Ser alguém na vida de alguém é o melhor dos presentes. Pra quem o é.

 

Nada como ter para onde voltar.

Uma vez, li o relato de um garoto dizendo que, quando decidiu mudar-se de cidade, ouviu de seus pais que ele poderia ir tranquilo, caso alguma coisa desse errado e ele precisasse voltar, as portas estariam sempre abertas.

Ter para onde voltar abre as portas do mundo.

Dá a certeza de que pode bater assas, afinal, o ninho seguro estará sempre esperando você.

Ela tinha para onde voltar.

Sempre soube que tinha.

E começou indo cedo.

Começou dando uns passos pequenos e vacilantes.

Ia e voltava rapidinho.

Ficava um tempo, respirava, descansava e, quietinha, planejava ir mais longe, ficar mais tempo.

E lá ia Ela.

Mais longe, mais tempo.

Voltava feliz, contando mil e uma coisas: sabores, cheiros, texturas, pessoas.

Voltava e passava um tempo.

Quando menos se esperava, a mochila já estava novamente nas costas: mais longe, mais tempo.

Houve um ano em que passou mais tempo lá do que cá.

As coisas começaram a acontecer por onde ia.

Seu trabalho começou a ser reconhecido onde era apresentado.

Mesmo tendo para onde voltar, ficava mais tempo no mundo do que no seu porto seguro.

Precisava conquistar o mundo.

Tudo ia muito bem: as portas se abriam por onde passava, céu azul, pássaros cantando e, quando havia tempestade, sempre havia um teto seguro sobre sua cabeça, comida quente, calor  humano.

Mas, um dia, depois de muito tempo só de bonança, o céu ficou escuro  e começou a cair uma grande tempestade: em meio àquele temporal, Ela não tinha um teto, não tinha roupas quentes, abrigo ou comida.

Tudo parecia estar fora do lugar e Ela perdeu o chão.

Tudo, tudo, tudo mesmo, se fora como levado pelo vento: amigos, trabalho, reconhecimento, dinheiro…

Não havia mais onde colocar os pés, onde abrigar sua cabeça.

Ela não sabia nem mesmo como voltar ao porto que era seu.

Telefonou.

O tempo que passou pareceu uma eternidade.

Mas não foi, foram apenas horas.

Aqueles que faziam tudo ficar tranquilo não mandaram que desse um jeito e voltasse.

Não!

Eles foram até Ela.

“Como está você, Garota?”

Não perguntaram o que Ela fizera para estar daquele jeito.

Não perguntaram onde estavam seus amigos, o que Ela fizera com sua casa e com o dinheiro que ganhara.

Não recriminaram quando souberam que vendera o carro e o que fizera com o dinheiro.

Nada!

Apenas a abraçaram.

Abraçaram, beijaram e disseram:

“Quer voltar para casa com a gente?”

Ela pensou e, ainda chorando, lembrou-se do que a trouxera até ali:

– Eu não queria voltar assim, sem nada nas mãos.

“Então você quer recomeçar aqui mesmo?”

Ela deu o mais triste sorriso que alguém já vira em seu rosto:

– É isso! Quero recomeçar aqui.

Eles sorriram e a abraçaram:

“Então, pare de chorar e vamos começar de novo agora mesmo!”

E eles começaram.

Juntos.

Quando Ela já estava conseguindo andar sozinha, eles a beijaram e partiram.

E Ela se reergueu.

Passou rapidamente por onde estava e continuou crescendo.

E cresceu muito.

Ficou forte outra vez.

Reconquistou o que havia perdido.

Ganhou o que nunca tinha sonhado.

E um dia se pegou pensando que nada disso teria acontecido se não tivesse tido apoio.

Ficou tão agradecida e feliz que resolveu olhar para os lados:

– Alguém que está aqui perto de mim pode estar sofrendo, precisando de apoio para continuar. Foi tão bom ter onde me apoiar quando precisei.

E, naquele momento,Ela decidiu tornar-se o porto seguro de alguém.

Estava pensando aqui se você também não podia ser “a pessoa especial” na vida de alguém. Vai ver tem uma pessoas aí ao seu lado esperando uma palavra de apoio vinda de você para ter a vida transformada.

Quer tentar?

 

 

 

 

Algumas vezes tudo que temos na vida é medo e o “será”

 

– Certeza de que tudo vai dar certo.

“Será?”

– Certeza. Tudo vai dar certo.

“Como você pode ter tanta certeza?”

– Pode acreditar. Vai dar certo.

E Ele acreditou.

Acreditou que daria certo.

E foi fazer a parte que lhe cabia.

Sabe como é, né?

Vai dar certo?

Vai!

Mas tem de fazer alguma coisa.

Não dá pra ficar com a cara para o alto esperando acontecer, esperando dar certo.

E Ele foi para cima.

Assim, vamos conversar aqui só nós dois: Você já viu alguém ter alguma necessidade e ficar sentado em um sofá não muito confortável à espera de um milagre?

Eu já.

Ficou, ficou até que cansou.

Ainda bem que Ele não ficou parado, foi para cima.

E as coisas começaram a mudar de rumo, a dar certo.

O tempo, que não para, trouxe com ele resultados positivos, aqueles que Ele há tanto sonhava.

Foi quando se encontraram novamente:

– Você está tão diferente, parece mais feliz.

“As coisas têm dado certo.”

– Sério?

“De verdade. Depois daquele encontro que tivemos, acreditei que tudo poderia ser diferente e tem sido.”

– O que mudou?

“Quase nada, só meu jeito de agir.”

Ele sorriu:

– O que você mudou no seu jeito de agir?

“Mudei minha alimentação, minhas horas de sono, a prática de exercícios físicos que não existia para mim passou a fazer parte da minha rotina, meu jeito de encarar as coisas com mais positividade e otimismo.”

O amigo, visivelmente admirado:

– Estou de boca aberta com você!

