Arquivos de ‘Vivi Antunes’ Category

 

Nunca conhecera casa tão perfumada. Até mesmo com a porta fechada dava para sentir o aroma.

 

Ela não era de frequentar a casa dos outros.

Sempre foi quando era convidada ou quando a pessoa adoecia.

Nunca você chegaria a sua casa e não a encontraria por estar na vizinhança.

Quando ia, se ia, era para fazer alguma coisa muito específica.

Ia e voltava rapidinho.

Tanto que, passado um ano morando na “casa nova”, não sabia o nome da sua vizinha que dividia a parede da sala com a dela.

Encontrou-se  com a moça por duas vezes na porta do elevador.

Duas vezes em um ano!

Por quê?

Ué, as rotinas delas eram completamente diferentes, por isso, não se viam nunca.

O que Ela sabia da moça que usava um lado da sua parede da sala na parede da sala dela?

Nada.

Assim, praticamente nada.

Sabia que a moça era casada com um cara bem cheiroso, por sinal, era mãe de uma menininha e um menino e só.

Ela sabia do perfume do moço por conta do elevador, aquele espaço minúsculo onde as pessoas se sentem mesmo sem querer.

Isso era tudo que Ela sabia da sua vizinha.

Sabia também que ela fazia crossfit na academia da esquina.

O marido da moça, em uma dessas viagens no meio de transporte vertical, contara a Ela.

Pois bem, esse era todo o relacionamento que tinham.

“Você já pegou tudo?”

– Tudo aqui.

“Então chama o elevador.”

-Tá.

Quando acabam de carregar o carro, entraram, colocaram o cinto e Ele colocou o possante para funcionar.

“E o lanche?”

– Deixei em cima da pia e falei para você pegar. Se a gente deixar, além de passar fome no caminho, quando voltarmos vai ter estragado.

Ele tirou o cinto e abriu a porta:

“Vou lá.”

– Já que você vai mesmo, pega minha bolsinha de maquiagem que está em cima da pia do banheiro.

“Você vive se aproveitando de mim.”

Bateu a porta e saiu rindo.

Abriu a porta, foi ao banheiro, pegou a bolsinha, passou pela cozinha, pegou o lanche e a garrafa de suco.

Na hora de fechar a porta, colocou a bolsinha no chão.

O elevador chegou, Ele entrou e foi embora.

– Aqui seu lanche, gordinha.

“Nossa, tô louca por essa pipoca.”

E lá foram os dois, felizes, contentes, radiantes e sorridentes.

Lá pelas tantas, no terceiro dia de viagem…

“Onde está minha bolsinha de maquiagem?”

– Agora pronto, tenho que saber até das suas maquiagens.

“Ué, você voltou pra buscar o lanche e eu pedi para pegar minha bolsinha de maquiagem.”

Ele com a cara mais blasée do mundo:

– Peguei não!

Ela nem deu tanta importância assim, afinal, já estavam quase voltando para casa e só agora sentira  falta, então, porque não era importante de fato.

Os dias de folga acabaram e eles voltaram.

Ela subiu na frente entrou e começou a ajeitar as coisas.

Pouco depois, Ele chega com a bolsinha de maquiagem na mão.

– Olha o que o porteiro me entregou.

“Como assim?”

– Eu deixei na nossa porta e a vizinha entregou lá.

“Misericórdia! Tenho que agradecer a essa mulher!”

Na hora, sem nem olhar o que estava ou faltava em sua bolsinha de maquiagem, Ela tocou a campainha da vizinha.

A moça atendeu prontamente e, quando abriu a porta, Ela sentiu o mais gostoso dos perfumes vindo de dentro de uma casa.

Não era cheiro de casa limpa.

Era mais.

Era diferente.

O perfume que vinha lá de dentro era tão suave, tão gostoso que a vontade que deu foi de entrar e sentar.

Agradeceu, comentou da lerdeza do marido, elas sorriram, se despediram e a porta foi fechada.

Ela voltou completamente impressionada:

“Amor, nunca vi uma casa tão cheirosa em toda a minha vida.”

E passou a procurar tudo que foi jeito de deixar a casa deles perfumada também.

O tempo passou e as duas tornaram-se amigas.

Um dia, enquanto comiam um bolo de chocolate, a moça dispara essa:

@Lembra aquele dia que você me chamou para falar do escorpião que tinha aparecido no seu banheiro?

“Lembro.”

@Dá sua casa vinha um perfume tão gostoso, sua casa cheirava tanto que chega fiquei constrangida.

“Por quê?”

@Nunca tinha conhecido uma casa tão perfumada. Daquele dia em diante, passei a procurar alguma coisa para deixar a minha cheirosa também. Será que consegui?

Ela sorriu, concordou e ficou quieta.

Afinal, fazer-se admirar é mais bacana que ficar admirado!

 

 

 

 

 

 

Usar topete é questão de atitude ou de pirraça!

 

Em uma bela manhã do dia 15 em um mês de 30 dias, Ela acorda e se dá conta de que dormiu com o Bamba Leão.

Caro leitor, se você, assim como eu, foi criança na década de 80, assistiu ao  Bambalalão e conheceu o Bamba Leão, conte para a minha pessoa, por favor!

