O dia amanheceu lindo e quente, propício para ir à praia.

Aliás, era necessário ganhar o mundo, seria um crime ficar em casa.

Começou a se arrumar e pensar quem poderia acompanhá-la.

Passou algumas mensagens para possíveis boas companhias:

“Oi, vamos à praia?”

Recebeu negativas na mesma quantidade de convites que fez.

Todos estavam extremamente ocupados para curtir o dia de sol.

Ela ficou sem entender, em seu coraçãozinho, não havia nada que justificasse ficar em casa naquele dia.

Mas precisava de companhia.

Onde já se viu ir à praia sozinha?

Parada no meio da sala, celular na mão, mochila nas costas, precisava apenas da confirmação de alguém para ganhar a rua.

Queria muito ir, mas não queria, de jeito nenhum, ir sozinha.

Recebeu a última negativa.

Justo daquela que Ela tinha fé de que seria sua companhia.

Jogou-se no sofá.

Já estava quase desistindo da sua ideia quando um passarinho passou por sua janela cantando em uma empolgação de dar gosto.

Ele voava sozinho.

“Moço, estou fazendo papel de tonta.”

Deixou o celular em cima da mesa e ganhou a rua.

Foi andando empolgada, falando com todo mundo que aparecia, dando bom dia até para as flores.

Parou em uma padaria, tomou um café delicioso e desembarcou sua mochilinha à beira mar.

Sozinha.

Feliz da vida.

Ficou ali o quanto quis.

Mergulhou, nadou, pulou ondinha, tomou sol, conversou com desconhecidos, afagou cachorrinhos.

Quando o sol de amigo começou a tornar-se esquentadinho, ajuntou suas coisas e foi embora.

Misteriosamente encontrou seu celular cheio de mensagens:

“A qual praia você foi?”

“Onde foi parar mocinha, não quer mais companhia?”

“Por que não me esperou?”

“Sumiu de vez, foi?”

Ela sorriu e foi tirar a areia do dia feliz: estava vivendo em seu próprio tempo, sem amarras com aqueles que a rodeavam. Como passarinho, conseguia voar e cantar sozinha, feliz da vida.

 

 

 

 

Faltam exatamente quatro dias para o novo ano.

Acredito, de verdade, que ainda dá para salvar o que você deixou para trás nos últimos 361 dias.

Assim, infelizmente tenho que dizer:

Não dá para emagrecer todos aqueles quilos planejados nem arrumar sua vida financeira em definitivo ou ser aprovado em um concurso público.

Em quatro dias, não tem como.

Mas algumas coisas têm como sim, têm como serem resolvidas em definitivo em apenas quatro dias e o que não dá pra realizar de fato dá pra ensaiar.

Sabe aquela briga que você teve com a sua amiga do coração?

Eu sei, eu sei.

Sei que você anda dizendo a quem quiser ouvir que, na verdade, você nunca teve amiga do coração, que quer que ela se exploda e que, no que depender da sua pessoa, a amizade não reata nunca mais.

Eu sei também que, mesmo com toda essa sua valentia, sente uma falta dela que chega a arder.

Agora mesmo, no Natal, ninguém ficou sabendo, mas você se viu procurando o presente que gostaria de dar para aquela criaturinha abominável das neves.

Quando estava quase comprando, se lembrou da briga e largou o presente indo embora da loja.

Tá certo, tudo bem não dar presente de Natal.

Mas conta pra mim: está valendo a pena toda essa raiva, todo esse rancor?

A briga foi feia, eu sei, mas é para ficar de mal assim tanto tempo?

Teve motivo suficiente para um bico eterno?

E também, amiguinha, vamos combinar: ficar de mal é coisa de gente imatura.

No mundo dos adultos, ainda mais no mundo dos adultos que se curtem como você e sua amiga, as pessoas sentam, resolvem a situação e continuam a vida, a amizade, enfim, continuam tudo o de melhor que havia antes da briga.

Fazer as pazes, pedir perdão, dá tempo de fazer em quatro dias.

Você faz isso, salva essa amizade que existe desde o milênio passado e ainda começa o ano feliz da vida.

Essa é uma coisa que dá para resolver em definitivo em quatro dias.

Outra coisa é aquela conta que você pendurou há um ano inteiro.

A conta não é assim tão grande, você acabou de receber as férias, vai lá, mulher do céu, paga a conta que é sua.

Que coisa feia ficar devendo os outros só de relaxo.

O dinheiro não é muito pra você, mas, vai ver, pra quem você deve, vai salvar os últimos quatro dias do ano.

Paga lá!

E o que não dá pra fazer nas últimas 96 horas do dia dá pra ensaiar.

Por isso, te convido a usar esses poucos momentos como zona de teste.

Ensaiar antes de que as cortinas do novo se abram e o espetáculo comece!

Comece logo cedo o ensaio de comer mais saudável, tomar banhos mais rápidos, passar protetor solar.

Comece a ensaiar tratar as pessoas com mais carinho, deixar seu quarto organizado, ser gentil no trânsito.

Ensaie abandonar o cigarro, comer menos açúcar, trocar o elevador pelas escadas.

Sei lá, cara, não sei o que você quer para os próximos 365 dias que começam a partir do 1 daqui a 4 dias.

Partindo do princípio de  que você, assim como eu, deseja tornar-se a melhor versão de si mesmo,  aproveite para ensaiar, afinal, daqui a pouco, o espetáculo vai começar!

 

Estava tão cheio, mas tão cheio, que não era preciso andar.

O único trabalho que teve foi se colocar na direção que queria seguir e agarrar-se firmemente aos seus pacotes.

Ficando assim, foi literalmente arrastada para fora da loja.

Todos os anos planejava não sair na semana de natal para fazer compras.

Comprava pouco para a data, era “modesta”, não fazia firula para o mundo inteiro.

Presenteava sempre as mesmas pessoas todos os anos: pai, mãe, irmão, cunhada, sogra, marido e filho.

As únicas pessoas que recebiam uma gracinha eram os amigos “ocultos”, ninguém mais:

“Não tenho dinheiro para gracinhas. Está tudo muito caro hoje em dia.”

Era seu discurso todos os anos.

Como eram tão poucos, todo começo de ano, rezava a mesma ladainha:

“Que droga, comprei tudo que queria e precisava para esse Natal no cartão de crédito, por isso, nem posso aproveitar essas promoções. Se eu não tivesse feito tantas dívidas, podia já comprar os presentes para o Natal agora em  janeiro. Compraria tudo mais barato nos queimões e guardaria. Quando chegasse dezembro, não precisaria nem passar perto das lojas.”

Enquanto andava embaixo daquele sol escaldante em direção ao carro que deixara a uma distância absurda da entrada do shopping, ia xingando baixinho o sapato que escolhera para a ocasião e por ter sido mais uma vez tão enrolada.

Foi quando veio voando uma revista e se enganchou nas suas pernas:

“Que porcaria, agora estou sendo atropelada por revista.”

Tentou se desvencilhar daquilo de todas as formas: chutou, esfregou o pé na revista e, quando já estava quase caindo, resolveu se abaixar para pegar e jogar a tralha longe.