“Fecha a boca rapaz! Eu tinha de fazer algo diferente ou teria o mesmo resultado para sempre. Algumas vezes, é difícil, mas aí me lembro de onde eu estava e para onde eu quero ir, aí continuo fazendo diferente, um dia de cada vez.”

Um silêncio sorridente se instalou entre os dois:

“Muito obrigado por acreditar em mim quando eu mesmo não colocava fé na minha pessoa. Hoje, sei que vai dar certo, um dia de cada vez.”

E, assim, Ele continuou mudando um pouco a cada dia, mantendo as mudanças já conquistadas e olhando sempre seu alvo, sem nem pensar em parar a mudança.

 

 

 

Cada coisa que Ela ouviu e mesmo assim ficou firme em suas certezas.

 

Da vida deles todos cuidavam:

“Vocês vão mesmo namorar? Mas são tão diferentes, nada em vocês parece combinar. Têm certeza mesmo?”

Parece que, a partir do momento que decidiram começar um relacionamento que ia além da amizade, todos os olhares se voltaram a eles.

Uma agonia.

Patrulhas surgiram onde quer que estivessem.

Parecia que as pessoas se dividiam entre torcer para que desse certo ou para que terminasse o mais rápido possível.

E eles, tranquilos, seguiam suas vidinhas, indiferente a tudo e todos.

Agradeciam a quem por eles torcia.

Ignoravam solenemente a quem colocava gosto ruim às decisões que tomavam dia a dia.

Até que um dia…

“Vocês vão mesmo namorar de longe? Como assim? Ele vai se mudar para o outro lado do mundo e, mesmo assim, vocês vão continuar esse namoro? Não seria melhor terminar? Não seria melhor que vocês se casassem de uma vez?”

Em cada lugar a que chegavam, alguém dava uma opinião diferente.

Todos já tinham decidido o que era melhor para a vida do casal: terminar e fazer de conta que aquele amor jamais existira, diziam alguns. Casar e começar logo a vida a dois, diziam outros.

Eles sorriam em silêncio, davam-se as mãos e se retiravam.

Até que o dia da despedida chegou.

Ele iria para o outro lado do mundo.

Mas combinara com Ela tudo direitinho.

Cada um dos passos que dariam enquanto separados estivessem já estava acertado.

Quando se veriam, como fariam para se comunicar, quando, enfim, juntos estariam novamente.

Tudo combinado.

Inclusive o acordo do silêncio:

“Amor, todos nos dão tantos conselhos, sei que são bem-intencionados, afinal são nossos amigos, querem o nosso melhor. Mesmo assim, não compreenderam o que de fato desejamos. Por isso, vamos ficar em silêncio. Não vamos contar nossos planos a ninguém.”

Combinaram assim e lá se foi o moço.

Naquela época não era assim tão fácil a comunicação, não existia a chance de se falarem a cada instante, a cada passo que davam.

As letras marcadas no papel demoravam semanas para ir e vir.

Tudo era mais lento, mais demorado, mais romântico, mais sofrido até.

Quando uma correspondência chegava, era imediatamente respondida e postada.

Quem amava fazia sua parte quase de maneira instantânea, mas tinham os motivos externos que eram muitos…

As cartas passavam por muitas mãos, durante muitos dias, muitos lugares, continentes, até que conseguiam chegar ao destino.

E algumas vezes, nem chegavam.

Algumas vezes, a rota para elas imaginada era interrompida ainda no começo do caminho: caiam em algum lugar sem que fossem vistas, misturavam-se com aqueles que iam para  outro destino, eram perdidas e nunca mais encontradas…

Quem as esperava sofria, lamentava…

Mas sabia, tinha certeza de que não chegara porque se perdera, não porque não fora enviada.

E cada uma que conseguia passar por todos os obstáculos com sucesso era grandemente comemorada, lá e cá.

Os telefonemas tinham dia e hora certos para acontecer.

Eram aos domingos, no começo da noite.

Nesse dia e hora, todos eram carinhosamente conduzidos para longe da sala onde ficava o telefone e a moça, que cá estava, podia conversar com seu amado por 15 preciosos minutos.

E, assim, com o passar dos dias e a rotina de comunicação estabelecida, a vida continuou com tranquilidade.

Tranquilidade parcial.

As pessoas, aquelas mesmas pessoas que falavam no começo do namoro que tinham opinião formada, quando ficaram sabendo que ele iria embora, todas elas tinham o que falar cada vez que a encontravam:

“Tem certeza que ele volta? Olha lá, vai ver você tá aí perdendo o seu tempo. Lá deve ter tantas mulheres interessantes. Vai ver, a essa hora, ele já arrumou outra e te esqueceu. Por que você não dá uma chance àquele Rapaz. Ele sempre gostou de você.”

Ela sorria, suspirava fundo e falava:

– Nós temos um combinado, no tempo certo, nos reencontraremos.

Quem tentava “abrir seus olhos”, algumas vezes, ficava sem graça com tamanha obstinação e se afastava, outras continuavam tentando e acabavam ouvindo:

– Você está sendo inconveniente. Por favor, pare.

A pressão sobre quem fica é sempre muito grande e, por mais que Ela fosse fina e educada, algumas vezes, tinha que se impor com mais veemência.

No mês em que fez um ano que ele fora, em uma reunião de família, uma tia que não a via há meses, chegou perto dela sem a menor cerimônia:

“E aí? Vai ficar fazendo esse tipinho de mocinha abandonada até quando? Você sabe que esse cara foi para o outro lado do mundo e, a essa hora, deve estar se divertindo horrores com todos os tipos de mulheres enquanto você está aqui feito um arbusto seco e abandonado: sozinha. Diz pra mim: até quando vai ficar assim?”

Nesse dia, ela não estava para brincadeira, no mesmo tom que a tia falou, ela respondeu:

– Arbusto seco e abandonado? A senhora está me confundindo com quem? Eu sei muito bem quem ele é, sei o que combinamos, conheço o que sinto por ele e o que ele sente por mim. Não estou fazendo “tipinho de mocinha abandonada” não! Fiz um combinado com meu namorado e estou cumprindo minha parte no trato assim como sei que ele, que é um homem sério e de palavra, está cumprindo a parte dele. Quanto à senhora, por favor, nunca mais se refira a mim desse jeito  nem queira saber o que se passa na minha vida. Com a sua licença.

