonde?”

– Aaa pai. Está cuidado da vida dele. Acho que está bem, já me mandou mensagem hoje de manhã.

“O que aconteceu que você nunca mais falou nele?” – o pai curioso insistiu.

A mocinha faz a cara mais desiludida desse mundo e dispara:

– Ele me mandou uma carta.

“Que bacana. Uma carta? Nunca mais ouvira falar de alguém enviando cartas.” – falou admirado.

– Bacana o quê, pai? – falou a Menina arregalando os olhos .

“O Garoto te mandou uma carta. Isso é muito legal. Já sei! Tem muito erro de português? É isso?”

– Não! Ele acabou de passar em um vestibular concorrido, tirou nota máxima na redação.

“O garoto é gente boa, inteligente, lindo, engraçado, acabou de passar no vestibular e ainda manda carta? Qual o problema do rapaz?”

A Menina sentada na ponta do sofá, completamente ereta, em posição de ataque, respondeu falando rápido e gesticulando como se quisesse convencer uma multidão:

-Pai, você não está entendendo. O Garoto me entregou uma carta que tinha no final um coração desenhado. Ele desenhou um coração! E tem mais!

“Que coisa mais linda, minha filha. Ele é romântico!”

– Romântico? Que romântico coisa nenhuma. – continuou revoltada- Ele é um bocó. Além da carta, eu não te falei, mas outro dia ele mandou flores, bombons. E depois de toda essa marmotada ele agora apareceu com a conversa que quer te conhecer!

“Conhecer a minha pessoa? Pra quê?”

–  Então, pra quê? – ar desiludido tomou conta da sua expressão – Eu também queria saber o motivo de tamanho interesse dele no meu pai. Mas dia desses ele me revelou.

“Conta! Conta!”

– Ele quer falar com você.

“Falar o que, minha gente?”

– Que ele quer me namorar!

O pai a essa altura já estava em pé, empolgação proporcional ao desinteresse da Menina:

“Que coisa mais linda. Quando iremos nos conhecer?”

A Menina indignou-se:

– Coisa mais linda, não é ? – falou com sarcasmo – Já pensou ? Todo mundo sabendo que o Garoto me pediu em namoro ao meu pai? Eu ia morrer de vergonha. E além do mais ele desenhou um coração no pé da carta!

O pai, visivelmente espantado:

“Eu não te entendo. Simplesmente não te entendo! Você falou dias e dias que ele é engraçado, inteligente e lindo. Agora me conta que mandou flores, bombons e carta. Detalhe importante: carta sem erro de português, coisa rara nos dias de hoje, e exatamente por isso você não mais se interessa pelo rapaz? Explique a esse velho pai o que se passa em sua cabecinha, minha filha, explique!”

A Menina até então empoada se encolhe no sofá como se uma gata fosse e dispara:

– É por isso mesmo pai, esse modelo não existe mais, então não tem manual de uso nem peça para reposição. Melhor fugir enquanto é tempo.

Ao pai admirado só restou se conformar:

“Mulheres, cada geração entendo menos.”

 

 

Professor.

Não o fora desde sempre.

Antes que ali chegasse fora atendente, entregador, boy e empresário.

O ramo?

Pizza.

Mais especificamente,  tele pizza.

Ele fazia, atendia, entregava, fazia serviço de banco e administrava.

Entre uma coisa e outra, também namorava.

Visitava a namorada no carro estampado:

“Tele Pizza do Magrelo”

Fazia sucesso, engordava a galera.

Um dia, saindo da casa da namorada, distraiu-se e acertou em cheio um carrão que estava parado ao lado.

Que droga!

E agora?

O estrago fora grande.

Saiu de fininho e consultou seus pares:

“Alguém viu?”

– Ninguém.

“Então esquece isso. Ninguém viu, não foi você.”

Ele bem que tentou esquecer.

Mas enquanto atendia, entregava, fazia serviço de banco, administrava e namorava, a única coisa em que pensava era:

“Bati no carro de um cara e não assumi. Sou mesmo um frango magricela.”

O dia de namorar chegou outra vez e quando ele estacionou seu carro estampado e foi andando para a casa da namorada viu o amassado.

É, por que ao encontrar outra vez o carro que batera nem o enxergou, só viu o que fizera.

