Estava caminhando, procurando desesperadamente um lugar seguro quando tudo se apagou.

Completa escuridão.

Não deu mais um só passo.

Não se sabe de onde veio, mas ouviu-se a voz:

“Segue somente a luz branca, a mais forte, que encontrarás a segurança.”

Na mesma hora acendeu-se a mais resplandecente de todas as luzes que já vira.

Quase cegou.

Levou alguns segundos para se acostumar com tamanho brilho e, seguindo a instrução que recebera, começou a caminhar.

O caminho, que até então estava tenebroso, transformou-se em um lugar tranquilo e seguro.

Em pouco tempo, em vez de andar, corria.

Seu medo se fora.

Não havia motivos para temer. Afinal, via tudo à sua frente.

Seu coração ficou tranquilo.

Em pouco tempo, começou a apreciar a beleza à sua volta.

Belas paisagens e construções magníficas.

Foi quando, ao longe, viu muitas, muitas luzes coloridas e brilhantes. Elas piscavam, giravam e, de onde vinham, ouvia-se som de festa.

Parou, olhou e quis ir naquela direção.

Parecia tão encantador.

Quando já estava ali  a algum tempo, lembrou-se da voz:

“Segue somente a luz branca, a mais forte, que encontrarás a segurança.”

Assustou-se com a lembrança do desespero que vivera na escuridão e da alegria que a luz forte trouxera.

Olhou para ela e continuou em frente.

Ao longo do caminho, por várias vezes, se deparou com luzes coloridas. Sempre a do momento parecia mais encantadora que a última.

Continuava.

A luz branca sempre ali, no mesmo lugar, apontando o caminho.

Por isso, continuava.

Lá pelas tantas, começou a tocar uma música alta, muito alta.

Melodiosa, envolvente.

Alta, mas que não incomodava, não dava vontade de fugir.

Pelo contrário.

Dava vontade de procurar de onde vinha.

Achegar-se à sua fonte.

Junto com a música, surgiram as luzes mais lindas e brilhantes que se possam imaginar e um aroma tão delicioso que ser humano algum é capaz de descrever.

Envolvimento.

Luz, som, aroma.

Foi quando viu, à sua frente, uma mesa gigantesca.

Nela, todas as delícias que se podem imaginar.

Sabor.

Luz, som, aroma, sabor.

Sentou-se e comeu como se não houvesse amanhã.

Enquanto comia explorou tudo que sua visão conseguia alcançar.

Todas as luzes, lugares, recantos coloridos.

Resolveu explorar só um pouquinho.

Desviou seu caminho em direção ao colorido, ao sonoramente agradável, cheiroso e gostoso.

Ganhou outro caminho.

Esqueceu-se da luz branca e forte que continuava lá.

Encontrou todas as cores, aromas, perfumes e sabores.

Jamais a segurança.


Desde sempre, a própria vontade parece ser o melhor a ser feito.
Desde muito cedo.
Muito sempre.
Nós, criaturinhas humanas, queremos conquistar, no grito, nossas vontades assim que chegamos ao mundo.
E, conforme vamos ficando durinhos, primeiro no pescoço, depois no tronco e, por fim, nas pernas, vamos querendo impor nossas vontades.
A inocência  não nos permite enxergar que absolutamente nada sabemos sobre o que é certo ou errado, sobre o que nos fará bem ou mal, por fim, o que nos fará continuar vivendo ou simplesmente morrer.
Se nossa vontade fosse absolutamente cumprida nos detalhes desde a mais tenra idade, com certeza, não teríamos chegado até aqui!
Algumas pessoas, digo algumas porque nem eu nem você somos assim, acreditam piamente que podem, ao longo da vida, ir fazendo todas as suas vontades.
Alguns pensam que podem sim, sem qualquer problema, dormir a hora em que bem entenderem e, enquanto acordadas estiverem, podem fazer tudo que têm vontade.
Pensam que seu corpo não será prejudicado.
Acreditam piamente que seu barulho e movimento sem critério não aborrecerão quem ao seu redor está.
Alguns pensam que podem andar na velocidade que querem.