E foi embora.

As pessoas são muito cruéis e têm a horrível mania de desqualificar o amor que não conhecem, nunca conheceram e, muitas vezes, nunca conhecerão.

O tempo, que, nesse caso, muitas vezes, não funciona como aliado, foi passando indiferente  a tudo e todos.

As pressões sobre Ela diminuíram por um tempo, ao menos no núcleo familiar, depois daquele espalho que ela deu na tia.

Mas foi só por um tempo, depois voltou com tudo.

Mas um dia as coisas começaram a mudar: a moça, que, apesar de toda a sua confiança, por vezes, aparecia triste era só sorrisos.

Não dizia nada a ninguém, pois esse era o combinado, mas seu comportamento estava estranhamente diferente.

E, um dia, sem alarde ou grande festa, Ele chegou.

De mansinho, em silêncio, a surpreendeu realizando suas atividades de sempre, mas o esperando como fazia todos os dias.

As pessoas, que opinavam e davam pitacos mil, ficaram admiradas ao verem que aquele casal tão novinho teve a firmeza de seguirem o propósito e compromisso que tinham feito.

Seus planos, feitos em silêncio, foram concretizados e, hoje, eles vivem juntos e felizes lá do outro lado do mundo.

E de quem falava mal, colocava gosto ruim, é possível ouvir de quando em vez:

“Sempre torci por eles. Sempre soube que seriam muito felizes juntos. Dei a maior força quando Ela ficou aqui sozinha, tinha certeza que esse amor seria para a vida inteira.”

Sei, sei…

 

Nunca antes ninguém tinha me escutado, tido que até eu posso ter uma vida melhor.
Nada como ser tratado com amor.
A gente ouve direto histórias incríveis de como o amor transforma a vida das pessoas.
Sejam elas crianças pequenas, adolescentes donos do mundo ou adultos deprimidos.
Não há aquele que, ao ser tratado com amor, não tenha a vida transformada.
Ao ler as histórias dessas transformações, fico maravilhada com o poder que ele, o amor, tem e mais encantada ainda me torno ao me deparar com o comportamento assumido por quem decide amar.
Misericórdia!
É muita paciência, altruísmo, resignação.
É amor prático demais.
Porque amor é prática, né?
Amor é ação, é mão na massa.
E, quando alguém decide amar aquele que nunca recebeu essa poção transformadora com  todos os seus nuances e desafios, tem de estar pronto para tudo.
Eles se conheceram no meio da rua.
Estava uma tarde quente com aquele calor que parecia fazer apenas naquela cidade e mais em nenhum outro lugar na Terra.
Ela tomando o maior sorvete que encontrara no cardápio.
Ele sentado na calçada apreciando aquele espetáculo.
Foi quando, entre uma e outra olhada no celular, Ela viu o menino sentado no chão. Descalço, sujo até não mais poder, parecia encantado com o que a via saborear.
Ela ficou um pouco constrangida com a posição que ocupava, afinal, estava sendo admirada enquanto comia.
Olhou no relógio e viu que tinha um tempo.
Sem olhar para os lados, pegou o cardápio e quando viu já estava sentada na calçada ao lado do Menino, mostrando a ele o cardápio:
“E, aí, vai querer qual?”
Ele se assustou.
Claro, não era todo dia que ele tinha a dona do objeto de seu desejo sentada ao seu lado, e ainda na calçada.
– Não, dona, quero nada não senhora.
Ela abriu o olho maior que podia, sinceramente assustada:
“Poxa vida, eu aqui tomando sorvete sozinha, precisando de uma companhia e você não quer sentar comigo? Tomar um sorvete também? Vamos lá, senta comigo, escolhe um sorvete.”
Ele, que era tímido, mas não era bobo, pegou o cardápio e, enquanto olhava admirado, imaginava qual seria o mais o gostoso:
– Posso escolher qualquer um?
Ela não se conteve, tinha que rir:
“Qualquer um.”
Eles levantaram da calçada e foram para a mesa.
E, como em um passe de mágicas, apareceu em frente ao Menino o maior sorvete que eles montavam ali.
E ele comeu, saboreando cada colherada.
Lá pelas tantas, quando já sabiam muito da vida um do outro ele perguntou:
– Você não vai tirar uma fotografia comigo?
“Não, por quê?”
– Todo mundo que me dá alguma coisa tira fotografia e coloca no Facebook, Instagram, pra mostrar para os amigos o quanto é gente boa. Sabe como é, ajuda menino que mora na rua, tem bom coração. Isso ajuda as pessoas a se promoveram.
Ela riu.
“Eu não gosto de me promover. O que a gente faz, come ou deixa de fazer ou comer é segredo nosso.”
Eles conversaram  e gargalharam até terminarem a última colherada gelada.
Beberam água, apertaram as mãos e marcaram um novo encontro, na próxima semana no mesmo lugar.
E, na próxima semana, por mais que um acreditasse que o outro não iria, os dois foram.
E, assim, aquele encontro no meio da semana, encaixado caprichosamente no meio da tarde, foi se tornando um ritual.
Nesse ritual semanal, eles conversavam sobre tudo, brigavam, discutiam, riam e choravam.
Um foi se tornando para o outro o ombro amigo de que precisavam.
Sem pedir nada, sem exigir qualquer coisa.
Um dia, o Menino chegou e estendeu a Ela o cardápio:
– Pode escolher o que quiser.
Ela achou estranho, nos últimos meses não havia o que discutir quem sempre falava essa frase era ela.
“O que é isso, Menino? Essa fala é minha!”
– Eu sei, mas, hoje, quem fala isso sou eu.
Ela riu mais um pouco e escolheu o sorvete mais barato que havia no cardápio.
Ele indignou-se:
“Poxa vida, desse jeito você me ofende! Quando você me convida, eu escolho o que quero e você paga sem reclamar.
Quando é minha vez de pagar, você escolhe o mais barato de todos?”
– Mas Menino – falou ela sem graça – esse dinheiro você leva pra sua mãe pra ajudar em casa, não é pra ficar me dando sorvete.
Ele, contrariado foi lá e escolheu o sorvete preferido da moça.
“Eu já te conheço, posso escolher sozinho o seu sorvete.”
Eles tomaram tudo como sempre e, ao final, quando o Menino satisfeito pagou a conta, disse a Ela:
– Você foi a primeira pessoa que parou para me escutar na vida. Nunca antes, alguém tinha me dado atenção, perguntado sobre meus planos, mostrado pra mim que até eu posso ter um futuro melhor. Eu nunca tinha recebido tanto amor e tomado tanto sorvete. Esse sorvete é só para te agradecer.
Ela sorriu com lágrimas nos olhos e passando a mão na cabeça do Menino:
“Vamos ali, eu preciso te levar a um lugar.”
E os dois saíram andando lado a lado.
Iria começar uma nova fase naquela amizade, onde o amor ao próximo seria colocado a prova.
Provado enquanto fosse, testado enquanto voltasse.

