E um belo dia, você descobre que o papel higiênico não brota ao lado do vaso.
Descobre que a cama não tem “função auto estudante ” nem as roupas auto lavagem e passagem.
Descobre que as contas, se não forem pegas e pagas, sequer saem do escaninho.
Descobre enfim que, para tudo, absolutamente tudo acontecer, é preciso que alguém vá lá e faça…
E antes dessa tão grandiosa descoberta? Como a vida acontecera até ali?
As roupas abandonadas no banheiro eram vistas, a próxima vez, limpas, cheirosas e passadas dentro do guarda-roupa.
O quarto que, ficava para trás todas as manhãs como se um furacão por ali houvesse passado, era encontrado em forma de paraíso já no meio do dia.
E agora…
A comida que nem sequer sabia como tinha ido parar na cozinha aparecia em seu prato assim que o estômago roncava.
Agora, cada vez que vai ao banheiro, tem de conferir se há papel, ou então, caminhar até a área de serviço, pegar o guerreiro.
Ainda no banheiro, caso esqueça a toalha, terá de sair molhando a casa inteira atrás de um paninho.
Enfim, tudo, tudo mesmo ao seu redor, a partir de agora, depende do seu próprio motor! Não adianta querer terceirizar, chegou a sua vez de atuar.
Só há uma fonte de energia que fará a vida girar: a sua própria!
Por isso, não deixe nada jogado, enrolado, não pago ou para amanhã. Afinal, tudo que jogar, enrolar, não pagar ou abandonar assim ficará.
 Bem vindo ao mundo real, ao mundo onde você e só você é o dono do motor!

 

Ele tocava antes do sol.

Não eram todos os dias, mas, quando precisava percorrer grandes distâncias e chegar junto com o astro rei ao seu lugar de destino, era assim que acontecia.

Ele ouviu a musiquinha irrequieta e insistente.

Foi a última vez.

Levantou a tempo de cumprir todas as atividades matinais antes que seu amigo chegasse.

Aquele ritual tão particular que cada um tem o seu, mas todos fazem basicamente as mesmas coisas: banheiro, cozinha, guarda-roupa, celular…

Cumpriu tudo e, quando o amigo motorista avisou que já estava chegando, juntou suas coisas e saiu todo arrumado, perfumado, bonitão.

Foi a última vez.

No carro conversou, contou piada, ouviu os planos para a próxima semana do seu amigo, contou os seus.

Falou dos filhos, da namorada, das férias que já estavam agendadas e completamente programadas, das contas pagas, cursos que estavam prestes a ser concluídos.

Dois segundos depois da hora fechada, enviou mensagem a um amigo, marcando um compromisso para o dia seguinte, quando estaria de volta à cidade.

Lá fora o vento cantava uma sinfonia digna do inverno no cerrado: alta, potente, quase ensurdecedora. Ainda tinha muita estrada pra rodar, faltava muito para o sol chegar. Ele resolveu reclinar, cochilar, dormir um pouco.

Foi a última vez.

O motorista virou piloto e que já era tempo da máquina que controlava dar tudo de si, por isso acelerou, acelerou, acelerou…

Mas o vento quis participar e tirou do chão quem sabia aonde chegar.

Girou, rodou, bateu, parou.

Um desmontou, quebrou.

O outro não mais acordou.

Foi a última vez.

 

 

E então? O Senhor foi lá?

Você não esqueceu mesmo do pedido, hein?

Claro que não!

Fui sim.

E aí?

Você me pediu que desse um susto nele mês passado, não foi?

Foi sim. E aí?

Deixei passar um mês, como o solicitado e hoje cedinho fui ao seu encontro.

Chegando ao quarto Ele não estava.

E olha que cheguei cedinho e estava um frio terrível. Mesmo assim a cama já estava arrumada e não havia ninguém em casa.

Passei pela cozinha vazia e, para minha surpresa, só havia comida saudável. Nada de massas, doces, bebida alcoólica ou produtos a serem fritos. A fruteira estava cheia e na geladeira, a única bebida que tinha era água.