 

Qual a necessidade de respeitar as leis de trânsito?
Leis?
Para que mesmo temos leis de trânsito?
Nossas vontades são tão mais interessantes de serem vividas…
O que se quer, o que dá prazer, o que faz sentido para um único ser, desde que esse ser seja “você” é sempre tão melhor.
E, por sermos 7,6 bilhões de pessoas no mundo, com algumas querendo fazer apenas suas vontades do jeito que lhes dá prazer, sem querer obedecer às leis, seguir regras ou respeitar o espaço que não lhes pertence, temos alguns problemas…
Ouvimos barulhos irritantes sobre nossas cabeças nas horas sagradas do sono, levamos horas para irmos de um lugar ao outro por termos que suportar os espertinhos no trânsito, somos chutados em elevadores por crianças fora de controle.
Ah e ainda tem o tempo que perdemos por sempre ter alguém que corta fila.
Vou deixar para que outro fale sobre o que nos ocorre quando quem tem acesso a muito resolve apropriar-se do que não é seu por direito.
Que delícia seria se todos tivessem alegria em seguir as regras do jogo, viver na lei, respeitar o próximo.

 

 

 

 

Para se falar é preciso conhecer.

Nada pior do que aquele que sai falando loucamente como se propriedade tivesse, mas, na verdade, é mais raso que um pires.

Será que existe algo mais raso que um pires?

Mas são esses que, sem dó nem piedade daqueles que os cercam, saem como loucos, repetindo, muitas vezes, verdades forjadas por pessoas mal intencionadas.

São esses que saem falando mil e uma coisas a quem por eles passam. Falando pelo simples desejo de se fazerem ouvir.

E como existem pessoas assim, como existem pessoas dispostas a despejar palavras ao vento sem nada terem a dizer.

E a disposição de falar muitas vezes é proporcional à falta de conhecimento.

Quantas vezes em encontros ficam calados os profundos para que os pires ambulantes esbanjem sua sabedoria ruidosa.,

Feliz aquele que sabe calar quando o que tem a dizer não acrescenta.

Feliz aquele que fala o que bebeu na fonte, os juízos que conhece de fato, o que traz sentido à vida.

Mais feliz ainda aquele que pode escolher em qual companhia ficar.

 

 

 

Costumava pedir o que tinha necessidade a quem podia mais que Ela.

Queria andar de mãos dadas.

Mas isso era preciso pedir a quem “podia mais que Ela”?

Claro!

Ela não tinha com quem andar de mãos dadas.

Não sabia quem poderia segurar sua mão.

Não fazia nem ideia de onde poderia encontrar.

Começou a pedir para quem podia mais que Ela.

Pediu, pediu, pediu…

Até que um dia:

“Vamos nos ver essa noite?”

Ela estranhou, mas aceitou.

Quando desceram do carro, Ele a beijou e explicou:

“Não quero mais andar sozinho. Você aceita andar comigo?”

Quando se pede a quem pode mais que você…

“Ele disse que quer andar comigo, do jeitinho que eu sempre quis.”

– Que coisa boa. Agora você tem quem vai segurar sua mão enquanto caminha.

“Coisa boa? Não quero segurar a mão dele, Ele é só meu amigo.”

– E você queria andar segurando a mão de um inimigo? Você não pediu a quem sabe mais que você? Ele não te atendeu? Então, já que está achando ruim, vai lá reclamar.

“Eu vou.”

E foi mesmo.

Chegou lá, sentou e começou:

“Eu sei que sabes muito mais que eu, só que eu não quero. Eu não quero, já disse que não quero.”
E, assim, ficou, parada em frente a quem sabe mais que Ela, repetindo sem parar que não queria, não queria e não queria.

Quem sabia mais que Ela não disse nada, afinal, a moça nada perguntara, apenas falava e repetia que não queria.