Pra mim a noite perfeita é quando chove e todos estão em casa. E pra você?

 

Gosto muito mais do dia que da noite.

A noite tem seus mil e um encantos, eu sei, mas, para mim, ela foi feita pra dormir.

Quando a noite chega, gosto mesmo é de estar em casa, com todos os que ali habitam.

Como os que morávamos juntos cada um foi para um canto da cidade, não é raro eu gritar no grupo da família, querendo saber se todos estão embaixo dos tetos que escolheram.

Ao longo da noite, eles vão respondendo devagarinho.

Antes que o sol volte, todos já disseram Sim!

A noite, com seus sons e vozes foi feita para dormir, descansar, recarregar as baterias que foram gastas com o sol.

Ah… o sol…

Com o sol, tudo é alegria.

Aliás, o sol é o astro da festa.

Também, não é para menos, ele e só ele faz duas festas em 24 horas.

Quando chega, o espetáculo é inebriante e, quando se vai, impreterivelmente faz pinturas mil de beleza sem igual.

Mas é questão de gosto.

O que, para mim, é um encanto, para outro alguém, pode simplesmente ser a parte com inconvenientes mil.

O que é de grandíssimo valor para você , para mim,  vale pouco ou quase nada.

Valores.

Gostos.

Prioridades.

Cada qual tem os seus.

Agora, para mim, vivo a noite perfeita: chuva forte, dentro de casa com quase todo mundo que amo.

Perfeita para dormir.

Para você, perfeita para quê?

 

 

Nem sempre é fácil, mas não  é  impossível

Você conhece alguém que aprende as coisas “de primeira”?

Como assim?

A criatura nunca viu ninguém fazer, nunca leu um livro, nunca nada e precisa estar com aquilo pronto.

Não há quem ensine, não há tutorial mostrando passo a passo.

Nada.

Tem o desafio e somente isso.

E, assim mesmo, vai lá, tenta de um jeito, tenta de outro e, quando o prazo termina, eis que lá está ele com tudo pronto.

Tem uns que, quando indagados como conseguiram, onde aprenderam, tem a cara de pau de responder assim:

“Ué, eu fui cutucando aqui e ali e deu certo.”

Como assim, cara pálida?

Para algumas pessoas é simples: elas vão lá e fazem.

Aí, eu chego aqui e digo que é simples.

Simples?

Quem disse?

Hoje em dia parece ser mais fácil aprender qualquer coisa.

O conhecimento está ao alcance de todos a qualquer tempo e hora.

Bastam alguns cliques e temos centenas de tutoriais nos ensinando sobre o que quisermos aprender.

Dia desses, fui a uma loja e o vendedor me contou como trocou as velas de seu carro.

Distraidamente perguntei:

“Você também é mecânico?”

Ao que ele respondeu:

“Não, mas eu vi um tutorial na internet, segui tudo o que ele falou e troquei. Deu certo, o carro está andando.”

Ele aprendeu por que teve necessidade.

Foi lá e fez.

É certo que, para ele sair por aí dizendo que sabe fazer esse serviço, certamente, terá de trocar mais algumas velas, treinar, mas, na hora da necessidade, foi atrás do conhecimento e fez o que era preciso naquele momento.

Mas ainda falta a desenvoltura plena.

E como é que se fica assim?

Desenvolto de verdade?

O único caminho é o treino.

Tentativa e erro.

Faz uma, duas, três, até…

“Até o que, por favor, que eu não aguento mais tentar.”

Até chegar o dia em que você vai fazer com simplicidade.

Mas, para isso tem de treinar.

É por isso que a maioria de nós “não consegue nem que a vaca tussa”.

Falta de treino.

Desistimos antes do fim.

“Mas, para ele, foi tão fácil.”

Quem disse, serzinho de luz, que para ele foi fácil?

Você esteve grudado nele durante todo o processo?

Esteve com ele nas madrugadas?

“Ele conseguiu logo. Eu lembro.”

Lembra não, fia.

Só ele sabe como foi difícil, quantos nãos teve que dizer para continuar tentando até conseguir.

A maioria de nós não consegue as coisas que quer porque desiste antes do fim.

Certeza disso.

Porque o fim só chega quando alcançamos o objetivo.

Não existe essa história de eu isso, eu aquilo.

É cada criatura, com muito mais dificuldades que nós dois juntos, que conseguiram coisas difíceis e que beiravam o impossível.

Pergunte, aí, a quem está ao seu lado se ele conhece alguma história de alguém que vivia uma situação miserável e conseguiu vencer.

Certeza de que a pessoa sabe.

Se não souber, é só pesquisar aí no Sr. Google. Ele tem um monte de história triste com o final feliz.