Quando já ia colocando a pobre revista para voar, passou os olhos pela seguinte frase:

“Como não repetir a lista de propósitos do próximo ano na lista do outro ano que você nem sabe se virá.”

Achou um tanto estranha e desenjambrada aquela frase, mesmo assim, ajuntou o que até há pouco era lixo e colocou na sacola com a boca mais aberta.

Foi para casa e, com a correria aparentemente sem fim esqueceu a história.

Quando foi colocar os presentes embaixo da árvore leu outra vez:

“Como não repetir a lista de propósitos do próximo ano na lista do outro ano que você nem sabe se virá.”

Coçou a cabeça:

“Eu e minha mania de pegar lixo na rua e trazer para casa. Não me basta o que já tenho aqui?”

Pegou a revista e colocou junto a outras na cesta do banheiro.

Quando teve uma grande necessidade e um tempinho de sossego, resolveu exercer suas atribuições de rainha, foi quando olhou em direção à cesta e viu a revistinha.

Resolveu abri-la e descobrir do que se tratava aquele manual de instruções.

Foi quando leu assim:

Faça de conta que o próximo ano tem apenas três meses.

Por isso, em vez de fazer mil e um planos e propósitos para um ano inteiro, defina apenas três objetivos para serem alcançados no próximo trimestre. Quando ele terminar, comporte-se como se dezembro fosse: faça o balanço, veja o que errou e acertou, defina novas metas e continue adiante.

Se obtiver êxito, ao final do ano, você terá cumprido 12 metas e não terá se perdido ao longo do caminho.

Ela arregalou os olhos como se tivesse descoberto a fórmula da juventude.

Resolveu aprimorar a técnica ali mesmo: escreveu suas doze metas, definiu quais seriam as três primeiras:

  • Chapar a barriga;
  • Dominar a língua portuguesa;
  • Aprender todos os taquigramas do método Oscar Leite Alves.

Pronto!

Achara a solução para os seus problemas.

Dessa vez não perderia o foco durante o ano.

Não chegaria ao final dos 12 meses atropelada e frustrada pelos planos abandonados.

Saiu dali já contando para a galera sua mais nova descoberta.

Passou a noite de natal conversando sobre seus planos com a família e, ao final da noite, já tinha montado um grupo de apoio no WhatsApp: “Ano de três meses”

Conseguira vender a ideia do “um ano em um trimestre” para quinze pessoas e cada uma delas anotou em um guardanapo seus três primeiros objetivos.

Iriam começar no dia 01.01.

Todos souberam dos três objetivos um do outro e, por afinidade, decidiram quem cuidaria de quem.

Todos os dias o “cuidado” apresentaria um relatório de desempenho para seu “cuidador”.

Assim, eles acreditavam, um daria força ao outro.

Marcaram de se reunir no dia 31.03 para o balanço e avaliação.

Prometeram voltar para nos contar o que aconteceu.

 

 

 

 

NÃO vá sem filtro solar.

NÃO deixe de beber água.

NÃO coma tanto açúcar.

NÃO durma tão tarde.

NÃO beba antes de dirigir.

Realmente, poucas coisas são tão irritantes como ouvir NÃO faça, NÃO use, NÃO esqueça, NÃO deixe, NÃO vá.

Ouvir o NÃO é algo chato, constrangedor.

Ela, assim como você e eu, começou ouvir o NÃO muito cedo, logo depois de nascer:

NÃO chore.

E assim foi pela vida a fora.

Ela ouvia e brigava.

Nunca foi de aceitar nada sem questionar.

O questionamento, o espernear e a  indagação faziam parte da sua vida.

Por mais que tentassem explicar que o NÃO era só um muro de proteção, parecia ser um caso perdido.

A cada negação, uma guerra.

Até que, um dia, eles desapareceram.

Os NÃOS sumiram e tudo passou a ser permitido.

Ela não tinha mais pelo que brigar.

Todos os NÃOS em todas as áreas transformaram-se em SIM.

E Ela começou a nadar de braçada.

Nunca fora tão feliz.

Ganhou tudo que nunca tivera: manchas na pele, infecção urinária, peso, cansaço, constrangimento com a polícia.

Superou cada um deles, continuou no mundo encantado do SIM.

Até que vieram mais manchas, mais infecções, as roupas começaram a não mais servir, o cansaço tornou-se insuportável e atropelou e matou um cachorro.

Parou e pensou:

O que está acontecendo?

Lembrou que havia trocado o NÃO pelo SIM.

Gostou da lembrança, sentiu-se poderosa, importante, independente, dona de si.

Curtiu sua liberdade por um longo tempo.

Ganhou algumas outras manchas:

“Não faz mal, escondo com base.”

A pele mais ressecada:

“Sem problemas, uso este novo hidratante.”

Ganhou mais peso:

“Estava mesmo precisando de roupas novas.”

Perdeu a CNH:

“Ando de Uber até tudo voltar ao normal.”

Até que, um dia, se olhou no espelho e viu que a base não estava escondendo as manchas, o hidratante não estava cumprindo seu papel, as roupas novas já não mais serviam e o aplicativo nem sempre funcionava.

Era hora de rever a vida.

Parou, reviu e voltou!

Voltou imediatamente a usar filtro solar, beber bastante água, abandonou o açúcar e o álcool e voltou a dormir cedo.

Ao se colocar dentro do muro de proteção formado pelo NÃO, sua pele ficou melhor, seu corpo mais hidratado e saudável e o cansaço desapareceu.

Você pode acreditar ou deixar pra lá, mas o NÃO de verdade forma à sua volta um muro de proteção.

 

 

Quando criança Ele foi um bebê amado, muito amado.

Por ser assim tão querido, tinha todas as suas necessidades atendidas.

Sempre.

Bunda limpa, barriga cheia, quentinho quando fazia frio, fresquinho quando calor, comidinha e soninho quando necessidade disso tinha, muitos brinquedos, diversão e muitos nãos.

Ele ouvia milhares de nãos o dia inteiro, todos os dias.

Conforme foi crescendo, mais “nãos” foi ouvindo.

“Não pode enfiar o dedo na tomada.”

“Não pode brincar com faca.”

“Não pode correr para o meio da pista.”

Ainda bem que escutou todos esses. Se não os tivesse ouvido, onde estaria?

Nessa mesma época em que esses “nãos” foram ditos, Ele tinha hora para dormir, comer tomar banho, trocar de roupa, brincar, ir para o parquinho, passear…

Cada coisa tinha uma hora determinada, tudo cronometrado.

E entre um beijo, um abraço, um carinho uma oração, eram milhares de “não pode isso”, “não pode aquilo.”

E o tempo foi passando…

Na parede do quarto, tinha sua rotina estabelecida, tudo ilustrado para que Ele compreendesse o que deveria fazer a cada dia.

De quando em vez havia uma “festa” em que era colocada e explicada uma nova figurinha, ou seja,  mais uma coisa na rotinha.

As coisas só apareciam. nunca iam embora daquele quadro.

No momento em que Ele estava fazendo tudo direitinho, bem acostumado, aparecia outra e outra coisa.

