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Naquela pequena mala levava todos os seus pertences.

Nem sempre fora assim.

Tinha casa e tudo que era preciso para encher uma.

Mas agora, não mais.

O que enchia a casa?

Vendera, doara, deixara para trás, esquecera.

Agora, seu mesmo, só o que conseguia carregar.

Ao descer do avião ninguém a esperava.

Prestou atenção ao que conversavam ao seu redor e não compreendeu uma só palavra.

Língua desconhecida.

País desconhecido.

Pessoas desconhecidas.

Ela decidira o que acreditou ser o melhor para si.

Ao encarar tudo a sua volta teve outra vez a mesma sensação de hora do embarque, quando se despediu de seus amores: um frio na barriga sem tamanho misturado com vontade de se encolher em sua zona de conforto.

Estufou o peito.

Fora recomeçar.

Sozinha.

Completamente sozinha.

Não tinha para onde voltar.

Queimara todas as suas pontes.

Tivera oportunidade de recuar, continuara.

Aquele caminho que escolhera trilhar não tinha retorno ou opção de marcha ré.

Era somente para frente.

Ainda com medo, e com o frio subindo e descendo pela sua barriga, parou em frente ao espelho mais próximo.

Ficou olhando nos olhos daquela criatura assustada que a encarava e tomou sua posição de coragem: peito estufado, mãos na cintura, queixo levantado.

E assim, empoada como a Mulher Maravilha sem a roupa vermelha, declarou na língua que ninguém ali entendia:

“Você veio tão longe para realizar seus sonhos e ser feliz. Não saiu do meu país pra vir ter medo em terra alheia!”

Pronto!

Saiu do aeroporto como quem pisa no próprio chão e com cara de vencedora foi rumo ao desconhecido!

 

E vai caminhando, jurando que está fazendo tudo certo.

Até que um dia, puft!

Quebra a cara!

Mas como?

Andou pelo caminho correto. Fez tudo certo.

Continua a caminhar.

Vai mais um pouco.

Um pouco mais e puft!

De novo, quebra a cara!

Quando repara que quebrou de novo, outra vez, senta-se e repete:

“Não é possível tanta quebradeira para uma cara só!”

Para, descobre o motivo da quebradeira, muda de estratégia, troca os instrumentos e tenta outra vez.

E lá vai ele, caminhando de cara inteira.

Às vezes não basta, continuar tentando, é preciso tentar diferente.

 

 

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Em algumas situações, é melhor que não tivesse nem estivesse.

Em outras, melhor mesmo seria se nunca tivesse sido.

Quando a situação ocorre na ficção, aquele que melhor seria não estar, simplesmente faz as malas e se vai. Outras vezes, simplesmente, pluft!

Fim do problema e seu agente!

Ou melhor, ainda: quando algo está incomodando muito, muito mesmo, lá ao longe, ouve-se um trovão e a pessoa leva um susto: tudo não passava de um sonho.

Mas, na vida real…

A vida real não há trovão ao longe nem pluft.

Quando algo ou alguém incomoda o que é possível fazer?

Lembro direitinho a primeira vez que desejei que o “autor” fizesse um indivíduo viajar.

Desejei, desejei e desejei.

Nada aconteceu.

Ele não desapareceu quando eu queria!

O jeito foi encarar o mala, aprender a conviver, remediar, contornar.

E, por incrível que pareça, um belo dia, ele se foi.

É certo que deixou atrás de si estragos que nunca foram remediados.

Efeito furacão: destruição para todos os lados.

Mas o mais importante é que um dia ele se foi e nunca mais voltou.

Aí agora, eu posso te falar que se hoje você estiver convivendo com um mala em casa ou no trabalho fique tranquilo, quando você menos esperar ele vai embora.

Posso, mas hoje não.

Hoje eu digo, queridão: Abre o olho, cuidado e fique esperto, não seja o mala da vez!

 

 

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A primeira vez em que Ela viu todo mundo junto, ficou completamente encantada.

As pessoas sendo vistas sem verem quem as via!

Que coisa espetacular!

Para Ela, que sempre vivera com amigos imaginários, foi um prato cheio, a imaginação foi a mil.

A galera reunida durante todo o tempo e Ela de longe, vivendo tudo, observando cada detalhe.