Fiquei por ali e já estava para ir procurar em algum outro lugar quando ouvi o barulho na porta, esperei que a pessoa entrasse. Era Ele.

Todo suado estava vindo da corrida:

“Hoje foram meus primeiros oito quilômetros. Nunca senti tanto orgulho de mim mesmo. Nem parece que comecei só há um mês! Já perdi dez quilos e consigo correr sem dificuldade.”

Ele começou a se dirigir ao banheiro e continuou falando com alguém que eu não consegui ver:

“Também comemoro o primeiro mês sem cigarro, refrigerante, doce e cerveja. Nunca fui tão leve, tão feliz. Alguns dias, sinto vontade de esganar um, matar e morrer, mas aí paro e penso em quem eu era, quem eu sou e em quem eu quero me tornar. Penso, reflito e bebo água, como uma fruta e continuo. Não posso andar para trás, a meia maratona para a qual me inscrevi está chegando!
Bendita a hora que resolvi mudar!”
Ele continuou falando, mas eu fui embora. Não tinha motivo para eu continuar ali. Ele agora é outra pessoa.

Está visivelmente mais saudável e feliz. Já mudou, não merece passar um susto.

Preciso ir bem ali, um coração sofrido vai passar por um infarto.

E eu fiquei parada e sozinha, pensando feliz que as pessoas inteligentes ao serem advertidas atendem seus amigos, não precisam sofrer com esse ou aquele problema para se cuidarem ou mudar, basta alguém chegar e advertir.

 

Eu a vi de longe.

Não, eu o vi de longe.

Seus cabelos.

Compridos estavam ao sabor do vento.

Ela estava sentada sobre uma plataforma, cabeça baixa, olhos fixos em um livro.

Mas de longe vi apenas seus cabelos.

Eu os vi e fiquei torcendo para que o sinal que ditaria se eu iria parar ou continuar me ordenasse que ali parasse.

Precisava ver quem era a dona daquela moldura que se movia ao sabor da natureza.

Quem deixava, naquele fim de manhã ensolarado, que seus cabelos ficassem assim tão livremente ao sabor do vento?

Para minha sorte, enquanto me aproximava, o amarelo tornou-se vermelho e eu parei, a sua frente.

Aumentei a música que já tocava dentro do carro e pude observar quando lentamente ela levantou os olhos.

Nossos olhares se encontraram e ela sorriu pelo tempo suficiente para me encantar.

Rapidamente abaixou a cabeça e continuou a leitura.

Eu, absolutamente enlevado, fiquei parado ansioso por um novo olhar.

O verde chegou, tive que ir.

Fui dirigindo devagar, procurando um retorno, meus olhos precisavam encontrar os dela novamente.

Dei a volta, naquela cidade, que me era confusa e desconhecida, e consegui voltar àquela avenida, para encontrar a plataforma vazia.

Olhei em volta a tempo de vê-la embarcar sorridente.

Pensei em segui-la, buzinar, pedir mais um segundo de sua atenção, fazer alguma coisa, qualquer coisa.

Nada fiz.

E, desde então, procuro, em manhãs ensolaradas, a garota que com sorriso encantador e cabelos ao vento arrebatou meu coração.

 


Eu não sei aí na sua Terra, mas, aqui no cerrado, tá um frio de congelar calango.

18ºC!

Tá bom, você aí, que conhece temperatura negativa, vai dizer que isso não é frio.

Pra mim é!

E muito.

Aí, nesses dias congelantes, eu me encanto com a água quente que sai do chuveiro.

Se é novidade pra mim?

Sempre é!

Não me acostumo com algumas coisas do cotidiano, como água quente saindo do chuveiro e desaparecendo pelo ralo, avião com todo aquele peso voando e com fax.

Fax?

Quem se lembra de fax na era da internet, onde mensagens vão e vêm à velocidade da luz?

Onde as pessoas carregam computadores potentes no bolso e conseguem fazer tudo de dentro do banheiro?

