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Olha só o resultado por se esforçar menos!

 

Ao lado da escada que faz com que se suba sem qualquer esforço, está a imóvel.

A primeira, com seu ritmo próprio, faz com que aquele que dela se serve chegue lá em cima ou cá embaixo no ritmo que foi programada.

Não há como acelerar ou diminuir o esforço da máquina.

Ela segue em ritmo pré-determinado.

Quem a usa não quer suar ou fazer esforço, quer simplesmente chegar sem que o coração acelere.

Em nome disso, entrega à máquina seu poder de escolha da velocidade, deixa que ela decida.

E sobe no primeiro degrau que surge à sua frente e, assim, desliza confortavelmente rumo ao seu destino.

Gasta o tempo que a máquina estava programada para gastar.

Só então, quando é expulso da escada, reassume o andamento da própria vida.

Segue novamente em velocidade particular.

“Estou precisando tanto emagrecer. Acontece que não tenho tempo de fazer exercícios.”

– Por que não abandona a escada rolante e o elevador?

O fora de forma em questão arregala os olhos:

“Mas aí vou suar, ficar cansado, chegar aos lugares pingando.”

– Mas aí você vai emagrecer. Não há outro jeito de perder peso, a não ser suando.

Ficou pensativo.

Continuou frequentando a escada que rola e o elevador.

Não é fácil mesmo abandonar aqueles que fazem o serviço pela gente.

Afinal, eles são mágicos!

Na primeira não é preciso apertar nada, esperar nada. É só subir e ficar olhando em volta, ela faz tudo.

No segundo, basta apertar um botão e esperar.

Como por um passe de mágicas, abre-se uma porta.

Lá no fundo, um espelho onde se pode observar a própria silhueta.

Escolhe-se o andar que deseja ir e as portas se fecham.

A caixa espelhada vai até o destino escolhido em questão de segundos.

Por que motivo, razão ou circunstância deixar de andar nessa “caixa mágica” que te conduz até lá em cima no último e mais alto dos andares ou até o último subsolo onde moram somente as máquinas, sem qualquer esforço?

Para que ficar procurando as escadas escondidas atrás de portas corta fogo?

Para que subir carregada de coisas se a caixa mágica leva e traz tudo sem nada dizer?

Não tenho como negar, poder dar o controle do meu tempo à escada que vai em seu próprio ritmo e subir e descer ao bel- prazer da caixa mágica é algo extremamente tentador.

E se a maioria o faz, por que eu também não posso fazê-lo?

– Pode sim.

“Posso?”

– Pode.

“Só não pode reclamar.”

– Do quê?

“De não ter tempo de fazer exercícios. Afinal, cada vez que entra na “caixa mágica” ou na escada que sobe sozinha, está deixando uma série de exercícios pra depois.”

-Verdade…

Disse distraidamente enquanto entrava no elevador.

 

 

 

Ele estava sofrendo muito quando se deparou com a rotina do sol…

 

E Ele ouviu tudo no mais absoluto silêncio.

Já havia discutido sobre aquilo muitas vezes, usado todos os seus argumentos, achado ruim, brigado, xingado.

Cansara.

Agora, só o silêncio.

“Terminou?”

-Terminei.

Escutou o último grito.

Saiu da sala sem fazer barulho.

Sentia-se extremamente infeliz e injustiçado.

Seu corpo doía.

Cada pedacinho, como se por cima dele tivesse passado um rolo compressor.

Não queria que tudo terminasse assim.

Havia começado de um jeito tão encantador…

Mesmo sem aceitar o fim resolveu ir embora.

Não dava mais.

Ele dizia a verdade.

Ela não acreditava.

Ele não tinha como provar.

Ela só escutava a própria voz.

Pegou algumas coisas, arrastou-se até o carro, saiu sem rumo.

Rodou, rodou, rodou até encontrar a solidão.

Parou.

O sol ia embora silenciosamente.

Ele desceu do carro e sentou-se para observar.

Quando se deu conta, estava sozinho na mais profunda escuridão.

Pensou em voltar e tentar se explicar novamente.

Desistiu.

Entrou no carro e foi procurar um lugar para passar a noite.

Ao encontrar, não se deu o trabalho de acender as luzes.

Ficou parado olhando a escuridão.

Viu os astros passarem pelo céu e a noite terminar.

Silenciosamente, como fora, o sol voltou.

Encontrou-o com a mesma roupa, sem comer, arrasado do mesmo jeito.

Ao ver a manhã já indo longe, Ele se lembrou de que, no meio da madrugada, a escuridão fora terrível.

De que, a certa altura, tivera a impressão de que até mesmo as estrelas tinham indo descansar.