É que tem hora em que eu falo da Juma Marruá e ninguém lembra, aí fico arrasada.

Voltemos à bela manhã do 15º dia de um mês de 30 dias.

Ela abriu os olhos e começou a passar a mão nos cabelos do marido que dormia tranquilamente:

“Está na hora de cortar o cabelo, gato. Tá começando a ficar parecido com Bamba Leão.”

Ele, sem abrir os olhos:

– Vou cortar quando tiver vontade – falou e virou para a parede.

Ela ficou indignada, sentou-se na cama e jogou as cobertas longe:

“Misericórdia! Tá mais para um javali desembestado. Estou só tentando cuidar de você, não precisa comer minha mão antes de ver o sol da manhã. Fica andando todo desgrenhado, parecendo menino abandonado.”

Ele, calado e quieto estava, continuou como se nunca houvesse acordado.

E Ela, que tivera seu falador estimulado nos primeiros quinze minutos de consciência do dia, continuou:

“Menino abandonado não, porque você é homem velho, anda feio até a hora que quiser. O que eu acho triste é que o povo vê o cara largado desse jeito e sai falando que a mulher é que não cuida. Mas, senhoras e senhores, seres celestes que nos observam nesse momento em que o sol começa a espalhar sua luz nessa parte do planeta Terra, escutai-me: estou tentando manter esse moço alinhado, mas ele, além de não me atender, ainda está sendo mal educado. E olha que eu tenho certeza que a mãe dele fez um bom trabalho e…”

E chega, né, minha audiência?

Se eu continuar contando detalhadamente tudo que Ela falou nessa primeira hora de consciência, depois que Ele disse que iria cortar o cabelo somente quando tivesse vontade, você não fará outra coisa nesse dia, só ler esse texto. Ou, quem sabe irá abandoná-lo antes de saber o desfecho dessa história.

Por esse motivo, vamos em frente:

Lá pelas tantas, quando Ela falava que, talvez, a culpa de ele querer cultivar aquela cabeleira seja porque, na infância, morou dois anos com um tio que era hippie e seus cabelos passaram 24 meses sem chegar perto de tesoura, Ele resolveu reagir:

Disse o mais sonoro dos palavrões e se colocou em pé:

– O único dia em que eu posso dormir até mais tarde na semana, o único dia em que tenho a chance, o privilégio, de levantar depois do sol, você tem que me acordar falando como uma metralhadora giratória! Para que isso?

Ela parou o que estava fazendo e, levantando o dedinho fino, decretou:

“Eu acordei  fazendo um carinho e você, ogro mais que tudo, veio ser mal educado comigo. Mas, pode deixar, por mim você pode virar o Capitão Caverna, nunca mais falo nada!”

Ei, você! Do Capitão Caverna você se lembra, né? Aliás, tem alguém aí que não se lembra do Capitão Caverna?

Ela falou, virou as costas e saiu.

Ele tentou argumentar alguma coisa, mas Ela já estava em outro lugar da casa, fazendo barulho e cantando como se nada tivesse acontecido.

O mês que estava no meio acabou e ele “não teve vontade”.

De vez em quando, enquanto namoravam, Ela passava a mão pelo cabelo dele e dava umas puxadas assim mais enérgicas, como quem quer arrancar pedaço e pensava entre um beijo e outro:

“Ai se eu desse conta de arrancar uns pedaços desse cabelo na mão, se eu tivesse coragem de raspar enquanto Ele dorme…”

E Ele, entre um amasso e outro, ao sentir o puxão de cabelo:

– Tá empolgada a minha gostosa, como tá empolgada.

Ela nunca mais tocou no assunto.

Que fique claro, aliás, muito claro, claríssimo:

O fato de Ela nunca mais ter falado nada sobre seu cabelo não é que tenha esquecido ou deixado de se incomodar. Seu silêncio simplesmente persistia porque Ela tinha dito a fatídica frase:   “Nunca mais falo nada” e, quando essa sentença era proferida a moça podia morrer, mas morria calada.

Até que um dia…

– Vamos sair para comer?

Não sei se para você é assim, mas para Ela, chamar pra comer é um convite e tanto. Se for para comer sanduíche com batata frita grande e refrigerante aí que não tem programa melhor mesmo.

E esse foi o caso.

Ele chamou e Ela aceitou sem nem piscar.

Depois deu uma olhada para dentro do bucho e viu que ele nem estava tão vazio assim, mas, como já tinha aceitado o convite, não podia fazer desfeita.

Em dois minutos, estava pronta.

Foi ao banheiro só para pentear o cabelo, quando se deparou com a seguinte cena:

Ele molhando o cabelo, pegando uma escova e penteando tudo que tinha na cabeça pra frente:

– Está passando da hora de cortar esse cabelo.

Ela se encostou à parede atrás dele, cruzou os braços e ficou segurando o riso.

Ele jogava o cabelo para um lado e nada de ajeitar.

Jogava para o outro e não tinha jeito.

E Ela ali: parada, calada, faltando explodir para não rir.

– Nessa casa não tem creme de cabelo – falou e foi logo pegando o primeiro hidratante corporal que estava sobre a pia.