Até que, num minuto, parece que deu um estalo e Ela abriu os olhos de maneira tão assustada que parecia ter visto o que não estava ali há um segundo:

“Eu não quero, mas se o Senhor que sabe muito mais que eu quer, então, tá bom.”

A moça acabara de entender que “quem sabe mais” sabe aonde levam todos os caminhos.

Levantou dali, encontrou o moço e segurou sua mão.

De leve há 38 meses e um dia.

Um pouco mais forte há 14 meses e um dia.

E em definitivo há 02 meses e um dia.

 

 

 

 


Elas tinham uma relação muito próxima.

Cumplicidade.

Desde o nascimento da Menina, a Vozinha sempre fora seu referencial.

A mãe saia para trabalhar logo cedo e deixava uma com a outra.

Todos os dias.

No começo era claro e notório quem cuidava de quem, com o passar do tempo, os papéis se invertiam o tempo todo:

“Menina, calça o chinelo!”

“Vozinha, toma o remédio!”

Conforme a Menina foi crescendo, ela e a Vozinha foram desenvolvendo códigos,  segredos, histórias particulares.

Criaram, dentro do minúsculo apartamento, uma rotina tão cheia de encantos que não precisavam de mais ninguém.

A Vozinha envolvia sua Menina em todas as atividades corriqueiras do dia a dia e transformava cada uma delas em algo encantador, em grandes aventuras.

É certo que algumas coisas eram melhores que as outras, uma em particular, a mais formidável de todas: cozinhar!

A Vozinha falava que aquela era a hora em que elas transformavam coisas que existiam em todos os lugares em porções maravilhosas e que existiam apenas em seu mundo particular.

Todas as vezes em que iam fazer algo diferente, aquelas receitas mágicas que transformavam três ou quatro ingredientes em uma comida verdadeiramente deliciosa, a Vozinha pegava seu Guia Encantado de Delícias.

Ele nada mais era que um velho caderno de receitas que ela havia herdado de sua mãe e continuava alimentando com novos guias de misturas.

Quando aquele caderno aparecia na cozinha, a Menina sabia que aventuras deliciosas começariam a ser vividas.

O tempo foi passando, a Menina aprendeu a ler e pôde, ela mesma, começar a colocar algumas receitas no Guia Encantado de Delícias.

As receitas que ali entravam antes haviam sido testadas, muitas vezes modificadas e aprovadas pela dupla.

Até que chegou o dia de partir…

O tempo fez com que a vida mudasse, tomasse outro rumo e a Menina, que já não passava o dia todo com a Vozinha há algum tempo, decidiu mudar de país.

Não fora uma decisão fácil.

Ficar longe de sua amiga, confidente e cumplice seria algo muito difícil, mas ela, como todo mundo que ama, fora sua maior incentivadora:

“Minha Menina, você precisa ir, conquistar o mundo! Mais gente nessa imensidão de terra e céu precisa conhecer a joia que você é!”

Antes de ir, a Menina juntou suas coisas e foi passar o último mês que estava na cidade grudada em sua Vozinha.

Juntas, elas se lembraram das velhas histórias, das viagens que fizeram sem sair do apartamento minúsculo, carinhosamente chamado de Castelo da Menina, e cozinharam.

Cozinharam e cozinharam muito.

Refizeram e comeram quase todas as receitas do Guia e gargalharam, choraram, cantaram e se divertiram como há muito não faziam.

E chegou o dia de ir.

Dali a Menina ia direto para o aeroporto.

Queria ganhar o mundo a partir do seu porto seguro.

O dia derradeiro chegou e ela acordou com o aroma da sua infância: leite com chocolate, pão com queijo e biscoito frito.

Repetiram alguns rituais entre beijos, gargalhadas, abraços e lágrimas.

E, quando o táxi chegou, Vozinha entrou em casa correndo.

Foi e voltou com o Guia Encantado de Delícias nas mãos:

“Minha Menina, leve o Guia com você. Enquanto ele for seu e você fizer suas receitas, enquanto você alimentá-lo com novos manuais de delícias, nós estaremos unidas. Eu sempre estarei pertinho de você. E você, fique tranquila, não tem jeito, nunca sairá do meu coração.”