E foi assim que, além daquelas coisas que todo mundo faz para sobreviver como oração, escovar os dentes, pentear os cabelos, tomar café, Ele também arrumava a própria cama, guardava seus brinquedos, enxugava as colheres, colocava o lixo fora e enchia as garrafas que vão à geladeira de água.

E, quando passou a ir à escola, tinha que estudar todos os dias e lavar o uniforme para o outro dia.

Na hora das refeições, tinha que comer tudo que era colocado no prato. Doces,  só no fim de semana e sorvete uma vez ao mês.

Uma vida lotada de beijos, abraços, carinhos e regras, muitas regras, nãos, milhares de nãos.

Ele, que não sabia que existia outro jeito de viver achava tudo absurdamente normal.

Mas o tempo foi passando e seus olhos foram sendo abertos…

Algumas vezes queria mudar a ordem das coisas, negociava com quem estava no comando e conseguia.

Outras, em alguma parte específica da rotina, queria fazer diferente e não tinha cristão que convencesse quem “mandava no pedaço” que era possível ser de outra maneira.

Tinha dia em que queria era fazer tudo do “seu jeito” e partia tocando o louco.

Quem mandava chegava junto, conversava, explicava que, se Ele não fizesse conforme o programado, as coisas iriam se atropelar, argumentava e tal.

Tinha hora em que Ele obedecia e voltava para o programa, tinha hora em que batia o pé.

Quando resolvia sapatear, o embate era civilizado, mas ferrenho e Ele sempre acabava tendo que cumprir as ordens obrigado.

Até que um dia…

Até que um dia, Ele já crescido, resolveu fazer uma reunião com o comando superior e apresentar seus argumentos para não mais ter que cumprir a rotina, agora já escrita em sua parede, nem seguir as regras, como dormir cedo, comer doce só no fim de semana e todas as outras coisas que Ele sempre achara uma grande besteira.

Disse que já podia decidir o que tinha que fazer e quando fazer..

O comando superior ouviu em silêncio cada um dos seus argumentos, que obviamente não foram só esses, e deu o seguinte veredito:

“Damos a você uma semana para viver do jeito que achar que deve: dormir a hora em que quiser, acordar a hora que quiser e fazer tudo que quiser. Mas, assim, o que é sua obrigação fazer, ninguém fará.  Ao fim da semana, voltaremos a nos reunir para fazer uma avaliação”

Ele concordou rapidamente e, quando já ia levantando todo feliz, satisfeito com o que tinha conseguido, achando-se o rei da negociação, teve sua atenção chamada pelo oficial do comando superior:

“Você já reparou que no meu quarto também tenho uma rotina escrita?”

Ele conhecia a rotina e balançou a cabeça dizendo que sim.

“Então, lá tem vários itens relacionados que se referem especificamente a você. Nessa semana em que você estará vivendo de acordo com as suas regras, eu também deixarei de cumprir a minha rotina no que diz respeito a sua pessoa. Pode ser?”

Sem pensar, concordou.

“Amanhã, começaremos, certo?”

Ele saiu da sala e foi cumprir suas últimas obrigações antes da semana de libertação.

Terminou o que tinha que fazer e foi dormir no horário de sempre.

No outro dia, acordou e ouviu o silêncio da casa.

Entrou e saiu, procurou onde estavam todos, não tinha ninguém.

Telefonou desesperado:

“Onde está todo mundo? Eu precisava ir à escola hoje!”

O comando, do outro lado da linha:

– Esqueceu a proposta que me fez?

Ele despediu-se contrariado:

“Vou ver o que faço aqui.”

Desligou e deitou no sofá, foi assistir à televisão: sem arrumar a cama, sem escovar os dentes, sem a oração, sem tomar café nem trocar de roupa.

Que maravilha.

Sem regras.

Deu a hora do almoço e ninguém apareceu.

Outro telefonema:

“Onde está todo mundo? Eu preciso comer!”

O comando, do outro lado da linha:

– Esqueceu a proposta que me fez?

Ele despediu-se contrariado:

“Vou ver o que faço aqui.”

Comeu um pacote de bolachas, bebeu suco, comeu chocolate.

Foi até seu quarto e encontrou sua cama bagunçada, tudo jogado e, por um momento, ia arrumar as coisas, foi quando se lembrou: estou de folga.

Abandonou tudo e se entregou ao vídeo game.

Quando todos à noite voltaram para casa, Ele viu que surgiram uns sacos no quarto dele.

“O que é isso?”

– O lixo.

“Como assim?”

– O que é sua obrigação ninguém fará por você, como não posso ficar com esse lixo na cozinha trouxe aqui pra ver qual a solução para esse problema.

Ele ficou indignado, foi lá e colocou o lixo fora.

Mais tarde o escorredor de louças estava lotado sobre a sua cama.

Ele, apesar da raiva, nem reclamou, só enxugou e guardou.

Com o passar da semana as coisas foram ficando verdadeiramente complicadas: Ele perdeu provas por não conseguir chegar na hora, já que estava indo de ônibus, seu quarto estava parecendo uma zona de guerra, a cada pouco, aparecia sobre sua cama um objeto estranho, parte das  atividades que eram suas e ninguém estava fazendo,  tudo sendo atropelado e Ele sem qualquer domínio da situação,

No terceiro dia de “liberdade”, Ele reuniu o comando superior:

“Gostaria de negociar algumas coisas nessa semana sem regras.”

– O quê?

“Não estou aguentando comer só bolacha, não estou dando conta de acertar os horários para ir de ônibus, também meu dinheiro já acabou. Não dá para toda hora ter um saco de lixo no meu quarto nem as louças em cima da minha cama. O que pode ser feito para que a situação fique mais fácil?”

O comando superior sorriu:

– Você volta fazer a sua parte que eu volto fazer a minha.

Ele ainda tentou argumentar, mas como viu que estava mais perdendo que ganhando, resolveu:

“Tudo bem, eu volto a cumprir minha parte, mas é só por enquanto e sob protesto!”

O comando superior sorriu, na certeza de que. um dia, Ele agradeceria por ter tido tantas regras logo no começo da vida.

 

 

 

Olhos atentos e língua afiada.

Daqueles que não perdiam nada a sua volta, daquelas que transformavas em palavras tudo que passava pela retina.

Ela se orgulhava de falar tudo que queria para quem bem entendesse:

“Falo tudo em tom de brincadeira. A pessoa pensa que é só graça e ninguém fica com raiva.” –  gabava-se.

Sempre sorridente, parecia ser a mais agradável de todas as criaturas.

Era tão natural sua maneira de “ser sincera”, “falar verdades”, que, à primeira vista, ninguém nem reparava a ponta de intromissão e grosseria que permeava suas palavras.

Quando era apresentada, sondava o ambiente rapidamente e começava a destilar suas observações sorridentes e ácidas.

Era uma companhia agradabilíssima no início, mas, com a distribuição de sua sinceridade sobre roupas, cabelos, filhos, maridos, esposas e tudo o mais, as pessoas iam se afastando. Por mais que tentasse, Ela sempre acabava sozinha.

Algumas vezes, metia-se em confusão.