E Ela a postos acudiu:

“Tem, tem sim”  –  falou abrindo uma gaveta e entregando a Ele o creme para pentear.

Nessa hora, Ela já estava rindo, baixinho, o mais controladamente possível, mas rindo da cara do moço.

Foi quando Ele se enfureceu:

– Você vai fazer xixi?

E Ela, que já estava nas últimas, respondeu baixinho:

“Não!”

– Então, vai embora, vai. Vai embora, por favor.” – Ele falou e foi empurrando a moça porta afora e batendo a porta com toda a força que tinha.

Quando se viu longe do seu olhar descabelado, Ela deixou que o riso fosse para onde quisesse e, aí, pronto, tomou conta foi da casa inteira!

Ela ria com gosto.

Ria, mas ria tanto que as lágrimas quiseram participar.

E não tinha como disfarçar, segurar, nada!

Ficou rindo ali mesmo, na porta do banheiro.

Como dizem, riu tanto que desopilou o fígado.

E Ele, lá dentro, se penteado ao som de suas gargalhadas.

Quando saiu, era o Neymar em seus tempos de topete.

“Misericórdia, o que é isso?” – disse Ela parando de rir imediatamente.

– Vou de Neymar! – falou como se fosse o próprio dono do mundo.

Ela ainda tentou argumentar:

“Faz isso não, amorzinho. Tá feio demais.”

Estava realmente medonho: um topete super mal feito e cacheado quando chegava ao alto. O restante do cabelo todo desalinhado.

Um horror!

Mas Ele, como se pudesse justificar tudo com meia dúzia de palavras:

“Eu nem ia pentear os cabelos, fui tentar dar um jeito para sair com você, mas você, sem dó nem piedade, nem tentou me ajudar, ficou me zoando, então, em sua homenagem, vou de topete.”

Ela tentou argumentar, falou que estava feio, muito feio, mas nada deu jeito.

Quando entraram no elevador, pensou que ia vencer quando Ele se viu no espelho:

– Eita! Tá mesmo muito feio. – falou e virou o corpo como se fosse voltar a casa.

Nessa hora, Ela estendeu a chave da porta, mas recomeçou a rir.

Ele voltou:

– Vou assim mesmo.

Ela ficou indignada, é fato, afinal, estava saindo com um marido topetudo e com o topete mais mal feito e desenjambrado do mundo.

Deu uma emburradinha de leve, mas, quando se lembrou da cena em que Ele estava com o cabelo todo penteado para frente e do alívio que sentiu por Ele ter mudado o penteado ,ficou feliz:

“Ainda bem que você é grande. Assim, pouca gente vai reparar esse cabelo encantador.”

É certo que Ela tentou andar de braços cruzados, não pegar na mão, mas não teve jeito:

– Dá a mão aqui, tá pensando o quê? Nessa vizinhança todo mundo sabe que você é minha mulher. E olha ali: Oi Dudu, oi Fernandinha – cumprimentou uns amigos que passavam – tem jeito não, minha Nega, dá a mão.

Ela deu um suspiro:

“ Vem cá, meu gato de topete! É descabeludo, mas é meu amor!” – Deu uma risadinha, segurou a mão do moço e foi toda satisfeita ao encontro do sanduíche com batatas fritas!

 

 

 

 

 

Não há o que dizer: eles venceram mesmo!

 

Fico imaginando o que Ela falou a cada um na hora do abraço.

Embaixo daquela chuva que mais parecia ser uma participação especial do céu na festa, Ela estava ali, beijando, abraçando e falando.

Porque, sinceramente, de nada adiantaria aquele abraço encharcado se não houvesse uma palavra de carinho.

É certo que Ela queria estar dando parabéns pela vitória incontestável.

Mas a vitória que todos esperavam não veio.

Não veio?

Você acredita sinceramente que a vitória não veio?

Como assim não veio?

Eles ganharam tudo até aquele momento.

Chegaram para viver o momento mágico de estar na Copa do Mundo após repescagem, jogando contra a Grécia, vencendo de 4 – 1.

Depois um novo jogo, com a mesma Grécia, em que tudo estava praticamente garantido, com o resultado de 0-0.

Quando estrearam na Copa contra a Nigéria, venceram por 2 a 0.

Depois, no próximo jogo, venceram a Argentina, por 3 a 0.

Isso tudo aconteceu na fase de grupos e você me diz que a vitória que eles esperavam não veio?

Terminou a fase de grupos.

Começou o mata-mata, em que  quem perde o jogo volta para casa sem direito a água.

Oitavas de final.

Eles empataram com a Dinamarca por 1 a1 no tempo regulamentar.

Prorrogação, 1 a 1.

Sofridos pênaltis.

Ganharam por 3 a 1.

Mudaram de fase, foram para as quartas de final.

Empataram com a Rússia por 1 a 1 no tempo normal.

Na prorrogação o placar mudou, mas o empate continuou 2 a 2.

Pênaltis outra vez.

E, ao terminar a sequência de cobranças, eles ganharam de 4 a 3.

Contaram aos donos da casa que eles não poderiam mais brincar.

E continuaram!

Quando chegaram à semifinal, encontraram-se com a Inglaterra e conseguiram, com muita luta e garra, convidá-los a se retirarem da festa.