E, assim, a Menina foi rumo ao desconhecido, tendo o mundo dentro de si.

 

 

 

Ele era lindo.

Assim, lindo mesmo.

Lá no começo dos anos 90, ser parecido com o Humberto Gessinger, vocalista do Engenheiros do Hawaii, era sim ser lindo.

Digo parecido por ter cabelos longos, louros e lisos como os dele.

Na escola as meninas ululavam à sua volta.

Onde Ele estava, lá estavam elas: adulando, bajulando, querendo sempre mais.

Eu, que sempre fui da turma das tímidas, nunca troquei uma só palavra com ele.

Sabia seu nome e que morava na quadra vizinha a minha e que fazia marcha atlética.

Só.

A marcha atlética surgiu na Inglaterra no século XVII e tem como princípio básico que o atleta sempre mantenha o contato com o solo, como pelo menos, um dos pés.

Tornou-se esporte olímpico em 1928 e tem grande popularidade em países como o Espanha, Itália e Japão.

Lá na escola, ninguém conhecia.

Só o professor que apresentou a marcha ao bonitão.

O moço rapidinho se encantou pelo esporte diferente e começou a dar voltas na quadra e eu achava aquele gingado a coisa mais linda do mundo.

Não sei se era mesmo o gingado ou o contra canto que os cabelos dele faziam ao vento, só sei que, quando o vi praticando na subida mais íngreme do bairro com aquele cabelão solto indo e vindo, misericórdia!

Quase desci do carro para oferecer água ou melhor, uma carona até a casa.

Um dia, na hora do intervalo, eu, que não tinha coragem de “gravitar em volta”, estava estrategicamente parada perto de onde ele ficava com os amigos e consegui escutar:

“Não posso ir. Tenho que dormir antes das 22h. Amanhã treino logo cedo.”

Os colegas reivindicaram sua companhia:

“Amanhã é feriado, cara. Você precisa sair também!”

E Ele, todo compenetrado:

“Esquecemos do feriado quando fizemos meu cronograma desse mês, agora tenho que treinar amanhã sem folga. Estou seguindo à risca cada detalhe do que o professor manda. Quero marchar longas distâncias.”

Depois da escola, tive algumas notícias dele: tinha uma loja que fazia apologia ao uso da maconha, isso eu vi em um jornal local, um filho com o qual ele passou, empurrando em um carrinho, muito tempo em frente a minha casa e só.

Sempre que vejo algo relacionado à marcha atlética, me lembro dele, o menino que “seguia à risca cada detalhe que o professor mandava”, por querer seguir grandes distâncias.

Tomara que tenha mesmo ido longe, muito longe!

 

 

 

Tava perdidinho o Menino.

Andando de um lado para o outro sem saber para onde ir até que um dia…

“Claro que posso. Manda ele vir falar comigo.”

E ele foi.

“Sei, sim senhor. Sei sim, claro. Posso. Hoje mesmo.”

E assim nosso Menino perdido passou a ter emprego.

Dias depois…

“Será que ele quer?”

“Não sei. Mas fale com ele.”

“Se eu quero? É o que eu mais quero na vida! Posso sim. Hoje? Estarei lá!”

E assim nosso Menino perdido passou a ter emprego e a frequentar a escola.

E ele nadou de braçada.

Solícito, atencioso, bem humorado e competente, nosso Menino perdido se encontrou.

No trabalho, na escola, em todos os lugares aonde ia, era só sucesso.

Até que um dia…

Um dia viu aquilo e achou tão interessante.

Continuou trabalhando, estudando e sendo aquilo que sempre fora.

Outro dia viu de novo e teve a ideia de pegar, ninguém estava vendo.

Saiu de perto.

Tinha muito a perder.

Continuou a vida, mas aquilo não lhe saia da cabeça.

Até que, um dia viu e sem pensar em tudo que tinha a perder, se aquilo ganhasse, pegou seu objeto de desejo.