O tempo passou e, pouco a pouco, a turma foi se desfazendo.

Quando cada um foi para um lado, a habitação coletiva da sua imaginação também foi ficando
vazia.

E, por fim, foram todos embora.

O lugar onde se reuniam deserto ficou e sua cabecinha mirabolante foi cuidar de outras coisas.

Esse encontro, a cada temporada, com um povo diferente, foi-se repetindo em ciclos de 365 dias.

E Ela, que gostou tanto, tanto, tanto do primeiro, gostou tanto, tanto do segundo, gostou tanto
do terceiro, gostou do quarto e do quinto, bem do quinto Ela ficou sabendo de uma coisa ou
outra.

Um belo dia, Ela soube que o encontro daquele ano começaria.

Por puro acaso põe-se em frente à vitrine e esperou que começasse.

Quando o espetáculo começou, lembrou-se de o quanto já havia gostado e se empolgado com
tudo aquilo que à sua frente começava a se desenrolar.

Pensou que todas as coisas já ali vividas iriam se repetir.  Assistiu e esperou.

Assistiu mais um pouco e nada de super interessante aconteceu.

Assistiu e mais um pouco e mudou de canal.

Como assistira àquilo durante tanto tempo?

Caso resolvesse ajuntar o tempo ali empregado, resultaria em semanas, meses até.

O que vira de tão interessante em pessoas desconhecidas morando juntas, paquerando,
comendo, dormindo, se pegando, malhando?

Elas faziam tudo que Ela, eu e você fazemos. A única diferença é que dormiam e acordavam
sendo vistas.

Bem que queria continuar vendo, mas não mais conseguia.

O que mudara?

Nada!

Apenas Ela, somente Ela mudara!

E isso muda tudo.

Muda tanto que faz até com que nesse instante o controle da TV faça com que a tela fique
preta.

Depois disso foi cuidar da própria vida.

Afinal, muito mais interessante é viver a própria vida que sonhar a vida alheia!

 

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A coisa mais difícil que fez na vida.

Tentava da direita para a esquerda.

Dava errado.

Tentava da esquerda para a direita.

Errado outra vez.

De cima para baixo, de baixo para cima.

Não dava jeito, continuava errado.

Parava, respirava.

Tentava outra vez.

E, assim, foi durante um longo tempo.

Em um dia, não se sabe nem quando, um pedacinho, um pouquinho começou a dar certo.

O desafio era tão grande, tantas coisas a serem feitas e acertadas que nem houve tempo para comemorar.

Continuou, a partir daquele pequeno acerto, tentando outras estratégias.

Os acertos foram se multiplicando.

Alguns vieram como avalanche, de uma só vez.

Outros demoraram tanto para acontecer que pareciam que, na verdade, nunca viriam.

Quando essa fase de “não vai dar tudo certo” chegou, pensou em desistir.

Parou.

Respirou.

Continuou.

Um belo dia a fase passou.

Quando?

Não se sabe.

Estava trabalhando tanto que nem viu quando ela se foi.

E, quando viu, de um minuto para o outro, tudo aquilo que era tão difícil fazer entrou no modo automático.

Todas as etapas.

Das impossíveis às facílimas.

Tudo foi conquistado.

O segredo?

Não existe um grande segredo.

Apenas continuar trabalhando o difícil só até ele ficar fácil.

 

 

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Já ficou de cabeça para baixo?

Pendurado pelas pernas no parquinho ou no balanço de pneu?

Ou ainda, quem sabe plantando bananeira?

Não?

Então, por favor, caso você tenha passado dos 30 e não seja praticante de ioga, por gentileza, não queira testar como é ficar de cabeça para baixo no parquinho da praça, no balanço de pneu ou plantando bananeira na parede mais próxima.

Lamento, mas isso pode ser contraindicado.

Por isso, tenho outra sugestão de como ficar de cabeça para baixo de maneira mais segura: deite em sua cama de barriga para cima e deixe o pescoço pendurado.

Não vai ter a mesma emoção nem o frescor do parquinho, da bananeira, do pneu, mas vai, mesmo assim, estar de cabeça para baixo.

E, estando assim, de cabeça para baixo, as ideias caem.