Falava tudo que queria e o alvo de suas observações não gostava e reagia.

Quando isso acontecia, ela ficava muda como estátua e, ao final do discurso indignado de quem tivera a vida publicamente criticada, simplesmente falava:

“Eu não sabia que não podia brincar com você. Pensei que tivesse mais senso de humor. Desculpe-me.”

Falava e se retirava como se vítima fosse.

Passava alguns dias em silêncio e, muitas vezes, a pessoa ofendida vinha até lhe pedir desculpas.

Ela se via, outra vez, dona da situação e voltava a fazer o que era de praxe.

Em consequência das palavras desenfreadas, estava sempre mudando de emprego:

“Fui demitida injustamente.”

Quando os namoros pareciam ir de vento em popa:

“A mãe dele implicou comigo e não deu para continuar. Sabe como é: a gente acaba namorando a família inteira.”

E, assim, quando criticava e observava tudo e todos de um grupo, mais cedo ou mais tarde se afastava, era afastada.

Até que, um dia, o conheceu.

Ele, um rapaz extremamente fino e educado.

Agradável e de poucas palavras, mais observava que emitia opiniões.

Sempre ponderado, falava o que achava somente sob consulta.

Ao chegar à empresa, foram formalmente apresentados para trabalharem no projeto para o qual ele fora contratado.

Ela rapidamente achou isso e mais aquilo para criticar no rapaz.

Resolveu, naquele dia, se calar, afinal, ele chegara para ser o coordenador do projeto, portanto, seu chefe imediato.

Melhor o silêncio momentâneo.

E, assim, Ela virou sua metralhadora giratória para os colegas, aos quais já conhecia, e seguiu a vida.

Até que, um dia, Ele encontrou uma colega da equipe chorando na escadaria.

Procurou saber o motivo das lágrimas e, depois de alguma insistência, ficou sabendo que fora Ela e sua sinceridade.

Lembrou-se rapidamente de que já ouvira outras reclamações sobre o comportamento da moça e resolveu tomar providências.

Desculpou-se com a ofendida e lhe garantiu que aquilo não mais aconteceria.

Foi até sua sala, pesquisou alguma coisa na Internet e saiu para o almoço mais cedo.

Durante o almoço Ela ficou sabendo que havia ofendido sua colega ao falar do seu peso e cabelo.

A reação foi a de sempre:

“Eu estava apenas brincando.”

Quem contou da ofensa teve o cuidado de falar também que o novo chefe a vira chorando e que pedira desculpas pela grosseria que a moça havia sofrido.

Nessa hora, Ela se preocupou.

Como assim? Ele pedira desculpas por algo que Ela fizera?

Ficou preocupada, mas resolveu pensar que nada mudaria.

Ao voltar do almoço, encontrou sobre sua mesa o maior arranjo de flores que já vira na vida.

No meio das flores um bilhete:

“Todas são incrivelmente belas, mas nenhuma absolutamente perfeita. Gaste seu tempo no todo, no belo e esqueça o que, pra você, não é perfeito.”

E o bilhete continuava:

“Ao terminar de ler, venha até a minha sala.”

Ela leu e releu aquele bilhete sem querer entender o que realmente significava.

Repensou rapidamente tudo que já havia falado perto do novo chefe e se lembrou da menina da qual havia criticado o peso e os cabelos logo cedo.

Seu sangue gelou.

Mas por que as flores?

Como, no bilhete, tinha uma intimação, Ela resolveu encarar o inevitável.

Passou no banheiro, escovou os dentes, arrumou a maquiagem e foi conhecer o motivo das flores.

Chegou à porta e bateu timidamente:

“Com licença.”

Atrás de sua mesa Ele abriu um largo sorriso:

– Gostou das flores?

Ela, que não tinha mais espaço para tanta sem-graceza, ficou parada no meio da sala:

“Gostei muito. São lindas.”

Ele mexia em alguns papéis sobre a mesa e disse ainda sorrindo:

– Sente-se, fique à vontade. Vamos conversar. Você quer uma água, chá, café, refrigerante? O tratamento aqui é VIP.

Ela sentou na ponta da cadeira. Muito ereta e tensa, recusou educadamente:

“Muito obrigada, estou bem.”

Nessa hora, Ele respirou fundo, mudou o semblante, ficando mais sério, e debruçou-se levemente sobre a mesa. Olhando fixamente para os olhos da moça, começou falando calma e pausadamente como lhe era peculiar:

– Acredito que você desconfie do motivo pelo qual lhe mandei flores, não é mesmo?

Ela, que já não respirava normalmente desde que entrara na sala, respondeu no mesmo tom:

“Não tenho muita ideia do real motivo.”

Ele deu um sorriso de canto de boca e mandou uma nova pergunta:

– Você não sabe o real motivo, mas ao menos desconfia do que se trata?

A moça se ajeitou, passou as mãos nos cabelos:

“É sobre o que falei com a Menina hoje pela manhã?”

O sorriso do chefe desapareceu sem que Ele perdesse a serenidade no olhar:

– Gosto do seu trabalho desde a primeira vez que o vi. Você tem uma incrível capacidade criativa, seu dinamismo é contagiante e trabalhar com você é tranquilizador já que sua proatividade é notável.

Nessa hora, Ela se ajeitou no fundo da cadeira, abaixou um pouco os ombros:

“Muito obrigada.”

Com a mesma tranquilidade que falara até então, Ele continuou:

– Mas, infelizmente, você não sabe tratar as pessoas.  Seu humor ácido e sua sinceridade ferem e maltratam aqueles que estão à sua volta.

Ela voltou cruzar os braços.

– Essa manhã o elevador estava demorando muito e eu resolvi ir ao quinto andar pelas escadas. Levei o maior susto ao encontrar a Menina, entre um andar e outro, chorando desconsolada.

Nessa hora, Ela já estava sentada na ponta da cadeira novamente:

“Eu só brinquei com ela. Que exagero!”

Enquanto brincava com duas canetas, Ele continuou:

– Depois que ela parou de chorar, eu fui conversar com as pessoas, saber se você é sempre assim, se não era uma implicância particular. Não preciso  contar o que fiquei sabendo, você sabe qual é sua conduta aqui na empresa.

Nessa hora, Ela já estava vermelha, com as mãos suando, pernas inquietas:

“Eu não faço nada demais, só brinco com as pessoas, as faço rir.”

Ele abandonou as canetas e voltou a encará-la com seriedade:

– Você é uma mulher inteligente e sabe que brincadeira só é brincadeira quando ambas as partes se divertem. O que você faz é potencializar aquilo que as pessoas não gostam em si mesmas e usar isso para ridicularizá-las. Sabe também que expor as pessoas em público da maneira que fez com a Menina hoje e que vem fazendo ao longo do tempo- porque estou aqui há poucos dias e já vi você fazer com outras pessoas-é muito longe de ser sinceridade. Quer que eu dê nome a isso que você faz?

Ela, que não era acostumada a ser confrontada dessa maneira com tanta educação e firmeza, já tinha os olhos cheios de lágrimas:

“Por favor, não precisa nomear.”