Venceram, na prorrogação, por 2 a 1.

E, na final, bem no último dos jogos da Copa da Rússia 2018, contra a França, eles jogaram com a mesma garra.

Jogaram com afinco e marcaram 2 gols.

Mas a França, sua adversária, marcou 4 e eles não levantaram a taça com que tanto sonharam, pela qual tanto lutaram.

Mas acho, sinceramente, que não podemos dizer que não venceram.

Eles venceram sim.

Venceram tudo até ali.

Pararam quando não tiveram mais tempo, quando não tiveram mais como lutar.

Pararam quando encontraram alguém que os impediu de continuar.

E, por isso, Ela estava lá com um beijo, um abraço e uma palavra de carinho para cada um deles.

Eles foram vencedores sim.

E merecem todos os afagos feitos por Ela, feitos pela nação a qual representam.

Parabéns Croácia, por todas as vitórias!

 

 

 

 

E quando uma fada abusada resolve invadir a sua casa?

 

Quando terminou o expediente, elas saíram e foram caminhando calmamente até o ponto de ônibus.

– O que você fará essa noite – perguntou enquanto procurava o cartão de passagem na bolsa.

“Hoje é quarta-feira, dia internacional da faxina lá em casa.”

– Ué? Faxina a gente faz no sábado!

“A gente quem, cara pálida? O sábado é de descanso. Faxina a gente faz na quarta!” – falou sorrindo como se fosse um programão para uma noite tão bonita.

– Você parece animada com o seu programa – falou a amiga achando graça.

“Animada? Nunca! Ainda mais hoje. Geralmente, na quarta, deixo tudo guardado, as coisas todas para cima, nada na pia, a roupa da semana toda lavada… Deixo a casa organizada só para chegar e começar a limpeza, mas, nesta semana, está um atropelo só. Não lavei roupa no começo da semana, saí correndo deixando para trás cama desarrumada, a pia cheia, tudo espalhado. O meu reino encantado está um caos.”

Ela contou todos esses detalhes ainda animadinha.

E a amiga começou a rir:

– E você ainda me diz tudo isso sorrindo? Sua noite será longa!

E Ela, com a cabeça erguida, o peito estufado:

“Minha irmã, de que adianta lamentar? Vou encarar o reino encantado da bagunça com pose de madame que, assim, dou conta de tudo mais rápido.”

Foi quando o ônibus da madame faxineira chegou:

“Eita! Meu motorista. Beijos, neguinha, até amanhã.”

– Beijos, madame. Divirta-se!

E Ela foi pela estrada afora sacolejando no ônibus, sentadinha – naquela parada, o ônibus ainda estava vazio- como se madame fosse em sua limusine.

Quando chegou à sua parada, despediu-se dos companheiros de viagem e desceu.

O sol esperava que ela chegasse para ir embora e, por isso, foi andando calmamente, como se desfilando estivesse até chegar à sua rua.

“Colocar a roupa na máquina, arrumar a cama, lavar a louça, guardar tudo que está fora do lugar, lavar o banheiro, meu quarto, o quarto do príncipe, a sala, o chão da cozinha e, para fechar a noite, a garagem. Mas, antes de tudo, tenho de colocar o lixo fora, está quase na hora do caminhão passar.”

Enquanto ia elaborando o plano de ação de sua faxina, viu de longe que na porta de sua casa tinha um pacote.

“Pai eterno, o que será aquilo ali na porta de casa?”

Apertou o passo. Afinal, a curiosidade era um ótimo combustível.

Chegou e foi dando uns chutes para tentar descobrir do que se tratava.

O volume estava em dois sacos de lixo.

Abaixou-se e viu a garrafa de suco que deixara em cima da pia. Junto, havia a bandeja de queijo e um copo de iogurte.

No outro saco, um vidro de creme e uns papéis coloridos que ela colocara no lixo do banheiro naquela manhã.

“Misericórdia! É o meu lixo” – falou sozinha já ficando apavorada.

“Divino Pai Eterno, proteja sua filha. Quem esteve na minha casa hoje?”

Abriu o portão e se sentiu o cheiro: a garagem completamente limpa e perfumada.

“Quem quer que tenha estado aqui jogou o lixo fora e lavou minha garagem. Jesus, abençoe a criatura.”

Agora Ela já estava tremendo dos pés à cabeça.

Era uma mistura de medo e empolgação:

“Acho que estou com medo de entrar. Que alguém esteve aqui eu tenho certeza, mas será que ainda está? Não tenho outro jeito, tenho que entrar. Senhor, proteja sua filha!”

Orou e abriu a porta.

Lá de dentro, veio o mais delicioso de todos os perfumes: o de produto de limpeza!

Ela, completamente atônita, começou a andar pela casa: não tinha louça na pia, as roupas sujas tinham desaparecido. Sobre o fogão, um bolo ainda morno.

“Meu Deus! Ninguém tem a chave da minha casa, quem foi o anjo que esteve aqui?”

Ela não sabia se ria, se chorava, se cantava, se dançava.

Continuou correndo pela casa e encontrou o banheiro lavado, no quarto, a maior, melhor e mais arrebatadora de todas as surpresas: sobre a cama, todas as roupas, que estavam acumuladas há meses, perfeitamente passadas.