Mas de que o sol, mesmo assim, voltara a brilhar.

Foi quando Ele resolveu se levantar, precisava sair daquela situação.

Ficar parado, chorando e sentindo-se injustiçado não mudaria nada em sua vida.

Tomou um banho.

Comeu.

E saiu.

Para onde?

Não sabia.

Fazer o quê?

Não tinha ideia.

Mas saiu.

Já se encolhera, era hora de se esticar!

 

 

 

Tratar-se bem, algumas vezes é a mais difícil das missões

 

Algumas vezes, escolhemos ter misericórdia com aqueles que nos cercam.

Compreendemos os erros das pessoas, perdoamos, aceitamos, acolhemos e continuamos.

Mantemos a amizade, o convívio.

E acredito sinceramente que isso é o certo a fazer.

Exercer misericórdia com aqueles que nos cercam é algo extremamente razoável e de bom tom.

Melhora o convívio, traz harmonia, paz.

Parabéns a você que consegue assim fazê-lo.

Algumas vezes, tratamos quem nos olha no espelho todas as manhãs com tanta crueldade.

Não temos carinho nem delicadeza ao nos depararmos com os nossos próprios erros.

Chegamos de sola falando mal, flagelando, fazendo sofrer.

Não temos qualquer misericórdia quando nós mesmos cometemos os mesmos erros que perdoamos nos outros.

E passamos a conviver com a amargura do “desamor” ´próprio.

O perdão que não liberamos a nós mesmos e a crueldade com que nos tratamos fazem que sejamos espantalhos humanos andando desamparados.

Sim, desamparados, sem perdão.

Pois o mais precioso amparo que podemos ter na vida é aquele que encontramos dentro do nosso próprio coração e tratarmos a nós mesmos com carinho, amor e atenção.

Aproveite o hoje e perdoe-se, ame-se e volte a viver.

 

Ser alguém na vida de alguém é o melhor dos presentes. Pra quem o é.

 

Nada como ter para onde voltar.

Uma vez, li o relato de um garoto dizendo que, quando decidiu mudar-se de cidade, ouviu de seus pais que ele poderia ir tranquilo, caso alguma coisa desse errado e ele precisasse voltar, as portas estariam sempre abertas.

Ter para onde voltar abre as portas do mundo.

Dá a certeza de que pode bater assas, afinal, o ninho seguro estará sempre esperando você.

Ela tinha para onde voltar.

Sempre soube que tinha.

E começou indo cedo.

Começou dando uns passos pequenos e vacilantes.

Ia e voltava rapidinho.

Ficava um tempo, respirava, descansava e, quietinha, planejava ir mais longe, ficar mais tempo.

E lá ia Ela.

Mais longe, mais tempo.

Voltava feliz, contando mil e uma coisas: sabores, cheiros, texturas, pessoas.

Voltava e passava um tempo.

Quando menos se esperava, a mochila já estava novamente nas costas: mais longe, mais tempo.

Houve um ano em que passou mais tempo lá do que cá.

As coisas começaram a acontecer por onde ia.

Seu trabalho começou a ser reconhecido onde era apresentado.

Mesmo tendo para onde voltar, ficava mais tempo no mundo do que no seu porto seguro.

Precisava conquistar o mundo.

Tudo ia muito bem: as portas se abriam por onde passava, céu azul, pássaros cantando e, quando havia tempestade, sempre havia um teto seguro sobre sua cabeça, comida quente, calor  humano.

Mas, um dia, depois de muito tempo só de bonança, o céu ficou escuro  e começou a cair uma grande tempestade: em meio àquele temporal, Ela não tinha um teto, não tinha roupas quentes, abrigo ou comida.

Tudo parecia estar fora do lugar e Ela perdeu o chão.

Tudo, tudo, tudo mesmo, se fora como levado pelo vento: amigos, trabalho, reconhecimento, dinheiro…

Não havia mais onde colocar os pés, onde abrigar sua cabeça.

Ela não sabia nem mesmo como voltar ao porto que era seu.

Telefonou.

O tempo que passou pareceu uma eternidade.

Mas não foi, foram apenas horas.

Aqueles que faziam tudo ficar tranquilo não mandaram que desse um jeito e voltasse.

Não!

Eles foram até Ela.

“Como está você, Garota?”

Não perguntaram o que Ela fizera para estar daquele jeito.

Não perguntaram onde estavam seus amigos, o que Ela fizera com sua casa e com o dinheiro que ganhara.

Não recriminaram quando souberam que vendera o carro e o que fizera com o dinheiro.

Nada!

Apenas a abraçaram.

Abraçaram, beijaram e disseram:

“Quer voltar para casa com a gente?”