Ninguém, de cabeça para baixo pensa da mesma maneira que pensaria se de cabeça no lugar estivesse.

A primeira coisa, o céu vira chão e a gente quer porque quer colocar-se ereto, pisar o azul, o teto.

E, quando se tem, como estrado para os pés, o céu, tudo que antes parecia ser impossível tornasse real e as possibilidades multiplicam-se!

É possível ver, por uma nova perspectiva, tudo em volta, todo o resto.

Imaginar novas possibilidades, crer ser possível o até então inconcebível.

De cabeça para baixo, as ideias caem, não no chão para serem varridas e descartadas. Elas caem de onde até então estiveram acomodadas, por vezes, esquecidas, empoeiradas.

Quando mudamos a cabeça de lugar, tudo que lá dentro estava ordenado e certo movimenta-se de um jeito diferente e passa a ocupar outro canto, novo espaço.

E, quando as ideias caem, as coisas acontecem.

De verdade que acontecem de um, dois, três, vários jeitos até então impossíveis.

E Você, que até antes de deitar-se assim, tinha as ideias na casinha, passa a enxergá-las soltas no céu, no ar, no mundo.

Mude hoje a posição do seu pescoço e se surpreenda com inúmeras possibilidades!

 

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O vento soprava manso e constante.

Como música, embalava as folhas e flores, que se exibiam singelamente.

Naquele momento, seus cabelos acompanhavam o sentido das flores.

Emoldurando seu rosto, transformaram-no em obra de arte em movimento.

Voltando a cabeça para trás, a fim de afastar da boca a moldura que voava, seus olhos o encontram.

Sempre o admirara em todas as suas nuances, mas naquele dia a beleza do espetáculo diário estava simplesmente fora do comum.

Eram cores que nunca havia visto, ou, se em algum dia vira, não notara com a atenção devida.

Encantou-se e diminuiu o passo, mudou de direção.

Desligou o modo automático e sentou-se sob a primeira árvore que encontrou.

Não podia, não naquele dia, perder um espetáculo tão sublime.

Ao observar encantada os inúmeros tons de cores diferentes que se espalhavam pelo azul do céu, enquanto ele iniciava sua despedida, lembrou-se que eram dois espetáculos diários.

Duas sessões completamente distintas, inéditas.

Todos os dias, em dois horários, em todos os lugares em que estivesse.

Um na chegada outro na partida.

Aconteciam desde sempre.

Esse era o motivo!

Essa era a razão pela qual não se admirava mais: a certeza da repetição, do bis.

Mas não!

Não há repetição.

Nunca.

Cada vinda e cada ida são únicas.

Nada se repetem.

Como tudo que existe por aqui, não há como repetir.

Aquele que, agora, à sua frente acontecia era absurdamente inigualável.

Lindamente inigualável.

Consciente do privilégio, parou de divagar e se deteve apenas em admirar o espetáculo inédito que ali acontecia: aquele belo por de sol que jamais se repetiria.

 

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– Mexa-se! Mexa-se!

E Ela ali.

Parada, olhar perdido, pernas bambas.

Um dia, sem que o relógio ou o calendário houvessem parado, a Senhora a convida para conversar:

– Minha querida, você precisa se mexer.

Ela, cabisbaixa e lacrimosa, concorda em silêncio.

– O que você tem? Não está feliz?

Levanta os olhinhos cheios de lágrimas e maneia a cabeça com um sorriso há muito escondido.

– Está? Você está feliz? É isso mesmo que quer?

Ainda sem palavras, ela concorda sorrindo, enquanto uma lágrima solitária rola lentamente.

– Então, minha querida! Já que está feliz e é isso que você quer, tem de se mexer!

Ela passa as mãos pelos cabelos como quem tira dali um pó invisível.

Ajeita os ombros, respira fundo e começa a trabalhar.

Telefonemas.

Visitas a sites especializados.

Roupas.

Guloseimas.

Bolo.

Anúncios.

O tempo, que nunca havia parado, passa a velocidade da luz.

Ela, que agora toma providências e decisões, nem nota quando o dia chega.

Tudo pronto.

Entra sorridente.

Andar firme e altivo como se nunca tivesse sido tomada pela agonia.

Tudo lindo.

Perfeito.