Por isso, desiste agora não.

Respire fundo, toma um copo de água e continue.

Se não aprendeu com aquele professor, aquele tutorial, procure outro, algum que está por aí vai conseguir te ensinar.

Ah! Anote todas as maneiras como você está tentando para não repetir os erros.

Não desista, porque as coisas só acabam quando terminam e só terminam quando dão certo.

 

 

 

Aaa se eu pudesse fazer tudo do jeito que eu bem entendesse…

 

“Levante aí a mão quem gosta de obedecer a ordens.”

O auditório barulhento, que lotado estava, de um minuto para o outro, ficou completamente vazio.

Parecia que realmente assim se tornara tal era o silêncio que tomou conta do local.

Os donos de cada par de olhos ali presentes pareciam não querer se mexer.

Temiam que o menor movimento pudesse fazer com que o interlocutor entendesse que sim, que eles gostavam de seguir leis, obedecer a ordens.

Por suas cabecinhas agitadas, passava qualquer coisa, menos o desejo de obedecer.

Seguir ordens, para eles, era deixar de realizar as próprias vontades, abandonar seus gostos e fantasias, era viver o que já estava por outro preestabelecido.

Não!

Qualquer coisa, menos isso.

“Ei! Onde estão todos vocês? Fugiram? Tudo isso por que ouviram as palavras ordem e lei? Não, minha gente, tenha pena de mim. Vamos ali descobrir que esse bicho cabeludo, de pernas, braços e tentáculos assustadores não é assim de todo mal.”

“Vejamos aqui o que diz o nosso amigo, Sr Dicionário.”

“Vocês já ouviram falar nele? Sabem quem é o Senhor Dicionário? Também conhecido injustamente como pai dos burros?  Injustamente eu digo, pois quem  a ele recorria estava procurando conhecimento e quem conhecimento procura é qualquer coisa na vida, menos burro.”

“Hoje, sei que vocês não mais por ele procuram, se é que a ele já tinham sido apresentados. Que vocês, quando têm dúvida sobre qualquer palavra, significado ou grafia vão ao Sr. Google.”

“Mas nós aqui vamos recorrer ao bom e velho dicionário.”

Ele foi até a mesa que estava no palco e abriu um grosso e empoeirado dicionário.

Enquanto foleava suas amareladas páginas, no telão aparecia todos os movimentos que fazia:

“R, aqui está.”

“Depois de encontrar o R procuro o A.”

“No dicionário se procura pela ordem que segue o alfabeto, uma letra após a outra.”

“Aqui está RE.”

“Agora, nesse sequencia lógica, procuro quando o G aparece depois do E.”

“Aqui!”

“REG.”

“Onde estará o R depois desse G minha gente?”

“Aqui está ele, agora falta tão somente o A.”

“O A como fica no começo de todas as sequencias alfabéticas é mais fácil de achar.”

“Aqui está REGRA: O que regula, disciplina, rege; norma, preceito, rédea. Preceito que determina uma norma de conduta ou de pensamento.”

“Quem nos deu essa preciosa informação – disse apontando para o dicionário que descansava sobre a mesa – foi esse monstro aqui, o Michaelis, português.”

O silêncio já não estava assim tão pesado.

Parecia que, aos poucos, os alunos haviam voltado a respirar.

“Imagine você um mundo sem regras. Já pensou como seria?”

“Pois, de agora em diante, eu declaro: Não há mais regras para nada. Não é preciso obedecer mais nada nem ninguém. Cada um pode fazer tudo, tudo mesmo o que bem entender!”

De um segundo para o outro, todos se agitaram novamente. Pareciam ter gostado da ideia.

“Quando digo sem regras é sem regra mesmo: o sol levantaria todos os dias à hora que bem entendesse, e se recolheria quando tivesse vontade. Já pensou? No dia em que ele não estivesse a fim, os relógios marcariam o meio do dia, mas ainda seria noite ou quando estivesse muito animado você estaria doido para dormir e ele permaneceria no meio do céu, como se meio dia fosse. Não haveria regras, cada um, inclusive o sol, viveria como bem entendesse.”

“E as estações do ano?”

“Elas poderiam muito bem fazer um combinado entre si e resolverem ficar em um só lugar o ano inteiro. Imagine: Elas combinam de ficar o ano inteiro em um só lugar, sem fazer rodízio e, aí, enquanto em um lugar é inverno o ano inteiro, no outro é sempre verão. Em outro canto só primavera e, lá longe, sempre outono.”

Eles pareciam estupefatos com a possibilidade de assarem ou congelarem com a permanência de uma só estação durante tanto tempo.

“Regras? Para que seguir regras?”

“Sem as regras, o carteiro pode deixar a correspondência da minha casa na sua e da sua na casa do chapéu. O padeiro pode fazer somente pão doce, afinal esse é o de que ele mais gosta, e todas as macieiras do mundo podem simplesmente nunca mais produzir uma só maçãzinha.”

“Em um mundo sem regras, você pode chegar à escola a hora em que desejar se desejar, quando desejar. Não precisa fazer trabalhos ou provas, nem respeitar os colegas e professores. Em um mundo sem regras, você pode comer só o que tiver vontade e jamais precisará arrumar a cama ou guardar os sapatos.”

“Afinal, não existem regras.”

“Seu estômago, se não estiver com vontade, não precisa digerir, nem seus rins filtrarem os líquidos que tem bebido. Não há regras. Liberdade! Cada um faz o que bem entende.”

Todos calados, imaginando admirados.

É quando Ele começa a falar um pouco mais baixo:

“Não se espantem se, quando terminarem as aulas, não tiver ninguém aqui na porta esperando você para te levar de volta para casa. Não há regras. Não se assuste se não houver comida em sua casa ou se lá estiverem confortavelmente instaladas pessoas desconhecidas. Não há regras. Não se assuste se tudo fugir da normalidade a que você está acostumado. É que as regras não mais existem.”

Houve silêncio total.