Levou e escondeu.

Continuou a vida.

Sorrindo, cantando, estudando, trabalhando.

Até que um dia, como não poderia deixar de ser, foi descoberto.

E seu mundo desmoronou.

Quebrou em pedacinhos minúsculos.

Perdeu tudo o que havia conquistado até ali.

O que tinha e quase até o que não tinha.

Ficou atordoado, perdido outra vez.

Antes que começasse a vaguear sem rumo, encontrou uma mão estendida.

Segurou.

Com todas as forças que ainda lhe restavam, segurou.

Não.

Ele sabia que não daria conta sozinho.

Por isso, segurou e foi devagarzinho. Primeiro se firmou nos pés.

Depois nas pernas.

Ergueu o tronco e a cabeça.

Abriu um sorriso e começou a andar.

Novamente por caminhos certos.

Caminhos de onde nunca deveria ter-se desviado.

Conseguiu porque, um dia, encontrou uma mão estendida que foi o seu porto seguro.

 

Parado ali, esperava quem o levaria para as atividades do dia.

Foi quando a viu, olhando para cima, procurando sabe-se lá o quê.

Ele se aproximou, puxou papo e começou a olhar para cima também.

Juntos passaram a procurar qual passarinho estava cantando.

Acharam um, depois o outro.

Quem o levaria chegou.

Quem a levaria também.

Foram um para cada lado.

O dia.

A noite.

Outro dia e a procura em dupla pelos pássaros cantores recomeçou.

Recomeçou também no outro dia e no outro, depois, no outro também.

Até que Ela acrescentou um novo número aos seus contatos.

Deu um toque.

Ele também.

Agora não era mais preciso esperar o dia começar para se falarem.

Mensagens iam e vinham na velocidade da luz.

Enquanto havia sol, depois que a lua chegava, todo o tempo, o tempo todo.

Não se viam só pela manhã, não se falavam só pelo trocador de mensagens.

Saídas, passeios, visitas a pássaros em outros lugares.

Eles viram a chance de que uma parceria fosse firmada.

Viram todas as possibilidades que tinham de fazer isso e aquilo juntos.

Pensaram, estudaram, ponderaram todos os pontos, estabeleceram regras e acordos mútuos, discutiram e, quando chegaram a um consenso, enfim, firmaram a parceria tão esperada.

Depois que isso aconteceu, o céu ficou de brigadeiro.

Eram pássaros cantando para todos os lados e os dois felizes, felizes.

Sorrisos, gargalhadas, grandes vitórias, pequenas conquistas.

Tudo às mil maravilhas.

Um mais feliz que o outro, cada um cumprindo sua parte no que fora previamente acordado, sendo o alicerce Ele dela, Ela dele.

Dias vão, noites vêm e, depois de muitas idas e vindas…

Uma pequena quebra aqui.

Um trincado.

Rachadura.

Deixa de cumprir um pedaço aqui, outro ali e mais outro acolá.

Devagar, quase sem se perceber, os acordos foram sendo discretamente rompidos.

Tão mansamente que eles nem se deram conta do que na verdade estava acontecendo.

Um pouco aqui, outro ali e mais outro acolá.

Até que um dia, não ouviam mais juntos os pássaros cantarem, um nem sequer sabia o que o outro estava fazendo quando o dia virava noite, quando a noite voltava a ser dia.

O céu, antes de brigadeiro, agora não tinha qualquer condição de voo.

Tudo mudara.

Um dia sentaram, conversaram e resolveram mais uma vez ir cada um para o lado que bem escolhesse.

Mas e tudo que haviam construído?

Todos os sonhos, a realidade da parceria?

Não mais existiria?

Nunca deixaria de existir.

Mudaria de formato.

Não havia como apagar tudo que acontecera.

Não tinha como deixar de ser um apoio, Ele dela, Ela dele.

Por toda beleza que ouviram juntos os pássaros cantarem, seriam para sempre de alguma forma, Ele dela, Ela dele.

 

 

 

 

 


Eu tenho medo.