Ela pensou e, ainda chorando, lembrou-se do que a trouxera até ali:

– Eu não queria voltar assim, sem nada nas mãos.

“Então você quer recomeçar aqui mesmo?”

Ela deu o mais triste sorriso que alguém já vira em seu rosto:

– É isso! Quero recomeçar aqui.

Eles sorriram e a abraçaram:

“Então, pare de chorar e vamos começar de novo agora mesmo!”

E eles começaram.

Juntos.

Quando Ela já estava conseguindo andar sozinha, eles a beijaram e partiram.

E Ela se reergueu.

Passou rapidamente por onde estava e continuou crescendo.

E cresceu muito.

Ficou forte outra vez.

Reconquistou o que havia perdido.

Ganhou o que nunca tinha sonhado.

E um dia se pegou pensando que nada disso teria acontecido se não tivesse tido apoio.

Ficou tão agradecida e feliz que resolveu olhar para os lados:

– Alguém que está aqui perto de mim pode estar sofrendo, precisando de apoio para continuar. Foi tão bom ter onde me apoiar quando precisei.

E, naquele momento,Ela decidiu tornar-se o porto seguro de alguém.

Estava pensando aqui se você também não podia ser “a pessoa especial” na vida de alguém. Vai ver tem uma pessoas aí ao seu lado esperando uma palavra de apoio vinda de você para ter a vida transformada.

Quer tentar?

 

 

 

 

Algumas vezes tudo que temos na vida é medo e o “será”

 

– Certeza de que tudo vai dar certo.

“Será?”

– Certeza. Tudo vai dar certo.

“Como você pode ter tanta certeza?”

– Pode acreditar. Vai dar certo.

E Ele acreditou.

Acreditou que daria certo.

E foi fazer a parte que lhe cabia.

Sabe como é, né?

Vai dar certo?

Vai!

Mas tem de fazer alguma coisa.

Não dá pra ficar com a cara para o alto esperando acontecer, esperando dar certo.

E Ele foi para cima.

Assim, vamos conversar aqui só nós dois: Você já viu alguém ter alguma necessidade e ficar sentado em um sofá não muito confortável à espera de um milagre?

Eu já.

Ficou, ficou até que cansou.

Ainda bem que Ele não ficou parado, foi para cima.

E as coisas começaram a mudar de rumo, a dar certo.

O tempo, que não para, trouxe com ele resultados positivos, aqueles que Ele há tanto sonhava.

Foi quando se encontraram novamente:

– Você está tão diferente, parece mais feliz.

“As coisas têm dado certo.”

– Sério?

“De verdade. Depois daquele encontro que tivemos, acreditei que tudo poderia ser diferente e tem sido.”

– O que mudou?

“Quase nada, só meu jeito de agir.”

Ele sorriu:

– O que você mudou no seu jeito de agir?

“Mudei minha alimentação, minhas horas de sono, a prática de exercícios físicos que não existia para mim passou a fazer parte da minha rotina, meu jeito de encarar as coisas com mais positividade e otimismo.”

O amigo, visivelmente admirado:

– Estou de boca aberta com você!

“Fecha a boca rapaz! Eu tinha de fazer algo diferente ou teria o mesmo resultado para sempre. Algumas vezes, é difícil, mas aí me lembro de onde eu estava e para onde eu quero ir, aí continuo fazendo diferente, um dia de cada vez.”

Um silêncio sorridente se instalou entre os dois:

“Muito obrigado por acreditar em mim quando eu mesmo não colocava fé na minha pessoa. Hoje, sei que vai dar certo, um dia de cada vez.”

E, assim, Ele continuou mudando um pouco a cada dia, mantendo as mudanças já conquistadas e olhando sempre seu alvo, sem nem pensar em parar a mudança.

 

 

 

Cada coisa que Ela ouviu e mesmo assim ficou firme em suas certezas.

 

Da vida deles todos cuidavam:

“Vocês vão mesmo namorar? Mas são tão diferentes, nada em vocês parece combinar. Têm certeza mesmo?”

Parece que, a partir do momento que decidiram começar um relacionamento que ia além da amizade, todos os olhares se voltaram a eles.

Uma agonia.

Patrulhas surgiram onde quer que estivessem.

Parecia que as pessoas se dividiam entre torcer para que desse certo ou para que terminasse o mais rápido possível.

E eles, tranquilos, seguiam suas vidinhas, indiferente a tudo e todos.

Agradeciam a quem por eles torcia.

Ignoravam solenemente a quem colocava gosto ruim às decisões que tomavam dia a dia.

Até que um dia…

“Vocês vão mesmo namorar de longe? Como assim? Ele vai se mudar para o outro lado do mundo e, mesmo assim, vocês vão continuar esse namoro? Não seria melhor terminar? Não seria melhor que vocês se casassem de uma vez?”