Até as que estavam sujas tinham sido lavadas e passadas.

Ela não podia acreditar.

“Meu Deus, obrigada! Eu não faço ideia de quem fez isso, mas obrigada por mandar o anjo da limpeza aqui em casa. Eu prometo que nunca mais acumulo roupa pra passar!”

Foi enquanto ria, chorava e falava sem parar sozinha que Ela viu um bilhete no espelho do banheiro, escrito em letras grandes:

QUERIDINHA, ISSO FOI UMA AMOSTRA GRÁTIS DE COMO SUA CASA PODE SER A PARTIR DE AGORA.

AINDA BEM QUE ESCOLHI VOCÊ, SUA GELADEIRA ESTAVA UM HORROR!

E ESSE TANTO DE ROUPA ACUMULADA? FALTA UM POUCO DE ORGANIZAÇÃO NA SUA VIDA.

AÍ ESTÁ MEU TELEFONE, POSSO VOLTAR NA PRÓXIMA QUARTA PARA TE AJUDAR DE MANEIRA PERMANENTE COM TUDO ISSO.

MINHA DIÁRIA É DE R$ 150,00.

UM GRANDE ABRAÇO, FADA DA LIMPEZA.

Ela, que estava saltitando de felicidade, ficou muda olhando o bilhete.

“Mas, gente, que vaconilda! Invade minha casa, mexe onde não foi chamada e ainda me paga sapo falando das minhas roupas e geladeira? Tô dizendo mesmo.”

Deu um sorriso maroto, colocou de volta sua pose de madame:

“Fadinha querida, – falou sozinha enquanto caminhava pela casa –  acho que você não está mais aqui, mas muito obrigada pela geral, valeu mesmo. Deu até vontade de ficar com raiva de você, afinal falou mal da minha geladeira, reclamou da roupa que eu não dei conta de desencalhar, mas não vou perder tempo com rancor por suas palavras. – disse colocando as mãos na cintura, olhando para o alto –  Vou sim aproveitar a noite de folga que você me deu. Obrigada!”

E Ela, mais madame que tudo, pegou a bolsa e voltou pra rua!

 

 

 

 

 

Tem gente que sabe exatamente o que fazer quando o assunto é cuidar de outro alguém.

 

Algumas pessoas têm o dom de cuidar.

Dia desses, vi uma menininha beijando uma árvore depois de ter molhado umas plantinhas que estavam do outro lado do jardim.

A mãe, que observava ao meu lado, disse que ela ama cuidar das plantinhas.

Que, com ela, todas vivem bonitas, crescem.

Alguns cuidam de plantas, outros de pessoas.

Ele tem o dom de cuidar de pessoas.

Rapidamente torna-se responsável por aquelas que estão ao seu redor. Por seu bem estar físico e emocional.

As crianças gostam de sua presença, sentem-se seguras ao seu lado.

Ao tornar-se instrutor, seus pequenos atletas ouvem a sua voz e atendem, com alegria, as orientações por ele dadas.

E, quanto mais o tempo de convivência aumenta, mais carinho, respeito e admiração vão tendo por Ele. Não só os atletas, mas também suas famílias, pois veem que o cuidado e desvelo dispensados são reais, sinceros.

Por isso, quando chegou o dia em que tiveram suas vidas por um fio, se voltaram para Ele.

Todas.

E Ele, exercendo sua liderança já constituída, ensinou a maneira certa de respirar, o jeito certo de se concentrar para manter a calma e as manteve vivas e esperançosas até que tudo terminou.

Ele tem o dom de cuidar de pessoas.

De abrir mão dos próprios sonhos para cuidar de quem dele precisa.

Por isso, deixou o monastério quando sua avó precisou de cuidados.

Por isso, abriu mão da água e comida que eram suas para que seus atletas comecem.

Ele tem o dom de cuidar de pessoas.

E, cuidando delas, fazendo diferença em suas vidas, tornou-se inesquecível para seus 12 atletas.

Tornou-se um exemplo para o mundo.

 

 

Quando uma fitinha com amostra de perfume te faz voltar a ser criança…

 

Dia desses, estava andando no shopping quando, ao passar em frente a uma perfumaria, a moça me estendeu um papelzinho com a fragrância de um perfume.

Eu cheirei e, de um segundo para o outro, voltei a ter oito anos de idade.

Depois de 12 horas de viagem, sacolejando dentro de um ônibus da viação Penha, enfim, eu, meu pai e minha mãe estávamos chegando.

Perto da rodoviária, mamãe me acordou, penteou meus cabelos, dobrou a coberta e colocou na sacola, junto com o travesseiro.

Papai desceu as sacolas que estavam no bagageiro acima dos bancos e ficamos preparados para descer.

Os três olhando pela janela, procurando.

Ele ia nos esperar.

Nunca aconteceu de chegarmos e termos de pegar um ônibus ou qualquer meio de transporte para irmos até sua casa.

Sempre estava lá: calça e camisa sociais, sapatos bem engraxados, cabelo engomadinho, chave do carro e pastinha preta.

A pasta ficava embaixo do braço e a mão do mesmo braço batia a chave na perna.