Ele continuou com o olhar firme nos olhos da moça:

– Preciso sim. Você tem que saber o nome daquilo que faz com quem está à sua volta. E eu vou contar pra você: o que faz é falta de educação e respeito.

Silêncio.

A moça de cabeça baixa, Ele olhando firmemente para Ela.

Foi quando Ela se recompôs, ficou ereta novamente, ajeitou os cabelos e, olhando o chefe nos olhos, perguntou no tom de voz mais baixo que encontrou em meio a sua perplexidade:

“Então por que as flores e o bilhete? Para que o senhor quer acabar comigo desse jeito?”

Ele franziu a testa admirado, chegou mais perto da moça que pôde:

– Eu não mandei flores para te acabar. Não estou brigando com você nem querendo te humilhar ou coisa parecida. O que te falei aqui foram coisas que alguém já tinha que ter dito a você ao longo da vida. Foi uma pena que ninguém tenha feito isso antes. As flores foram para te mostrar que, mesmo elas sendo tão belas, não são perfeitas, assim como você: é uma mulher bonita, interessante, mas não é perfeita. Assim como a Menina, como eu e todas as pessoas que estão por aí.

Ela voltou a abaixar a cabeça e Ele continuou falando:

– As flores são para que você se lembre de que todos temos beleza e encanto, mas todos temos defeitos e que você, até hoje, em nome do humor e da sinceridade, tem evidenciado o que não é tão legal, ao menos o que as pessoas não acham tão interessante nelas mesmas. As flores são um convite a você.

Ele parou de falar e esperou que Ela o olhasse novamente:

“Um convite?”

Ele sorriu e abaixou ainda mais o tom de voz:

– Um convite, nobre senhorita, um convite para que você comece a praticar o silêncio das flores, mas, quando for falar algo de alguém ou para alguém, detenha-se no que fará a pessoa feliz, no que for bom, for belo. Naquele arranjo que você recebeu, tem uma flor amarela, bem no meio. Ela está com as pétalas externas bem estragadas, mas as internas estão lindas, perfeitas. Eu te convido a olhar apenas para as que estão perfeitas, esquecer as estragadas.

Ela chorava sem conseguir se controlar:

“Acho que magoei muita gente pela estrada da vida, com esse meu senso de humor desagradável e essa sinceridade desnecessária. Vou lembrar-me das suas palavras de agora pra frente. Sempre.”

Ele sorriu e disse satisfeito:

– Espero sinceramente ter ajudado você. Gosto muito de tê-la em minha equipe e gostaria de que todos tivessem prazer em sua companhia também.

Ela se acalmou, limpou o rosto e, ao despedir-se do chefe, confidenciou:

“Vou me desculpar com a Menina, acho que, com ela peguei, realmente pesado.”

E saiu dali com o firme propósito de espalhar sorrisos em vez de lágrimas.

 

 

 

 

Nada como ter certeza daquilo em que se crê.

Não há dinheiro que pague ter tranquilidade plena e absoluta sobre tudo aquilo que faz parte de sua essência, suas crenças.

Quem assim o tem percorre o caminho de peito aberto, ombros erguidos, coluna ereta, olhar tranquilo.

Dia desses vi um exemplo disso.

Assistindo a um vídeo, desses que correm nos grupos e Facebook , vi um moço em um programa de auditório defendendo sua fé.

Ele tem fé, acredita de verdade na volta de Jesus.

Na Sua volta literal, aquela descrita em Apocalipse 1:7 onde João fala assim:

“Eis que vem com as nuvens, e todo olho o verá, até os mesmo que o traspassaram…”

E ele falava isso com desenvoltura e segurança tendo, muitas veze,  sua fala encoberta por vaias e assovios.

Não é do desconhecimento de ninguém que as pessoas, quando ouvem algo que não está de acordo com aquilo em que elas creem, reagem das formas mais estranhas possíveis.

As que faziam parte do auditório em questão gargalhavam para mostrar sua completa desaprovação e desprezo àquilo que era dito pelo moço.

Ele terminou sua fala após algumas intervenções do apresentador para que a plateia o ouvisse até o fim.

Em seguida, a palavra foi passada para outro convidado.

O outro senhor o contradisse e o ridicularizou em todas as suas colocações.

E ele?

Bem, ele continuou firme e tranquilo.

Afinal, tem certeza daquilo em que crê.

Não importa o que digam, o que pensam dele e de sua fé.

Para ele, não faz diferença estar sob vaias ou aplausos, ele sabe em que acredita e, por isso, caminha tranquilo.

Por quê?

Para quê?

Porque ter certeza pelo que se vive.

Para que todos saibam por que ele vive e está disposto a perder a própria vida.

Para que todos conheçam as verdades que o motivam a prosseguir.

Ter certeza de que tem pelo que viver e, se preciso for, morrer por aquilo por que se vive: privilégio daqueles que têm coragem de acreditar.

 

 

Ela sabia que o erro fora seu.

Tinha consciência plena de que o que fizera não era certo.

Sabia, se lembrava, recordava cada um dos detalhes dos seus atos.

Planejara aquilo minunciosamente para não ser descoberta.

Cada detalhe fora pensado para não deixar rastros.

Telefonemas, mensagens, e-mails.

Tudo devidamente camuflado, escondido.

Não tinha como alegar que fora uma coisa de momento, de impulso.

Não fora.

Ela tinha consciência de que “impulso” era uma alegação que não podia ser apresentada.

Não tinha como.

Fizera todo o planejamento no mais absoluto sigilo.

Pela primeira vez na vida, conseguira realizar algo sem contar nada a ninguém.

Silêncio.

Discrição.

Tudo arquitetado na mais absoluta solidão.

O grande problema é o que não se faz sozinha.

Algumas coisas na vida não têm como serem feitas na mais absoluta solidão.

E essa era uma delas.

Não havia maneira de viver aquela aventura sem acompanhante.

Eram necessários dois.

A escolha do parceiro sim foi involuntária.

Parceiros para essas coisas não se acham em classificados.

Ela, ao menos, acreditava que não tinha como encontrar em uma lista de anúncios.

Não conseguiria.

Sabia, Ela sabia que Ele não era a pessoa certa. Sabia as consequências caso aquilo fosse a cabo.

Quando começaram a se envolver, de leve, como quem não quer nada, Ela pensava conhecer em que aquilo poderia acarretar.

Acreditava saber todas as consequências funestas de suas atitudes.

Algumas vezes, poucas, tentara recuar, parar, deixar de fazer.

Mas estava tão bom…

Resolveu continuar.

Já que iria em frente, apostou que daria conta de fazer tudo discretamente, sem deixar rastros.

A cada passo que dava, pensava temia:

“Acho que não vou dar conta, melhor desistir dessa ideia.”

Nessa hora, a vontade do desconhecido provocava um frio na barriga, fazia seu coração bater mais forte.

Ela sempre vivera com tranquilidade em sua zona de conforto.

Tudo em sua vida sempre às claras.

Nunca fizera nada escondido de ninguém.

Era conhecida por sua transparência.

Agora, depois da vida inteira sendo assim, tinha vontade de viver o novo, o desconhecido, o proibido.

E foi.