Em cada lugar a que chegavam, alguém dava uma opinião diferente.

Todos já tinham decidido o que era melhor para a vida do casal: terminar e fazer de conta que aquele amor jamais existira, diziam alguns. Casar e começar logo a vida a dois, diziam outros.

Eles sorriam em silêncio, davam-se as mãos e se retiravam.

Até que o dia da despedida chegou.

Ele iria para o outro lado do mundo.

Mas combinara com Ela tudo direitinho.

Cada um dos passos que dariam enquanto separados estivessem já estava acertado.

Quando se veriam, como fariam para se comunicar, quando, enfim, juntos estariam novamente.

Tudo combinado.

Inclusive o acordo do silêncio:

“Amor, todos nos dão tantos conselhos, sei que são bem-intencionados, afinal são nossos amigos, querem o nosso melhor. Mesmo assim, não compreenderam o que de fato desejamos. Por isso, vamos ficar em silêncio. Não vamos contar nossos planos a ninguém.”

Combinaram assim e lá se foi o moço.

Naquela época não era assim tão fácil a comunicação, não existia a chance de se falarem a cada instante, a cada passo que davam.

As letras marcadas no papel demoravam semanas para ir e vir.

Tudo era mais lento, mais demorado, mais romântico, mais sofrido até.

Quando uma correspondência chegava, era imediatamente respondida e postada.

Quem amava fazia sua parte quase de maneira instantânea, mas tinham os motivos externos que eram muitos…

As cartas passavam por muitas mãos, durante muitos dias, muitos lugares, continentes, até que conseguiam chegar ao destino.

E algumas vezes, nem chegavam.

Algumas vezes, a rota para elas imaginada era interrompida ainda no começo do caminho: caiam em algum lugar sem que fossem vistas, misturavam-se com aqueles que iam para  outro destino, eram perdidas e nunca mais encontradas…

Quem as esperava sofria, lamentava…

Mas sabia, tinha certeza de que não chegara porque se perdera, não porque não fora enviada.

E cada uma que conseguia passar por todos os obstáculos com sucesso era grandemente comemorada, lá e cá.

Os telefonemas tinham dia e hora certos para acontecer.

Eram aos domingos, no começo da noite.

Nesse dia e hora, todos eram carinhosamente conduzidos para longe da sala onde ficava o telefone e a moça, que cá estava, podia conversar com seu amado por 15 preciosos minutos.

E, assim, com o passar dos dias e a rotina de comunicação estabelecida, a vida continuou com tranquilidade.

Tranquilidade parcial.

As pessoas, aquelas mesmas pessoas que falavam no começo do namoro que tinham opinião formada, quando ficaram sabendo que ele iria embora, todas elas tinham o que falar cada vez que a encontravam:

“Tem certeza que ele volta? Olha lá, vai ver você tá aí perdendo o seu tempo. Lá deve ter tantas mulheres interessantes. Vai ver, a essa hora, ele já arrumou outra e te esqueceu. Por que você não dá uma chance àquele Rapaz. Ele sempre gostou de você.”

Ela sorria, suspirava fundo e falava:

– Nós temos um combinado, no tempo certo, nos reencontraremos.

Quem tentava “abrir seus olhos”, algumas vezes, ficava sem graça com tamanha obstinação e se afastava, outras continuavam tentando e acabavam ouvindo:

– Você está sendo inconveniente. Por favor, pare.

A pressão sobre quem fica é sempre muito grande e, por mais que Ela fosse fina e educada, algumas vezes, tinha que se impor com mais veemência.

No mês em que fez um ano que ele fora, em uma reunião de família, uma tia que não a via há meses, chegou perto dela sem a menor cerimônia:

“E aí? Vai ficar fazendo esse tipinho de mocinha abandonada até quando? Você sabe que esse cara foi para o outro lado do mundo e, a essa hora, deve estar se divertindo horrores com todos os tipos de mulheres enquanto você está aqui feito um arbusto seco e abandonado: sozinha. Diz pra mim: até quando vai ficar assim?”

Nesse dia, ela não estava para brincadeira, no mesmo tom que a tia falou, ela respondeu:

– Arbusto seco e abandonado? A senhora está me confundindo com quem? Eu sei muito bem quem ele é, sei o que combinamos, conheço o que sinto por ele e o que ele sente por mim. Não estou fazendo “tipinho de mocinha abandonada” não! Fiz um combinado com meu namorado e estou cumprindo minha parte no trato assim como sei que ele, que é um homem sério e de palavra, está cumprindo a parte dele. Quanto à senhora, por favor, nunca mais se refira a mim desse jeito  nem queira saber o que se passa na minha vida. Com a sua licença.