Eu!

Eu me lembro do fax e ainda sou impressionada de como seu garrancho aparece em um papel lá longe saindo de uma máquina!

Como assim, minha gente?

Só pode ser mágica!

Sou impressionada também com as pontes.

Como é possível construir pontes no meio do oceano e, por elas, passarem toneladas e toneladas em segurança?

Os prédios…

Centenas de pessoas morando uma sobre a outra e colocando dentro de cada gaiolinha suas vidas.

Elas sobem e descem o dia inteiro e tudo se dá sem que ninguém caia em cima de ninguém.

Já pensou?

Só pode mesmo ser mágica!

Encantador estar cercada por milhares de pequenos passes de mágica todos os dias!


No mundo existem pessoas que acreditam piamente que tudo que pode dar errado vai dar errado, são as pessimistas.

Existem aquelas que são extremamente calculistas, trabalham com as evidências, prós, contras e, a partir deles, tiram suas próprias conclusões.

E existem as otimistas.

Fora de todo e qualquer padrão, elas são inevitavelmente um ponto fora da curva.

O mundo está se acabando, tudo, tudo, absolutamente tudo dando errado e a otimista consegue ver alguma coisa boa e acreditar que tudo vai dar certo.

Ela consegue achar em meio aos escombros da vida um pontinho verde onde pode ancorar sua esperança exacerbada e, a partir dele, seguir em frente.

Quando tudo que ela tem é um limão, um copo de água e uma colher de açúcar, faz uma limonada e segue feliz.

E, assim, ao contrário daquele que nada vê de bom ou de quem só consegue ver bonança no que está explicito, enxerga além da realidade.

Ao invés de ver o que está, consegue vislumbrar o que pode se tornar.

E, assim, a vida traz o que há de melhor, pois é isso e somente isso que ela espera.

Afinal, quem consegue ver o sol em meio às nuvens sente na pele o seu calor e faz maravilha com aquilo que hoje tem em mãos.

Valoriza não só o que é, mas o que pode se tornar, o que um dia será.

Desejo que você seja, só por hoje, otimista, feliz com o que é e certo do que um dia será!

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Existem milhares de coisas que fazemos todos os dias que não deveriam ser tratadas com normalidade, pois não são nada naturais, mas é exatamente assim que fazemos.

O tratamento que damos ao nosso corpo talvez seja nossa maior fonte de exemplos. Ou quem sabe o jeito que lidamos com o tempo.

Repare só:

Você passa o dia inteiro procrastinando e deixando isso e aquilo para depois. Atividades que precisam ser realizadas dentro de um determinado grupo de 24h, no caso esse que está vivendo agora, e, quando ele está prestes a terminar…

Bem, quando as 24h que foram designadas para a realização daquela atividade estão quase no fim, bate aquele desespero e a corrida começa.

O corpo, cansado por ter feito tudo aquilo que poderia ser deixado para depois, agora tem que se deter no que realmente importa.

E, com o fim das 24h e o começo das próximas, o sono vem, porque ele sempre vem lá pelas tantas.

Mas Você, pobrezinho, não pode dormir, é preciso produzir.

E para que isso aconteça, bebe isso, aquilo e aquilo outro.

Tudo para manter a parte debaixo do olho separada da parte de cima por mais tempo.

E a produção acontece.

Poderia ter sido melhor?

Claro que sim.

Se o tempo que foi gasto sem critério tivesse sido usado de maneira adequada, tudo seria feito de um jeito mais eficiente.

E assim, Você sacrifica o tempo, depois sacrifica o corpo.

Sacrifica as atividades e a única recriminação que talvez venha a receber é por não ter feito isso ou aquilo da melhor maneira.

Nunca ninguém cobra sobre o tempo mal utilizado, sobre o corpo mal-tratado.

Não é natural o que se faz com o tempo, com corpo…

Mas é normal: usar mal o tempo e, depois, por isso, judiar até do próprio corpo.