Planejou tudo tão direitinho que acreditou conseguir ir e voltar sem que ninguém ficasse sabendo:

“Vou e, quando voltar abandono. Vai ser bom, vai dar certo.”

Caso alguém descubra?

Quando essa ideia chegava, até sentia um calafrio percorrer sua coluna. Sentia como se o chão estivesse abrindo embaixo dos seus pés, tinha sensação de morte.

Um dia antes do embarque, quando todo o seu plano parecia perfeito, foi para frente do espelho enquanto sozinha estava e começou a seguinte conversa consigo mesma:

“Tem certeza do que está fazendo? Tem certeza do que está prestes a fazer? Tenho. Tenho sim. Eu sei que você está absurdamente encantada com todas as possibilidades que podem se abrir, mas você sabe das consequências dos seus atos caso eles venham a ser descobertos? Eu faço ideia do que possa vir a acontecer. Você faz ideia? É, só ideia. Sabe quantas pessoas perderão a confiança em você? Esquecerão toda a boa imagem que construíram da sua pessoa? Sabe que de uma coisa dessas as pessoas jamais se esquecem e contam umas para as outras e, mesmo depois da sua morte, os netos dos seus amigos ainda saberão do que você está prestes a fazer hoje? Eu sei. Mesmo assim, quer continuar? Não sei. Cara, aproveita essa ponta de dúvida e desiste disso! Não posso. Já investi demais em tudo, não dá para desistir agora. E tudo que investiu para chegar a esse ponto em que está a sua vida hoje? Isso não conta? Conta, mas, dessa vez, vou fazer o que manda meu coração.”

Saiu da frente do espelho, pegou a bolsa e foi colocar seu plano em prática.

Viveu, intensamente, todos aqueles dias.

Fez exatamente tudo que secretamente havia ensaiado e planejado.

Todas as suas vontades satisfeitas, cada um dos seus desejos, há tanto acalentados, realizados.

Todos.

Voltou.

Chegou como se fora à esquina comprar pão, com a maior naturalidade do mundo.

Naturalidade essa que durou apenas até encontrá-lo.

Em silêncio, foi fuzilada com um olhar que desnuda a alma.

Na hora soube: fora descoberta.

Tentou o cumprimento habitual, foi bruscamente afastada.

Chegando ao quarto encontrou sobre a cama todos os e-mails, fotos, comprovantes de compra e reservas, tudo, tudo, tudo que provava onde estivera nos últimos dias, com quem estivera.

Ouviu coisas que jamais sonhou escutar na vida.

O chão parecia se mover sob seus pés.

Mãos suadas, coração acelerado, boca seca.

Tentou falar.

Não conseguiu.

Começou a desgrenhar os cabelos em desespero e, de um segundo para o outro, viu tudo que acabara de destruir.

Lembrou-se da conversa que tivera no espelho: havia ponderado a possibilidade de que isso acontecesse, resolvera arriscar.

Mas e agora?

O que seria de sua vida?

Subitamente arrependeu-se.

“Mas não foi tão bom? Está arrependida somente por que foi descoberta?”

“Caso ninguém tivesse ficado sabendo, continuaria a farra que eu sei.”

Enquanto chorava em desespero, isso bailava em sua cabeça como se piões descontrolados fossem.

Tinha vontade de implorar pelo perdão, mas não tinha coragem.

Sabia tudo que fizera, sabia como fizera.

Tinha planejado tão bem, como dera tudo errado?

“Está pensando assim porque não está arrependida de fato. Vai ter coragem de pedir perdão mesmo? Cara de pau. Pode pedir. Você não vai conseguir convencer ninguém.”

Desistiu.

Não pediu.

Apenas chorava e chorava como se já não existisse o amanhã.

Depois que saiu da presença, os ânimos se acalmaram, Ela foi pensar: o que afinal dera errado?

Tudo fora planejado com tanta maestria.

Onde estava o furo?

“Sua vida acaba de tomar um rumo sem volta e tudo que você quer saber é onde errou nos seus planos? Realmente você não tem jeito. Devia estar preocupada em consertar tudo que fez, mas não, quer saber como pode fazer o mal feito mais bem feito.”

Precisava pedir perdão.

Não tinha coragem.

Em sua cabeça, só poderia fazê-lo quando de fato estivesse arrependida.

Não era o caso.

Estava, sim, com medo das consequências de seus atos, mas, quando lembrava o que fizera, ainda sorria.

O tempo passou rápido e as consequências vieram de forma avassaladora: desestruturação deu tudo, absolutamente tudo que construíra ao longo de uma vida inteira.

Quando se lembrava do fizera, já não sorria mais.

Seu choro não era por medo das consequências, pois essas já doíam em sua carne.

O choro era de real arrependimento.

Em sua cabeça, era hora de pedir perdão.

Mas agora, quando arrependida estava, não tinha coragem.

Precisava de mais tempo.

E o arrependimento foi tomando forma, foi dando força a sua coragem.

Lembrava-se de cada passo que a levara até ali.

Chorava sozinha cada um dos detalhes de seu “plano infalível”.

A cada dia ficava mais arrependida, a cada dia tinha mais coragem.

Quando sentiu que daria conta, tentou pela primeira vez a aproximação: foi execrada, completamente rejeitada.

Recuou sem desistir.

De tempos em tempos, tentava conversar.

Queria apenas que Ele soubesse: havia se arrependido, era verdade.

Ele parou para ouvir, enfim.

E Ela abriu o coração.

Falou tudo, pediu perdão.

E Ele, silenciosamente escutou sem contestar:

“Terminou?”

– Terminei.

“Posso ir?”

– Não queria que fosse.

“Mas você me obrigou. Agora, que já disse tudo, tchau.”

E Ela ficou ali com suas lembranças, aventuras, arrependimentos e pedidos de perdão, observando enquanto Ele se afastava silenciosamente.

 

 

 

 

 

– Sempre quis ter a barriga travada, feito a das meninas que nada comem.

* Não existem meninas que nada comem, isso é muita coisa.

– Vamos melhorar a frase:

Sempre quis ter a barriga travada, feito a das meninas que comem certo.

* Aaa tá, assim sim, comem certo, malham certo, bebem certo, sabem dizer não, isso que você quis dizer, não é?

– Foi, foi isso sim.

* E você já tentou isso alguma vez na sua vida?

– Tentei, claro que tentei. Ano passado, a essa hora,em vez de mover a boca, eu estava movendo o pescoço.

* Movendo o pescoço? Como assim?

– Quando alguém me oferecia uma delícia, eu ia com a cabeça da esquerda para a direita, recusando educadamente.

* Aaa ridícula. Pensei que era algum tipo de exercício dessas novas modas.

– Claro que é um exercício. Esse mexe até com a alma de quem o pratica.

* E como foi essa experiência?

– Passei um mês assim: recusando as delícias, dizendo não. Balançando mais a cabeça,  mastigando menos.

* E o que aconteceu?

– Fiz isso durante um mês inteiro.

* E o que aconteceu?

– Quando o mês terminou, eu me entreguei aos prazeres da carne.

* Quando o primeiro mês terminou, você voltou a comer tudo o que já havia deixado para trás?