E foi embora.

As pessoas são muito cruéis e têm a horrível mania de desqualificar o amor que não conhecem, nunca conheceram e, muitas vezes, nunca conhecerão.

O tempo, que, nesse caso, muitas vezes, não funciona como aliado, foi passando indiferente  a tudo e todos.

As pressões sobre Ela diminuíram por um tempo, ao menos no núcleo familiar, depois daquele espalho que ela deu na tia.

Mas foi só por um tempo, depois voltou com tudo.

Mas um dia as coisas começaram a mudar: a moça, que, apesar de toda a sua confiança, por vezes, aparecia triste era só sorrisos.

Não dizia nada a ninguém, pois esse era o combinado, mas seu comportamento estava estranhamente diferente.

E, um dia, sem alarde ou grande festa, Ele chegou.

De mansinho, em silêncio, a surpreendeu realizando suas atividades de sempre, mas o esperando como fazia todos os dias.

As pessoas, que opinavam e davam pitacos mil, ficaram admiradas ao verem que aquele casal tão novinho teve a firmeza de seguirem o propósito e compromisso que tinham feito.

Seus planos, feitos em silêncio, foram concretizados e, hoje, eles vivem juntos e felizes lá do outro lado do mundo.

E de quem falava mal, colocava gosto ruim, é possível ouvir de quando em vez:

“Sempre torci por eles. Sempre soube que seriam muito felizes juntos. Dei a maior força quando Ela ficou aqui sozinha, tinha certeza que esse amor seria para a vida inteira.”

Sei, sei…

 

Nunca antes ninguém tinha me escutado, tido que até eu posso ter uma vida melhor.
Nada como ser tratado com amor.
A gente ouve direto histórias incríveis de como o amor transforma a vida das pessoas.
Sejam elas crianças pequenas, adolescentes donos do mundo ou adultos deprimidos.
Não há aquele que, ao ser tratado com amor, não tenha a vida transformada.
Ao ler as histórias dessas transformações, fico maravilhada com o poder que ele, o amor, tem e mais encantada ainda me torno ao me deparar com o comportamento assumido por quem decide amar.
Misericórdia!
É muita paciência, altruísmo, resignação.
É amor prático demais.
Porque amor é prática, né?
Amor é ação, é mão na massa.
E, quando alguém decide amar aquele que nunca recebeu essa poção transformadora com  todos os seus nuances e desafios, tem de estar pronto para tudo.
Eles se conheceram no meio da rua.
Estava uma tarde quente com aquele calor que parecia fazer apenas naquela cidade e mais em nenhum outro lugar na Terra.
Ela tomando o maior sorvete que encontrara no cardápio.
Ele sentado na calçada apreciando aquele espetáculo.
Foi quando, entre uma e outra olhada no celular, Ela viu o menino sentado no chão. Descalço, sujo até não mais poder, parecia encantado com o que a via saborear.
Ela ficou um pouco constrangida com a posição que ocupava, afinal, estava sendo admirada enquanto comia.
Olhou no relógio e viu que tinha um tempo.
Sem olhar para os lados, pegou o cardápio e quando viu já estava sentada na calçada ao lado do Menino, mostrando a ele o cardápio:
“E, aí, vai querer qual?”
Ele se assustou.
Claro, não era todo dia que ele tinha a dona do objeto de seu desejo sentada ao seu lado, e ainda na calçada.
– Não, dona, quero nada não senhora.
Ela abriu o olho maior que podia, sinceramente assustada:
“Poxa vida, eu aqui tomando sorvete sozinha, precisando de uma companhia e você não quer sentar comigo? Tomar um sorvete também? Vamos lá, senta comigo, escolhe um sorvete.”
Ele, que era tímido, mas não era bobo, pegou o cardápio e, enquanto olhava admirado, imaginava qual seria o mais o gostoso:
– Posso escolher qualquer um?
Ela não se conteve, tinha que rir:
“Qualquer um.”
Eles levantaram da calçada e foram para a mesa.
E, como em um passe de mágicas, apareceu em frente ao Menino o maior sorvete que eles montavam ali.
E ele comeu, saboreando cada colherada.
Lá pelas tantas, quando já sabiam muito da vida um do outro ele perguntou:
– Você não vai tirar uma fotografia comigo?
“Não, por quê?”
– Todo mundo que me dá alguma coisa tira fotografia e coloca no Facebook, Instagram, pra mostrar para os amigos o quanto é gente boa. Sabe como é, ajuda menino que mora na rua, tem bom coração. Isso ajuda as pessoas a se promoveram.
Ela riu.
“Eu não gosto de me promover. O que a gente faz, come ou deixa de fazer ou comer é segredo nosso.”
Eles conversaram  e gargalharam até terminarem a última colherada gelada.
Beberam água, apertaram as mãos e marcaram um novo encontro, na próxima semana no mesmo lugar.
E, na próxima semana, por mais que um acreditasse que o outro não iria, os dois foram.
E, assim, aquele encontro no meio da semana, encaixado caprichosamente no meio da tarde, foi se tornando um ritual.
Nesse ritual semanal, eles conversavam sobre tudo, brigavam, discutiam, riam e choravam.
Um foi se tornando para o outro o ombro amigo de que precisavam.
Sem pedir nada, sem exigir qualquer coisa.
Um dia, o Menino chegou e estendeu a Ela o cardápio:
– Pode escolher o que quiser.
Ela achou estranho, nos últimos meses não havia o que discutir quem sempre falava essa frase era ela.
“O que é isso, Menino? Essa fala é minha!”
– Eu sei, mas, hoje, quem fala isso sou eu.
Ela riu mais um pouco e escolheu o sorvete mais barato que havia no cardápio.
Ele indignou-se:
“Poxa vida, desse jeito você me ofende! Quando você me convida, eu escolho o que quero e você paga sem reclamar.
Quando é minha vez de pagar, você escolhe o mais barato de todos?”
– Mas Menino – falou ela sem graça – esse dinheiro você leva pra sua mãe pra ajudar em casa, não é pra ficar me dando sorvete.
Ele, contrariado foi lá e escolheu o sorvete preferido da moça.
“Eu já te conheço, posso escolher sozinho o seu sorvete.”
Eles tomaram tudo como sempre e, ao final, quando o Menino satisfeito pagou a conta, disse a Ela:
– Você foi a primeira pessoa que parou para me escutar na vida. Nunca antes, alguém tinha me dado atenção, perguntado sobre meus planos, mostrado pra mim que até eu posso ter um futuro melhor. Eu nunca tinha recebido tanto amor e tomado tanto sorvete. Esse sorvete é só para te agradecer.
Ela sorriu com lágrimas nos olhos e passando a mão na cabeça do Menino:
“Vamos ali, eu preciso te levar a um lugar.”
E os dois saíram andando lado a lado.
Iria começar uma nova fase naquela amizade, onde o amor ao próximo seria colocado a prova.
Provado enquanto fosse, testado enquanto voltasse.