“Mas que droga! Agora esse carro vai me perseguir?” – disse seguindo seu caminho.

Arrependeu-se:

“Vou resolver esse negócio agora!”

Tinha uma quadra ali perto e ele imaginou que o dono lá estivesse.

Foi andando e sentindo-se meio bobo, ainda ouvindo o conselho que recebera:

“Ninguém viu, então não foi você.”

– Oi, por favor, de quem é aquele carro ali?

– É do Rubão.

Quando ele viu o Rubão quase se arrependeu por ter começado aquela remissão.

Rubão era enorme.

Sem a menor sombra de dúvidas seus dois braços magrelos não dariam um daquele gigante.

Mas agora era tarde, tinha que continuar.

O importante seria a abordagem.

“Oi, Rubão. Dia desses estacionei perto do seu carro e na hora de sair o acertei. Naquele dia não tive como procurar por você, – mentiu- mas como faço para acertar isso?”

O cara passou de espantado a feliz em poucos segundos.

Magrelo e Fortão combinaram como fariam para que o carro ficasse com a lataria consertada.

Dinheiro transferido, amassado consertado, ninguém lembrou mais disso.

O tempo que não para foi suficiente para transformar o atendente, entregador, boy, empresário em professor de sucesso.

A magreleza não desaparecera, mas diminuíra consideravelmente e o dono da Tele pizza do Magrelo agora distribuía conhecimento para centenas de alunos a cada semana.

Até que um dia, em um dos corredores:

“Professor, você bateu no meu carro.”

“Eu? Quando fiz isso?”

O aluno apresentou-se, era o Rubão.

Eles relembraram a história, deram boas gargalhadas e o professor seguiu para a próxima aula, satisfeito, por ter sido um atendente, entregador, boy e empresário de conduta escorreita e ilibada.

E, assim, anos depois, poder lembrar e gargalhar em vez de se envergonhar.

 

 

 

 

Ontem foi aniversário do meu maior pesadelo.

Mesmo tendo passado tanto tempo nunca me esqueci da afronta pela qual passei.

Estava a Menininha doente quando o pai foi até Ele e pediu que a curasse.

Ele que ocupado estava continuou cuidando de seus afazeres.

Daqui a pouco os empregados chegam com a notícia de que ela não precisava mais de ajuda.

Havia morrido.

Ponto para mim.

E Ele, com a maior tranquilidade, fala para o pai acalmar-se.

Vai lá e traz a menina à vida.

Como assim?

Desde que comecei nesse jogo nunca um ponto me tinha sido tirado.

Desde então passei a acompanha-lo mais de perto.

Outro dia, enquanto caminhava, Ele se depara com um cortejo fúnebre.

Eu já tinha computado mais aquele ponto e já estava em busca de outros quando eles se encontraram.

Consolou a mãe daquele que não mais respirava e falou com o garoto.

De um segundo para o outro, ele começou a falar.

Eu, que não sou acostumada a ter gol anulado,  queria ver o fim daquele, que agora me desafiava de maneira recorrente.

O tempo passou e eu até já estava mais tranquila quando o encontrei chorando à beira de um túmulo.

Logo vi que aquilo não iria prestar.

Ele mandou que aquele  fosse aberto.

Como assim?

Chamou seu amigo que já estava lá há quatro dias e o cara veio. Todo enrolado em panos como fora ali colocado. Mas veio .

Minha revolta só aumentava e o único pensamento que eu tinha era que Ele deveria ser levado por mim.

No dia em que isso acontecesse, eu não mais teria problemas.

E esse dia chegou.

Fiquei deveras aliviada quando o tomei em meus braços.

A brincadeira de perde e ganha havia enfim terminado.

Passados três dias, um terremoto.

Quando isso acontece, recebo centenas, milhares de pontos de uma só vez.

Não nesse.

Após a Terra sacudir,  Ele veio de onde estivera com uma beleza e majestade nunca antes vista.

Não só veio como trouxe alguns de seus amigos que já eram meus.

Isso tem muito, muito tempo.

Mesmo assim, a cada ano nessa época, eu me recordo.

É que Ele disse que um dia irá virar o placar em definitivo.

Os que nEle creem se alegram.

Eu tenho medo.

 


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