Tanto daquele que havia colocado abaixo todas as regras do universo como daqueles que gostaram em um primeiro momento, mas, agora, estavam tentando compreender como as coisas ficariam caso aquilo verdade fosse.

“Meus queridos, estão vendo como elas são importantes? Estão vendo como, sem elas, não podemos viver?”

Nova movimentação.

“Cada um de nós, dentro da sociedade em que vivemos, tem um papel a cumprir com direitos e deveres e precisamos sim cumprir nossa parte. Seguir as regras que nos são estabelecidas ou, senão, tudo vira um caos.”

“Eu tenho que cumprir regras para que vocês vivam bem, assim como vocês têm de fazer a parte que cabe a cada um para que todos vivamos bem.”

“E, agora, vamos embora. Nosso tempo juntos hoje terminou e ter horário para terminar também faz parte das regras.”

Os alunos saíram em relativo silêncio e, enquanto os observava, o professor acalentava em seu coração a esperança de ter sido entendido e, para frente, atendido.

 

 

Quando alguém tem o incrível passa tempo de descobrir como você cuida da própria vida…

 

Era um prédio antigo, onde a maioria dos moradores eram proprietários.

Eles haviam comprado suas moradias ainda no século passado, quando os apartamentos funcionais haviam sido vendidos aos seus moradores.

Todos, na ocasião, arremataram seu teto e pagaram em longas e suaves prestações.

Àquela altura todos quitados, moradores tranquilos…

Quando Ela e o Marido se aposentaram, passaram ainda um tempo morando no apartamento cuidadosamente reformado e mobiliado.

Mas, depois que os filhos se formaram, casaram-se e foram embora de casa, cada um cuidando da própria vida, onde acharam mais conveniente, eles também resolveram se mudar.

Escolheram a dedo uma cidadezinha linda e afastada no estado de origem dos dois e para lá foram embora.

E o apartamento?

Bem, o apartamento que fora cuidado com o maior carinho por eles, enquanto lá estiveram, foi entregue aos cuidados da imobiliária de um amigo:

“Vamos deixar que ele o alugue para não termos dor de cabeça. Assim, no dia certo, o aluguel cai em nossa conta e, se tiver algum problema, ele que resolva com o inquilino.”

E, assim, com tudo planejado e resolvido, despacharam a mobília e todos os pertences pela transportadora, entraram no avião e foram os dois satisfeitos da vida de volta à terra de origem.

No dia seguinte à saída da mudança, os pintores da imobiliária chegaram ao apartamento e começaram os trabalhos.

Três dias depois, já estava tudo pronto.

Todo novinho, repaginado, como se nunca ninguém ali tivesse morado.

Quando terminaram a pintura e a limpeza do local, chegou o responsável pela parte de aluguéis da imobiliária e fotografou tudo.

Quartos, armários, banheiro, sala, cozinha, guarda-roupas, enfim, tudo foi fotografado em seus melhores ângulos.

Eles fecharam o apartamento, mas não sem antes colocar a placa na janela:

ALUGA-SE

Com o telefone da imobiliária.

Chegando ao escritório, as fotografias foram colocadas em site especializado em anunciar imóveis a serem alugados, um belo texto foi escrito e pronto.

Tudo que cabia à imobiliária foi feito.

Não demorou muito, a Moça telefonou.

Disse que tinha se encantado pelo apartamento que fora colocado no site aquela tarde.

Combinou de buscar as chaves para visitá-lo no dia seguinte.

E assim foi.

Quando a Moça entrou, foi encantamento à primeira vista.

Por via as dúvidas, ela saíra da imobiliária com dez chaves diferentes, tinha a intenção de visitar apartamentos próximos àquele.

Vai que tinha um melhor que aquele.

Não foi a nenhum outro.

Voltou à imobiliária em 20 minutos.

“A senhora já visitou os dez apartamentos?”

– Claro que não! Visitei só o por que me apaixonei pelas fotografias. Não quero ver mais nada, é ele. – disse sorrindo, cheia de certeza. – O que eu tenho que fazer para mudar o mais rápido possível?

O rapaz se espantou:

“Poucas mulheres são tão decididas.”

Ela sorriu:

– Pois você acaba de conhecer uma que é mais que decidida.

Ele passou rapidamente a lista de documentos e exigências necessárias para que o apartamento fosse alugado.

No fim daquela tarde, ela chegou com tudo pronto na imobiliária.

Disseram que, se tudo fosse aprovado, todos os documentos estivessem certos, eles levariam cinco dias para cumprir os trâmites internos e, depois desse tempo, eles entrariam em contato.

Nesse tempo, o rapaz da imobiliária aconselhou, ela poderia visitar o condomínio, saber os horários possíveis para chegada de mudança, quais eram as regras quanto ao lixo e outros detalhes de convivência.

Ela acatou a sugestão e foi até lá, colocando-se aparte de tudo.

Em cinco dias, a Moça estava com as chaves do imóvel em mão.

Poderia se mudar.

E assim o fez.

Chegou com sua mudança em uma manhã de segunda-feira de muito sol e calor.

Com o rapaz que a ajudava a mudar todas as vezes que precisara, subiu o elevador até 6º andar e lá ficou, enquanto ele e seus companheiros de trabalho levavam seus pertences para cima.

Em duas horas, tudo que ela tinha estava desordeiramente acomodado dentro daquele que seria seu ninho nos próximos três anos.

Os rapazes se foram e ela começou a trabalhar:

– Só durmo hoje quando estiver tudo organizado dentro dessa casa.

Guardou todas as suas roupas do jeitinho de que sempre gostou: absurdamente organizado.

Quando estava estendendo a cama, ouviu pela primeira vez a campainha tocar.

Estranhou.

Não dera seu endereço novo para ninguém.

Mesmo assim, pensando que era engano, foi atender.

Tentando adivinhar do que se tratava, viu através do olho mágico o que parecia ser uma senhora com alguma coisa na mão. Curiosa abriu rapidamente a porta para confirmar:

Era mesmo uma senhora com um pratinho e em cima dele a metade de um bolo de fubá.