Mas não é um medinho daqueles filhotinhos não!

Quando te falo que tenho medo, é porque tenho medo, medo, muito medo mesmo.

Não sei onde é que eu estava com a cabeça a hora que comprei esse carro.

Pensei que ter um carro a minha disposição seria todo incentivo de que eu precisava.

Quando comecei a economizar escutei:

“Tire primeiro a habilitação, depois, você compra carro.”

Mas, na minha cabeça, não ia adiantar nada ser habilitada e não ter com o que praticar.

Então, primeiro economizei, comprei o carro e, só depois, entrei na Auto Escola.

A primeira semana foi festa: sentadinha em sala de aula, ar condicionado, caderninho, livrinho com as plaquinhas de trânsito, tudo na maior tranquilidade.

Ao final da semana, a prova e a liberação para ter aulas práticas.

Na noite que antecedeu a primeira aula, eu nem dormi direito, cada vez que cochilava, sonhava que estava atropelando uma pessoa.

O desespero foi tanto a noite inteira que o último que atropelei foi um tio que morreu há mais de 30 anos.

Quando o sol chegou, levantei só o bagaço.

Minha aula era no primeiro horário do dia e o rapaz, Anderson o nome do anjo, foi pontual.

Quando sentei ao seu lado, sem mentir, meus joelhos batiam um no outro.

Ele, judiação, tentou me acalmar, disse que ia ser legal, que não tinha mistério.

Eu fiz de conta que acreditei.

E ali começou o meu tormento.

Foi uma luta, um verdadeiro desespero pra conseguir ligar o carro.

E foi tudo que conseguimos naquele dia: ligar o carro.

Não tenho como te contar tudo que aconteceu desde aquele dia.

O pobre do Santo Anderson foi o cara mais paciente da Terra.

Para que esse texto não se transforme em um livro – eu juro que dava um livro – vou logo te contando que Anderson tentou me ensinar a dirigir daquele dia até quando ele foi morar na Austrália, dez anos depois.

É!

Não ri não!

Foram dez anos entre desistência, abandono, retorno, choro e ranger de dentes.

Do que é que eu tinha medo?

De matar alguém!​

Por mais que o Anderson dissesse que, se eu andasse sempre à direita, seguisse o limite de velocidade, respeitasse a sinalização de trânsito, jamais iria atropelar e muito menos matar alguém, eu não acreditava.

Só depois de que ele foi embora e meu carro passou três anos sem sair da garagem enquanto eu ia e vinha da terapia em ônibus lotado, resolvi procurar ajuda especializada.

E foi assim, depois de 45 aulas com um instrutor psicólogo, que hoje, finalmente, fui habilitada.

Agora vou poder dirigir meu carrinho que me esperou por tantos anos.

O bichinho foi tão fiel em me esperar que ainda tem alguns zeros originais de fábrica no odômetro.

Agora, juntos conquistaremos o mundo na faixa da direita, seguindo todas as leis de trânsito e sempre na velocidade da via!

Ela acordou cedo e começou a mandar mensagens só para confirmar.