– Foi.

* Ninguém te avisou que o primeiro mês seria o mais difícil e que, depois dele, tudo seria mais leve?

– Eu nem pensei nisso.  Estava contando os dias para que ele terminasse. Eu só queria voltar a comer.

* Tonta! Estava fazendo sem saber o real motivo por que fazia. Podia ter sido o primeiro mês do resto da sua vida. Foi há um ano?

– Foi.

* Caso tivesse continuado, estaria um ano mais gostosa hoje.

-É, eu sei.

* Isso foi tudo que você já fez na vida para ter a barriga chapada?

– Não. Passei um tempo comendo pizza, chocolate, sorvete e refrigerante só no dia 19 de cada mês.

* E o que aconteceu?

– Emagreci, estava ficando com a barriga sarada.

* E aí?

– Aí, no mês do meu aniversário, eu comi o bolo no dia 08, abri uma exceção naquele mês e, ao final dele, descobri que estava com o mesmo peso dos outros meses em que passava com a dieta restrita. Pensei assim: do que vale restringir se estou com o mesmo peso comendo? Voltei correndo aos prazeres da carne, mais uma vez.

* Caraca! Você é mais tonta que eu imaginava. Por que não continuou? Estava mudando seus hábitos, partindo para comer mais saudável. Com o tempo você estaria tão acostumada a não comer essas besteiras o mês inteiro que nem se lembraria da existência do dia 19.

– Pois é, mais uma vez, voltei aos prazeres do apetite e esqueci a barriga sarada.

* Mas você até que tem boa vontade, toma iniciativa para as mudanças. Isso é bom. O triste é não prosseguir com os propósitos.

– É que tenho vontade real de mudar, mas a vontade de comer fala mais alto.

* Tudo bem. Agora me conte: qual o motivo que te trouxe aqui?

– Quero que você cale a voz da minha vontade de comer.

* Ai, ai, ai! Você é engraçada. Quer que eu, com apenas uma conversa, opere um milagre?

– Caso seja possível…

* Não tem jeito, queridinha, ainda não opero milagres. Se conseguisse essa proeza já estava rica, milionária.

– Mas amigas minhas vieram aqui e tiveram seus problemas resolvidos.

* Claro que elas estiveram. Eu passo as dietas, ensino os exercícios, indico o caminho das pedras. Faço tudo, mas calar a voz da sua vontade de comer, isso é com você. A vontade é sua, a voz também é sua, portanto, sendo tudo seu, a responsabilidade também é sua.

E, assim, Ela, que tinha como prática terceirizar tudo que tinha que domar, continuou com suas gordices, com seus chocolates, pizzas e sorvetes, sem assumir a responsabilidade que era só sua, sem exercícios, sem a barriga sarada, querendo mas nada fazendo.

 

 

 

 

Você tem medo de quê?

Da morte, desemprego, abandono?

A Menina tinha medo de tudo.

Crescera em uma família de dez irmãos, com a diferença de idade entre eles de um ano e meio e três anos.

Oito meninos e duas meninas.

Ela a segunda mais nova.

O sonho da Mãe era ter duas meninas e ela começou cedo.

Conheceu o Pai ainda na adolescência , apaixonou-se e, assim que os dois tiveram como pagar aluguel, água e luz, passaram no cartório, casaram-se e foram trabalhar para realizar o sonho dela, que agora já era dos dois.

O dia em que descobriram que teriam um filho foi o mais feliz de todos.

Ao descobrirem que o bebê que esperavam era um menino, choraram de tristeza.

Era uma menina que queriam.

Depois se consolaram, afinal, era o primeiro, eles eram novos, poderiam ter o segundo filho.

O Menino nasceu forte, saudável, lindo e, quando fez seis meses, foi promovido a “irmão mais velho” : ganharia uma irmãzinha.

Quando fizeram o ultrassom e descobriram ser outro menino, mais choro e decepção.

Depois se consolaram, afinal, era o segundo, eles eram novos, poderiam ter o terceiro filho.

E a sua tão sonhada filhinha teria, quando chegasse, dois seguranças para cuidar dela.

Foi esse pensamento que norteou a vida dos pais da Menina:

“Ainda somos novos, podemos ter o quarto, quinto, sexto, sétimo, oitavo filho.”

Foi quando, na oitava gravidez, descobriram que, enfim, teriam uma menina.

Eles, todos eles, os nove, comemoraram muito, afinal os meninos também já sonhavam com a Menina e, a cada nova gravidez, criavam, junto com seus pais, a bendita expectativa.

A alegria era tanta que, algumas vezes, chegavam  nem acreditar que aquela barriguinha, onde já cresceram oito meninões, agora abrigava uma menininha.

De um minuto para o outro, aquela casa, até então dominada por meninos,  seus carrinhos e bolas, foi ganhando um ar mais delicado.

Um quarto foi reformado e pintado de rosa do teto ao chão. Ficou cheio de borboletas e bonequinhas, tornou-se um lugar encantado para esperar a Menina.

Todos se prepararam e, enfim, o tão aguardado dia do nascimento chegou.

E Ela nasceu linda: um bebê rechonchudo, grandes olhos negros, boquinha delicada, um encanto.

A mãe e toda aquela homaiada derreteram-se apaixonados por ela.

E a Menina foi crescendo sorridente, boazinha, gente boa mesmo.

Dormia bem, comia direitinho, era o bebê dos sonhos.

A festa de um ano da Menina foi algo encantador.

Nem sei te dizer quantos convidados, quanto de comida, o tanto de presente.

Coisa de princesinha.

Logo depois da grande festa, a Mãe descobre que está novamente grávida.

“É, vamos ter mais um para quando formos falar dos filhos não sobrar um dedo da mão sem nome.”

Seria bom se fosse outra garotinha para fazer companhia para a Menina em seu mundo cor-de-rosa, mas, se fosse menino, também ninguém ficaria triste.

Foi uma grata surpresa quando souberam que a Garota estava chegando.

Completados os dedos das mãos, os filhos daquela família gigante foram crescendo felizes em meio a muito barulho, festas e brigas.

Coisa de irmão, coisa de família grande, de gente que se ama.

Menina e a Garota, as duas princesinhas da casa, cresciam como duas bonequinhas mimadas.

Todos viviam para fazê-las felizes.

Não havia um só desejo que ficasse sem ser satisfeito.

Garota era atirada, corajosa.

Brincava com os irmãos de luta, jogava bola, era a rainha do vídeo game.

Menina quietinha, chorona, medrosa.

Tinha medo de tudo a pobrezinha.

Qualquer desagrado que sofria a fazia chorar longamente.

Não era raro vê-la em um cantinho chorando desconsolada como se o mundo estivesse para acabar nos próximos cinco minutos.

Quando alguém corria para acudir e ia investigar o que acontecera, fora um pirulito que caiu ou um móvel que não saiu da frente enquanto ela ia passando e acertara o seu dedinho do pé.

Qualquer coisa era motivo para longas sessões de choro.

Era tanto choro e tanto “tô com medo” que as pessoas foram se acostumando e acudiam cada vez menos.