Encostado na grade da plataforma de desembarque, ele nos procurava dentro do ônibus.

Naquela época, as janelas dos ônibus se abriam, por isso, nossos olhares se encontravam muito antes do desembarque.

Descíamos empolgados e, enquanto meu pai se preocupava em pegar a bagagem, eu e minha mãe íamos ao encontro do seu abraço cheiroso.

“Oi, minha boneca.”

Era o cumprimento de sempre.

Quando as bagagens estavam todas reunidas, eu levava o travesseiro e a coberta, cada um pegava uma coisa e íamos para o carro.

O carrinho, que sempre era mais moderno que o do meu pai, estava limpo e arrumado.

Entrávamos nele e íamos falantes e sorridentes pela cidade ruma à Rua das Melancias.

Era um predinho bem simpático.

Três andares.

Nessa época, ele tinha na frente um parquinho de areia.

Lindo.

Não tinha garagem nem elevador.

Para chegarmos até a portaria, atravessávamos uma pequena alameda de sempre vivas.

Enquanto passávamos por ela, ouvíamos o cumprimento de quem nos esperava sorridente lá no terceiro andar:

– Meus amores, que bom que vocês chegaram.

Subíamos os três andares no maior barulho e satisfação.

Quando ofegantes chegávamos, a porta já estava aberta e ela nos esperava toda sorridente.

Ela nos abraçava forte, beijava e colocava rapidinho para dentro, como se tivesse medo de que fugíssemos.

E lá dentro era tão cheiroso.

Tinha aquele cheiro.

O mesmo cheiro que a moça me entregou em uma fitinha de papel naquele dia no shopping.

Peguei a fitinha e guardei.

@Tenho certeza de que lá em casa todos vão se lembrar.

Cheguei toda serelepe:

@Mãe, lembra-se desse cheiro?

Ela cheirou de um lado, cheirou do outro e disparou:

+ Nunca senti esse cheiro na vida.

Eu não fiquei parada me admirando, fui logo continuar minha pesquisa:

@Pai, o senhor se lembra desse cheiro, né?

Ele pegou, cheirou rapidinho e me devolveu:

^ É o cheiro da casa da sua vó Dirce.

Bingo!

Ele se lembrava.

Eu fiquei tão feliz.

Somos cumplices.

Só nós dois nos lembramos do perfume delicioso de um lugar feliz que não existe mais.

É como ter um grande segredo que, por fazer parte das lembranças afetivas, não pode ser divido com mais ninguém.

Será para sempre nosso.

Só meu e dele.

 

 

 

Era preciso encarar o espelho e encontrar aquela que um dia fora.

 

Ficou ali ouvindo a confusão que a chuva e o vento faziam lá fora.

De onde estava sua cama, no décimo andar, as janelas tinham os vidros chacoalhados violentamente.

No meio daquela tempestade, Ela pensou ter ouvido a campainha tocar.

– Não pode ser. Quem chegaria aqui em pleno domingo em meio a essa tempestade?

Cobriu-se mais ainda e fechou os olhos.

Quando fez isso, uma lagrimazinha do seu último choro deslizou de mansinho.

Foi quando ouviu novamente.

Dessa vez, não foi a campainha.

Ela deu um pulo da cama quando ouviu a porta ser esmurrada.

Saiu tropeçando e, no outro minuto, se viu com a mão na maçaneta e o olho grudado no olho mágico.

O irmão, mais molhado que um passarinho caído do ninho, tiritava do lado de fora.

– Irmão do céu, o que você está fazendo aqui ? – disse ela abrindo a porta e puxando o rapaz para dentro de casa.

“Eu aqui querendo só saber como está minha irmã, que resolveu virar urso, hibernar e desaparecer do mundo e olha minha situação.”

Ela o pegou pela mão e foi guiando até o banheiro.

– Entre aí e tome um banho quente, vou fazer um chá. Você já comeu hoje?

“Claro que não. Você sabe que horas são? Ainda não são sete da manhã. Acordei e vim te ver.”

– Era só telefonar, criatura.

“Eu venho aqui, tomo um banho de chuva e ainda estou sendo dispensado?”

– Menino, toma banho que vou arrumar uma comida pra você.

Bateu a porta do banheiro e foi para cozinha.

Assou pão de queijo, fez leite com chocolate. Tudo quente pra tirar o frio de sua visita.

Ele apareceu na porta da cozinha usando um roupão:

“Achei isso no seu guardarroupas. É tamanho homem, era dele?”

Ela ergueu os olhos e deu de cara com o irmão dentro do roupão que um dia abrigara o dono dos olhos azuis mais lindos do mundo.

– Era sim. Ele esqueceu. Disse que viria buscar, mas nunca mais voltou.

O irmão, que já comia pão de queijo e bebia o leite fumegante, não se conteve:

“Ainda bem, né? Tomara mesmo que nunca mais apareça. Por falar nisso você já trocou o segredo da sua fechadura?”

Ele estava tão distraído comendo que não percebeu, Ela já não estava mais ali.

“Irmã, cadê você?” – disse ele procurando a moça pela casa.

Encontrou-a no quarto, deitada embaixo de uma montanha de cobertas como se um feto fosse, chorando desesperadamente.

