“Tá bom assim mesmo.”

– Sério?

“Claro. Tá bom demais assim.”

– Mas acredito que consigo fazer melhor.

“Será?”

– Certeza de que posso fazer melhor do que isso.

“Mas não precisa, deixa como está.”

– Não! Eu quero melhorar nesse ponto aqui ó.

Ela olha com visível desdém:

“Deixa isso quieto, garota. Nunca ninguém passou desse ponto.”

A garota admira-se:

– Exatamente por isso! Nunca ninguém passou desse ponto e eu posso passar. Tenho ideia, disposição e tempo hábil para ir além.

“Não precisa. Eu não vou te pagar a mais por isso, nenhuma outra pessoa vai notar, sequer enxergar. Larga mão desse negócio e vai fazer outra coisa.”

Quanto mais Ela falava mais a Garota se indignava:

– Até aqui pra você está bom. Não pra mim. Já tem algum tempo que decidi viver fora da caixinha, decidi ver além, ir além. Todos só vieram até aqui? Que bom! Tenho um longo e solitário caminho a desvendar. Com sua licença, o mundo me espera.

Deu as costas e foi além!

Voltou antes de dar cinco passos:

– Esqueça o seu “será”, posso sim fazer muito mais e melhor que tudo isso!


Admiro quem não perde a capacidade de se encantar.

Quem não coloca no campo da normalidade o nascer e o pôr do sol, as flores, pássaros, festas e pessoas.

Amo estar com quem vive se encantando, oferecendo combustível para que os olhos brilhem, as penas bambeiem.

Admiro quem não perde a capacidade de se indignar.

Quem não coloca no campo da normalidade o desamparo, a solidão, a fome, o abandono.

Amo estar com quem vive se indignando, tomando providências para que os olhos de outras pessoas voltem a brilhar.

Acho que essas duas capacidades deviam andar sempre de mãos dadas.

A admiração e a indignação.

Quando encontram-se, tudo em volta é valorizado, o que não dá para ser enaltecido é modificado.

De mãos dadas, tem-se combustível suficiente para que todo ser vivente se alegre, corra, cante, lute…

Ao andar sorrindo e leve pela vida, conhecendo o belo, fica mais fácil identificar o que faz sofrer e mudar a realidade do que bem não está.

Admire-se!

Indigne-se!

Faça a diferença.

 

 

Feliz dia dos namorados

“Feliz dia dos namorados!”

– Ah! Muito obrigada, que o seu também seja doce.

“Doce?”

– É. Doce, lindo, azul, salpicado de corações, como queira.

“Assim sim, por que doce não, estou de dieta.”

– Dieta? Que bom. Sucesso pra você.

“Que bom? Você acha mesmo que estou precisando de dieta?”

– Se está precisando de dieta? Não sei. Acho que não. Por quer a pergunta?

“Você me desejou sucesso.”

– Desejei sucesso por estar envolvida em um projeto e se você está realizando alguma coisa desejo que se dê bem, tenha sucesso.

“Realizando alguma coisa? Está por acaso insinuando que eu não faço nada em minha vida?”

– Eu disse isso?

“Falou que “já que está realizando alguma coisa…””

– Força do hábito: desejo sucesso a todos que passam por mim, para que as pessoas sejam realizadas, felizes. Sabe como é, gente feliz não enche o saco.

“Puxa vida, você realmente é uma pessoa grossa, sem coração. Eu desejo a você um sorriso simpático e um Feliz dia dos namorados e você me chama de gorda, diz que não faço nada na vida e para arrematar me declara infeliz e que estou enchendo o seu saco. Na verdade agora eu quero que você se exploda!

Disse isso e virou as costas.

A pobre alma que havia desejado “um dia doce” somente para introduzir a conversa e oferecer um de seus brigadeiros gourmet, ajuntou seu espanto adocicado e foi vender em outro lugar.

– Pessoa maluca!

 

 


Já se encontrou com alguém e ao perguntar:

“Como está a vida?”

Recebeu como resposta:

“Daquele jeito”?

Você fica sem saber se “daquele jeito” é o mais maravilhoso dos jeitos que alguém pode viver ou se “daquele jeito” é o mais tenebroso e sinistro de todas as maneiras que existem.

Ao usar “daquele jeito” para definir como está a própria vida, a pessoa em questão abre um leque de opções e terceiriza a definição de seu estado.

Ela responde dessa maneira mais aberta impossível e você, pobre coitado, fica desesperado tentando fazer uma leitura do que não foi dito nem demonstrado.

Procura no tom de voz, no meio sorriso, na linguagem corporal, enfim, em qualquer coisa, em qualquer pista do discurso não dito, o que quer dizer “daquele jeito”.

Algumas vezes consegue decifrar, após perceber rapidamente uma levantada de sobrancelha, que o “daquele jeito” é o jeito que a criatura sempre sonhou viver.

Outras, sai de perto da pessoa sem entender ou saber nada de nada.

Aí, ao chegar à casa, comenta:

“Encontrei com Ele hoje na rua.”

– Sério? E como Ele está?

“Daquele jeito.”