Ela ficou parada olhando a senhoria meio que sem entender do que se tratava quando ouviu:

*Olá, eu sou sua vizinha do 304 e vim te dar as boas-vindas.

A Moça ficou alguns instantes sem reação, nunca tivera boas-vindas tão calorosas. Até que voltou:

– Que bondade a da senhora, muito obrigada. Não vou convidá-la para entrar porque aqui não há um lugar arrumado. Mas muito obrigada.

A Vizinha, muito solicita, foi logo respondendo, com um empurrãozinho de leve e um passo a frente:

*Não tem qualquer problema sua casa não estar arrumada, eu sei, dia de mudança é assim mesmo- falou e foi entrando pela casa – com quem você irá morar aqui? É casada ou solteira? Trabalha em quê?

A pobre Moça que não esperava ser invadida daquela maneira se assustou tanto que só conseguiu parar a vizinha “solícita” no meio do corredor que leva para os quartos.

Até hoje ela não sabe dizer como, mas, quando viu, já tinha pulado na frente da senhora e, antes que ela desse mais um passo, havia aberto os braços e pernas impedindo sua passagem:

– Aquele bolo a senhora trouxe foi para mim? Eu agradeço a gentileza, mas estou de dieta. Agora, por favor, tenho que continuar o meu trabalho.

Dizendo isso, ela segurou a senhorinha pelo braço e foi conduzindo até a porta de saída.

A mulher, com os olhos muito arregalados, ia falando sem parar pelo caminho:

*Você não vai querer do meu bolo mesmo? Com o que trabalha? E o seu marido?

A Moça que agora já era dona da situação:

– Muito obrigada pela visita, muito obrigada pelo bolo e pelas boas-vindas. Até logo.

Disse isso, colocou a senhora no meio do corredor e, de um salto, já estava com a porta trancada atrás de si.

Suspirou fundo e pensou:

– Caso eu receba mais boas-vindas assim, estou perdida.

Recomeçou os trabalhos.

Lá pelas tantas, quando já estava com a cozinha quase pronta, a campainha tocou novamente.

Ela pensou duas vezes antes de olhar através do olho mágico.

A primeira experiência não havia sido muito agradável e ela estava trabalhando em um ritmo tão bom para ser interrompida.

A curiosidade foi mais forte que ela.

Do outro lado da porta estavam duas meninas.

Suspirou fundo, abriu a porta:

“Oi, nossa avó quer saber por que você não aceitou o bolo que ela te trouxe.”

A Moça chegou a não acreditar no que acabara de ouvir:

– Oi?

E a outra menina repetiu:

“Nossa vó quer saber por que você não aceitou o bolo que ela te trouxe.”

A Moça ficou séria de repente:

– Eu não aceitei o bolo que a avó de vocês me trouxe porque estou de dieta e também porque ela invadiu a minha casa. Agora vocês me deem licença porque tenho muito o que fazer. Boa tarde e passar bem.

A essa altura, além de cansada e indignada, ela já estava com raiva.

Onde já se viu tamanha petulância.

O dia terminou sem outros atropelos e, quando a noite chegou, ela já conseguira arrumar tudo:

– Nada como ser minimalista, consigo arrumar tudo que tenho em um dia apenas.

Comeu qualquer coisa, tomou banho e foi dormir.

Antes de o sol nascer, ela saiu.

Correu, voltou, tomou banho e foi trabalhar.

Chegou no fim do dia, tomou banho e foi para o curso que fazia à noite.

Quando enfim voltou para casa, estava exausta.

Abriu a porta e já ia passando direto quando viu que, embaixo da porta, havia um bilhete:

“Vizinha nova, não sei se você já recebeu a visita da senhora do 304 com a desculpa de lhe dar as boas-vindas, levando um pedaço de bolo. Ela vai querer investigar sua vida para contar a todos embaixo do prédio e por onde passar. Além de contar, ela vai aumentar as informações que receber. Cuidado! Não caia nessa!”

Não havia assinatura.

A Moça ficou parada ali sem saber a quem agradecer.

O tempo passou e sua vida seguiu normalmente, com a rotina apertada de sempre.

Saindo cedo, chegando tarde, falando bom dia, boa tarde, boa noite para quem passasse por ela no condomínio.

No fim de semana, recebia os  alguns amigos e sua vida era resumida nisso.

Um dia, o elevador em que ela descia parou no terceiro andar.

Entrou um rapaz lindo, alto, inteligente, parecia ouvir em seu fone de ouvido algo muito interessante, mesmo assim, acenou com a cabeça desejando bom dia.

De repente, Ele se vira para a Moça, tira o fone de ouvido e dispara:

# Você é a nova moradora do sexto andar?

Ela sorriu:

– Sim, sou eu.

Ele ainda sorrindo baixou o tom de voz:

# Você recebeu um bilhete embaixo da sua porta?

Imitando o tom de sussurro a Moça respondeu:

– Sim, eu recebi. Fiquei procurando a quem agradecer e não achei. Devo agradecer a você?

Ele riu gostoso:

# Não precisa se incomodar em agradecer, só desejo que você não passe pelos constrangimentos que passei.

Ela sorriu, voltou a voz para o volume habitual:

– Eu agradeço muito sua gentileza e preocupação, mas ela chegou antes de você. Aliás, ela chegou quase junto comigo. Eu tinha acabado de arrumar o primeiro cômodo da casa quando a campainha tocou.

# Sério mesmo? Que triste você ter que passar por esse constrangimento. Ela me atacou quando cheguei, depois, fiquei sabendo que é uma rotina dela fazer isso. Aí eu fico vigiando as pessoas que chegam para eu atacá-las antes dela. Uma pena que não consigo em  todas as vezes.

A essa altura, a Moça já ria alto e gostoso:

– Que bonito da sua parte fazer isso. Muita gentileza sua. Mas acho que a mim ela não mais incomoda. Ela invadiu mesmo minha casa, tive que segurar de leve seu bracinho já quase no banheiro e mostrar a saída com firmeza.