Sabiam que era drama.

Mas, naquela cabecinha de meninazinha dramática, fervilhavam ideias e mil e muitas possiblidades…

O tempo voa e, para a mãe, eles cresceram  muito rápido.

Cada um foi cuidar da própria vida: os meninos se tornaram médicos, engenheiros,  professores, empresários…

Garota tornou-se administradora e fazia dupla com Menina a cada ideia mirabolantemente tímida que ela tinha.

E Menina, bem, Menina tinha muito medo de tudo, mas maiores que isso eram suas ideias, sua criatividade e a vontade que tinha de produzir, de fazer acontecer tudo de um jeito inovador, de ajudar as pessoas.

Ela descobriu, ainda na infância, a capacidade que tinha de fazer as coisas de um jeito  diferente.

Quando havia algum problema de espaço no quarto que dividia com Garota, ela sempre pensava em uma maneira de arrumar as coisas que nunca ninguém tinha sequer imaginado e tudo se arrumava, ficava maravilhoso, dava certo mesmo.

Quando a Mãe chegava e encontrava aquela arrumação espetacular perguntava:

“Quem fez isso?”

E ela ficava quietinha.

Mesmo com todos os elogios que ouvia, não tinha coragem de assumir que fora sua a ideia.
Os irmãos contavam à mãe, falavam que ela era a autora de tão bela arte, mesmo assim, Menina se retraia.

Quando tinham uma festa para decorar e não tinham com o quê, Menina decorava com qualquer coisa que estivesse à mão: balões, papel crepom, os brinquedos, as louças da casa, qualquer coisa, e dava certo.

Dava certo, era sucesso e ela se encolhia.

Tinha medo.

Quando chegavam a casa e, por algum motivo, não tinha comida para todos, ela ia para a cozinha e resolvia a situação.

Depois ficava quietinha em um canto, tinha medo de que não tivesse ficado do agrado.

E assim era quando tinha que organizar a vida financeira da família, quando alguém estava com um problema que mais parecia um novelo de lã emaranhado: Menina resolvia tudo, mas não gostava que soubessem que fora ela.

Ela descobriu, com o tempo, que podia ajudar outras pessoas, fora da sua família, sem que soubessem do que fizera, e assim, passou  a ajudar conhecidos e desconhecidos em suas pequenas necessidades sem deixar rastros, sem contar a ninguém.

Passava, via o de que precisavam e, depois, vinha e resolvia o problema escondida de tudo e todos.

Em silêncio.

Até que um dia, lá pelas tantas, Menina percebeu que o parque em que brincara durante toda a infância estava completamente destruído e abandonado.

Isso a incomodou tanto que ela resolveu agir.

Conversou com seus irmão e, juntos, montaram um plano de ação: iriam revitalizar o parque.

Daqui a pouco, teriam filhos e onde eles brincariam?

Sob a liderança da Menina eles visitaram empresários, convidaram a comunidade e trabalharam durante meses, consertando cercas, trocando balanços, plantando árvores, pintando bancos.

A movimentação no bairro foi tão grande que eles decidiram que precisavam fazer uma festa na reinauguração do parque.

Uma banda de sucesso, que nascera ali entre aquelas árvores e ganhara o mundo, aceitou o convite de voltar para casa e participar da festa, fazer o show de reinauguração.

Isso deu um gás e tanto e, assim, foi tudo organizado, uma grande festa de comemoração do renascimento do parque.

Chegou o grande dia e o sol levantou cedo, querendo também participar.

O dia inteiro foi de sucesso absoluto.

Pessoas vieram de todas as partes da cidade e as crianças brincaram em cada canto do parque, aproveitando todo o trabalho feito por seus pais e amigos, por elas mesmas.

Ao fim da tarde, o show.

Os meninos da banda cantaram com o coração e foi um sucesso.

As pessoas se divertiram, cantaram, se emocionaram e a Menina, seus irmãos e toda a equipe envolvida estavam de alma lavada: tudo dera certo.

No fim do show, começaram os agradecimentos a todos os envolvidos no projeto.

A Menina, sempre tímida e discreta, começou a sair de fininho.

Ela ia andando, se afastando e, quando olhava para frente, lá estava um deles.

Discretamente mudava de direção e, como quem não quer nada, ia para o outro lado e, do nada, outro aparecia à sua frente.

Foi só na terceira vez que ela olhou por todos os lados e viu cada um de seus nove irmãos: ela estava cercada!

Eles foram chegando perto, chegando perto e rapidamente Menina se viu em uma“gaiola de irmãos”.

Começou a rir de nervosa e perguntou:

“O que vocês estão fazendo? Eu preciso ir ao banheiro.”

Eles, um com a cara mais safada do que o outro, tiveram um porta voz:

“Sabemos o que você quer fazer no banheiro, Maria mijona, mas vai fazer mais tarde. Agora, você vai ficar aqui com a gente.”

Foi nessa hora que todos começaram a ouvir o seguinte:

“Dona Maria do queijo está aqui? – Viu-se uma mãozinha no meio da multidão – a senhora sabe quem coloca todas as semanas na sua cozinha verduras e frutas?”

Ouviu-se um fraco não.

“Ricardinho, você sabe quem paga todos os meses a sua escola?”

Ouviu-se um não.

“Dona Esmerada, a senhora sabe quem comprou a sua cadeira de rodas?”

Ouviu-se um não.

E ele foi repetindo a pergunta às pessoas, se elas sabiam quem tinha feito o bem a elas e uma a uma foi repetindo que não sabia quem o fizera.

Nessa hora, a Menina estava sentada no chão, escondida, grudada nas pernas de seus irmão, chorando baixinho.

“Essa pessoa – continuou ele- que fez todo esse bem a vocês sem ser identificar está aqui hoje.”

Ouviu-se uma movimentação como se estivessem levantando voo, naquele momento, centenas de passarinhos.

“Essa pessoa que ajudou quietinha a tantos de vocês e a mim também, afinal eu nunca soube e ainda não sei, quem pagou meu aluguel quando eu estava prestes a ser despejado, está aqui no parque hoje. Pode estar ao seu lado agora, aí juntinho a você.

Acredito eu, que nosso benfeitor ou benfeitora nunca vai se revelar à nós.”

Nessa hora, a Menina parou de chorar e ficou olhando fixamente para Garota que também estava ali dentro da gaiola de pernas.

E foi assim que ela escutou pela caixas de som do parque:

“Por isso, faça o bem a quem você encontrar pelo bairro, a qualquer um, porque, fazendo isso, você pode estar retribuindo a quem cuida de você em silêncio.”

Nessa hora, a gaiola de irmãos se abaixou e a Menina chorona e medrosa foi coberta, esmagada, amassada pelos beijos e abraços dos seus irmãos que cochichavam baixinho em seu ouvido:

“Eles não sabem, mas nós sabemos que o anjo desse bairro é a nossa Menina medrosa.”

Você tem medo de quê?

Da morte, desemprego, abandono?

A Menina tinha medo de tudo.

A Menina medrosa tinha nele sua companhia em tudo que fazia e de mãos dadas com o medo, conquistava o mundo!

 

 

 

 

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