E a segunda pessoa, assim como você, tem a chance de ressignificar o jeito daquele.

É sorte de quem daquele jeito está quando cada um que ouve sobre a maneira em que se encontra a criatura não sai espalhando sua própria interpretação do que nem sempre foi dito.

Quando a coisa acontece exatamente ao contrário, o indivíduo que naquele dia de sol amanheceu “daquele jeito” fica sabendo tempos depois que está na verdade onde e como nunca esteve.

Por isso, cuidado, você aí que amanheceu hoje assim desse jeito.

 

 

“Então quer dizer que você quer que eu o ataque?”

– Pois é, que você o ataque, mas de leve.

“Você sabe mesmo o que significa um leve ataque feito por mim?”

– Acho que sei Sr. Infarto. Um leve ataque feito pelo senhor dá um susto tremendo em quem o leva e, depois, a vida segue normalzinha, apenas com algumas mudanças radicais.

“Garota, você não entende nada quando o assunto é a minha pessoa. Eu não vou atacá-lo só por que você quer. Não! Nunca!”

– Posso até não compreender o que faz de verdade, apenas sei que o coração que o tem continua funcionando com as outras partes que não foram pelo senhor lesionadas. E sei também das consequências que traz à vida de quem passa pela experiência e se salva. Vai por mim, Ele está precisando.

“Ele está precisando por quê?”

– Ele precisa do sustinho, do medo da morte. Mas, por favor, nada mais que isso.

“E por que você veio até mim fazer essa petição? Não gosta do moço?”

– Aonde??? Eu o amo! Mas Ele não cuida da saúde. Não faz exercícios, come todo tipo de porcaria, nunca vai ao médico fazer os exames de controle, fuma feito uma caipora.

Além de ter uma vida toda desgrenhada: desorganizado, empurra tudo com a barriga, deve até o que não tem e não dá a menor atenção à família.

“E o que te faz acreditar que um ataque meu o faria mudar de rumo?”

– Li, dia desses, a história de um senhor de 80 anos que teve um encontro com a sua pessoa aos 40. Ficou tão assustado que radicalizou: parou de fumar, passou a fazer exercícios, cuidar da alimentação, relacionar-se direito com sua família e, 40 anos depois, estava o maior gato, todo feliz e satisfeito. Tudo porque, um dia, ficou com medo de ter o coração arrasado pela sua pessoa. Entendeu agora o meu apelo?

“Entendi. Vou dar uma olhada no moço.”

– No começo da semana tive uma conversa séria com Ele, sobre todas essas mudanças que é preciso ter para uma vida mais saudável. Então, espera aí umas quatro semanas. Caso não mude nada, o senhor entre em ação. Mas por favor, de leve!

“Pode deixar.”

Olha aí, combinei com o Sr. Infarto, caso você não tome um rumo em quatro semanas…

Não esqueça que eu te amo.

Beijos.

 

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Esperando o quê?

O que Você está esperando para organizar sua casa?

Lavar, passar e guardar todas as roupas, manter a casa limpa e arejada?

O que Você está esperando para parar de andar com os cabelos sujos?

Mantê-los cheirosos, com o volume que lhes é natural, sacudindo vida a fora?

O que Você está esperando para deixar de comer tanta besteira?

Abandonar o açúcar em excesso, esse tanto de fritura, massas e embutidos?

O que Você está esperando para começar a fazer exercícios?

Começar a subir de escadas em vez de usar o elevador, ir ao trabalho de bicicleta, deixar o carro descansar enquanto sua pessoa usa os cambitos como meio de transporte?

O que Você está esperando para largar o cigarro de vez?

Ir parando devagarinho, menos um a cada dia até chegar à hora do abandono definitivo?

Já sei! Está é esperando levantar uma manhã e não ter sequer uma peça de roupa limpa para usar e, junto com todas suas roupas sujas, encontrar os bichinhos do abandono morando com Você em sua casinha.

Quanto aos seus cabelos, deixe desse jeito para um dia estar andando na rua e ficar com as mãos mais tempo na cabeça do que qualquer outro lugar e, enquanto coça, levantar da sua nobre cabecinha um aroma mais desagradável que tudo.

Quando ao assunto, é o apego ao açúcar e todas as gostosuras da vida que  fazem você cada dia menos saudável, só posso acreditar que está esperando é receber o resultado dos exames e se descobrir diabético, hipertenso, com colesterol e triglicéride em níveis altíssimos. Estar assim, à beira de um siricutico.

Já os exercícios, quando se descobrir assim, todo lascado por dentro e, ao olhar no espelho, se deparar com o boneco da Michelin, quem sabe seja a hora de começar a pensar em ir a pé até a padaria.

E o cigarro?

Seu companheiro de tantos anos , não pode ser abandonado sem um evento prévio para servir de rito de passagem.

Por isso, já que não adiantaram todos os apelos que tenho feito ao longo do tempo para que Você tome uma atitude e faça alguma coisa em prol da sua rotina, sua casa, sua saúde e modo de viver, desejo à sua pessoa um infarto.

É, um infarto daqueles leves, bem leves só para que Você se assuste.