Pra mim a noite perfeita é quando chove e todos estão em casa. E pra você?

 

Gosto muito mais do dia que da noite.

A noite tem seus mil e um encantos, eu sei, mas, para mim, ela foi feita pra dormir.

Quando a noite chega, gosto mesmo é de estar em casa, com todos os que ali habitam.

Como os que morávamos juntos cada um foi para um canto da cidade, não é raro eu gritar no grupo da família, querendo saber se todos estão embaixo dos tetos que escolheram.

Ao longo da noite, eles vão respondendo devagarinho.

Antes que o sol volte, todos já disseram Sim!

A noite, com seus sons e vozes foi feita para dormir, descansar, recarregar as baterias que foram gastas com o sol.

Ah… o sol…

Com o sol, tudo é alegria.

Aliás, o sol é o astro da festa.

Também, não é para menos, ele e só ele faz duas festas em 24 horas.

Quando chega, o espetáculo é inebriante e, quando se vai, impreterivelmente faz pinturas mil de beleza sem igual.

Mas é questão de gosto.

O que, para mim, é um encanto, para outro alguém, pode simplesmente ser a parte com inconvenientes mil.

O que é de grandíssimo valor para você , para mim,  vale pouco ou quase nada.

Valores.

Gostos.

Prioridades.

Cada qual tem os seus.

Agora, para mim, vivo a noite perfeita: chuva forte, dentro de casa com quase todo mundo que amo.

Perfeita para dormir.

Para você, perfeita para quê?

 

 

Nem sempre é fácil, mas não  é  impossível

Você conhece alguém que aprende as coisas “de primeira”?

Como assim?

A criatura nunca viu ninguém fazer, nunca leu um livro, nunca nada e precisa estar com aquilo pronto.

Não há quem ensine, não há tutorial mostrando passo a passo.

Nada.

Tem o desafio e somente isso.

E, assim mesmo, vai lá, tenta de um jeito, tenta de outro e, quando o prazo termina, eis que lá está ele com tudo pronto.

Tem uns que, quando indagados como conseguiram, onde aprenderam, tem a cara de pau de responder assim:

“Ué, eu fui cutucando aqui e ali e deu certo.”

Como assim, cara pálida?

Para algumas pessoas é simples: elas vão lá e fazem.