“Minha maninha, o que é isso?” – ele falou e foi se enfiando com Ela embaixo das cobertas, abraçando aquele corpinho que chacoalhava com choro.

Entre um soluço e outro, Ela conseguiu que Ele ficasse sabendo:

– Nunca troquei o segredo da fechadura porque espero que ele volte todos os dias.

O Irmão colocou-a sentada na cama:

“Olhe bem pra mim. Ele não vai voltar. Foi embora porque não quis mais viver com você. Escolheu, por livre e espontânea vontade, não estar mais ao seu lado e, por isso e só por isso, foi embora.”

Parecia que Ela não estava ouvindo nada:

– Eu sei. Ele disse que não me ama mais. Que tudo que sentia por mim acabou e, agora, só tem olhos para aquela lá.

O Irmão estava cada vez mais indignado:
“Não acredito que te disse isso!”

– Falou. E ainda disse que preciso emagrecer.

Ele abraçou a irmã com carinho, ternura, e a amparou até que o choro fosse embora:

“As lágrimas acabaram.”

– Acho que elas nunca secarão de fato – falou enquanto dava um suspiro longo, dolorido.

O irmão passou a mão em seus cabelos, secou suas lágrimas e falou pausadamente:

“Já deu, né? Vamos parar de chorar e sofrer, não vamos?”

Ela que ainda fungava:

– Eu não dou conta.

Ele pegou o rosto magrelo com as duas mãos e falando sério como nunca:

“Você quer dar conta? Você quer ao menos tentar parar de sofre? Ou vai escolher sofrer para todo o sempre?”

– Eu quero.

“Então, vamos lá.” – falou e já foi arrastando a moça pela mão até o banheiro.

Colocou-a em frente ao espelho e começou:

“Quem você vê?”

Ela que estava sem entender nada:

– Ué, aquela sou eu.

Depois disso, Ele a obrigou a olhar para si mesma no espelho e conversar com aquela pessoa em que Ela havia se transformado. A pessoa triste que não se cuidava mais, que, além de ter sido abandonada, havia se abandonado.

“Então, Irmã. Bora reagir? Até o sol já deu um jeito de mandar a chuva embora e voltar a brilhar. Você também tem de voltar a espalhar sua luz por aí.”

Ela sorriu.

O primeiro sorriso depois de dias.

Prometeu que iria trabalhar para esquecer.

Que iria conversar com a moça tristinha que olhava para ela no espelho e que voltaria a sorrir.

Como o sol havia voltado, a roupa dele secado, eles saíram de mãos dadas pela cidade.

Foram brincar nas poças de água assim como faziam quando eram crianças.

Ele pensando que jamais desistiria dela.

Ela pensando que nunca mais desistiria de si mesma.

FIM.

 

 

Em um campeonato de “motos voadoras” encontrou profundos olhos azuis…

 

Ficar ali deitada ouvindo o barulho da chuva bem que podia resolver todos os seus problemas.

Talvez quando ela se fosse e o sol voltasse secaria suas lágrimas para sempre.

O passarinho corajoso soltou novamente seu canto forte e feliz.

Ao som do único que parecia contente naquela manhã ela adormeceu.

Ela chegara até ali com a única intenção de lhe fazer companhia:

“Irmã, está tendo o Mundial de Motrocroos Freestyle, vamos?”

– O que é isso?

“O campeonato mundial de motocross que os caras ficam voando com as motos.”

– E se cair?

“O povo acode. Vamos?”

– Tenho medo que eles caiam.

“Você fica de olhos fechados. Vamos?”

– Vamos, garoto chato.

E lá foram eles. Ela sem o menor interesse em ver motos voadoras, foi mesmo só para servir de companhia para o irmão pequeno.

– A gente vai, fica um pouquinho e depois toma outro rumo – pensou.

De longe, bem de longe era possível ouvir a música ensurdecedora.

Mesmo assim os  dois avançaram entre a multidão.

Ela andando e olhando para cima:

– Irmão do céu, eles estão voando! Menino, você vai cair daí! Sua mãe sabe que você faz isso?

O Irmão não resiste e gargalha:

“Para com isso, garota. Isso é um campeonato mundial, a mãe de todos eles sabem que seus filhos voam.”

– Deus que me livre. Eu nunca ia deixar você sair voando pelo mundo desse jeito.

* Ele é seu filho?

Ela se assustou e virou para o lado já sorrindo:

– Não! É meu irmão. Mas se ele se metesse a querer voar desse jeito eu morria!

Falou já olhando para aqueles olhos profundamente azuis.

Foi ali.

Envoltos por aquela música que Ela não entendia uma só palavra e Ele sabia todas de cor que eles trocaram o primeiro olhar.

Com a admiração dela por cada manobra finalizada, cada voo mirabolante e a naturalidade com que Ele via as mesmas coisas fez com que a conversa engrenasse rapidamente.

Eles foram chegando perto, chegando perto para se fazerem ouvir e quando perceberam estavam sussurrando um no ouvido do outro.

Um número de telefone foi.

O outro voltou.

Marcaram de encontrar-se e assim fizeram uma vez , duas, três…

Passaram a andar de mãos dadas.