A Senhora, que estivera à frente, ao lado e junto todo o tempo, a chama em um canto:

– Tudo isso está belíssimo. Você se mexeu na direção certa. Meus parabéns!

E Ela, que sempre se mantivera em silêncio quando o assunto era sua falta de movimento, sorri:

“Ficava quieta para ter a quem culpar.” – falou na maior naturalidade.

– Como assim?

“Eu tive medo.”

– Então, eu declaro: a partir de hoje, todos os medos que você tiver serão asas. Assim, quando algo que a amedronta surgir, em vez de ficar parada, você vai voar, olhar do alto o que aflige e, quando descer, saberá exatamente o que fazer. Não se preocupe, a partir de hoje será tudo mais fácil.

Elas se abraçaram satisfeitas e foram curtir a festa.

Vivi Antunes é ajuntadora de letrinhas e assim o faz ás segundas, quartas e sextas no www.viviantunes.wordpress.com

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Já reparou os insetos surgem nos momentos e lugares mais inadequados e inconvenientes que existem?

Aparecem sem convite e querem, como se amigos fossem, tomar conta do ambiente, explorando e quase demarcando território.

E, aí, estou eu naquele lugar aonde não convêm ir acompanhado, quando surge a mais asquerosa de todas as criaturas.

Como boa representando do sexo feminino, passei a vida evitando matar baratas.

Elas apareciam, eu gritava e geralmente vinha um cavalheiro que me salvava do monstro alado.

Até que um dia, o invasor surgiu no meu quarto, eu gritei e, na mesma velocidade em que foi o grito, ouvi o retorno:

“Mata você!”

Eu, que queria qualquer coisa menos dormir com a barata, tive que ir à luta e matar o monstro.

Não sei se a pobre infeliz morreu da pancada ou do escândalo, porque foi tanto grito, tanto barulho que é melhor nem comentar.

Desde então, estabeleci um critério:

Caso ela surja no meu quarto, eu mato!

Só que existe a tal mobilidade da criatura.

Com o passar do tempo e inúmeros “Mata você”, comecei a alargar as fronteiras do critério e, agora, quando encontro um monstro, vou lá mato e ainda jogo fora!

Nos dias de hoje sou uma heroína!

E, aí, estou eu naquele lugar aonde não convêm ir acompanhado, quando surge a mais asquerosa de todas as criaturas.

Abandonei meu momento de profunda meditação e fui pra cima da invasora.

Ela era miudinha, a batalha foi vencida com certa facilidade: em pouco tempo a inimiga estava de pernas para o ar.

Demorei alguns instantes para recolher o cadáver e, quando peguei o material necessário, um pedaço generoso de papel higiênico, e me aproximei, surpresa: ela saiu correndo!

Como assim?

Ela estava morta, eu juro que estava!

A bicha saiu correndo com tanta desenvoltura que o poder das chineladas desferidas contra ela caíram por água abaixo.

Foi dado início a uma nova batalha, dessa vez muito mais aguerrida. Ela correu em maior velocidade e minhas chineladas foram desferidas até a completa rendição.

Fiquei admirada com a safadeza da bichinha.

Já pensou?

Fazer-se de morta para me levar a pensar que venci e, depois, continuar a vida tranquilamente?

Vê se pode um trem desses?

Mas certa estava ela. Afinal, quem, na hora da crise, não reinventa suas estratégias, morre mais cedo.

 

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É cada escolha besta que a gente faz ao longo da vida, cada decisão mal tomada que depois de tudo passado restando somente às consequências, a única coisa que nos cabe fazer é lamentar e pensar:

“Onde eu estava com a cabeça?”

Por que assim, toda decisão tem consequências né?

Desde o casamento que você decide dizer Sim até o regime que você escolhe hoje e amanhã  dizer Não têm consequências:

Anos e anos de felicidades depois do sim, anos e anos de obesidade e flacidez depois do não.

Não tem jeito: a vida é feita de escolhas, decisões e consequências.

E aí, vai-se pela estrada a fora dizendo sim aqui, não ali e acolá. E depois, um, dois, três passos  às vezes cem, mil logo à frente, damos de cara com o resultado daquilo que escolhemos.

E são tantas alegrias, tantas bordoadas.

Cuide-se hoje, amigão, melhores decisões, menos bordoadas!

 


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