Aí, eu chego aqui e digo que é simples.

Simples?

Quem disse?

Hoje em dia parece ser mais fácil aprender qualquer coisa.

O conhecimento está ao alcance de todos a qualquer tempo e hora.

Bastam alguns cliques e temos centenas de tutoriais nos ensinando sobre o que quisermos aprender.

Dia desses, fui a uma loja e o vendedor me contou como trocou as velas de seu carro.

Distraidamente perguntei:

“Você também é mecânico?”

Ao que ele respondeu:

“Não, mas eu vi um tutorial na internet, segui tudo o que ele falou e troquei. Deu certo, o carro está andando.”

Ele aprendeu por que teve necessidade.

Foi lá e fez.

É certo que, para ele sair por aí dizendo que sabe fazer esse serviço, certamente, terá de trocar mais algumas velas, treinar, mas, na hora da necessidade, foi atrás do conhecimento e fez o que era preciso naquele momento.

Mas ainda falta a desenvoltura plena.

E como é que se fica assim?

Desenvolto de verdade?

O único caminho é o treino.

Tentativa e erro.

Faz uma, duas, três, até…

“Até o que, por favor, que eu não aguento mais tentar.”

Até chegar o dia em que você vai fazer com simplicidade.

Mas, para isso tem de treinar.

É por isso que a maioria de nós “não consegue nem que a vaca tussa”.

Falta de treino.

Desistimos antes do fim.

“Mas, para ele, foi tão fácil.”

Quem disse, serzinho de luz, que para ele foi fácil?

Você esteve grudado nele durante todo o processo?

Esteve com ele nas madrugadas?

“Ele conseguiu logo. Eu lembro.”

Lembra não, fia.

Só ele sabe como foi difícil, quantos nãos teve que dizer para continuar tentando até conseguir.

A maioria de nós não consegue as coisas que quer porque desiste antes do fim.

Certeza disso.

Porque o fim só chega quando alcançamos o objetivo.

Não existe essa história de eu isso, eu aquilo.

É cada criatura, com muito mais dificuldades que nós dois juntos, que conseguiram coisas difíceis e que beiravam o impossível.

Pergunte, aí, a quem está ao seu lado se ele conhece alguma história de alguém que vivia uma situação miserável e conseguiu vencer.

Certeza de que a pessoa sabe.

Se não souber, é só pesquisar aí no Sr. Google. Ele tem um monte de história triste com o final feliz.

Por isso, desiste agora não.

Respire fundo, toma um copo de água e continue.

Se não aprendeu com aquele professor, aquele tutorial, procure outro, algum que está por aí vai conseguir te ensinar.

Ah! Anote todas as maneiras como você está tentando para não repetir os erros.

Não desista, porque as coisas só acabam quando terminam e só terminam quando dão certo.

 

 

 

Aaa se eu pudesse fazer tudo do jeito que eu bem entendesse…

 

“Levante aí a mão quem gosta de obedecer a ordens.”

O auditório barulhento, que lotado estava, de um minuto para o outro, ficou completamente vazio.

Parecia que realmente assim se tornara tal era o silêncio que tomou conta do local.

Os donos de cada par de olhos ali presentes pareciam não querer se mexer.

Temiam que o menor movimento pudesse fazer com que o interlocutor entendesse que sim, que eles gostavam de seguir leis, obedecer a ordens.

Por suas cabecinhas agitadas, passava qualquer coisa, menos o desejo de obedecer.

Seguir ordens, para eles, era deixar de realizar as próprias vontades, abandonar seus gostos e fantasias, era viver o que já estava por outro preestabelecido.

Não!

Qualquer coisa, menos isso.

“Ei! Onde estão todos vocês? Fugiram? Tudo isso por que ouviram as palavras ordem e lei? Não, minha gente, tenha pena de mim. Vamos ali descobrir que esse bicho cabeludo, de pernas, braços e tentáculos assustadores não é assim de todo mal.”

“Vejamos aqui o que diz o nosso amigo, Sr Dicionário.”

“Vocês já ouviram falar nele? Sabem quem é o Senhor Dicionário? Também conhecido injustamente como pai dos burros?  Injustamente eu digo, pois quem  a ele recorria estava procurando conhecimento e quem conhecimento procura é qualquer coisa na vida, menos burro.”

“Hoje, sei que vocês não mais por ele procuram, se é que a ele já tinham sido apresentados. Que vocês, quando têm dúvida sobre qualquer palavra, significado ou grafia vão ao Sr. Google.”

“Mas nós aqui vamos recorrer ao bom e velho dicionário.”

Ele foi até a mesa que estava no palco e abriu um grosso e empoeirado dicionário.