Sendo assim, depois de  meu desejo se cumprir, enquanto se recupera,  Você poderá decidir de verdade cuidar da própria casa, dos seus cabelos, da sua alimentação e forma física, além de abandonar os vícios.

E, quando sair do hospital, completamente restabelecido, não se esquecerá jamais do medo que teve da morte e, aí sim, vai tomar um rumo na vida e , enfim,  começará a se cuidar!

Por favor, não fique com raiva, meu desejo é por que amo você.

Fica a dica!

Beijos.


“Você quer?”

– Só um pouquinho.

“Você tem?”

– Só um pouquinho.

“Você é?”

– Só um pouquinho.

“Você pode?”

– Só um pouquinho.

E, assim, lá vai Ela, um pouquinho aqui, um pouquinho ali, um pouquinho acolá.

Querendo um pouquinho, tendo um pedacinho, sendo um tantinho, podendo um tiquinho.

O tempo passou, os anos vieram e, quando estava perto do fim, escutou:

“Você viveu?”

– Fiz de conta, só um bocadinho.

Plenitude talvez seja o anseio de todo coração.

Viver tudo que se pode daquilo que se tem.

Ir a fundo.

Ir além.

Em cada situação, amor, alegria, felicidade, realização, desalento, dor, luto.

Ir a fundo.

Em cada fase, em cada etapa, tudo que há.

Tudo que é lícito, puro e bom a fim de se resguardar das consequências adversas trazidas pelo exagero.

Plenitude.

Voar e, enquanto se voa, planar, bater asas, passar por tranquilidade e tempestade.

Vivendo assim cada detalhe do plano de voo.

Plenitude na vida.

Propor-se e cumprir seus propósitos.

Luta, sacrifício, vitória.

Mudança de rota e, no novo caminho, novamente aprofundamento, novamente conquistas mil.

Desalentos e lágrimas virão.

Mas, como tudo, passará.

Quem não vive a plenitude, quem não se aprofunda, só tem amostra grátis da vida.

Só por hoje, seja pleno!

 

 

Quando criança, você conheceu Jeannie é um gênio?

Um geniozinho lindo que perseguia seu amo, o Major Antony Nelson, atrapalhando sua vida, mas querendo sempre agradar.

Não foram poucas as vezes em que invejei seus poderes em resolver problemas instantaneamente.

Imagine?

Quando ela se deparava com um desafio doméstico, por exemplo, como a casa desarrumada, um jantar a ser feito, ou roupa a ser lavada e passada, ela simplesmente esticava os braços cruzando os ante braços sobre eles,  jogava seu rabo de cavalo para frente e para trás e, imediatamente, tudo ficava como ela queria.

Simples assim.

E se a vida fosse assim?

Joga o cabelo e tudo acontece?

Ah! Quem nos dera.

Digo nos dera por saber que você também adoraria mexer os cabelos e ter a casa arrumada, as crianças dormindo tranquilas, as contas pagas e a vida girando azeitada.

Mas e a magia do processo?

É, a magia das conquistas diárias, dos desafios vencidos?

A magia de ir aprendendo, conquistando, ver o difícil ficando fácil dia a dia.

E o encanto que traz valorizar o próprio esforço, trabalho do outro.

É verdade que a gente quer sempre resolver todas as pendengas da vida de um jeito rápido e mágico como a Jeannie, mas acredite, o processo para se chagar ao “tudo pronto” faz com que você se torne melhor!

 

 

 

Gosto de utensílios domésticos.

Coisinhas de cozinha.

Amo passear por aquelas lojas onde as prateleiras exibem mil e uma coisas graciosas que tornam o coração da casa mais charmoso.

Nos grandes shoppings, lojas especializadas mostram cores e modelos variados de instrumentos que  prometem facilitar a vida de quem ama fazer delícias.

E tem cada coisa interessante.

São panelas coloridas, cortador disso e daquilo, potes, batedores, espátulas, formas com fundos que vão e ficam, pincéis, tesouras, pratos, xícaras com seus pires combinando…

Sempre achei os pires um espetáculo à parte.

Acessórios que graciosamente combinam com suas xícaras.

Rasinhos na medida certa cumprem papel importante quando vamos nos deliciar com aquela bebida quente.

Imagine só você servir o cafezinho às suas visitas sem o pires?

Queima a mão, mancha o móvel, derrama o líquido.

Para evitar tudo isso, para ser base de apoio, lá está ele.

Engraçado que a sua profundidade é a ideal: pouquinha, discreta, suficiente.

Ele tem a profundidade certa para delimitar até onde a xícara pode correr, mostrar a ela seus limites.

Sempre pensei que as pessoas que não se dedicam àquilo que fazem e ficam na superficialidade de tudo na vida poderiam muito bem ser ditas profundas como um pires, mas vejo agora que não.

O pires tem a profundidade certa para cumprir todas as suas atribuições.

Eles fazem tudo, seu máximo.

Tenho de arranjar agora um outro comparativo para quem vive na superficialidade da vida.

Ou não.

Melhor me deter onde há profundidade, onde existem mil e uma possibilidades…

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