Mandou pra todo mundo e foi tomar banho.
Deixou o telefone no quarto e, quando voltou toda cheirosa e perfumada, a surpresa:
Tinha dez mensagens respondidas.
Todas desmarcando o compromisso.
Cada um apresentando sua própria desculpa.
Alguns contavam “tragédias”, outros, desculpas esfarrapadas e ainda os mais descarados, justo aqueles que haviam confirmado e garantido que iriam a qualquer custo, valiam-se do bom e velho “tive um imprevisto”.
Que imprevisto, minha gente?​
E agora?
Com quem Ela iria fazer a trilha para chegar à cachoeira do Jabuti?
Parou, pensou, lamentou, xingou e decidiu:
“Vou sozinha! Que eu saiba não nasci grudada em ninguém!”
Arrumou sua mochila com lanche, água gelada, protetor, entrou no carro e foi embora!
A trilha não era assim tão longe da cidade, em meia hora, já estava lá.
O estacionamento do parque estava lotado, sinal de que a trilha também estaria.
Isso dava um certo alívio, afinal, fazer trilha completamente sozinha não estava nos seus planos.
O parque tinha fama de ser bem sinalizado.
Conforme Ela foi entrando, viu que realmente era.
Ainda por ali, perto da entrada viu a placa:
“Cachoeira do Jabuti – siga SEMPRE em frente.”
Ela riu por conta do SEMPRE e começou.
O caminho era encantador.
Era um típico dia de inverno no cerrado: céu absurdamente azul, pássaros cantando em festa e, salpicando a secura da estação aqui, ali e acolá, explodia um ipê amarelo.
Não só ele, mas também muitas outras flores de cores vibrantes e vivas davam colorido à terra seca.
Em um dado momento, Ela começou ouvir o som de água.
“Olha o Jabuti chegando!” – pensou.
Pensou e já começou a procurar de onde vinha aquele tão lindo som. Foi quando se lembrou da placa:
“Siga SEMPRE em frente.”
Ela então esqueceu o “canto da sereia” e continuou caminhando, queria sim chegar ao Jabuti.
De vez em quando aparecia uma ou outra sinalização falando de cachoeiras menos famosas e Ela se lembrava:
“Saí de casa para ir à cachoeira do Jabuti, não posso me contentar com nada diferente disso.”

Pensava e andava.

As placas continuavam aparecendo falando de tudo que era cachoeira, com tudo que era nome, mas nada do bichinho cascudo.

Ela, que continuava andando sozinha, não se conteve: quando viu um grupo se aproximando todo molhado e barulhento perguntou ao primeiro que por ela passou:

“Por favor, falta muito para chegar à cachoeira do Jabuti? Não há uma só placa que fale sobre ela, já está perto?”

O trilheiro sorriu simpático e respondeu:

“Não se preocupe, você está no caminho certo. Mesmo não tendo mais placas que falem sobre ela, continue andando em frente. Não se desvie nem desista, vai valer a pena chegar até lá.”

Ela sorriu e, apesar de não acreditar muito no moço e em seu sorriso, continuou!

Lia as placas que se espalhavam e falavam sobre tudo e todos menos dele.
Mas Ela continuou andando, sorrindo e acreditando.

As pessoas foram ficando pelo caminho, afinal, haviam outras belas cachoeiras e nem era preciso andar tanto.

Mas, depois de uma curva, quando estava praticamente sozinha, começou ouvir um som melodioso que foi só aumentando a cada passo, além de ficar mais belo.

O verde à sua volta tornava-se mais vibrante e os pássaros pareciam cantar mais alto e intensamente.

Ela começou a andar o mais rápido que conseguia e, de repente, se deu conta de que havia chegado à cachoeira:

Ela não era a mais alta de todas, mas estava rodeada de belas e gigantescas árvores. O poço que se formava aos seus pés, de água tranquila e transparente, era um convite ao mergulho e relaxamento.

A Moça mergulhou, descansou e quando estava boquiaberta observando tudo à sua volta viu que um rapaz a observava atentamente:

“Por que não o há sinalização até aqui? Ao longo do caminho pensei em desistir várias vezes. Quando via que falavam de todo mundo menos dela, pensava que a tal cachoeira do Jabuti nem existia.”

O Moço sorriu e falou:

“Quando fomos sinalizar a trilha, decidimos que aqui não é um lugar para todos. Aqui só podem chegar aqueles que acreditaram em nossa palavra, a primeira de todas. Só quem acreditar no que dissemos no começo da trilha: Siga SEMPRE em frente.

A moça continuou olhando para ele espantada, foi quando ouviu:

“Esse aqui é um santuário para quem acredita em promessas. Acredita e continua andando sempre em frente, sem duvidar.”

“Fazendo assim, a chegada ao paraíso é certa.”

Ela sorriu orgulhosa de si mesma e começou o caminho de volta feliz por ter acreditado, não desistido e, assim, encontrado o paraíso em um domingo de sol.

 

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