Enquanto foleava suas amareladas páginas, no telão aparecia todos os movimentos que fazia:

“R, aqui está.”

“Depois de encontrar o R procuro o A.”

“No dicionário se procura pela ordem que segue o alfabeto, uma letra após a outra.”

“Aqui está RE.”

“Agora, nesse sequencia lógica, procuro quando o G aparece depois do E.”

“Aqui!”

“REG.”

“Onde estará o R depois desse G minha gente?”

“Aqui está ele, agora falta tão somente o A.”

“O A como fica no começo de todas as sequencias alfabéticas é mais fácil de achar.”

“Aqui está REGRA: O que regula, disciplina, rege; norma, preceito, rédea. Preceito que determina uma norma de conduta ou de pensamento.”

“Quem nos deu essa preciosa informação – disse apontando para o dicionário que descansava sobre a mesa – foi esse monstro aqui, o Michaelis, português.”

O silêncio já não estava assim tão pesado.

Parecia que, aos poucos, os alunos haviam voltado a respirar.

“Imagine você um mundo sem regras. Já pensou como seria?”

“Pois, de agora em diante, eu declaro: Não há mais regras para nada. Não é preciso obedecer mais nada nem ninguém. Cada um pode fazer tudo, tudo mesmo o que bem entender!”

De um segundo para o outro, todos se agitaram novamente. Pareciam ter gostado da ideia.

“Quando digo sem regras é sem regra mesmo: o sol levantaria todos os dias à hora que bem entendesse, e se recolheria quando tivesse vontade. Já pensou? No dia em que ele não estivesse a fim, os relógios marcariam o meio do dia, mas ainda seria noite ou quando estivesse muito animado você estaria doido para dormir e ele permaneceria no meio do céu, como se meio dia fosse. Não haveria regras, cada um, inclusive o sol, viveria como bem entendesse.”

“E as estações do ano?”

“Elas poderiam muito bem fazer um combinado entre si e resolverem ficar em um só lugar o ano inteiro. Imagine: Elas combinam de ficar o ano inteiro em um só lugar, sem fazer rodízio e, aí, enquanto em um lugar é inverno o ano inteiro, no outro é sempre verão. Em outro canto só primavera e, lá longe, sempre outono.”

Eles pareciam estupefatos com a possibilidade de assarem ou congelarem com a permanência de uma só estação durante tanto tempo.

“Regras? Para que seguir regras?”

“Sem as regras, o carteiro pode deixar a correspondência da minha casa na sua e da sua na casa do chapéu. O padeiro pode fazer somente pão doce, afinal esse é o de que ele mais gosta, e todas as macieiras do mundo podem simplesmente nunca mais produzir uma só maçãzinha.”

“Em um mundo sem regras, você pode chegar à escola a hora em que desejar se desejar, quando desejar. Não precisa fazer trabalhos ou provas, nem respeitar os colegas e professores. Em um mundo sem regras, você pode comer só o que tiver vontade e jamais precisará arrumar a cama ou guardar os sapatos.”

“Afinal, não existem regras.”

“Seu estômago, se não estiver com vontade, não precisa digerir, nem seus rins filtrarem os líquidos que tem bebido. Não há regras. Liberdade! Cada um faz o que bem entende.”

Todos calados, imaginando admirados.

É quando Ele começa a falar um pouco mais baixo:

“Não se espantem se, quando terminarem as aulas, não tiver ninguém aqui na porta esperando você para te levar de volta para casa. Não há regras. Não se assuste se não houver comida em sua casa ou se lá estiverem confortavelmente instaladas pessoas desconhecidas. Não há regras. Não se assuste se tudo fugir da normalidade a que você está acostumado. É que as regras não mais existem.”

Houve silêncio total.

Tanto daquele que havia colocado abaixo todas as regras do universo como daqueles que gostaram em um primeiro momento, mas, agora, estavam tentando compreender como as coisas ficariam caso aquilo verdade fosse.

“Meus queridos, estão vendo como elas são importantes? Estão vendo como, sem elas, não podemos viver?”

Nova movimentação.

“Cada um de nós, dentro da sociedade em que vivemos, tem um papel a cumprir com direitos e deveres e precisamos sim cumprir nossa parte. Seguir as regras que nos são estabelecidas ou, senão, tudo vira um caos.”

“Eu tenho que cumprir regras para que vocês vivam bem, assim como vocês têm de fazer a parte que cabe a cada um para que todos vivamos bem.”

“E, agora, vamos embora. Nosso tempo juntos hoje terminou e ter horário para terminar também faz parte das regras.”

Os alunos saíram em relativo silêncio e, enquanto os observava, o professor acalentava em seu coração a esperança de ter sido entendido e, para frente, atendido.

 

 


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