# Não, minha amiga, fique tranquila, ela volta. Está apenas estudando um novo jeito de te atacar, descobrir detalhes da sua vida.

Eles já estavam fora do prédio, mas, antes de continuar, ele olhou em volta:

# Ela está te estudando para saber como fará para descobrir detalhes da sua vida. Abordou-me dia desses perguntando se eu sei “quem é você”. Fique tranquila, ela ainda não desistiu de você.

Eles conversaram mais um tempo e a Moça, agora, sabendo que sua vizinha “querida” ainda não desistira dela, saiu pensando qual repelente usar.

Pensando admirada em como as pessoas preocupam-se mais com a vida dos outros do que com a única vida da qual precisam dar conta: a própria.

Enquanto pensava nisso, viu a vizinha apertando o passo em sua direção.

Rapidamente atravessou a rua, entrou em seu carro e deu tchauzinho, enquanto a via ficando para trás com uma carinha decepcionada…

– Ó vizinhazinha desocupada, enquanto puder evitar nosso encontro, evitarei, quando não puder mais, a gente vê o que faz. Obrigada, vizinho caridoso. Sem saber me meti em um divertido vespeiro.

E, assim, começou mais um dia corrido e feliz.

 

 

 

Pessoas admiráveis estão por toda parte, não é preciso ir muito longe para encontrá-las

 

Pessoas admiráveis.

Onde encontrá-las?

Acredito sinceramente que elas estão por toda a parte.

Você pode achá-las em laboratórios trabalhando arduamente a fim de desvendar os mistérios da ciência e salvar milhares de vidas, em salas de aula influenciando gerações, em uma esquina vendendo cafezinho ou entregando correspondência de porta em porta.

Quando comecei a escrever hoje, tentei encontrar o que as pessoas admiráveis têm em comum.

Ele era a simpatia ambulante.

Pequenino, cabeleira farta, olhos verdes e vivos tinha sempre um sorriso, um ensinamento, um chocolate.

Por onde ia, todos o conheciam.

Professor, cantor, maestro, esposo, pai, irmão, tio, amigo.

Tudo aquilo em um homem só.

Um homenzinho pequenininho e bom de papo.

Sua maior arma, a música.

Acreditava que ela transformava vidas, fazia as pessoas melhores, contribuía para o crescimento de quem a ela se dedicasse.

E, por isso, a ensinava.

Todo o tempo.

O tempo todo.

Seus filhos foram a ela apresentados ainda na infância e a ela se dedicam até hoje.

Os cinco.

Durante a semana ensinava, sua arte na escola.

Na melhor e mais conceituada escola da cidade.

Ensinava analfabetos.

Entravam ali vendo apenas bolinhas em cima, embaixo, mais perninhas, menos perninhas, bolinhas pretas e brancas.

Nada mais.

Saiam lendo, cantando, tocando.

Fazendo, sentindo, sendo música.

No fim de semana, o coral.

Igreja.

“Quem pode cantar com você?”

– Ué, você pode. O ensaio é hoje, às 15h.

Quem quisesse podia chegar que era acolhido, bem tratado.

– Você sabe cantar?

“Sei.”

– Ensaio às 15h. E você, não é amigo dele? Por que não vem também?

* Não sei cantar.

– Ué, vem também, eu te ensino.

E ensinava mesmo!

E, quando o ensaio acabava no sábado, bem depois das 17h, ele já combinava e convidava para a aula de teoria no domingo de manhã.

“Onde?”

– Lá em casa, às 8h.

E, nessas aulas “lá em casa”, tinha pão de queijo, chazinho, rapadura, risada, acompanhamento feito pelos papagaios…

Isso, papagaios.

Ele tinha, em uma gaiola bem grande, três papagaios que solfejavam melhor que qualquer aluno que, por ali, passou.

Quando as músicas eram ensaiadas, eles cantavam juntos.

Naquelas aulas, tinha-se a garantia de aprendizado e alegria.

Ao longe, podia se ouvir o crescimento de seus alunos.

E quem levava pãozinho e chazinho, caladinha sempre, era sua esposa e fiel escudeira. De quando em vez, durante uma conversinha na hora de ir embora, um aluno ouvia dela o mais delicado dos elogios:

# Eu estava te escutando lá da cozinha, você canta muito bem – dizia baixinho em forma de carinho.

O conhecimento do mestre era algo que nunca foi guardado, muito menos reliquiado.

Sua casa, sempre aberta, era refúgio e porto seguro para quem dele precisasse.

Seu conhecimento e sabedoria eram para quem dele se aproximasse.

Ele acolhia quem queria cantar e não sabia, quem tinha fome em aprender, mas também, fome de pão, abrigava quem queria tocar um instrumento mas não tinha onde se abrigar.

Tudo que ele tinha era seu caso você precisasse.

Pensando em pessoas admiráveis, me lembrei dele e vi o que elas têm em comum:

As pessoas admiráveis se doam para quem delas precisam.

Estendem a mão, ajudam, acodem.

Pessoas admiráveis vivem para servir, fazem o bem sem olhar quem recebe o bem que fazem.

 

 

Algumas vezes é preciso seguir o próprio coração

 

“Você vai ser feliz se andar por aqui.”

*Por aí, eu não vou.

“Por aqui, você vai ser feliz.”

*Mas, por aí, eu não vou.

“Então vai por onde?”

*Por ali.

“Mas ali é escuro, nunca ninguém por ali andou. Não há garantia de felicidade.”

*Eu sei. Mas, se eu for por onde você quer, minha infelicidade está garantida.

“Será?”

*Certeza. Por aqui nunca ninguém foi, não há referência nem qualquer parâmetro estabelecido, vou construir minha felicidade.

“Então, vai.”

*Obrigada por compreender. Eu mando notícias. Adeus, vou escrever minha história.

“Seja feliz.”

*Serei.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

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