Ela ouvia músicas que nem sabia que existiam.

Ele ia a lugares que nunca ouvira falar.

Algumas vezes as informações até então desconhecidas para um e tão familiar para outro causavam trovoadas e temporais.

Eram brigas longas, sofridas.

Depois que a chuva ia e o sol voltava eles continuavam vivendo como se elas nunca tivessem existido.

Mas ficava o arranhãozinho.

Lá e cá.

Um dia resolveram que iriam andar de mãos dadas para sempre.

– Então, Irmão. Daqui a um ano.

“Sério, Irmã?” – ele pareceu preocupado.

– Sério, irmão! Bendita hora que você me convidou para ir ao Mundial de Motocross Freestyle – falou ela toda sorridente.

“Mas vocês são tão diferentes. Tudo que você gosta Ele detesta, tudo que ele ama você abomina. Tem certeza disso?”

– Ô meu irmão, eu sei que você me ama, por isso se preocupa. Mas fique tranquilo, eu tenho certeza.

Ele pareceu triste:

“Maldita hora que te chamei para ir àquele lugar.”

Ela avança nele, beijando e abraçando o irmãozinho:

– Eu te amo. Eu te amo e juro que vou ser feliz.

Ele parecia descrente:

“Sei não.”

Um ano depois eles disseram sim.

Os trovões mostraram a que vieram e trouxeram junto chuva e vento muito vento.

Foi o que a fez acordar.

 

Termina na sexta-feira.

 

Algumas vezes tudo que se quer é ficar quietinha, sem precisar sair do lugar.

 

Amanheceu.

Ela acordou e ficou quietinha.

Olhos fechados.

O silêncio continuava, ao menos por fora.

Não havia vozes, conversas, nada.

Apenas Ela.

Sozinha.

Os seres inanimados falavam entre si: geladeira, freezer, filtro, relógios…

Lá fora, chovia mansamente.

Um trovão mostra que, por ele, a chuva não ficaria mansa por muito tempo.

Ao longe, ouve-se um intrépido passarinho contando ao mundo que não seria uma chuvinha que o faria deixar de cantar ao amanhecer.

E Ela quietinha.

Ouvindo o seu coração dolorido, tristinho.

A vida entrara em uma rotina há alguns dias e a mesmice parecia ter vindo para ficar.

Ela não sabia o que era sorrir.

Quando Ele se fora, o silêncio entrara por todas as frestas.

E, por conta disso, nada parecia ter sentido.

Era uma dor, um desalento que não havia como explicar.

Vez ou outra, Ela até procurava palavras para descrever o que sentia, mas não tinha como contar tudo que escorria pelos olhos.

E parecia que Ela inteira iria se desfazer.

Parecia não existir mais alicerce para manter-se de pé.

Será que, algum dia, acabaria aquela tristeza e angústia que tomavam conta dela inteira?

Não tinha pedacinho que não estivesse doendo.

E pior que isso: não tinha um movimento que fizesse, palavra que dissesse, o que quer que visse, lembrança que viesse a sua mente que não remetessem a Ele.

Tudo por tanto tempo fora tão diretamente a Ele ligado e, agora, não mais.

O que sentia era algo indescritível.

Não existiam palavras que pudessem definir o que havia em seu coração.

Talvez o que mais se aproximasse da verdade fosse dizer que, por dentro, lá dentro de si, estava tudo completamente vazio, só havia um coração batendo descompassado sem saber para onde ir.

Continua na quarta-feira.

 

 

 

 

Ir com medo pesa. Com ele é mais difícil caminhar.

 

“Tenho medo.”

– Segue em frete, faz o que eu te ensinei que você vai conseguir.

“Mas estou com muito medo.”

– Parado aqui seu medo vai passar?

“Acho que não, mas ao menos eu não vou me machucar.”

– Quem garante se você for vai se machucar?

“Quem garante que não vou?”

– Vai com medo.

“É pesado.”

– O quê?

“Ir com medo. O medo pesa. É mais difícil caminhar.”

– Difícil é ficar parado.

“Ficar parado eu não estou fazendo nada, sei como é, acaba sendo tranquilo.”

– Vai com medo mesmo. Mais tarde vai se arrepender de não ter ido. Usa o que te ensinei. É garantido você conseguir.

“Como posso começar?”

– Fica de pé.

“Estou de pé.”

– Agora começa a andar.

“Tenho medo.”

– Não fale mais que tem medo. Faça de conta que ele não existe. Simplesmente vá.

“Não é assim tão difícil.”

-Eu não disse? Espere! Pare em frente a esse espelho e diga a você mesmo o quanto é capaz e que tudo vai dar certo.

“Você é capaz e tudo vai dar certo. Confio em você.”

– Agora vá e não olhe para trás. Esquece essa história de medo, e se ele insistir em andar com você faça de conta que é seu companheiro e continue.

E assim lá foi o medroso…

Até que uma hora:

“Eu andei, continuei e de uma hora para outra estava correndo. Hoje descobri que posso voar!”

– E o medo?

“Que medo?”

 

 


Publicações

agosto 2018
D S T Q Q S S
« jul    
 1234
567891011
12131415161718
19202122232425
262728293031  

Arquivo