Use bem o tempo, cuide do seu corpo.

Faça ser normal o que é natural.

 

 


“Tá bom assim mesmo.”

– Sério?

“Claro. Tá bom demais assim.”

– Mas acredito que consigo fazer melhor.

“Será?”

– Certeza de que posso fazer melhor do que isso.

“Mas não precisa, deixa como está.”

– Não! Eu quero melhorar nesse ponto aqui ó.

Ela olha com visível desdém:

“Deixa isso quieto, garota. Nunca ninguém passou desse ponto.”

A garota admira-se:

– Exatamente por isso! Nunca ninguém passou desse ponto e eu posso passar. Tenho ideia, disposição e tempo hábil para ir além.

“Não precisa. Eu não vou te pagar a mais por isso, nenhuma outra pessoa vai notar, sequer enxergar. Larga mão desse negócio e vai fazer outra coisa.”

Quanto mais Ela falava mais a Garota se indignava:

– Até aqui pra você está bom. Não pra mim. Já tem algum tempo que decidi viver fora da caixinha, decidi ver além, ir além. Todos só vieram até aqui? Que bom! Tenho um longo e solitário caminho a desvendar. Com sua licença, o mundo me espera.

Deu as costas e foi além!

Voltou antes de dar cinco passos:

– Esqueça o seu “será”, posso sim fazer muito mais e melhor que tudo isso!


Admiro quem não perde a capacidade de se encantar.

Quem não coloca no campo da normalidade o nascer e o pôr do sol, as flores, pássaros, festas e pessoas.

Amo estar com quem vive se encantando, oferecendo combustível para que os olhos brilhem, as penas bambeiem.

Admiro quem não perde a capacidade de se indignar.

Quem não coloca no campo da normalidade o desamparo, a solidão, a fome, o abandono.

Amo estar com quem vive se indignando, tomando providências para que os olhos de outras pessoas voltem a brilhar.

Acho que essas duas capacidades deviam andar sempre de mãos dadas.

A admiração e a indignação.

Quando encontram-se, tudo em volta é valorizado, o que não dá para ser enaltecido é modificado.

De mãos dadas, tem-se combustível suficiente para que todo ser vivente se alegre, corra, cante, lute…

Ao andar sorrindo e leve pela vida, conhecendo o belo, fica mais fácil identificar o que faz sofrer e mudar a realidade do que bem não está.

Admire-se!

Indigne-se!

Faça a diferença.

 

 

Feliz dia dos namorados

“Feliz dia dos namorados!”

– Ah! Muito obrigada, que o seu também seja doce.

“Doce?”

– É. Doce, lindo, azul, salpicado de corações, como queira.

“Assim sim, por que doce não, estou de dieta.”

– Dieta? Que bom. Sucesso pra você.

“Que bom? Você acha mesmo que estou precisando de dieta?”

– Se está precisando de dieta? Não sei. Acho que não. Por quer a pergunta?

“Você me desejou sucesso.”

– Desejei sucesso por estar envolvida em um projeto e se você está realizando alguma coisa desejo que se dê bem, tenha sucesso.

“Realizando alguma coisa? Está por acaso insinuando que eu não faço nada em minha vida?”

– Eu disse isso?

“Falou que “já que está realizando alguma coisa…””

– Força do hábito: desejo sucesso a todos que passam por mim, para que as pessoas sejam realizadas, felizes. Sabe como é, gente feliz não enche o saco.

“Puxa vida, você realmente é uma pessoa grossa, sem coração. Eu desejo a você um sorriso simpático e um Feliz dia dos namorados e você me chama de gorda, diz que não faço nada na vida e para arrematar me declara infeliz e que estou enchendo o seu saco. Na verdade agora eu quero que você se exploda!

Disse isso e virou as costas.

A pobre alma que havia desejado “um dia doce” somente para introduzir a conversa e oferecer um de seus brigadeiros gourmet, ajuntou seu espanto adocicado e foi vender em outro lugar.

– Pessoa maluca!

 

 

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